O
feitio da difícil arte do indizível no capitalismo
O meu
amigo Willy Corrêa escreveu um texto surpreendente. Embora seja um ensaio, tem
a estrutura de uma composição musical. Mas é como se fosse uma improvisação, de
quem relembra temas antigos e vai trançando suas correlações, para acabar
sugerindo algo que as meras definições não diriam. Ele busca cavar e escavar um
sentido recôndito, que escapa aos conceitos, mas precisa deles para se dizer.
Busca entender o que é boa arte, e não artefato apenas bem-feito. Como se dá a
relação entre convicção política de um artista e a obra que ele produz?
A
comparação entre autores e obras não surge nem é evitada por acaso. Ela contém
uma revolução epistemológica: é um modo de negar a redução da obra e da arte a
determinado espaço e tempo de gênese, conforme costuma ser feito no ensino,
como se a obra de arte fosse redutível a documento de época ou povo, como se
não fosse de sua natureza superar limites de gênese. Não se compara apenas pelo
prazer de comparar.
Quer-se
descobrir a qualidade diferencial das grandes obras, bem como entender porque
obras menores ainda têm espaço garantido. O que se pode entender por meio de
conceitos é a estrutura e a intenção subjacente a obras triviais. Nas obras
maiores, por diferenciação delas numa linguagem insubstituível e pela
impossibilidade de resolvê-las mediante conceitos, consegue-se vislumbrar,
então, o patamar mais elevado (em) que (elas) se constituem.
Chega-se
a ele mais pela vivência, pela intuição e pela sensibilidade do que só pelo
conceito. Tem-se, portanto, uma espécie de fracasso do conceito diante da arte,
mas isso é parte do êxito da boa obra, à medida que ela justifica sua
existência e necessidade por sugerir algo que de outro modo não pode ser dito
com tanta plenitude. É com auxílio de outras obras que se avança a captação de
sua arte.
Conceitos
não se abandonam nem quando são questionados na amplitude, precisão,
pressuposição. Devem ser levados e elevados para além de suas possibilidades
presentes. Por mais exatos que sejam em relação à grande obra e por mais que
consigam resolver obras menores, sempre há algo a mais na grande obra que não
consegue ser resolvido por conceitos, mas nem por isso deixa de ser de algum
modo discernido pelo bom apreciador.
Um
ensaio de arte comparada transcorre em termos conceituais. Só assim ele pode se
dar. A filosofia da arte tende a reduzir o artístico ao conceito. O ensaio
teórico, diferente do ensaio em música, é conceitual. Seu substrato não é,
porém, apenas conceitual. Ele se alimenta de dados práticos e relatos
históricos, mas seu fundamento maior está na vivência de obras de arte.
É aí
que encontra terreno sólido sobre o qual pode construir sua edificação. Isso
não se transmite plenamente, porém, por conceitos. Só o leitor que tiver
vivências similares poderá entender o que por conceitos se procura transmitir.
O fundamento do conceito está no não conceitual e, ao examinar a arte, deve
levar ao supra conceitual.
Há duas
linhas subterrâneas na comparatística: uma diz que se deve trabalhar só com o
que se pode descrever mediante dados e conceitos; a outra sugere que todo
esforço comparativo deve servir de trampolim para que se perceba, transcendendo
o conceito, a qualidade diferencial das grandes obras. Essa divisão é mais
importante do que, por exemplo, entre escola francesa e norte-americana.
A
superação já está indiciada nelas, na medida em que a primeira se abre ao
cosmopolitismo e à pluralidade cultural, enquanto a segunda funda a comparação
na similitude das estruturas. Essa “superação dialética” não se dá, como
pretende a escola de Bratislava, pela soma das contribuições de ambas, e sim
por algo que transcende a comparação, com uma vivência e noção diferenciada do
artístico.
A
hermenêutica era um modo de decifrar o abscôndito, mas depois passou a ser um
modo de controlar o entendimento. A hermenêutica cristã punha-se a explicar
passagens obscuras ou ilógicas do texto bíblico, tratando de lhe atribuir um
sentido coerente: era incapaz de ir, no entanto, além das premissas ditadas
pela crença. Sua força era sua fraqueza. Mergulhada no texto sacro, confundia
verdade com crença e esquecia que primeiro precisaria compreender o que a
induzia a crer.
Ficando
presa a um círculo em que só valia o que ela admitia, de tanto olhar detalhes
textuais tornava-se míope. Não sabia seus limites, pois lhe faltava o confronto
com a antítese. Esta só servia para reafirmar a mesma tese. Mesmo que falasse
em sentido literal x figurado, carecia da contradição consigo mesma.
Faltava-lhe:
estudar a semelhança entre fenômenos culturais em diferentes linguagens;
descobrir semelhanças sistêmicas em diferentes artes para compreender melhor a
cada uma delas; desvendar a estrutura profunda de fenômenos que condicionam a
existência e afetam a cultura coletiva. Ou seja, faltava-lhe o que conduz da
hermenêutica do hermético textual à semiótica da cultura, passando pelos
sistemas das artes até chegar ao desvelamento do recôndito, sem que isso
devesse ser confundido com a imposição de uma doutrina.
A
escola de Bratislava propunha uma “terceira via da comparatística”, fazendo a
síntese das proposições das duas anteriores. Dois erros somados não levam a um
acerto na soma. A conjunção dos avanços teóricos e metodológicos da primeira
com a segunda comparatística, ao abrir-se para estudos de semiótica da cultura
não poderia reduzir a obra de arte ao signo, pois arte é mais que comunicação.
Na antiga União Soviética também foram desenvolvidas proposições que queriam
superar o idealismo dessas escolas, mas tenderam a menosprezar o sentido das
sutilezas formais da arte, reduzindo obras a categorias sociais.
Aqui se
tem uma proposta no sentido de que é preciso desenvolver uma abordagem que
passe pelos procedimentos comparativos, para poder transcendê-los. Deve-se
escapar à prisão lógica do círculo hermenêutico que não saiba questionar suas
premissas e crenças, para usar a via da comparação como quem caminha
alternadamente sobre duas pernas ou quatro patas para avançar.
Se a
teoria não consegue abarcar o que grandes poetas propuseram, ela precisa se
esforçar, no entanto, para avançar o quanto puder, sem querer reduzir o dizer
deles ao seu discurso.
Em
geral se faz a primeira comparatística para não fazer a segunda nem chegar à
terceira ou a uma quarta, mas principalmente para não chegar a algo que as
supere. Opta-se em geral pelo menor, pelo canônico nacional, como se fosse o
máximo, para deixar de lado o único que mais importa por estar aberto ao além
do horizonte limitado da crença e do conceito, sendo capaz de constituir como
obra o que vá além de preceitos instituídos como se fossem todo o conhecimento.
Aos
profissionais especializados fica difícil entender que aquilo que eles
aprenderam com tanto custo e esforço possa ser considerado antes um modo de não
ver do que de bem perceber o objeto de sua especialização.
Há mais
em jogo do que discordância metodológica. Na “primeira comparatística”,
rastreiam-se influências e fortuna crítica: assim parece tudo resolvido. Ela
contém um paradoxo: serve a preceitos como orgulho nacional, patriotismo, moral
partidária e de minorias, para justificar obras menores como importantes: não
consegue ver suas próprias limitações nem as das obras que promove.
Ela é
prisioneira daquilo a que serve. Parece soberana, defendendo valores maiores,
mas faz parte de disputas de dominação que se ornam da arte para se legitimar:
ela é dominada enquanto domina. Onde está sua força mora sua fraqueza. Quanto
mais reforçada é pelos interesses a que serve, dos detentores do poder local,
tanto mais fraca se torna como hermenêutica.
O que
se tem aqui, nesse trabalho de Willy Corrêa de Oliveira, é algo diferente. Ele
começa onde a tradição comparatística parou. Anda na frente, na direção do
ignoto, mas tem um fio condutor. Ele quer saber se a crença política de um
compositor pode perturbar a sua obra ou se são esferas separadas.
Na
primeira Estética moderna, de Alexander Gottlieb Baumgarten em 1750, o que ele
chamava de veritas aestheticologica era o que estava de acordo
com o pio, o honesto, o decoroso, ou seja, o estético servia para propagar,
auratizar o que se entendia estar de acordo com um paradigma moral. Esse
paradigma exprimia a vontade de poder da oligarquia. Arte e estética serviam para
doutrinar os pobres a obedecerem e continuarem sendo espoliados pela minoria
abastada. O que se pode subentender aí nesse paradigma varia, porém, de lugar
para lugar, de época para época, de grupo social para grupo. O belo dependeria
da crença, das convenções, dos costumes vigentes.
O que
se apresentava aí como “correto” não era, porém, necessariamente o verdadeiro,
embora se pretendesse que ele se tratava de uma verdade absoluta, universal e
atemporal. Quando um retórico romano como Cícero ou Quintiliano falava em pius,
era, porém, a crença nos deuses romanos. O luterano Baumgarten usou o mesmo
termo no sentido cristão, sem confrontar os significados antitéticos. Desde que
se admita que outras visões possam ter validade, há sentidos diferentes
para pius, honestum, decorum. Mais importante, porém, é que se
precisa ir além do correto, do doutrinário, do dogma.
O
artista opera na obra a busca do que lhe parece verdadeiro. É um exercício da
liberdade. A obra se obra usando o artista para se livrar dele e se tornar um
ente autônomo. Só assim ela pode sobreviver.
Para se
aproximar do verdadeiro, é preciso ir além do que cabe na visão estreita do
meramente correto, que acaba sendo um discurso que pouco diz. Se o correto for
definido como o piedoso, honrado, decoroso, o que no sistema escravista era
ética senhorial deixou de ser correto para os cristãos. O que era piedoso (pius)
para Cícero, ou seja, o respeito e a devoção aos deuses romanos, deixou de ser
para os cristãos. Um padre católico não podia se casar, mas ao pastor luterano
convinha estar casado para ser bem-visto.
Com o
iluminismo de Diderot e Voltaire, muito do que pretendia ser decoroso e honesto
passou a ser visto como hipocrisia. Um convento pode abrigar pulsões lésbicas e
noviças sem vocação para a vida religiosa. Sentimentos que antes eram
inconfessos passaram a ser publicados. Liev Tolstói mostrou como uma mulher, ao
ser fiel à paixão que sentia, podia ser encarada como prostituta pela alta
sociedade; Émile Zola fez de Nana uma prostituta para mostrar o que seria um
grande amor. Cultuar a aparência de honestidade pode camuflar desonestidades. A
aparência de piedade podia ser hipocrisia. A “kalokagatia” se tornou um
problema.
Um
usuário de drogas considera “honesto” o traficante que lhe fornece a droga na
qualidade e quantidade combinadas, mas é um delinquente. Cristãos honestos
plantam fumo, porque dá dinheiro, mesmo que saibam que prejudica a saúde. Se
numa ditadura a polícia bate à porta, o dono da casa é, para Kant, “honesto” se
entregar o refugiado à polícia, mesmo sabendo que ele será torturado e talvez
morto: o “Estado” representava para ele a virtude, até que viu que não era bem
assim (foi proibido de escrever sobre religião depois da morte de Frederico II.
Quem no
Brasil da ditadura militar arriscou a vida ajudando perseguidos a escapar pode
ser visto como virtuoso. Todo anfitrião assume obrigações com quem ele hospeda
e abriga. Houve épocas e lugares em que a mulher tinha de casar virgem para ser
considerada “honesta”, como se uma coisa fosse garantia da outra. Houve rapazes
que deixaram de se casar com “moças malfaladas”, para se consumirem num casório
infeliz.
Decoroso
é o que está de acordo com o decoro. Quando as saias das mulheres começaram a
subir pelas pernas, o que era moda não estava de acordo como o que havia sido
considerado decente anos antes. Alexander G. Baumgarten evitou uma espinhosa
discussão ao usar termos da retórica romana como se significassem o mesmo para
os luteranos. Escondeu-se nas palavras o problema.
Para
Tomás de Aquino, belo era o resplendor da verdade, mas, para ele, verdade era a
sua crença católica, estava em Cristo, na maneira como a Igreja então o via. A
crença leva à convicção de que as coisas são como o crente imagina que sejam.
Isso é, porém, imaginação dele, em que verdadeiro é apenas que ele crê nisso.
Quando a Igreja tinha poder absoluto, impunha a todos o que entendia ser
correto. Isso levou à Inquisição e aos autos da fé. Muitas crianças foram
punidas com violência imitando esses procedimentos. Pais brutamontes achavam
que estavam dando boa educação.
Para
Kant, quem cultiva o belo da natureza tende a ser pessoa melhor do que quem
cultiva o belo artístico, pois este quer muitas vezes usar a arte para parecer
melhor do que ele é. O mais importante, dizia, é que a pessoa seja boa, tenha
bom caráter. O belo da natureza devia servir de modelo para a arte.
A
concepção do sive naturam foi interpretada por Immanuel Kant e
Karl Moritz não no sentido habitual de “copiar” as coisas da natureza, fazendo
pinturas tão “exatas” quanto possível: seguir a natureza significava, para
eles, seguir os procedimentos da natureza, que nunca faz nos filhos meros
clones dos pais, sempre os faz diferentes, pratica um experimentalismo
permanente. Isso desencadeou o romantismo em Jena por volta de 1790. Depois
Darwin propôs que a inovação é necessária para surgirem espécies mais aptas e
desenvolvidas.
Quando
o idealismo alemão definiu a arte, como expressão da ideia, havia se modifica a
concepção de verdade. Antes ela era o que estava de acordo com a mente divina,
livre de contradições e fora do tempo. Para Solger e Hegel, verdadeiro era
captar o objeto em suas múltiplas contradições (portanto, em suas tensões
internas, em mudanças e sombras). Isso se separa do “correto”, que se define
pela aplicação de paradigmas prefixados, e aquilo que seria verdadeiro.
O
problema é que nunca se captam todas as contradições de um objeto, de maneira
que a verdade se torna uma utopia que paira além da pesquisa. A obra de arte se
torna, porém, um espaço para essa busca da verdade, não apenas de imposição do
que o poder considera correto.
A ideia
precisaria captar o antitético da realidade e a contradição entre ideal e real.
Isso levou à concepção romântica de que o ideal é ideal porque a realidade não
permite que ele se torne real, ou seja, há sempre um abismo entre a vida como
ela deveria ser e como ela é. Isso leva à necessidade de reformas políticas e
sociais. Os “românticos brasileiros”, para se afirmarem contra Portugal,
fizeram de conta que o Brasil era o ideal (ó que saudades que eu tenho…). Ou
seja, o termo tem sentidos diferentes, mas se faz de conta que são o mesmo.
Karl
Marx não estudou o Estado, mas o modo de produção capitalista, a relação entre
o dono dos meios de produção e os salários pagos ao operariado. Desvendou o que
se escondia sob camadas e camadas de hipocrisia: a espoliação do trabalho da
maioria por uma minoria, a concentração paulatina de renda. A busca da verdade
era uma busca de libertação.
Friedrich
Nietzsche mostrou que o próprio conceito de verdade não era verdadeiro porque
supunha que ela seria a coincidência entre o que está na mente e aquilo que a
coisa é: ora, essa suposta equivalência (de aequum: X = Y) esconde
que um vetor nunca é igual ao outro, sempre há diferenças. A escola treina
gerações a crerem que 2 + 2 = 4 como verdade absoluta, quando não é nem verdade
nem absoluto.
Reduz a
realidade à dimensão quantitativa e depois finge que o que parece equivalente
já é igual: um ninho com quatro ovos não é, porém, igual a dois ninhos com dois
ovos cada. Acha-se aí que qualidade é apenas uma sensação subjetiva do
receptor, e não a descrição do modo de ser e do estado em que se encontra o
objeto apreciado.
Quando
Martin Heidegger examinou a natureza temporal do ser, retirou-o da estratosfera
metafísica, da mente divina, portanto da eternidade. A visão católica saiu pela
porta da frente, mas voltou pelos fundos, com o homem como Dasein,
o único a ter alma (e discernir a verdade e o ser). Passou a ser destinação do
ser humano, como aquele que mais tem condições de buscar o que seja o ser. Viu
a verdade como alétheia, como desvelamento, em que o ponto de
partida é a sombra, a não evidência da totalidade do objeto. Nunca há
totalidade. Ela é apenas uma suposição, uma aposta.
Ainda
que se aposte na era da não-verdade, a verdade se tornou um problema cada vez
maior. Ela é revolucionária. Os donos dos meios de produção procuram controlar
os meios de comunicação e de formação da pessoa, para que consigam servos
obedientes, não cidadãos conscientes.
A
separação entre o correto, conforme paradigmas prefixados, e a verdade como
busca da ideia fluiu do idealismo para os românticos na questão do “ideal” como
corporificação da ideia. Daí um líder político ou um mártir religioso
representarem certo ideal, ao menos para os seus adeptos e seguidores. Nessa
transferência, passa ele a ser o correto, o dogmático.
A
concepção romântica de que o ideal é ideal porque a realidade não permite que
ele se torne real contém implícita uma negação do status quo como
uma situação que é por si negativa, o que precisa levar à sua negação. Essa
negação da negativo leva à afirmação do ideal. Quanto mais quem representa o
ideal for destroçado pela força do poder efetivo, mais ele resplandece em sua
idealidade.
Cristo
na cruz foi visto assim, como trágico herói a corporificar o ideal da
compaixão, do amor ao próximo. Ele é o paradoxo de ser visto como salvador dos
homens não tendo sequer condições de salvar a si mesmo. O romantismo brasileiro
falseou o sentido original ao propor o status quo como ideal,
descrevendo a natureza bela e ignorando a escravidão. Na Europa, a negação de
uma sociedade negativa levou ao senso crítico e à ação revolucionária.
Ultrapassou-se
a redução da verdade à mera união de contrários, para questionar a estrutura
que leva a uma polarização que não permite ver além dela. O ser deixou de ser:
tornou-se um devir, cujos limites não estão apenas no que ora se apresenta. Há
o imprevisível, um novo caminho da libertação. O verdadeiro não é apenas
conceitual, mas físico, corpóreo, sensação de transcendência.
A
diferenciação entre o correto e o verdadeiro aponta a necessidade de distinguir
entre o estético que apenas obedece aos paradigmas do poder, impondo como
correto o que é vontade do poder, e aquele que, para ser verdadeiro, precisa de
liberdade para sentir, pensar e dizer. São duas vocações diversas do homem:
dominar coisas e gentes, desenvolvendo ciência, tecnologia, armamento,
política; ou então abrir-se para o existente e tratar de desencobrir sua
natureza, ser capaz de pensar.
Quando
a arte se torna espaço para o exercício da vontade de poder, está-se
defendendo, no Brasil, movimentos como o romantismo e as escolas e vanguardas
posteriores: buscavam trazer inovações formais com as novas linguagens, para
impor antigas teses da oligarquia.
Na
sucessão de escolas, tem aparecido como inovação o que é retorno do mesmo. O
cânone, ao se “inovar”, apenas tem adaptado importações formais, cortando
conteúdos capazes de questionar o status quo. Isso gerou uma
contradição: o cânone formata um parâmetro inconsciente do que é considerado
“bom” como obra, desde que esteja dentro de sua correção, então se aplaude o
que não é capaz de ir além do horizonte de expectativa estabelecido, assim como
a rejeição ou não apreciação daquilo que fica fora dele. Há uma “história” que
não faz história.
A
questão da verdade não se esgota na dialética da ideia como representação
mental de contradições reais. Viu-se que era ficção supor como verdade a
correspondência, a equivalência entre coisas e representações mentais. A
própria noção de representação conduz ao subjetivismo, impondo a vontade de
alguém sobre as coisas. Ela não se supera dizendo que a obra de arte é
consciência objetivada ou interioridade exteriorizada: o impasse continua aí,
assim como o convite a esquecer a diferença ineludível.
Verdade
não é apenas iluminação, revelação, luz. Esse modelo solar continua a tradição
monoteísta. O ponto de partida não é apenas o ignoto, o não saber, para daí
desvelar aos poucos ou por súbitas iluminações o que as coisas seriam. Como não
se conhece o todo nem a totalidade das interações das partes, nunca se tem um
saber último e definitivo sobre algo. O obscuro faz parte da verdade, mas não
se chega a ela sem ter uma noção mínima de onde tratar de procurá-la.
Essas
novas concepções sobre o que seria verdade tentam ir além do tapa-olhos da
correção, que só permite ver o que está dentro de parâmetros considerados
certos, do que está nos conformes, do que não se choca com o “aceitável”. A
cultura crista segue ainda Thomas de Aquino e pressupõe a verdade como noção
abstrata, pois Deus seria um ente formado sobre as “ideias” de todos os entes,
constituído por elas. Ora, um ente não pode ser o ser, nem o ser se confunde
com determinado ente, já dizia Aristóteles.
Não
sabemos ao certo como se dá a relação entre algo concreto e a presença do ser
nele. A “representação” do ente na mente ou como ideia de algo está replena de
questões não resolvidas. O cristianismo se baseia numa regressão metafísica e
lógica, precisa ser superado para se possa começar a pensar.
Querer
ultrapassar os parâmetros do correto pode levar a um engano oposto: considerar
arte ou filosofia tudo o que seja apenas ousadia, experimentalismo, choque,
como se tais atitudes gerassem por si verdades e não pudessem ser decorrentes
de uma rebeldia cujas causas e consequências são ignoradas. Vanguardas tentaram
ampliar os materiais de elaboração de obras de dominante estética.
Também
foi proposto – Marcel Duchamp é um marco – que bastaria colocar um objeto num
local de exposição de arte para ele tivesse de ser considerado artístico. Ora,
um urinol continua sendo um urinol mesmo numa galeria ou numa caixa de papelão:
continua sendo um utensílio, produzido em série, por mais que se pague por ele.
Dentro de um museu de arte, há obras de qualidade desigual, elas não se
uniformizam como arte por estarem nele.
Fonte:
Por Flávio R. Kothe, em A Terra é Redonda

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