O
plano delirante e riscos de Trump e Netanyahu
EUA
buscam estrangular energeticamente a China, que os derrotou em seu próprio
jogo. Tel Aviv deseja ver o Irã transformar-se num Estado falido. Mas se Teerã
resistir, os dois mafiosos terão diante de si um pesadelo político, econômico e
eleitoral...
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Trump já prescinde da retórica do direito internacional.
A chave para definir as relações internacionais é a força. Os Estados Unidos
podem sequestrar ou matar dois líderes de países inimigos: Maduro, na
Venezuela, e o aiatolá Khamenei, no Irã. Acabou-se a legislação internacional?
A ONU? Os limites mínimos da política internacional?
A
pergunta, obviamente, é retórica. A guerra começou no sábado com o assassinato
do líder do país adversário e vários membros de sua família. Esta guerra
começou – e é a segunda vez desde junho – no meio de negociações classificadas
como “bem-sucedidas” pelos mesmos personagens (Witkoff e Kushner) que estão
negociando, também, com os russos o fim do conflito na Ucrânia. Quem pode
confiar em tais “negociadores”? “As garantias e os documentos assinados por
este presidente não têm valor algum”, disse em Moscou o analista Dmitri Trenin
sobre Trump. “Não é possível manter negociações com este governo”, afirma de
Nova York o economista Jeffrey Sachs.
A crise
do hegemonismo acarreta a crise de suas instituições. A ONU foi uma boa ideia,
mas refletia o mundo de 1945. Hoje o mundo é diferente, e diferentes são também
as correlações de forças em seu interior. Naquela época, chineses e indianos
não contavam para o mundo e hoje pesam muito. Mas, curiosamente, não são os
emergentes que estão derrubando as instituições internacionais e o direito
internacional, mas sim seus inventores, os governos daqueles países que
desenharam todas essas instituições sob medida para seus interesses. Se a ONU
era o desigual “parlamento da humanidade” no qual alguns mandavam mais que
outros por seu direito de veto, hoje seus inventores se tornaram
extraparlamentares e promovem o banditismo e o gangsterismo mais cru.
Assistimos à conversão da ONU numa espécie de reedição daquela impotente “Liga
das Nações” dissolvida em 1946. Se naquela época aquela organização foi incapaz
de impedir a invasão italiana da Abissínia, a japonesa da China e o desastre da
Segunda Guerra Mundial, a ONU de hoje se mostra igualmente impotente diante do
genocídio em Gaza. Seu Tribunal Penal Internacional condena os criminosos, mas
são seus magistrados que estão sendo violentados e chantageados, enquanto seus
indiciados gozam de total impunidade no Ocidente. Sem falar da relatora
Francesca Albanese, alvo de sanções e meio refugiada na Tunísia… Em relação à
UE, seu papel não poderia ser mais vergonhoso: cooperação militar com o
agressor, inclusive a partir da base de Rota, e condenação da resposta do agredido
por parte da Alemanha, França e Inglaterra. “Instamos o Irã a pôr fim
imediatamente a estes ataques imprudentes. Tomaremos medidas para proteger
nossos interesses e os de nossos aliados na região, talvez adotando medidas
defensivas proporcionadas para destruir a capacidade do Irã de lançar mísseis e
drones”, destacava no domingo seu comunicado.
A
situação do novo mundo multipolar exige novas instituições, certamente também
na Europa, mas a experiência histórica sugere que estas só aparecem após
grandes desastres.
·
Você escreveu no Ctxt que os casos da Venezuela, Irã e
Ucrânia são, na realidade, a mesma guerra e que “o objetivo é impedir
militarmente o ocaso da hegemonia americano-ocidental no mundo, ameaçada
principalmente pela punjança chinesa“. Pode explicar isso?
O dado
central é a reação ocidental à ascensão da China. Esse é o fato que unifica a
maior parte da situação e há muito tempo. Há trinta anos, esperava-se que a
integração na globalização, entendida como pseudônimo do domínio mundial dos
Estados Unidos e seus satélites, transformaria a China num membro subordinado e
dependente do sistema mundial. Esperavam que a integração das elites chinesas
na globalização acabaria por dar origem a uma forma de governo subalterno mais
aceitável para o Ocidente do que a do Partido Comunista Chinês. Mas um quarto
de século depois, surpreenderam-se ao ver que, jogando no campo por eles
desenhado, a China ganhou a partida: tornou-se muito mais forte, continuou
autônoma e soberana, e projeta-se para o exterior mediante uma estratégia
mundial integradora, não militarizada, de redes e vínculos comerciais
vantajosos que desvalorizam qualquer tentativa de contrapô-la militarmente.
A
ameaça ao hegemonismo ocidental liderado pelos Estados Unidos é o grande perigo
que veem em Washington, e assim o proclamam e explicaram, de todas as formas,
muitos políticos, militares e estrategistas de lá. Com a desindustrialização, a
deslocalização e a economia de cassino que fomentaram em busca do maior e mais
rápido benefício de seu capitalismo rentista e de especulação financeira, a
única resposta que têm à mão é a da força. Primeiro, em 2012, inventaram o
“pivot to Asia” de Obama, ou seja, desdobrar no Leste Asiático o grosso de sua
força aeronaval. Depois, tentaram redefinir as normas de sua globalização
proclamando novos protecionismos e tarifas, onde Trump se destacou. A cena que
melhor ilustra a situação é a do jogador que, ao ver que está perdendo a
partida, dá um chute na mesa de jogo e saca a pistola.
Um dos
seus erros crassos foi ignorar e maltratar os interesses russos na Europa
durante trinta anos. Desconsiderando os avisos de pessoas como Kissinger ou
Kennan contra a expansão da OTAN, estimularam a estreita integração eurasiática
entre a Rússia e a China, algo que nem Moscou nem Pequim buscavam inicialmente.
Depois, quando após múltiplos avisos a Rússia reagiu militarmente à tentativa
de expulsá-la definitivamente do Mar Negro, anexando a Crimeia, continuaram com
uma escalada militar na Ucrânia, injetando recursos militares no novo regime
pró-ocidental de Kiev e apoiando sua “operação antiterrorista” contra as
regiões russófilas do leste do país. A suposta participação “mediadora” da
França e da Alemanha nas negociações de Minsk foi uma farsa para “ganhar tempo
e preparar a Ucrânia” para a guerra, conforme admitiram a ex-chanceler alemã
Angela Merkel e o ex-presidente francês François Hollande, e corroborou o
ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko. Nos dois anos anteriores à invasão
russa, os sinais emitidos contra a Rússia foram claros. Em 2019, um extenso
documento da RAND Corporation, o principal think tank do Pentágono, intitulado
“Overextending and Unbalancing Russia” (Sobrestimar a capacidade e
desestabilizar a Rússia), propunha um catálogo detalhado para estressar Moscou,
cujo primeiro e principal cenário era o de “fornecer ajuda letal à Ucrânia”,
coisa que vinha sendo feita desde 2014. Uma vez obtida a invasão russa,
mobilizaram-se para impedir qualquer acordo entre a Rússia e a Ucrânia nas negociações
que começaram logo após a invasão, primeiro em Minsk e depois em Istambul.
Quando perceberam que o objetivo proclamado de infligir uma “derrota
estratégica” à Rússia por meio de sanções e ajuda militar e financeira à
Ucrânia se complicava, optaram por separar as frentes.
Em
novembro de 2023, o subsecretário de Estado para a Europa e Eurásia na primeira
administração Trump, Aaron Wess Mitchell, disse que os Estados Unidos poderiam
perder uma guerra se tivessem que atuar em três frentes simultaneamente, porque
nesse caso, “os Estados Unidos teriam que ser fortes em cada um dos três
cenários bélicos, enquanto seus três adversários, China, Rússia e Irã, só
precisam ser fortes em sua própria região para alcançar seus objetivos”. Assim,
optaram por transferir parcialmente a batata quente da Ucrânia para os
europeus, concentrar-se no Irã, o mais fraco dos três, e continuar se
preparando para lidar com a China mais tarde. Por isso escrevi que na Ucrânia
se trata de enfraquecer a Rússia, fundamental parceira da China. Na Venezuela,
trata-se de privar a China do acesso a importantes reservas energéticas e
recursos latino-americanos. O Irã é o elo fundamental da integração
eurasiática, com seus corredores energéticos e de transporte leste/oeste e
norte/sul.
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O governo do Irã quer realmente ter armas nucleares? O
tema nuclear é uma farsa? Há algo a negociar realmente entre Estados Unidos e
Irã?
No
início dos anos 90, o embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita já
alertava que o Irã “está a poucas semanas de obter a bomba”. Se a tivessem
obtido, os aiatolás nunca teriam sido atacados, mas os dirigentes iranianos
demonstraram ter mais escrúpulos nisso do que os norte-coreanos que, após o fim
da guerra fria e o desaparecimento da cobertura proporcionada pelo guarda-chuva
nuclear soviético, compreenderam imediatamente que obter a bomba era sua única
apólice de seguro contra um ataque dos Estados Unidos.
Lembremos
que em 2015 já se alcançou um acordo com o Irã, o Plano de Ação Conjunto Global
(JCPOA, na sigla em inglês), pelo qual Teerã concordava em limitar seu
enriquecimento de urânio em troca da suspensão de sanções e das inspeções da
Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em suas instalações. Na época,
eu estava em Paris e Bernard Hourcade, um dos principais especialistas
franceses em Irã, estava entusiasmado com as perspectivas econômicas e
comerciais que aquele acordo abria, sobretudo para a Europa. “Trinta e sete
anos após a queda do Xá, a República Islâmica foi reconhecida como um ator de
pleno direito da vida econômica e política do mundo”, dizia. Ele esperava uma
imediata abertura do regime e assegurava que “se abre uma nova página na história
iraniana”. Tudo isso não deu em nada: Trump retirou os Estados Unidos do
acordo, os europeus não fizeram nada e as inspeções da AIEA serviram para
aprimorar os alvos das bombas israelenses contra as instalações e os domicílios
particulares dos responsáveis pelo programa nuclear, alguns deles assassinados
com suas famílias em junho. Como agora, aquele ataque ocorreu no meio de uma
negociação. O decisivo não é a bomba, mas sim o velho plano de 2002 revelado
pelo General Wesley Clark, no qual se dizia: “vamos nos livrar de sete países
em cinco anos, começando com o Iraque, depois Síria, Líbano, Líbia, Somália,
Sudão e terminando com o Irã”. Cumpriram tudo. Já são mais de quatro milhões de
mortos e 40 milhões de deslocados. Só lhes falta o Irã. Querem criar nesse país
um buraco negro.
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Que interesses têm os Estados Unidos e Israel para atacar
o Irã? Não é por recursos naturais, mas sim por interesses geoestratégicos?
Para
Israel, trata-se de acabar com o único país do Oriente Médio capaz de impedir o
louco projeto colonial “sem fronteiras” de Grande Israel, do Nilo ao Eufrates.
Como disse o embaixador estadunidense em Israel, Mike Huckabee, Israel goza de
um “direito bíblico” de se expandir por toda a região. E Israel, como se sabe,
tem uma grande influência na política dos Estados Unidos. Dos interesses,
digamos, geopolíticos dos Estados Unidos já falamos, mas há também um interesse
político interno desse Nero narcisista que preside atualmente o regime de
Washington e sua administração de amadores. Trump prometeu não envolver os
Estados Unidos em novas guerras e está se divorciando de sua base social
popular. Em novembro, tem eleições de meio de mandato nas quais se prevê que
perderá muito apoio. Se conseguisse derrubar o regime iraniano, iria para essas
eleições desde uma posição de força. Mas se as coisas correrem mal para ele,
esta guerra impopular, inconstitucional, sem acordo do Congresso e
desaconselhada por suas agências de inteligência, poderia desabar sobre ele.
Trump e Israel arriscam muito nesta loucura.
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Esta guerra é mais uma prova do suposto fim do poder dos
Estados Unidos? Não se entende que seja assim quando os Estados Unidos atacam e
têm um poder militar indiscutível, não?
Ninguém
discute que tenham o poder militar mais forte do mundo, mas a louca e criminosa
utilização desse poder é uma verdadeira mostra de fortaleza? Eu creio que o que
estão demonstrando ante os olhos de todo o mundo de forma indiscutível,
particularmente desde a série bélica que começa com o 11 de setembro de 2001 em
Nova York, que vai do Iraque ao Irã, passando pelo Afeganistão, Líbia, Síria,
Iêmen, Somália, Ucrânia e Gaza, é que eles são o principal perigo para a paz
mundial.
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Os Estados Unidos se atreverão a entrar no Irã, um país
de 90 milhões de habitantes e com um dos exércitos mais poderosos do mundo
muçulmano, com tropas e soldados em campo, como fizeram no Iraque? Ou apenas
bombardearão a partir de aviões e porta-aviões? Será uma guerra curta?
Não
creio que se arrisquem a entrar com tropas lá. O precedente do Iraque pesa
muito, sem contar que o Irã é muito mais forte do que o Iraque. Na guerra dos
doze dias de junho, esgotaram-se os estoques dos arsenais de recursos
antimísseis dos Estados Unidos e Israel. Aliás, esta guerra é uma péssima
notícia para os militares ucranianos, que verão seu suprimento de recursos de
defesa antimísseis ainda mais diminuído diante dos ataques russos. A fabricação
estadunidense desses recursos é limitada e não parece que possam sustentar uma
campanha intensa de ataques e contra-ataques por mais de quatro ou cinco
semanas, mas muito dependerá da capacidade de resposta iraniana para esgotar
esses arsenais.
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Qual é a capacidade defensiva do Irã agora?
É a
grande questão militar. Em junho, lançaram primeiro o refugo, drones e mísseis
obsoletos para desgastar a capacidade de interceptação israelense e localizar
as posições de suas defesas, e depois lançaram mísseis hipersônicos mais
sofisticados que causaram muitos danos. Será preciso ver quantos lhes restam
agora. Agora há muitos mais alvos, as bases estadunidenses do Golfo e,
eventualmente, se tiverem alcance, a frota destacada no Mediterrâneo. O Irã já
atacou instalações estadunidenses em cinco países do Golfo. O assassinato do
Aiatolá Khamenei não é apenas um assunto nacional iraniano. Há muitos xiitas no
Iraque, Paquistão, Arábia Saudita, Bahrein e Líbano, entre outros. Há um risco
de guerra regional muito sério no qual também os iniciadores podem sair
queimados.
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Como é que o ataque ao Irã, ou uma mudança de regime ou o
bloqueio de Ormuz, afetam a China e a Rota da Seda? A questão chinesa é
fundamental aqui ou apenas um efeito colateral?
É
fundamental porque o Irã é um grande parceiro energético da China e porque sem
o Irã cortam-se importantes circuitos da Rota da Seda. Não é por acaso que
insisto na unidade de todos estes conflitos. Desconhecemos o nível do
envolvimento militar da China com o Irã. Receberam os iranianos baterias
antimísseis de Pequim, como se disse? Não me parece provável que a China se
envolva militarmente; por outro lado, deixar passar um ataque militar tão claro
contra ela sem fazer nada também não parece realista… Em relação à Rússia,
parece-me que não fez grande coisa em favor do Irã. Estão muito centrados na
pressão sobre a ucraniana e nas suas ambíguas conversas com a equipe de Trump e
não creio que vão além das declarações e condenações diplomáticas. Minha impressão
é que o Irã está bastante sozinho, o que é contraditório com a unidade de
conflitos que aponto.
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Falemos sobre política interna no Irã. A esquerda tem
dúvidas neste assunto porque, por um lado, vê que ocorre um ataque/golpe de
Estado/assassinato do neoimperialismo estadunidense, mas por outro, também sabe
que o regime dos aiatolás massacrou a esquerda comunista no Irã, ataca os
direitos humanos básicos e reprime as mulheres. O que fazer ou o que pensar
diante deste dilema?
Parece-me
que o país e seu regime não estão sendo atacados por “terem massacrado a
esquerda”, nem por “atacar os direitos humanos” ou “reprimir as mulheres”, que
são muito mais livres no Irã do que em qualquer monarquia do Golfo. Àqueles que
veem um “dilema” neste ataque, só posso dizer uma coisa: todo rei é pai.
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Cairá a República Islâmica? Diz Nazanin Armanian que “a
república islâmica já terminou” depois dos protestos sociais e da burguesia
iraniana, e dos ataques militares?
Desconheço
a situação interna do Irã nem sou um especialista nas questões desse país, mas
como diz Nazanín, a fragilidade do regime é evidente e maior do que nunca.
Suponho que tudo é possível. Diz Trita Parsi, um especialista do Quincy
Institute de Washington, que os iranianos “se viram apanhados entre uma
teocracia repressiva e atores externos cujas políticas foram deliberadamente
desenhadas para criar desânimo. A ironia é evidente: as mesmas vozes que
ajudaram a fechar as vias para o desmantelamento pacífico da teocracia
apresentam-se agora como salvadores, oferecendo a intervenção militar
estrangeira como o único caminho para a libertação, uma oferta que não teria
encontrado compradores se a população não tivesse sido levada ao desespero em
primeiro lugar”. Parece-me um bom diagnóstico.
Fonte:
Rafael Poch em
entrevista a Sergi Picazo, no Critic | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

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