quinta-feira, 5 de março de 2026

Jeffrey Sachs: O ataque ilegal dos EUA e de Israel ao Irã também é um ataque às Nações Unidas

Em 16 de fevereiro de 2026, um de nós (Jeffrey Sachs) enviou uma carta ao Conselho de Segurança da ONU alertando que os Estados Unidos estavam prestes a rasgar a Carta das Nações Unidas. O alerta agora se concretizou. Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra não provocada contra o Irã, em flagrante violação do Artigo 2(4) da Carta, sem autorização do Conselho de Segurança e sem qualquer reivindicação legítima de autodefesa nos termos do Artigo 51. Estão tentando destruir a Carta da ONU e o direito internacional, mas não terão sucesso.

No Conselho de Segurança, em 28 de fevereiro de 2026, os EUA e seus aliados direcionaram suas condenações não contra a agressão americana e israelense, mas contra o Irã. Um aliado dos EUA após o outro condenou os ataques retaliatórios iranianos, deixando de condenar o ataque ilegal e não provocado dos EUA e de Israel contra o Irã. A postura desses países foi vergonhosa e inverteu completamente a realidade.

Os ataques conjuntos foram descritos pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como necessários porque o Irã “rejeitou todas as oportunidades de renunciar às suas ambições nucleares, e não podemos mais tolerar isso”. Isso, afirmam os autores, é uma mentira. Segundo a carta de 16 de fevereiro, o Irã concordou há uma década com o acordo nuclear conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), adotado pelo Conselho de Segurança na Resolução 2231. Foi Trump quem abandonou o acordo em 2018. Em junho de 2025, Israel bombardeou o Irã em meio a negociações entre Washington e Teerã. Desta vez, segundo o texto, os planos de guerra já estavam definidos semanas antes, quando o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu se reuniu com Trump, e as negociações em curso teriam sido uma encenação.

Os autores argumentam que é fácil compreender por que aliados dos EUA agiram de forma constrangedora no Conselho de Segurança. Além dos próprios Estados Unidos, oito dos outros 14 membros do Conselho abrigam bases militares americanas ou concedem acesso a instalações locais: Bahrein, Colômbia, Dinamarca, França, Grécia, Letônia, Panamá e Reino Unido. Esses países, segundo o artigo, não seriam plenamente soberanos, pois as bases abrigam operações da CIA e seus governos evitariam contrariar Washington para impedir interferências internas.

Como afirmou Henry Kissinger, citado no texto, “pode ser perigoso ser inimigo da América, mas ser seu amigo é fatal”. Os autores acrescentam que hospedar bases militares e operações da CIA transforma um país em Estado vassalo.

Como exemplo, mencionam a atuação da embaixadora da Dinamarca, que teria repetido os argumentos dos EUA ao apontar o Irã como agressor, ignorando que o país havia sido atacado. O texto afirma ainda que tal postura poderia ter implicações para a Dinamarca caso os EUA ocupem a Groenlândia.

Segundo o artigo, as vozes consideradas fiéis aos fatos no Conselho vieram de países não alinhados a Washington. A Rússia teria argumentado que o chamado Ocidente estaria culpando a vítima ao acusar o Irã. A China recordou que a crise começou com os ataques dos EUA e de Israel, e não com a retaliação iraniana. A Somália, falando em nome de países africanos, apontou a origem da escalada. O representante da Liga dos Estados Árabes atribuiu a agressão israelense à negação de direitos ao povo palestino e às ações militares que, segundo ele, impedem o surgimento de um Estado palestino.

O texto sustenta que, ao retaliar contra bases militares americanas no Golfo, o Irã estaria exercendo seu direito inerente de autodefesa previsto no Artigo 51 da Carta. Também afirma que EUA e Israel vêm promovendo assassinatos de lideranças iranianas com o objetivo de derrubar o governo do país.

Os autores relatam que os bombardeios teriam matado o Líder Supremo do Irã, autoridades do governo e mais de 140 meninas em uma escola na cidade de Minab. Classificam o episódio como crime de guerra e acusam países como Dinamarca, França, Letônia, Reino Unido e os próprios Estados Unidos de cumplicidade ao não condenarem as ações.

Na avaliação apresentada, a reunião emergencial do Conselho poderá ser lembrada como o dia em que a ONU deixou de funcionar efetivamente a partir de sua sede em território americano. Defendem que, para sobreviver, a organização precisaria operar em múltiplas sedes ao redor do mundo, como Brasil, China, Índia e África do Sul, refletindo a multipolaridade global.

Os autores reiteram que o objetivo dos EUA seria a hegemonia global e o de Israel seria consolidar um “Grande Israel”, destruir o povo palestino e impor hegemonia regional. O texto menciona declaração recente do embaixador dos EUA, Mike Huckabee, sobre a extensão territorial “do Nilo ao Eufrates”.

O artigo afirma ainda que Washington estaria tentando reafirmar influência no Hemisfério Ocidental sob uma releitura da Doutrina Monroe, alegando controle sobre países latino-americanos. Também sustenta que o presidente venezuelano teria sido sequestrado pelos EUA e que Cuba estaria sob ameaça.

A guerra contra o Irã, segundo os autores, integra uma campanha de três décadas para derrubar governos contrários à hegemonia dos EUA e de Israel. Citam conflitos em Gaza, ocupação da Cisjordânia e operações em países como Iraque, Líbia, Síria e Iêmen.

Outra dimensão apontada é o controle das exportações globais de petróleo, com o objetivo de enfraquecer China e Rússia. O texto afirma que a “tomada” da Venezuela garantiria controle sobre seu petróleo, que sanções à Rússia visariam bloquear exportações para Índia e China, e que agora o alvo seria o petróleo iraniano destinado à China.

Os autores evocam a ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial sob liderança de Franklin e Eleanor Roosevelt, baseada no respeito ao direito e não na força. Sustentam que essa estrutura estaria sendo desmantelada pelo próprio país que ajudou a fundar a ONU.

Argumentam ainda que os impactos diretos da guerra não atingirão o chamado Ocidente, mas recairão sobre o povo do Oriente Médio.

No encerramento, afirmam que os Estados Unidos não alcançarão hegemonia global nem destruirão a ONU, embora possam causar grande sofrimento. Também sustentam que Israel não sobreviverá se mantiver, segundo eles, políticas de guerra permanente e ocupação.

O texto conclui defendendo a solução de dois Estados, reiteradamente apoiada pelo Conselho de Segurança, como caminho para a paz. Afirma que a rejeição dessa proposta poderá levar ao fim de Israel em sua forma atual, diante de mudanças na opinião pública americana e do apoio crescente à causa palestina. Segundo os autores, a ONU estaria sendo “assassinada” por Israel e pelos Estados Unidos, e o Conselho de Segurança deveria reafirmar seu compromisso com a manutenção da paz e da segurança internacionais.

¨      Não há pretexto ou plano para a guerra de EUA-Israel contra o Irã. Por Arron Reza Merat

oras depois de Teerã ter concordado com a concessão sem precedentes de eliminar seu arsenal nuclear, Donald Trump anunciou o início de uma guerra aérea “massiva e contínua” entre os EUA e Israel para derrubar a República Islâmica. Trump alegou ter lançado a Operação Fúria Épica porque o Irã se recusou a negociar e “simplesmente queria praticar o mal”. O exército israelense (IDF) anunciou o início das hostilidades em um tweet afirmando que “Israel tem o direito de se defender”.

Às 9h45, horário local de Teerã, Israel e os Estados Unidos utilizaram bombardeiros de alta altitude, jatos e mísseis de cruzeiro para atacar alvos militares e civis em todo o país. Tanto o Líder Supremo Ali Khamenei quanto o Presidente Masoud Pezeshkian foram alvos dos ataques. A mídia israelense está repleta de notícias de que Khamenei, que governa o Irã há quase trinta anos, está morto. (Fontes dentro do Irã relataram que o filho e a nora de Khamenei foram mortos tatmbém.)

Os ataques também atingiram o general da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), Mohammad Pakpour, bem como o ministro da Defesa e o chefe da inteligência do Irã. Uma escola para meninas em Minab, no sul do Irã, também foi atingida. O número de mortos chega a 555 pessoas no total, com um número semelhante de feridos. De acordo com a mídia local, as vítimas da escola têm apenas 7 anos de idade. As casas de Mahmoud Ahmadinejad, presidente de 2005 a 2013, e do ex-primeiro-ministro Mir Hossein Moussavi, que está em prisão domiciliar há dezessete anos, também foram alvos, indicando que os Estados Unidos e Israel desejam, na melhor das hipóteses, remover quaisquer pretendentes ao poder que estejam fora de seu controle ou, na pior das hipóteses, criar um vácuo de poder no topo que possa precipitar uma guerra civil.

“Israel adotou como prática o uso da perspectiva de paz como tática para travar guerras contra seus inimigos. Em junho, durante a última rodada de negociações entre EUA e Irã sobre o programa nuclear, Israel assassinou os principais negociadores de Teerã.”

Teerã respondeu lançando uma primeira onda de mísseis balísticos contra Israel e visando alvos militares americanos na região. O Irã está cercado por bases aéreas e navais americanas que abrigam cerca de 40 mil soldados. Ataques foram relatados nas proximidades da Base Aérea Ali Al-Salem, no Kuwait; da Quinta Frota da Marinha dos EUA, no Bahrein; da Base Aérea Al Udeid, no Catar; e da Base Aérea Al Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos. Explosões também foram relatadas em Riad e arredores, capital da Arábia Saudita, onde se encontram importantes instalações militares americanas. O Irã fechou o Estreito de Ormuz, ponto crucial para o fluxo de um quinto do petróleo mundial.

Israel adotou como prática o uso da perspectiva de paz como tática para travar guerras contra seus inimigos. Em junho, durante a última rodada de negociações entre EUA e Irã sobre o programa nuclear, Israel assassinou os principais negociadores de Teerã e tentou decapitar o governo civil no primeiro dia de sua guerra de 12 dias contra o Irã, à qual os Estados Unidos se juntaram no último dia. Em setembro, quando as negociações diplomáticas sobre a guerra em Gaza estavam próximas de um acordo de cessar-fogo, Israel atacou o braço político do Hamas em Doha.

Do ponto de vista dos EUA, as negociações com o Irã foram pautadas pelo desejo de Trump de obter um acordo mais vantajoso para os Estados Unidos do que o “terrível” acordo que Barack Obama finalmente negociou em 2016, após mais de uma década de diplomacia entre Teerã e as potências mundiais. Durante seu primeiro mandato, Trump abandonou unilateralmente o acordo e, desde então, assumiu uma postura maximalista nas negociações com Teerã, em consonância com a antiga exigência israelense de que o Irã seja impedido de enriquecer urânio.

Em uma omissão reveladora em 21 de fevereiro, o principal negociador de Trump, Steve Witkoff, disse que o presidente havia ficado surpreso com o fato do Teerã não ter simplesmente “capitulado” às exigências dos EUA. Após essa declaração, ambos os lados pareceram estar próximos de um acordo; o Irã acatou as exigências de Trump de dizer as “palavras secretas” de que “nunca teremos uma arma nuclear” e concordou em enriquecer urânio apenas até o limite necessário para produzir isótopos medicinais e abastecer sua única usina nuclear.

Assim como seus antecessores, Trump tem enfrentado dificuldades nas negociações porque a opção dos EUA de conceder um alívio significativo das sanções — a única coisa que o Irã deseja — exige aprovação do Congresso. Mas o Congresso conta com forte apoio bipartidário a políticas agressivas contra o Irã, principalmente devido à longa influência que o lobby israelense AIPAC exerce sobre o Legislativo, financiando as campanhas de candidatos aliados caso votem alinhados com Israel.

Durante décadas, Khamenei adotou uma política chamada de “paciência estratégica”, concebida para dissuadir a violência dos EUA e de Israel, ou pelo menos mantê-la na zona cinzenta das operações secretas, sabotagem e assassinatos. Mas, desde 7 de outubro de 2023, Israel, com o apoio dos EUA, tem travado um genocídio impiedoso contra a Palestina e guerras regionais contra os aliados do Irã no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen, o que proporcionou a Teerã os meios para manter a profundidade estratégica contra Israel e, consequentemente, contra os Estados Unidos. Agora que o Irã está sofrendo um segundo ataque não provocado, todos os incentivos apontam para uma escalada, que, nas circunstâncias atuais, significa intensificar os contra-ataques, podendo chegar a uma guerra em grande escala.

O problema para os Estados Unidos e Israel é que, embora sejam capazes de matar muitas pessoas e semear o terror entre a população iraniana, é extremamente improvável que seu objetivo de guerra, que é bombardear o Irã até provocar uma revolução — ou, na melhor das hipóteses, um golpe de Estado — seja bem-sucedido. Historicamente, as guerras aéreas, por si só, nunca foram bem-sucedidas em promover mudanças de regime. Na Alemanha e no Kosovo, as guerras aéreas foram travadas em conjunto com um exército de ocupação. Em 2025, os Estados Unidos abandonaram sua guerra aérea contra o governo do Iêmen. Teerã se lembrará de 1983, quando apoiou milícias xiitas libanesas durante a guerra civil libanesa em seus ataques contra tropas e navios americanos, o que resultou na retirada das tropas americanas sob fogo inimigo.

Desde junho, o Irã também vem recebendo apoio sem precedentes da Rússia e da China. Moscou tem trabalhado com Teerã para reconstituir suas defesas aéreas, e a China está fornecendo mísseis antinavio. Uma empresa privada chinesa próxima às forças armadas divulgou imagens de satélite sobre as posições de ativos navais dos EUA, o que observadores interpretaram como um sinal da China de que poderia apoiar o Irã com informações em tempo real para sua defesa.

A política interna contemporânea dos EUA também tem pouca capacidade para suportar perdas significativas de vidas americanas. O Irã parece ter uma estratégia de curto prazo para absorver os ataques e tentar infligir o máximo de prejuízos possível aos EUA e a Israel, na esperança de que atores regionais, que temem uma desestabilização mais ampla, pressionem os Estados Unidos por um cessar-fogo. A longo prazo, o Irã se preparou para uma guerra prolongada e sangrenta. Khamenei nomeou seu sucessor e instruiu a nomeação de quatro escalões de oficiais militares para o caso de ataques com decapitação. Teerã pretende matar americanos suficientes para encerrar a guerra, desestabilizando Trump internamente.

¨      'Vão ter que pagar um preço': o que o Irã quer ao atacar países vizinhos e 'amigos' do Golfo Pérsico

A poucos metros do bairro histórico da antiga Dubai e às margens do canal que divide o coração da cidade, uma coluna de fumaça tomou conta do céu no fim da noite desta terça-feira (3/3). Como o governo do Emirado confirmaria, era mais um ataque a drone do Irã que atingira a cidade desde o início do conflito contra Israel e Estados Unidos. O novo ataque mirou o consulado dos Estados Unidos e, segundo os americanos, atingiu um estacionamento, sem feridos.

Mais cedo, em outro ataque, um drone iraniano rasgou o céu e atingiu a Embaixada dos EUA em Riad, capital da Arábia Saudita. Esses foram os mais novos exemplos de como o conflito — iniciado com o ataque que matou o aiatolá Ali Khamenei — está tendo repercussões sérias na região do Golfo Pérsico (ou Golfo Arábico, para os árabes). Isso é: Emirados Árabes Unidos (UAE), Catar, Bahrein, Kuwait, Omã e Arábia Saudita.

Segundo o Irã, os alvos são as bases militares americanas nesses países, mas destroços e drones já atingiram prédios, hotéis e aeroportos pela região.Ainda não dá para saber se o Irã quis mesmo atingir áreas turísticas e simbólicas ou se isso é resultado colateral da tentativa de atingir alvos americanos, avalia o professor Daniel Rio Tinto, especialista em segurança internacional na Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

Mas o fato é, na visão de Rio Tinto: sendo ou não intencional, o Irã quer mostrar para os países do Golfo, todos ao seu alcance, de que cooperar com os Estados Unidos não é algo que vem sem custo. "Isso é uma maneira de dizer: se você está permitindo que os americanos me ataquem a partir do seu território, ou se você não está se opondo a que os americanos tragam a guerra aqui para minha porta, você vai ter que pagar algum preço", diz.

Por anos, os líderes do Irã tentaram persuadir os Estados do Golfo Pérsico a expulsar os militares dos Estados Unidos da região e se voltarem ao Irã para proteção — sem sucesso. Mas por que esses países permitem a presença americana, ao mesmo tempo que mantêm relações com o Irã?

A resposta vem dos interesses estratégicos e geopolíticos dos dois lados.

A principal base americana no Oriente Médio é a de Al Udeid, no Catar. Para os EUA, os objetivos são claros: estar próximo de seus alvos na região. Para os catari, o retorno vem de uma relação mais benéfica com Washington, explica o professor. "Pode ser que o Catar não veja utilidade nenhuma, imediata, concreta, de ter uma base americana ali, mas pode ser que isso seja um trade off para conseguir apoio dos EUA em demandas de política externa", diz o especialista.

O termo em inglês fala de um conflito de escolha em que é necessário abrir mão de um benefício (perda) para obter outro (ganho).

Outro exemplo dessa relação é a Arábia Saudita, que permite presença militar americana — e, em troca, os EUA apoiam o governo do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e ajudam, inclusive, a legitimá-lo no cenário internacional. Os analistas também avaliam que, ao exportar o conflito para além de suas fronteiras e do território de Israel, o Irã mostra ao mundo os riscos globais de se mexer com o país.

Afinal, estamos falando de alguns dos maiores destinos turísticos e centros de conexão de voos do mundo, como Dubai e Doha. Milhares de turistas se encontram agora nessas cidades, sem poder voltar para suas casas.

<><> Imagem de 'ilha de segurança' prejudicada?

A repercussão dos ataques ao Golfo é simbólica especialmente nos Emirados Árabes Unidos, país que nos últimos anos se tornou um dos maiores polos turísticos do mundo, vendendo a imagem de luxo, segurança e oportunidades de negócios.  Nesta terça, o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes afirmou que suas defesas aéreas destruíram 172 mísseis desde que o Irã lançou seus ataques na região. Outros treze caíram no mar e um atingiu o território do país. O ministério detectou ainda 812 drones iranianos, interceptando 755 deles. Cinquenta e sete caíram no país.

Os Emirados Árabes Unidos também detectaram e destruíram oito mísseis de cruzeiro "que causaram alguns danos colaterais, além de resultar em três mortes e 68 ferimentos leves", bem como danos a "instalações civis".

Uma dessas mortes ocorreu no aeroporto de Abu Dhabi, quando uma pessoa foi atingida por destroços de um drone interceptado que ia em direção ao terminal, segundo a administração do aeroporto. Já o Aeroporto de Dubai, o segundo mais movimentado do mundo em tráfego de passageiros, foi danificado no que o governo chamou de um "incidente" que deixou quatro funcionários feridos. Uma grande explosão também foi registrada em um hotel cinco estrelas na ilha artificial de Palm Jumeirah. E destroços de um drone provocaram um pequeno incêndio na fachada do icônico hotel em forma de vela Burj Al Arab.

A Amazon fechou temporariamente seu data center nos Emirados Árabes Unidos após ele ser atingido. Especialista no Golfo Pérsico do centro de pesquisas Conselho Europeu de Relações Exteriores, Cinzia Bianco escreveu no X: "Este é o pesadelo definitivo de Dubai, já que sua própria essência dependia de ser um oásis seguro em uma região conturbada", escreveu. "Pode haver uma maneira de ser resiliente, mas não há como voltar atrás".

Para o professor Rio Tinto, essa ideia de ser uma ilha estável em um Oriente Médio instável pode ter balançado, mas o dano tende a ser de curto prazo, a depender de quão duradouro será o conflito."A gente está falando de um lugar que tem uma infraestrutura turística incrível e que eu acho que não vai perder isso no longo prazo, a não ser que de fato exista uma completa reconfiguração política da região, e isso faça com que constantemente haja uma ameaça", diz.

O pesquisador traça um paralelo com o Egito, país que segue recebendo muitos turistas apesar de haver momentos em que os países europeus não recomendam viagens devido a conflitos na região. Mas, além dos danos ao turismo, pode haver uma reconfiguração geopolítica naquela região.

Segundo análise de Frank Gardner, especialista em Segurança da BBC, uma linha vermelha foi cruzada pelo Irã. Para ele, é difícil imaginar como as famílias monárquicas que governam esses países do Golfo poderão retomar relações minimamente normais com a atual liderança iraniana, caso ela sobreviva a esta guerra. Além disso, países como Catar, Omã, Arábia Saudita e Emirados Árabes têm atuado nos últimos anos como mediadores de conflitos globais, quase como território neutro.

O Catar, por exemplo, ganhou status de pacificador nas últimas duas décadas. O país desempenhou papel importante na intermediação do atual cessar-fogo em Gaza entre Israel e o Hamas, e ajudou a trazer muitas outras tréguas antes disso. Uma razão fundamental para isso é que o Catar queria desenvolver uma reserva de gás no Golfo chamada North Dome/South Pars, que havia sido descoberta em 1990.,Como o campo se espalhava pelas águas territoriais do Catar e do Irã, o Catar precisava cooperar com o Irã para fazer isso — embora o Irã fosse adversário da Arábia Saudita na época, explicou à BBC H.A. Hellyer, do Royal United Services Institute em Londres, Reino Unido. O papel de mediador da paz do Catar está consagrado na Constituição adotada em 2004. Mas esse papel também pode ficar abalado. "A coisa muda muito quando a gente passa a falar de ações militares diretas. Fica muito mais difícil você tratar as relações como se nada tivesse acontecido, uma vez que o outro país jogou um míssil contra você", diz Rio Tinto. "Eu acho que provavelmente a gente não vai ver mais esses países se apresentando como mediadores. A gente não vai ver mais uma relação boa entre esses países."

 

Fonte: Brasil 247/Jacobin Brasil/BC News Brasil

 

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