Ininteligência
em expansão?
Conforme
explicitado no debate público corrente, a chamada “inteligência artificial” é
peça crucial na trama geopolítica contemporânea. Os economistas, de seus pontos
de vista, acionam estimativas: que proporção de tarefas poderá ser afetada nos
próximos anos; que ganho de eficiência sobrevirá de cada tarefa afetada; qual a
proporção de horas trabalhadas totais que será afetada pelo estímulo que esta
nova tecnologia oferece à acumulação de capital.
Certos
especialistas em tecnologia da informação relutam em usar o termo “artificial”,
preferindo chamá-la de inteligência aumentada, nela sublinhando o papel dos
sujeitos no manejo dos artifícios. Psicólogos sociais e neurocientistas se
interrogam, por sua vez, sobre como serão afetadas e reconfiguradas as
capacidades dos sujeitos – incluindo as competências intelectuais requeridas
para o exercício das próprias tarefas que restarão aos trabalhadores na
produção.
Para
muitos, o campo do intelecto está sendo sacudido por inovações radicais do
campo tecnológico; para alguns, em particular, as transformações em curso
contêm elementos de um projeto político e ideológico totalizante. Examinemos
aqui algumas dimensões ecopolítcas desta nova etapa da automatização do
cohecimento.
Sabemos
que o trabalho intelectual se faz por uma mistura de esforços de tipo
arquitetônico, arqueológico e cartográfico realizados a partir do acervo de
conhecimentos pré-existentes. Esses conhecimentos são expostos a um permanente
esforço de revisão crítica, confirmação, contestação e aperfeiçoamento.
Novos
conhecimentos nascem, por sua vez, do encontro e da cooperação de ideias entre
si, da “troca polida de doações informacionais”, do desenvolvimento de novas
intuições, descobertas e insights, assim como do contraste, oposição e
questionamento dos fundamentos que deram legitimidade às ideias antes
prevalecentes.
Todo
esse trabalho se faz, por certo, através do exercício da lógica, da
observação/experimentação empírica, da comprovação, mas também – ou basicamente
– do exame crítico do chamado senso comum, daquele acervo de visões baseadas
nas aparências, em impressões sensoriais imediatas e intuitivas, não expostas à
dúvida, que pressupõem realidades autoevidentes e que desempenham, em geral,
funções de harmonização dos sujeitos com o mundo.
Ou
seja, um senso comum que costuma achar explicações fáceis para questões
difíceis. Assim, se, como se diz, o trabalho intelectual é aquele que utiliza a
inteligência para estender a inteligência e enriquecer o conhecimento, seu
exercício passa necessariamente pelo exame crítico deste senso comum e dos
conhecimentos estabelecidos.
Mas
quais são as condições para que o trabalho intelectual seja criativo e
socialmente fértil? A liberdade de pensamento e debate é o bastião do
trabalhador intelectual. É o que permite o questionamento do consenso em torno
às autoevidências e o respeito à igualdade de direitos, à admissão de
diferenças entre nações, culturas e indivíduos, sem atribuir-lhe hierarquias,
preferências e avaliações dissimuladas.
Pensar
é um modo de experimentar o mundo, de promover, de forma livre, a liberdade e o
conhecimento – o que implica também liberdade para se movimentar no espaço
geográfico, no espaço social e no espaço das ideias. É preciso ser
suficientemente livre para experimentar o impulso interior que está na origem
de todo o movimento, aquela espécie de força vital que dá origem a um movimento
que, em seguida, se desdobrará em ideias; ou seja, o esforço proveniente de um
impulso inicial que é “movimento antes do movimento”, como o observam filósofos
do movimento corporificado.
Ora,
hoje, mais do que nunca, uma condição do trabalho intelectual é o combate à
desinformação organizada, ao sistema de produção e distribuição de
desinformação que impede este “movimento intelectivo que precede o próprio
movimento do pensamento”. O sistema desinformativo é aquele que usa a linguagem
para, nos termos do livro 1984 de George Orwell, clássico da crítica ao
totalitarismo, “defender assertivas que se anulam mutuamente, evocar lógicas
que refutam a lógica e tentar mudar os fatos de um passado já bem documentado”.
Ou
seja, um sistema organizado de utilização da ininteligência para estender a
ininteligência. A este propósito, um risco ao exercício da inteligência
coletiva parece estar, ao que temos visto, embutido nas tecnologias da
informação e nos sistema algorítmicos chamados de inteligência artificial.
Como
sustentam os pesquisadores da sociologia das técnicas, a concepção dos
artefatos tecnológicos se dá a partir de normas e valores que, por suas
especificações técnicas, traduzem projetos e interesses. As novas tecnologias
da informação exprimem os valores de um capitalismo de vigilância baseado na
extração de dados de populações que são ao mesmo tempo fonte e alvo final de
sua ação para fins de controle de comportamentos e de mercados.
O
conhecimento que dele se pode extrair resulta de um processo de “medianização”
– cálculo de uma média – a partir dos modelos de dados e ideias contidos na
memória computacional. O ato de “medianizar” dados e ideias consiste em
atribuir as características de um valor médio a um grupo ou entidade múltipla e
variável. No caso dos “conteúdos médios” gerados pela inteligência artificial,
por exemplo, esses traços resultantes da medianização não são nem criticados,
nem contextualizados. Por outro lado, eles são – como o lembra a sociologia das
quantificações – “niveladoras implacáveis”, que, se usados sem critério, podem
contribuir, insidiosamente, para fazer da média uma norma.
As Big
Techs promovem, assinalam os especialistas, uma “dataficação” do mundo,
procedimento de transformação de ações em dados quantificáveis, com a conversão
de processos vitais em fluxos informacionais, permitindo amplo rastreamento e
análises preditivas dos movimentos do corpo coletivo da sociedade.
Certos
autores designam por “tecnologia total” este sistema sociotécnico em que atores
gigantes, por sua capacidade de extração estratégica de dados e sua utilização
nos campos econômico e militar, tornam-se portadores de um “datapanoptismo”, um
projeto totalizante por sua vontade de potência e controle sem limites.
Mas,
não só as liberdades, a criatividade e a capacidade de exercício da
inteligência estão postos em questão pelo extrativismo de dados e a manipulação
de informações. Obervemos, por exemplo, as implicações ambientais e
urbanísticas do uso capitalístico industrial da inteligência artificial: o caso
do chamado fast fashion.
O
fordismo foi o sistema pelo qual se massificou a mercadoria – produzindo em
massa bens padronizados para um consumo em grande escala também padronizado.
Através do extrativismo global de dados, agora massifica-se também a
diferenciação dos produtos: a cada dia são lançados inúmeros modelos de
produtos resultantes da memória compósita do design inscrito na multiplicidade
das mercadorias.
Ora, a
cidade fordista – aquela da era da produção industrial em grande escala –
caracterizou-se pela acumulação de resíduos, efluentes líquidos e gasosos e
pelo descarte de bens de durabilidade limitada graças à obsolescência
programada das mercadorias. A cidade fordista mostrou ser o lugar do consumo e
do consumo de lugar. Com o neoliberalismo, a cidade tornou-se o lugar do
consumismo e do consumismo de lugar, via shoppings e marketing urbano.
E mais:
agora, com a massificação da diferenciação das mercadorias, o descarte não virá
apenas da inutilização dos bens planejados para serem obsoletos, mas também da
substituição acelerada dos diferentes modelos – um descarte acelerado,
portanto, pela imposição em massa de uma diferenciação do consumo, uma
diversificação acelerada dos modelos das mesmas formas úteis dos produtos.
Uma
subjetividade consumista coletiva vem sendo, para tal fim, engendrada de modo
que se acelere o processo de transformação das diferentes variedades de um
mesmo tipo de mercadoria…. em resíduo. No limite, transforma-se de forma
acelerada a própria ideia da mercadoria em resíduo em processo.
Não há
como desconsiderar que esse tipo de uso da “inteligência aumentada” por uma
tecnopolítica da vigilância e do lucro constitui, ao fim e ao cabo, um desafio
ao exercício da inteligência – reflexiva – aplicada ao próprio entendimento da
sociedade produtora de resíduos materiais e ideacionais; o que nos remete,
inteligentemente, ao alerta do cientista social José de Souza Martins: “quando
políticos ignaros dizem que as ciências humanas são dispêndio inútil, não
percebem que sem elas, não saberemos construir a ponte para atravessar o rio
que nos separa de nós mesmos: ou seja, não compreenderemos a nós mesmos”.
Fonte:
Por Henri Acselrad, em Outras Palavras

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