quinta-feira, 5 de março de 2026

Giovana Girardi: Guerra no Irã - alerta estridente de que combustíveis fósseis não têm nada de seguros

Dois meses após os Estados Unidos invadirem a Venezuela, por interesse confesso de Donald Trump nas maiores reservas de petróleo no mundo, o ataque dos americanos e de Israel ao Irã traz um alerta estridente para a diplomacia climática do mundo: a de que os combustíveis fósseis, de seguros, não têm nada.

Este costuma ser um dos principais argumentos de quem defende que ainda não podemos prescindir de petróleo e gás – apesar do claro dano que sua queima desenfreada há mais 150 anos nos trouxe, ao aquecer perigosamente o planeta. A ideia de que sem eles corremos o risco de perder segurança energética. De que essas fontes são muito mais estáveis e confiáveis do que as renováveis, como eólica e solar. Pelo contrário. Manter a dependência dos fósseis é o que deixa nossos sistemas energéticos inseguros e nossas economias fragilizadas.

Pois veja o tamanho da encrenca agora. O Irã, que é um dos maiores produtores de petróleo e tem uma das maiores reservas – exportando quase toda a sua produção para ninguém menos que a China –, também controla o Estreito de Ormuz, uma faixa de apenas 34 km que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico e é a principal rota de transporte do petróleo produzido no Oriente Médio. Por ali passa cerca de um quinto do petróleo do mundo.

Na tarde desta segunda-feira, 2 de março, o Irã fechou o estreito e ameaçava incendiar navios que ali estivessem. Antes mesmo disso, o tráfego de petroleiros já tinha despencado e toda a situação da guerra já estava elevando os preços do petróleo no mundo. 

Por outro lado, em reação aos ataques de Estados Unidos e Israel, o Irã atingiu aliados dos dois países no Oriente Médio. Foram lançados drones contra a maior refinaria de petróleo da Arábia Saudita. E o Catar teve de suspender sua produção de gás natural liquefeito (GNL) depois de ser atingido. Só que o Catar é um dos maiores produtores de GNL do mundo, principal fornecedor da Ásia, em especial da China e, em menor parte, da Europa.

“A nova guerra contra o Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz expõem os custos horrendos de um mundo preso aos combustíveis fósseis. Quando a segurança energética global pode ser abalada por um único ponto crítico, isso demonstra o quão instável e arriscada é nossa dependência do petróleo e do gás”, afirmou, por meio de nota, Olivia Langhoff, diretora administrativa da ONG 350.org, focada em combustíveis fósseis.

Segundo ela, somente as fontes renováveis fornecem energia produzida internamente “que permanece segura e acessível, independentemente dos choques geopolíticos”.

Tudo isso na conta, e quem já está esfregando as mãos são os exportadores de GNL dos Estados Unidos, país que lidera a produção mundial do combustível e deve se colocar como alternativa de fornecimento.

“Esta incursão é uma mina de ouro para os exportadores de GNL dos EUA e uma catástrofe para todos os outros. O Catar suspendeu as exportações após suas instalações industriais terem sido danificadas. Isso nunca aconteceu nos 30 anos de história das exportações de GNL do Catar. A perda de volume em termos de oferta é potencialmente comparável à perda de gás russo por gasoduto para a Europa em 2022”, afirma Seb Kennedy, analista global de gás da EnergyFlux.news, agência europeia especializada em energia e, especificamente, o mercado de gás natural e GNL.

Kennedy compara o momento atual com outra situação de guerra, quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e o suprimento de gás russo para a Europa foi cortado. De lá para cá, a Europa buscou diversificar suas fontes de energia, mas é justo dizer que duas guerras seguidas pouco trouxeram de aprendizado para o mundo superar a dependência de combustíveis fósseis. Nem para mostrar que a confiança no gás como um combustível de transição – ele é menos poluente, por exemplo, que o carvão, mas sua queima ainda emite gases de efeito estufa – pode ser um tiro no pé.

“Historicamente, os combustíveis fósseis foram vistos como promessa de entregar quatro coisas: liberdade, democracia, crescimento e, acima de tudo, segurança. Esta guerra ilegal e desnecessária é uma lembrança de que isso é obviamente falso e, pelo menos em termos de segurança, é uma ilusão”, afirma Pauline Heinrichs, pesquisadora de Estudos de Guerra, com foco em clima e energia, do King’s College London.

“Nossa estratégia de segurança atualmente se resume a responder às crises induzidas pelos combustíveis fósseis, e me refiro tanto aos próprios combustíveis fósseis quanto às potências que dependem deles para sustentar seu poder, incluindo os Estados Unidos. E isso tem um custo para as pessoas, o planeta e a segurança. Se quisermos levar a estratégia de segurança a sério, precisamos reduzir a insegurança causada pela dependência dos combustíveis fósseis”, diz.

Heinrichs e Kennedy conversaram com a imprensa internacional que cobre a crise climática nesta segunda para analisar os possíveis impactos da guerra no Irã aos mercados globais de energia, indo muito além dos países diretamente envolvidos no conflito, e como isso pode respingar nos esforços de transição energética necessários para o combate ao aquecimento global.

Se, por um lado, essa situação poderia funcionar, finalmente, como um choque de realidade para abalar essa ilusão de segurança – de modo a, talvez, acelerar a transição energética –, por outro, os preços mais elevados do petróleo podem gerar o efeito contrário, incentivando ainda mais os outros produtores de combustíveis fósseis a tentar se colocar como alternativa para o fornecimento do produto para Europa e Ásia. Tentar ocupar as lacunas abertas pela guerra.

“O argumento a favor de um mais fontes de fornecimento sempre surge quando a oferta é interrompida. A verdadeira questão é se os mercados de capitais e o retorno sobre o investimento apoiam o investimento em projetos de exploração e produção em bacias de hidrocarbonetos em fase de maturação”, pondera Kennedy.

Vejamos a situação da China. A invasão dos EUA à Venezuela já tinha prejudicado o acesso dos chineses ao petróleo venezuelano. Agora, ao iraniano. De acordo com o site americano Politico, 17% da importação de petróleo pela China vinha dos dois países. Por mais que os chineses estejam investindo pesado na eletrificação dos transportes e em baterias para armazenar a energia de fontes renováveis, não será num piscar de olhos que vão substituir uma fatia tão grande de combustível. 

Se os preços do petróleo dispararem, como estimam alguns analistas, haverá um impacto também sobre os países mais pobres que hoje dependem da importação dos combustíveis por não terem localmente outras fontes de energia.

“Isso expõe o real preço da nossa dependência de combustíveis fósseis. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e a inflação global disparou na esteira da alta do petróleo, 71 milhões de pessoas nos países em desenvolvimento foram empurradas para a pobreza, segundo o Fórum Econômico Mundial. Os lucros extraordinários das petroleiras na ocasião foram revertidos para seus acionistas e não para a transição energética. O mundo ficou mais pobre, mais inseguro e mais instável climaticamente”, pontua a rede brasileira Observatório do Clima.

“Mais uma vez, as famílias pagarão o preço por meio da inflação impulsionada pelos combustíveis fósseis: custos de combustível mais altos, contas de energia crescentes e, consequentemente, alimentos mais caros. Tudo por causa de um sistema atrelado a uma indústria volátil e repleta de conflitos”, complementou Olivia Langhoff.

Tudo vai depender do prolongamento do conflito, que, agora, é impossível de prever. Bem no momento em que havia uma expectativa de que o mundo talvez começasse a desenhar o caminho para abandonar a dependência dos combustíveis fósseis. Era isso que se esperava da Conferência da Clima da ONU que ocorreu em Belém, a COP30, no fim do ano passado. E é sobre isso que estão debruçados especialistas e diplomatas brasileiros, em uma tentativa de propor saídas tanto para esse debate em nível internacional quanto para a transição energética do próprio Brasil. 

Em abril, também será realizada na Colômbia a primeira Conferência Internacional para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis. É de se esperar que as guerras em curso vão direcionar os debates. Só podemos torcer para que seja no rumo de buscar formas de diminuir a dependência dos fósseis. E não que façam com que os países se fechem ainda mais nas velhas crenças de que só o domínio de petróleo os deixará seguros. 

Não vai. É o que tanto as guerras quanto os impactos cada vez piores das mudanças climáticas deixam cada vez mais evidentes. Vide as mais de 70 mortes em Minas Gerais recentemente.

¨      ‘Trump foi avisado que seria má ideia entrar nessa aventura’, diz especialista sobre ataques de Israel e EUA ao Irã

A guerra desencadeada por Estados Unidos e Israel contra o Irã já se espalha pelo Oriente Médio, e suas consequências ainda são imprevisíveis. O que já se pode afirmar, no entanto, é que Washington entrou em uma guerra por procuração de Tel Aviv – uma “guerra de escolha” para os estadunindenses, mas de “sobrevivência” para os iranianos.

“Em termos de cálculo frio, essa guerra não é do interesse dos Estados Unidos. O próprio Trump foi avisado pelos militares de que essa era uma guerra sem sucesso garantido, que seria uma má ideia entrar nessa aventura”, pontua Salem Nasser, professor de direito internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.

Para Israel, no entanto, a situação é diferente, pois vive esta guerra como uma guerra de “interesse vital”. “[Israel] percebe no Irã a grande ameaça à sua hegemonia na região, à sua própria sobrevida. Depois de tudo que aconteceu desde 7 de outubro de 2023, Israel enxerga que é preciso, de uma vez por todas, acabar com as capacidades militares e tecnológicas iranianas”, acrescenta.

O professor destaca a assimetria de percepções: “Para os Estados Unidos, é uma guerra de escolha. Para o Irã, certamente é uma guerra de sobrevivência, foi imposta a eles. E pelo menos até agora, tudo mostra que as consequências vão ser negativas para os Estados Unidos e para Israel.”

Nasser aborda a questão central: por que os Estados Unidos embarcam repetidamente em aventuras que beneficiam Israel, mesmo quando contrariam seus próprios interesses? “Em parte, pode ser quase suicida em termos de carreira para Trump, em termos de perspectivas eleitorais. Mas mesmo assim, eles não conseguem escapar desse encanto que Israel parece exercer sobre os Estados Unidos.”

Ele lembra que a existência do lobby israelense é conhecida há muito tempo, mas que, hoje em dia, as pessoas estão falando sobre isso cada vez mais claramente. “Tem muito político em debates apontando os dedos uns para os outros e dizendo: ‘Você recebeu dinheiro da Aipac [Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel, na sigla em inglês]’. Ao se exporem assim, os políticos americanos estão dizendo para a gente com todas as letras que o poder desse lobby é muito grande.”

Nasser cita um exemplo emblemático: durante um discurso recente no Knesset, Trump chamou Miriam Adelson ao palco e disse: ‘Ela aqui manda mais na Casa Branca do que eu’. “Ele estava brincando, mas toda brincadeira tem um fundo de verdade. A contribuição de campanha dela para Trump foi de US$ 200 milhões. O que ela pedia em troca era que ele reconhecesse a anexação das Colinas de Golã por Israel.”

Para o professor, parte do mistério começa a ser desvendado. “Se o Trump está sofrendo chantagem por causa do Epstein, isso a gente não sabe, mas é uma possibilidade. Racionalmente, ele não deveria ter entrado nesta guerra com tudo que já se sabia sobre o Irã.”

<><> A estratégia iraniana: paciência e desgaste

Nasser analisa a resposta iraniana aos ataques, apesar da “surpresa” que foi descobrir que Khamenei foi morto com “tal facilidade”. “Mas eu pessoalmente acho que ele entendeu que ser morto em batalha era melhor para o Irã do que gerenciar a batalha vivo. Ele assumiu o risco.”

O fato de o Irã ter respondido já na primeira hora, aplicando exatamente o que estava planejado, mostra preparo. “Eles estavam preparados e sabiam o que teriam que fazer nesta guerra.”

Sobre a negativa iraniana em negociar, Nasser é taxativo: “Eles estavam negociando – já não era a primeira vez. Iriam se encontrar no domingo ou segunda para continuar as negociações e foram atacados no sábado. Obviamente os iranianos estão dizendo: como posso confiar num inimigo que me diz que vai negociar e depois decide me atacar?”

Em relação à capacidade do Irã de sustentar os ataques, o professor é otimista. “A estratégia dos iranianos é simples em alguma medida: eles têm milhares de mísseis e drones, mais ou menos sofisticados, mais ou menos caros, e uma boa quantidade de mísseis de alta precisão, hipersônicos, com grande poder de destruição.”

“Enquanto eles estiverem mandando mísseis e drones, Israel vai ter que usar seus interceptadores, caríssimos e em número limitado. Vai chegar um momento em que não terão mais interceptadores. Os mísseis iranianos vão começar a atingir seus alvos sem nenhuma interceptação”, explica.

Em contrapartida, o Irã é um país grande, com população numerosa. “Um ataque aéreo não vai funcionar. Você precisaria invadir o Irã para vencer militarmente — e precisaria de, no mínimo, um milhão de soldados para tentar ganhar uma guerra na geografia iraniana.”

A esperança estadunidense e israelense de que a população se voltasse contra o governo também não se realizou, visto as inúmeras manifestações contrárias à guerra e ao assassinato do líder supremo.

Sobre a possibilidade de mudança de regime, Nasser faz distinções importantes. “Dentro do jogo político iraniano, há um grupo chamado de moderados ou reformistas, que quer melhorar as relações com os Estados Unidos e acredita em negociações. O governo atual é reformista — foi eleito e nomeou ministros reformistas. É por isso que estavam negociando.”

Há também uma oposição que é contra o regime que é minoritária. “E dentro dela, é preciso ver quantas pessoas gostariam que os Estados Unidos estivessem atacando o Irã — são duas coisas diferentes”, aponta.

Existem grupos alimentados por sistemas de inteligência estrangeiros, que atuam como sabotadores e agitadores. “Mas entre os que apoiam o regime, há uma franja de lealdade absoluta à autoridade do sábio religioso. Uns 20% da população iraniana são os que estão dispostos ao martírio para proteger a revolução.”

“Nessa situação, depois que Khamenei foi morto, esses 20% vão representar muito mais do que qualquer oposição. A oposição vai ficar mais quietinha, porque o jogo agora é outro. Não parece haver qualquer chance de mudança de regime nos termos que os americanos querem — muito menos do que Israel também desejaria”, destaca.

<><> O papel do Hezbollah e a situação no Líbano

Nasser aborda a posição do Hezbollah, que sofreu perdas importantes na campanha de apoio a Gaza. “Inclusive perderam sua maior liderança, simbolicamente a mais importante para o eixo da resistência. Foram penetrados pela inteligência israelense, americana e ocidental.”

Apesar disso, o cessar-fogo negociado nunca foi respeitado por Israel. “Não teve um único dia nesses 15 meses que Israel não tenha atacado o Líbano. Cerca de 500 combatentes do Hezbollah foram mortos enquanto levavam sua vida de civis — em suas casas, com suas famílias, no carro indo para o trabalho. Muitos civis foram mortos, vilas destruídas, vilarejos esvaziados.”

Nasser sugere que o Hezbollah está fazendo um cálculo de prazo maior. “Eles sabem que, se Israel obtivesse uma vitória rápida contra o Irã e o regime mudasse, no dia seguinte o Hezbollah seria atacado para ser eliminado de vez. Não está eliminada a possibilidade de entrarem em cheio na guerra.”

<><> Contexto

Os ataques conjuntos, não provocados e considerados ilegais pelas leis internacionais, dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciados no sábado (27), ocorrem em meio a negociações sobre o programa nuclear iraniano. Apesar do país persa em cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica e se comprometer a usar seu programa nuclear exclusivamente para fins pacíficos, Israel e EUA – ambas potências nucleares – acusam Teerã de secretamente buscar a construção de armas atômicas.

Tel Aviv também acusa o Irã de ser “ameaça existencial” ao país, mas a acusação é rebatida por analistas que argumentam que o governo iraniano se encontra hoje muito enfraquecido pelos ataques de junho de 2025, pelas sanções impostas pelos EUA, protestos internos e o fim do corredor até o Líbano, após a queda de Bashar al-Assad na Síria.

A derrubada do governo em Teerã é objetivo cultivado por Washington e Tel Aviv desde a instalação da República Islâmica, em 1979, que substituiu o regime vassalo do Ocidente e instituiu o governo teocrático nacionalista. Nos primeiros dias de ataques, bombardeios mataram lideranças iranianas, incluindo o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que governava o país desde 1989.

Terceiro maior produtor de petróleo do mundo, o Irã fechou, após o início das agressões, o Estreito de Ormuz, por onde é escoada a produção de vários países do Golfo. Por lá passa cerca de 20% do petróleo consumido globalmente, o que gera temores de uma crise inflacionária internacional. Outro temor, apontado por analistas, é que o conflito se expanda para outros países da região, com consequências imprevisíveis.

 

Fonte: Agencia Pública/Brasil de Fato

 

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