quinta-feira, 5 de março de 2026

 

Gibran Jordão: O futuro do Sul Global está sendo jogado no Irã

O império sob a administração Trump está obstinado em derrubar o regime iraniano. Junto com seu sócio israelense, começaram a implementar esse projeto em 2025, com a guerra dos 12 dias, depois a desvalorização da moeda iraniana para gerar inflação e revolta popular, infiltrando agentes para promover violência nas ruas das cidades persas, e agora com uma agressão covarde, cercando o Irã por todos os lados,  assassinando a população civil inocente e um chefe de estado. Khamenei não é só o líder supremo do Irã, mas o líder religioso mais importante do mundo islâmico xiita. Trump conseguiu iniciar uma guerra religiosa, que terá consequências por décadas.

O Irã é um ponto de interseção geopolítico inaceitável para o império. Ao leste tem projetos avançados com a China através da nova rota da seda, ferrovias de mais de 10 mil km que ligam os dois países e comércio de energia e tecnologia que é bastante vantajoso para ambos. Ao norte, uma parceria militar, nuclear e cyberespacial com a Rússia, garantindo uma robusta capacidade de defesa para ambos.

Ao oeste, o país persa tem relações com grupos armados xiitas e sunitas que combatem Israel, como o Hesbolah no Líbano, Hamas na Palestina e Houthis no Iêmen. E ainda podemos dizer que ao "sul", o Iran é membro pleno do BRICS, outro projeto de aliança do sul global que está diametralmente oposto à necessidade do império em manter o sistema dólar.

Essas articulações defensivas dos iranianos conseguem impor um poder na região, que é intolerável para Israel e consequentemente para os EUA. Trump foi à TV duas vezes, desde o início da agressão militar, para dizer que o povo do Irã deve tomar o poder depois que eles terminarem o serviço, mas a única imagem que vimos até agora, são de milhões de iranianos nas ruas de Teerã repudiando o que eles consideram o martírio de Khamenei e jurando morte a América e a Israel. Assim como, os protestos dentro dos EUA também tendem a crescer, destaque para o 28 de março -- No Kings -- que promete ser o maior da história.

Embora o Irã esteja sofrendo com o bombardeio, a população vai passar por dias de penúria. A resposta militar das forças armadas persas está fazendo um estrago considerável em toda região. A chuva de fogo com mísseis balísticos guiados por sistemas de satélites avançados está atingindo com precisão bases militares americanas e europeias na Arabia Saudita, no Emirados Árabes, Omã, Iraque e Catar. Como também, Telaviv está sob forte bombardeio que está conseguindo desmoralizar o "domo de ferro" israelense, promovendo destruição da infraestrutura do país e deixando a população israelense em pânico. Os primeiros caixões de soldados norte-americanos começaram a chegar e a promessa de Trump de acabar com as guerras está se provando hoje que era somente mais uma de suas centenas de mentiras para ganhar a eleição.

Essa guerra vai gerar mais gastos econômicos  para os EUA quanto mais tempo ela durar e mais baixas os americanos vão sofrer, gerando mais problemas para a atual administração Trump. Ao mesmo tempo, que o preço do barril de petróleo deve oscilar, podendo gerar surtos inflacionarios em várias partes do mundo, especialmente se a situação do estreito de Ormuz e no mar vermelho se inflamar.

Difícil saber se essa guerra vai ser curta ou longa, por um lado os EUA moveram um aparato que tem custos altíssimos, são bilhões por dia para sustentar porta aviões em guerra próximo a costa iraniana, o que obriga Trump aprofundar o conflito para conseguir alguma vantagem. Por outro lado, o Irã construiu em parceria com russos e chineses uma capacidade bélica de alta tecnologia capaz de sustentar bombardeios e fazer estragos por meses, e até anos...

Caso o Irã cair e os EUA triunfar no controle da região e de seus recursos, terá dado um passo importante para desacelerar a economia da China e isolar a Rússia. Mas se os EUA falhar, Trump terá dado um salto no abismo...

Por fim, a depender dos desdobramentos dessa guerra, vai sobrar também para a América Latina e Brasil. No curto prazo o preço do petróleo, pode gerar inflação e impactar economias dependentes da importação do óleo refinado. No longo prazo, se a China desacelerar, as exportações de commodites vão cair, gerando déficit na balança comercial e tensões econômicas difíceis de administrar. O governo Lula precisa desde já se preparar para esses impactos, pois terá consequências na eleição, assim como Cuba, que é altamente dependente da importação de petróleo, poderá ter sua situação ainda mais agravada. 

¨      Ataques ao Irã dão à China chance de se distinguir dos EUA

China condenou veementemente os ataques contra o Irã, que resultaram na morte do chefe de Estado e líder religioso Ali Khamenei. O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que houve uma "violação flagrante e grave da soberania" do Irã e que os princípios da Carta da ONU foram pisoteados.

Para a China, o Irã é, ao lado da Rússia, o mais importante fornecedor de gás e petróleo. Estima se que o país absorva 90% da produção iraniana de petróleo. A maior parte dessas exportações era realizada por meio de países intermediários e com a ajuda de frotas clandestinas, já que o Irã é alvo de duras sanções econômicas internacionais.

A partir de abril de 2025, as exportações iranianas de petróleo passaram a ser contabilizadas em renminbi, a moeda da República Popular da China. O motivo é a exclusão do Irã do sistema internacional de pagamentos ocidental Swift.

Após os ataques dos EUA e de Israel no fim de semana, o Irã interrompeu temporariamente o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, a faixa de mar de 50 quilômetros que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Isso paralisou uma das rotas mais importantes do comércio mundial de petróleo, por onde passa quase 20% do consumo global.

Dos 20 milhões de barris de petróleo bruto que atravessam o estreito diariamente, metade tem como destino a China, altamente dependente dessa produção de energia. Assim, Pequim vê sua segurança energética ameaçada caso o estreito permaneça fechado por um longo tempo devido a um conflito regional.

<><> Aliados políticos contra os EUA

O Irã e a China também mantêm fortes vínculos políticos. Desde 2023, o Irã é membro da aliança de segurança liderada por China e Rússia, a Organização para Cooperação de Xangai (OCX), e, desde 2024, é membro do Brics+, o bloco das maiores economias emergentes e que tem o Brasil como um de seus membros fundadores.

O "assassinato escancarado" do líder de um Estado soberano e a incitação à mudança de regime são inaceitáveis, afirmou o chanceler da China, Wang Yi, num telefonema neste domingo com o ministro do Exterior da Rússia, Serguei Lavrov. Ele lembrou que os ataques aconteceram em meio a negociações entre os EUA e o Irã sobre o programa nuclear iraniano.

A posição da China está em linha com a do presidente russo, Vladimir Putin, que classificou a morte de Khamenei como uma "violação cínica de todas as normas da moral e do direito internacional".

<><> Ataques ilegais pelo direito internacional

Na interpretação da China, os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, que resultaram na morte de Khamenei, violam o direito internacional e as normas básicas que regem as relações internacionais, o que também é dito por muitos juristas.

Para o jurista e especialista em direito internacional Christoph Safferling, da Universidade de Erlangen Nuremberg, o direito internacional é bastante claro. "Existe uma proibição abrangente do uso da força. A independência territorial e a integridade política de um Estado soberano devem ser respeitadas. E não é isso o que vemos neste caso", declarou ao portal alemão de notícias Tagesschau. "Esses ataques aéreos atingem o Irã como Estado soberano e são, portanto, ilegais segundo o direito internacional."

O uso da força pode ser legítimo em algumas situações, por exemplo na existência de um mandato da ONU, em casos de autodefesa ou diante de uma catástrofe humanitária iminente, diz Safferling. Os EUA alegaram autodefesa e uma ameaça iminente. "Contudo, estamos falando de dois Estados, os EUA e o Irã, que estavam em negociações. Aí não há como dizer que não havia mais tempo para adotar outras medidas."

<><> "Lei da selva"

A China critica, assim, o que chama de "lei da selva", em que o mais forte se impõe, se necessário, com bombas e mísseis. Em contraste a isso, as Nações Unidas existem para impedir o uso arbitrário da força militar.

captura por forças americanas do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro, e seu subsequente julgamento em Nova York preocupam profundamente Pequim. "O ano de 2026 não começou nada bem", disse o presidente da China, Xi Jinping, ao chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, na semana passada.

Segundo ele, os conflitos internacionais estariam demasiado entrelaçados, e o mundo estaria passando por um ponto de virada, com transformações profundas. Por isso, ao contrário dos EUA, a China afirma querer fortalecer as Nações Unidas.

Em paralelo, a China busca também uma maior aproximação com a Europa. Numa declaração conjunta após a visita de Merz, China e Alemanha reafirmaram sua visão de que os princípios da Carta das Nações Unidas e o direito internacional constituem a base da cooperação internacional.

<><> Risco na argumentação de Trump

A argumentação de Trump para os ataques ao Irã embute um risco: se a China se valer do mesmo raciocínio, poderia reivindicar o direito de cruzar o Estreito de Taiwan alegando autodefesa. A China considera Taiwan uma província rebelde e não tolera a independência da ilha.

Os argumentos de Trump também poderiam ser usados pela Rússia para justificar a guerra na Ucrânia. Putin alegou ter iniciado a "operação militar especial" para proteger a população russa, até mesmo por motivos humanitários.

Os ataques dos Estados Unidos ao Irã dão à China uma nova oportunidade para moldar a opinião pública a seu favor e questionar a liderança global de Washington. A China quer se apresentar como uma nação forte, mas responsável, que não recorre à força arbitrariamente e respeita o direito internacional – mesmo que uma tentativa à força de reunificação com Taiwan seja um de seus principais interesses.

¨      Bernhard Horstman: EUA-China e o prazo de 4 semanas para a guerra contra o Irã

A guerra contra o Irã continua – e assim permanecerá por algum tempo. Teerã está sendo bombardeada  até ser reduzida a escombros, a infraestrutura de hidrocarbonetos no Golfo está sendo desativada ou danificada, e a pressão econômica sobre a economia global começa a se fazer sentir.

Nenhum dos dois efeitos responde à questão de por que os EUA decidiram atacar o Irã.

O presidente americano, Trump, apresentou cerca de uma dúzia de razões diferentes, nenhuma das quais resiste a uma análise rigorosa. O Irã não estava produzindo armas nucleares, não construiu mísseis intercontinentais e não tinha intenção de atacar ninguém. Sua situação interna era e é estável.

Desde meados da década de 1980, os sionistas tentam levar os EUA a uma guerra com o Irã.

Em todo esse tempo, os EUA não cederam à pressão por bons motivos. Sugerir que essa pressão seja agora a raiz do conflito é simplista demais. Assim como sugerir que o atual escândalo Russiagate, também conhecido como os arquivos Epstein, tenha algo a ver com isso.

O império não é uma piada. Ele age por razões estratégicas.

É preciso ampliar a perspectiva para além dessas visões limitadas para que tudo faça sentido.

Andrew Korybko está certo quando afirma que esta campanha faz parte da grande estratégia de Trump contra a China.

O objetivo é obter o controle indireto das enormes reservas de petróleo e gás do Irã, para que possam ser usadas como arma contra a China, forçando-a a aceitar um acordo comercial desequilibrado que impediria sua ascensão como superpotência e, consequentemente, restauraria a unipolaridade liderada pelos EUA.

Essa é uma ideia do subsecretário de Guerra para Políticas, Elbridge Colby, e foi detalhada nesta análise do início de janeiro. Como foi escrito, “a influência dos EUA sobre as exportações de energia da Venezuela e, possivelmente em breve, do Irã e da Nigéria, bem como sobre as relações comerciais com a China, poderia ser usada como arma por meio de ameaças de redução ou cortes, em paralelo com a pressão sobre seus aliados do Golfo para que façam o mesmo, em busca desse objetivo”, que é forçar a China a aceitar um status de parceiro júnior indefinido em relação aos EUA por meio de um acordo comercial desequilibrado.

A China está bem ciente de que a estratégia dos EUA é direcionada contra ela. Essa é uma das razões pelas quais oferece apoio técnico e militar ao Irã, principalmente na forma de informações de inteligência, evitando, ao mesmo tempo, se envolver diretamente no conflito.

Relatórios de inteligência de 27 de fevereiro de 2026 indicaram que a China enviou “munições de ataque” (drones kamikaze) e sistemas de defesa aérea ao Irã pouco antes do início do ataque. Além do fornecimento de programas de mísseis pela China ao Irã, as negociações entre Pequim e Teerã continuaram para o fornecimento de mísseis antinavio supersônicos CM-302, uma tecnologia difícil de interceptar e considerada um divisor de águas na região. Além de fornecer segurança cibernética ao Irã, a China iniciou, em janeiro de 2026, uma estratégia para apoiar a soberania digital iraniana, substituindo softwares ocidentais por sistemas chineses fechados para proteção contra ciberataques israelenses e americanos. Com a reconstrução das capacidades de mísseis do Irã, a China contribuiu para compensar as perdas de armamento iranianas após os ataques de 2025, incluindo o fornecimento de mísseis balísticos avançados.

A perda do Irã causaria danos significativos à posição energética da China, visto que sua dependência das fontes de petróleo e gás do Golfo ainda é considerável. A China vem protegendo essa posição por meio de novos acordos energéticos com a Rússia.

Por um lado, a China leva em consideração o aumento dos riscos regionais no Oriente Médio. Segundo alguns relatos, o crescente interesse de Pequim no Gasoduto Força da Sibéria 2 foi desencadeado pela guerra Irã-Israel em junho. Com o aumento das preocupações sobre a confiabilidade do fornecimento de energia dos países árabes do Golfo, Pequim decidiu considerar alternativas — uma medida que se encaixa em sua estratégia geral de minimizar os riscos externos à segurança energética.

Por outro lado, à medida que se desenrola um confronto econômico com os EUA, a China busca reduzir a dependência do fornecimento de hidrocarbonetos de parceiros próximos de Washington, ao mesmo tempo que diminui ativamente as importações de petróleo e gás de fornecedores americanos. Nesse sentido, o aumento das compras de energia russa representa uma estratégia útil de proteção.

Diante disso, é interessante notar que Trump definiu hoje a duração de sua guerra contra o Irã em quatro semanas:

“Já estamos bem à frente das nossas projeções de tempo”, disse Trump. “Mas seja qual for o tempo, está tudo bem. Custe o que custar… Desde o início, projetamos de quatro a cinco semanas , mas temos capacidade para ir muito além disso”.

Trump visitará a China daqui a quatro semanas – de 31 de março a 2 de abril. Sua posição em relação à China já estava enfraquecida quando a Suprema Corte recentemente anulou seus decretos tarifários. O envolvimento em questões iranianas enfraqueceria ainda mais sua posição.

Mas chegar à China tendo obtido concessões do Irã seria uma vantagem para Trump. Ele poderia alegar que os EUA são capazes de mudar à força governos, no Irã e na Venezuela, que fornecem energia a Pequim. Uma vitória no Irã colocaria Trump em uma posição vantajosa para as negociações.

A China, por outro lado, vai querer evitar a perda do Irã. Seu interesse é ver os EUA atolados no Oriente Médio e com seus arsenais vazios. Tudo e todos que contribuírem para isso estarão a favor de Pequim.

O horizonte temporal de quatro semanas, portanto, é importante. É o prazo em que Trump precisa vencer. É o prazo que o Irã precisa manter para sair como um vencedor (nominal).

É preciso ter em mente as quatro semanas ao analisar o desenrolar dessa luta desigual.

 

Fonte: Brasil 247/DW Brasil/Viomundo


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