Gibran
Jordão: O futuro do Sul Global está sendo jogado no Irã
O
império sob a administração Trump está obstinado em derrubar o regime iraniano.
Junto com seu sócio israelense, começaram a implementar esse projeto em 2025,
com a guerra dos 12 dias, depois a desvalorização da moeda iraniana para gerar
inflação e revolta popular, infiltrando agentes para promover violência nas
ruas das cidades persas, e agora com uma agressão covarde, cercando o Irã por
todos os lados, assassinando a população civil inocente e um chefe de
estado. Khamenei não é só o líder supremo do Irã, mas o líder religioso mais
importante do mundo islâmico xiita. Trump conseguiu iniciar uma guerra
religiosa, que terá consequências por décadas.
O Irã é
um ponto de interseção geopolítico inaceitável para o império. Ao leste tem
projetos avançados com a China através da nova rota da seda, ferrovias de mais
de 10 mil km que ligam os dois países e comércio de energia e tecnologia que é
bastante vantajoso para ambos. Ao norte, uma parceria militar, nuclear e
cyberespacial com a Rússia, garantindo uma robusta capacidade de defesa para
ambos.
Ao
oeste, o país persa tem relações com grupos armados xiitas e sunitas que
combatem Israel, como o Hesbolah no Líbano, Hamas na Palestina e Houthis no
Iêmen. E ainda podemos dizer que ao "sul", o Iran é membro pleno do
BRICS, outro projeto de aliança do sul global que está diametralmente oposto à
necessidade do império em manter o sistema dólar.
Essas
articulações defensivas dos iranianos conseguem impor um poder na região, que é
intolerável para Israel e consequentemente para os EUA. Trump foi à TV duas
vezes, desde o início da agressão militar, para dizer que o povo do Irã deve
tomar o poder depois que eles terminarem o serviço, mas a única imagem que
vimos até agora, são de milhões de iranianos nas ruas de Teerã repudiando o que
eles consideram o martírio de Khamenei e jurando morte a América e a Israel.
Assim como, os protestos dentro dos EUA também tendem a crescer, destaque para
o 28 de março -- No Kings -- que promete ser o maior da história.
Embora
o Irã esteja sofrendo com o bombardeio, a população vai passar por dias de
penúria. A resposta militar das forças armadas persas está fazendo um estrago
considerável em toda região. A chuva de fogo com mísseis balísticos guiados por
sistemas de satélites avançados está atingindo com precisão bases militares
americanas e europeias na Arabia Saudita, no Emirados Árabes, Omã, Iraque e
Catar. Como também, Telaviv está sob forte bombardeio que está conseguindo
desmoralizar o "domo de ferro" israelense, promovendo destruição da
infraestrutura do país e deixando a população israelense em pânico. Os
primeiros caixões de soldados norte-americanos começaram a chegar e a promessa
de Trump de acabar com as guerras está se provando hoje que era somente mais
uma de suas centenas de mentiras para ganhar a eleição.
Essa
guerra vai gerar mais gastos econômicos para os EUA quanto mais tempo ela
durar e mais baixas os americanos vão sofrer, gerando mais problemas para a
atual administração Trump. Ao mesmo tempo, que o preço do barril de petróleo
deve oscilar, podendo gerar surtos inflacionarios em várias partes do mundo,
especialmente se a situação do estreito de Ormuz e no mar vermelho se inflamar.
Difícil
saber se essa guerra vai ser curta ou longa, por um lado os EUA moveram um
aparato que tem custos altíssimos, são bilhões por dia para sustentar porta
aviões em guerra próximo a costa iraniana, o que obriga Trump aprofundar o
conflito para conseguir alguma vantagem. Por outro lado, o Irã construiu em
parceria com russos e chineses uma capacidade bélica de alta tecnologia capaz
de sustentar bombardeios e fazer estragos por meses, e até anos...
Caso o
Irã cair e os EUA triunfar no controle da região e de seus recursos, terá dado
um passo importante para desacelerar a economia da China e isolar a Rússia. Mas
se os EUA falhar, Trump terá dado um salto no abismo...
Por
fim, a depender dos desdobramentos dessa guerra, vai sobrar também para a
América Latina e Brasil. No curto prazo o preço do petróleo, pode gerar
inflação e impactar economias dependentes da importação do óleo refinado. No
longo prazo, se a China desacelerar, as exportações de commodites vão cair,
gerando déficit na balança comercial e tensões econômicas difíceis de
administrar. O governo Lula precisa desde já se preparar para esses impactos,
pois terá consequências na eleição, assim como Cuba, que é altamente dependente
da importação de petróleo, poderá ter sua situação ainda mais agravada.
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Ataques ao Irã dão à China chance de se distinguir dos
EUA
A China condenou veementemente os ataques contra o Irã, que resultaram na morte do chefe de
Estado e líder religioso Ali Khamenei. O Ministério das
Relações Exteriores da China afirmou que houve uma "violação flagrante e
grave da soberania" do Irã e que os princípios da Carta da ONU foram
pisoteados.
Para a
China, o Irã é, ao lado da Rússia, o mais importante fornecedor de gás e
petróleo. Estima se que o país absorva 90% da produção iraniana de
petróleo. A maior parte dessas exportações era realizada por meio de países intermediários e com a ajuda
de frotas clandestinas, já que o Irã é alvo de duras sanções econômicas
internacionais.
A
partir de abril de 2025, as exportações iranianas de petróleo passaram a ser
contabilizadas em renminbi, a moeda da República Popular da China. O motivo é a
exclusão do Irã do sistema internacional de pagamentos ocidental Swift.
Após
os ataques dos EUA e de Israel no fim de
semana, o Irã interrompeu temporariamente o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, a faixa de mar de
50 quilômetros que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Isso paralisou uma
das rotas mais importantes do comércio mundial de petróleo, por onde passa
quase 20% do consumo global.
Dos 20
milhões de barris de petróleo bruto que atravessam o estreito diariamente,
metade tem como destino a China, altamente dependente dessa produção de
energia. Assim, Pequim vê sua segurança energética ameaçada caso o estreito
permaneça fechado por um longo tempo devido a um conflito regional.
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Aliados políticos contra os EUA
O Irã e
a China também mantêm fortes vínculos políticos. Desde 2023, o Irã é membro da
aliança de segurança liderada por China e Rússia, a Organização para Cooperação
de Xangai (OCX), e, desde 2024, é membro do Brics+, o bloco das maiores economias emergentes e que tem o
Brasil como um de seus membros fundadores.
O
"assassinato escancarado" do líder de um Estado soberano e a
incitação à mudança de regime são inaceitáveis, afirmou o chanceler da China,
Wang Yi, num telefonema neste domingo com o ministro do Exterior da Rússia,
Serguei Lavrov. Ele lembrou que os ataques aconteceram em meio a negociações entre os EUA e o Irã sobre o
programa nuclear iraniano.
A
posição da China está em linha com a do presidente russo, Vladimir Putin, que
classificou a morte de Khamenei como uma "violação cínica de todas as
normas da moral e do direito internacional".
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Ataques ilegais pelo direito internacional
Na
interpretação da China, os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, que
resultaram na morte de Khamenei, violam o direito internacional e as normas
básicas que regem as relações internacionais, o que também é dito por muitos
juristas.
Para o
jurista e especialista em direito internacional Christoph Safferling, da
Universidade de Erlangen Nuremberg, o direito internacional é bastante claro.
"Existe uma proibição abrangente do uso da força. A independência
territorial e a integridade política de um Estado soberano devem ser
respeitadas. E não é isso o que vemos neste caso", declarou ao portal
alemão de notícias Tagesschau. "Esses ataques aéreos atingem o Irã como
Estado soberano e são, portanto, ilegais segundo o direito internacional."
O uso
da força pode ser legítimo em algumas situações, por exemplo na existência de
um mandato da ONU, em casos de autodefesa ou diante de uma catástrofe
humanitária iminente, diz Safferling. Os EUA alegaram autodefesa e uma ameaça
iminente. "Contudo, estamos falando de dois Estados, os EUA e o Irã, que
estavam em negociações. Aí não há como dizer que não havia mais tempo para
adotar outras medidas."
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"Lei da selva"
A China
critica, assim, o que chama de "lei da selva", em que o mais forte se
impõe, se necessário, com bombas e mísseis. Em contraste a isso, as Nações
Unidas existem para impedir o uso arbitrário da força militar.
A captura por forças
americanas do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro, e seu
subsequente julgamento em Nova York preocupam profundamente Pequim. "O ano
de 2026 não começou nada bem", disse o presidente da China, Xi Jinping, ao
chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, na semana passada.
Segundo
ele, os conflitos internacionais estariam demasiado entrelaçados, e o mundo
estaria passando por um ponto de virada, com transformações profundas. Por
isso, ao contrário dos EUA, a China afirma querer fortalecer as Nações Unidas.
Em
paralelo, a China busca também uma maior aproximação com a Europa. Numa
declaração conjunta após a visita de Merz, China e Alemanha reafirmaram sua
visão de que os princípios da Carta das Nações Unidas e o direito internacional
constituem a base da cooperação internacional.
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Risco na argumentação de Trump
A
argumentação de Trump para os ataques ao Irã embute um risco: se a China se
valer do mesmo raciocínio, poderia reivindicar o direito de cruzar o Estreito
de Taiwan alegando autodefesa. A China considera Taiwan uma província rebelde e
não tolera a independência da ilha.
Os
argumentos de Trump também poderiam ser usados pela Rússia para justificar a
guerra na Ucrânia. Putin alegou ter iniciado a "operação militar
especial" para proteger a população russa, até mesmo por motivos
humanitários.
Os
ataques dos Estados Unidos ao Irã dão à China uma nova oportunidade para moldar
a opinião pública a seu favor e questionar a liderança global de Washington. A
China quer se apresentar como uma nação forte, mas responsável, que não recorre
à força arbitrariamente e respeita o direito internacional – mesmo que uma
tentativa à força de reunificação com Taiwan seja um de seus principais
interesses.
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Bernhard Horstman: EUA-China e o prazo de 4 semanas para
a guerra contra o Irã
A
guerra contra o Irã continua – e assim permanecerá por algum tempo. Teerã está
sendo bombardeada até ser reduzida a escombros, a infraestrutura de
hidrocarbonetos no Golfo está sendo desativada ou danificada, e a pressão
econômica sobre a economia global começa a se fazer sentir.
Nenhum
dos dois efeitos responde à questão de por que os EUA decidiram atacar o Irã.
O
presidente americano, Trump, apresentou cerca de uma dúzia de razões
diferentes, nenhuma das quais resiste a uma análise rigorosa. O Irã não estava
produzindo armas nucleares, não construiu mísseis intercontinentais e não tinha
intenção de atacar ninguém. Sua situação interna era e é estável.
Desde
meados da década de 1980, os sionistas tentam levar os EUA a uma guerra com o
Irã.
Em todo
esse tempo, os EUA não cederam à pressão por bons motivos. Sugerir que essa
pressão seja agora a raiz do conflito é simplista demais. Assim como sugerir
que o atual escândalo Russiagate, também conhecido como os arquivos Epstein,
tenha algo a ver com isso.
O
império não é uma piada. Ele age por razões estratégicas.
É
preciso ampliar a perspectiva para além dessas visões limitadas para que tudo
faça sentido.
Andrew
Korybko está certo quando afirma que esta campanha faz parte da grande estratégia de Trump
contra a China.
O
objetivo é obter o controle indireto das enormes reservas de petróleo e gás do
Irã, para que possam ser usadas como arma contra a China, forçando-a a aceitar
um acordo comercial desequilibrado que impediria sua ascensão como
superpotência e, consequentemente, restauraria a unipolaridade liderada pelos
EUA.
Essa é
uma ideia do subsecretário de Guerra para Políticas, Elbridge Colby, e foi
detalhada nesta análise do início de janeiro. Como foi escrito, “a influência
dos EUA sobre as exportações de energia da Venezuela e, possivelmente em breve,
do Irã e da Nigéria, bem como sobre as relações comerciais com a China, poderia
ser usada como arma por meio de ameaças de redução ou cortes, em paralelo com a
pressão sobre seus aliados do Golfo para que façam o mesmo, em busca desse
objetivo”, que é forçar a China a aceitar um status de parceiro júnior
indefinido em relação aos EUA por meio de um acordo comercial desequilibrado.
A China
está bem ciente de que a estratégia dos EUA é direcionada contra ela. Essa é
uma das razões pelas quais oferece apoio técnico e militar ao Irã, principalmente na
forma de informações de inteligência, evitando, ao mesmo tempo, se envolver
diretamente no conflito.
Relatórios
de inteligência de 27 de fevereiro de 2026 indicaram que a China enviou
“munições de ataque” (drones kamikaze) e sistemas de defesa aérea ao Irã pouco
antes do início do ataque. Além do fornecimento de programas de mísseis pela
China ao Irã, as negociações entre Pequim e Teerã continuaram para o
fornecimento de mísseis antinavio supersônicos CM-302, uma tecnologia difícil
de interceptar e considerada um divisor de águas na região. Além de fornecer
segurança cibernética ao Irã, a China iniciou, em janeiro de 2026, uma
estratégia para apoiar a soberania digital iraniana, substituindo softwares
ocidentais por sistemas chineses fechados para proteção contra ciberataques
israelenses e americanos. Com a reconstrução das capacidades de mísseis do Irã,
a China contribuiu para compensar as perdas de armamento iranianas após os
ataques de 2025, incluindo o fornecimento de mísseis balísticos avançados.
A perda
do Irã causaria danos significativos à posição energética da China, visto que
sua dependência das fontes de petróleo e gás do Golfo ainda é considerável. A
China vem protegendo essa posição por meio de
novos acordos energéticos com a Rússia.
Por um
lado, a China leva em consideração o aumento dos riscos regionais no Oriente
Médio. Segundo alguns relatos, o crescente interesse de Pequim no Gasoduto
Força da Sibéria 2 foi desencadeado pela guerra Irã-Israel em junho. Com o
aumento das preocupações sobre a confiabilidade do fornecimento de energia dos
países árabes do Golfo, Pequim decidiu considerar alternativas — uma medida que
se encaixa em sua estratégia geral de minimizar os riscos externos à segurança
energética.
Por
outro lado, à medida que se desenrola um confronto econômico com os EUA, a
China busca reduzir a dependência do fornecimento de hidrocarbonetos de
parceiros próximos de Washington, ao mesmo tempo que diminui ativamente as
importações de petróleo e gás de fornecedores americanos. Nesse sentido, o
aumento das compras de energia russa representa uma estratégia útil de
proteção.
Diante
disso, é interessante notar que Trump definiu hoje a duração de sua guerra
contra o Irã em quatro semanas:
“Já
estamos bem à frente das nossas projeções de tempo”, disse Trump. “Mas seja
qual for o tempo, está tudo bem. Custe o que custar… Desde o início,
projetamos de quatro a cinco semanas , mas temos capacidade para ir muito
além disso”.
Trump
visitará a China daqui a quatro semanas – de 31 de março a 2 de abril. Sua
posição em relação à China já estava enfraquecida quando a Suprema Corte
recentemente anulou seus decretos tarifários. O envolvimento em questões
iranianas enfraqueceria ainda mais sua posição.
Mas
chegar à China tendo obtido concessões do Irã seria uma vantagem para Trump.
Ele poderia alegar que os EUA são capazes de mudar à força governos, no Irã e
na Venezuela, que fornecem energia a Pequim. Uma vitória no Irã colocaria Trump
em uma posição vantajosa para as negociações.
A
China, por outro lado, vai querer evitar a perda do Irã. Seu interesse é ver os
EUA atolados no Oriente Médio e com seus arsenais vazios. Tudo e todos que
contribuírem para isso estarão a favor de Pequim.
O
horizonte temporal de quatro semanas, portanto, é importante. É o prazo em que
Trump precisa vencer. É o prazo que o Irã precisa manter para sair como um
vencedor (nominal).
É
preciso ter em mente as quatro semanas ao analisar o desenrolar dessa luta
desigual.
Fonte:
Brasil 247/DW Brasil/Viomundo

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