quinta-feira, 5 de março de 2026

Educação para as massas: o sistema de ensino na União Soviética

27 de fevereiro, marca o aniversário de falecimento da educadora Nadejda Krupskaya, uma das principais responsáveis pelo desenvolvimento do sistema educacional soviético. Aproveitamos a ocasião para relembrar uma das mais singulares experiências educacionais do século 20, quando as escolas foram convertidas em sustentáculos de um abrangente projeto de transformação política e social.

A União Soviética se destacou por conquistar índices excepcionais de alfabetização e universalização do ensino em poucas décadas. As reformas conduzidas após a Revolução de Outubro tornaram o ensino soviético uma referência em diversas áreas do saber e pavimentaram o caminho para a ascensão do país ao status de potência mundial.

Primeiras políticas educacionais do governo soviético formuladas pelo intelectual Anatóli Lunatcharski e a educadora Nadejda Krupskaya permitiu que mulheres tivessem voz ativa na política e  no trabalho

<><> Educar para transformar

Até o início do século 20, o Império Russo detinha alguns dos piores indicadores educacionais do continente europeu. Os censos realizados nas últimas décadas do século 19 apontavam que cerca de 75% da população russa era analfabeta — índice que chegava a quase 90% entre as mulheres.

A taxa de analfabetismo geral do país era quase o dobro da média dos países da Europa Ocidental. A educação das massas era vista como uma potencial ameaça tanto pela aristocracia czarista quanto pela hierarquia da igreja ortodoxa, resultando em um sistema de ensino excessivamente limitado, controlado e elitizado.

Com o triunfo da Revolução de Outubro de 1917, a democratização da educação e a reforma do ensino tornaram-se prioridades centrais do governo soviético. Baseando-se na proposta de educação marxista, o governo revolucionário buscou desassociar o ensino das relações de produção e reorientá-lo em favor de uma concepção omnilateral, que permitisse aos estudantes agregar conhecimentos e conceitos científicos sob uma perspectiva mais abrangente e contextualizada.

A proposta era a de favorecer o enfoque crítico na compreensão das relações de classe e das formas de desenvolvimento social e aguçar a conscientização política. A educação era compreendida como um instrumento fundamental para a construção de uma sociedade mais igualitária.

<><> Educação pré-escolar e campanhas de alfabetização

O intelectual Anatóli Lunatcharski e a educadora Nadejda Krupskaya foram responsáveis por formular as primeiras políticas educacionais do governo soviético.

A expansão da rede de creches e as campanhas de alfabetização em larga escala foram privilegiadas desde o início. As creches e centros infantis eram vistos como essenciais, não apenas pela perspectiva de fomentar uma nova consciência na classe estudantil, mas também por permitirem a emancipação feminina, liberando as mulheres para a participação ativa na política, na força de trabalho e em outras áreas da vida social.

Assim, o governo soviético criou uma vasta rede de instalações de educação pré-escolar, voltada a abrigar crianças desde os três meses até os sete anos de idade. Nos anos setenta, o sistema de creches e escolas do jardim de infância já agregava 12 milhões de crianças.

Em 1919, Lenin lançou o “Likbez”, a campanha de erradicação do analfabetismo, responsável por mobilizar centenas de milhares de estudantes, professores e intelectuais em um esforço nacional que tinha como lema “Aqueles que sabem ler e escrever devem ensinar os que não sabem”.

Entre 1920 e 1940, cerca de 60 milhões de adultos foram alfabetizados, ao passo que a escolarização de crianças e adolescentes foi universalizada. Ao fim da década de 1960, o analfabetismo estava erradicado na União Soviética. A porcentagem de pessoas alfabetizadas chegava a 99,8% entre os homens e 99,7% entre as mulheres — um índice superior ao de nações capitalistas avançadas como Estados Unidos, França e Itália.

Outra importante política educacional implementada nos primeiros anos após a revolução foi a “Korenizatsiia” (ou “Indigenização”). A política buscava reverter o autoritário processo de “russificação” que era imposto pelo regime czarista.

O governo soviético passou a privilegiar o uso das línguas maternas e regionais na educação e comunicação institucional, mas o russo continuou sendo ensinado em escolas bilíngues, transformando-se na “língua franca” da federação.

<><> Da educação básica ao ensino superior

O desenho do sistema de ensino soviético foi estabelecido pelo estatuto escolar de 1923, inspirado no chamado “Plano Dalton” — um programa educacional elaborado pela educadora Helen Parkhurst.

Toda a rede de ensino soviética era pública e gratuita e costumava operar em três turnos — matutino, vespertino e noturno. As escolas de ensino básico, cuja frequência era compulsória para todas as crianças e adolescentes, eram organizadas em três níveis: ensino inicial (da 1ª à 4ª série), ensino secundário incompleto (da 5ª à 8ª série) e ensino secundário completo (da 9ª à 11ª série).

Havia também o chamado ensino secundário especializado, fornecido pelas Escolas Vocacionais e Escolas Técnicas Profissionais, que aliavam o currículo base com ensino profissionalizando, oferecendo cursos que iam de cabeleireiro a mecânico, passando por marcenaria, tecelagem e desenho militar.

O ensino superior, por sua vez, era fornecido por uma ampla rede de universidades, faculdades e institutos especializados. O governo soviético inaugurou mais de 800 instituições de ensino superior. Os investimentos foram bastante expressivos. O orçamento do ensino superior saltou de 86 milhões de rublos em 1934 para 219 milhões de rublos em 1938.

Não havia um método seletivo unificado para ingresso nas universidades. Cada instituição tinha autonomia para desenvolver seu próprio exame ou processo admissional. Os estudantes universitários tinham direito a uma bolsa mensal concedida pelo governo para cobrir os custos com moradia, alimentação e transporte. Os valores variavam de acordo com o curso, a instituição e o desempenho acadêmico do estudante.

O governo soviético instituiu diversas políticas para estimular a participação feminina no ensino superior. Em meados do século 20, o país já possuía a maior proporção de mulheres com ensino superior do mundo. Nos anos 60, por exemplo, 40% dos doutorados em química na União Soviética eram mulheres — um índice que não chegava a 5% nos Estados Unidos.

Em paralelo ao ensino formal, o governo soviético oferecia uma ampla gama de “clubes especiais”, onde os cidadãos podiam se matricular para frequentar cursos gratuitos em diversas áreas, de fotografia a design de aeronaves passando por línguas estrangeiras. Os jovens soviéticos também podiam frequentar uma ampla gama de cursos e atividades complementares ofertadas pelo Movimento dos Pioneiros, a versão soviética do escotismo.

O governo soviético também empreendeu uma série de campanhas de educação comportamental baseada em formação de valores, abordando tópicos como autonomia, independência, disciplina, autocontrole, vida em sociedade e colaboração. O principal responsável por estabelecer as diretrizes dessas campanhas foi o pedagogo Anton Makarenko, que se destacou por seu trabalho de reeducação e reinserção de órfãos e jovens infratores na sociedade.

Makarenko publicou em 1938 o “Livro dos Pais”, um guia para a educação familiar e comportamental que estimulava a participação dos pais no cotidiano escolar dos filhos. O pedagogo também desenvolveu um importante projeto experimental voltado ao desenvolvimento do espírito coletivo na Colônia Gorki e na Comuna Dzerjinski.

<><> O ensino soviético no pós-guerra

A Segunda Guerra Mundial e a invasão da União Soviética pelas tropas nazistas tiveram consequências devastadoras no campo da educação e da formação de mão de obra especializada.

O governo soviético empreendeu um grande esforço para restaurar a rede de ensino durante o pós-guerra e conduziu campanhas de incentivo à formação de quadros em áreas estratégicas, sobretudo nas áreas de exatas, ciência e tecnologia, essenciais para o desenvolvimento do programa espacial e da indústria bélica.

Nos anos setenta, a União Soviética já havia recuperado plenamente seu sistema de ensino e já contava com mais de 5 milhões de estudantes de graduação. Também passou a fornecer vagas para estudantes oriundos dos países periféricos, por intermédio da criação da Universidade da Amizade dos Povos “Patrice Lumumba” (UDN).

O ensino soviético sofreu alterações profundas a partir dos anos oitenta, em meio ao processo de desmonte do governo socialista empreendidas por Mikhail Gorbachev. Diversas disciplinas foram retiradas do currículo e a perspectiva marxista-leninista foi substituída por uma alegada “neutralidade política”.

Após a dissolução da União Soviética, grande parte da rede de ensino foi privatizada. O ensino básico segue gratuito, mas foi submetido a um intenso subfinanciamento que levou à perda de qualidade e ao sucateamento das escolas.

O ensino superior foi majoritariamente entregue à iniciativa privada, passando a cobrar mensalidades. O Estado mantém um sistema de vouchers para subvenção de estudantes de baixa renda, mas parcelas significativas da população voltaram a ser excluídas do ensino superior. O país segue ostentando bons indicadores educacionais, mas índices como evasão escolar voltaram a crescer nos últimos anos.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

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