Irã:
o último obstáculo ao plano de domínio dos EUA no Oriente Médio – e no mundo
O
ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã voltou a desestabilizar o
tabuleiro internacional, aproximando uma das regiões de equilíbrios mais
delicados do planeta de uma guerra de consequências imprevisíveis.
Diferentemente do ataque contra a Venezuela em 3 de janeiro, que precisou de
apenas algumas horas para ser concluído com sucesso, a “Operação Fúria Épica”
não alcançou seu principal objetivo, decapitar completamente o governo
iraniano, embora tenha conseguido tirar a vida do aiatolá Ali Khamenei. O
resultado coloca os EUA em uma situação delicada, na qual devem escolher entre
continuar uma guerra impopular ou mudar de estratégia.
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Um objetivo cumprido pela metade
Após um
dia de informações confusas e contraditórias, o governo iraniano confirmou a
morte do Líder Supremo, Ali Khamenei, no ataque de 28 de fevereiro. Também foi
confirmada a morte do ministro da Defesa do Irã, Amir Nasirzadeh, e do
comandante da Guarda Revolucionária, Mohammed Pakpour. O presidente do país,
Masoud Pezeshkian, segue vivo, e o restante da cúpula do governo permanece
intacto.
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O
modelo de intervenção na Venezuela — no qual Washington conseguiu dobrar um
governo inimigo ao decapitar sua liderança e forçar políticas favoráveis aos
seus interesses — não parece, por enquanto, viável no Irã. No entanto, tanto
Israel quanto os Estados Unidos afirmam que os ataques continuarão até alcançar
uma “mudança de regime”. Após a confirmação da morte de Khamenei, Trump afirmou
que essa solução “está mais próxima”.
A
escritora e analista iraniana Nazanín Armanian explicou neste sábado (28), em
entrevista à RTVE, que a saída venezuelana não é um cenário tão
distante nem inverossímil. Nos ataques de junho de 2025, Israel assassinou 20
altíssimos comandantes da Guarda Revolucionária e da inteligência do país, um
golpe do qual o Irã ainda não se recuperou, explica Armanian. Com essa ação,
Israel não apenas conseguiu “decapitar” o exército, mas também a direção
política do país, dado o enorme poder que as forças armadas possuem no Irã.
“Não são os aiatolás que comandam o Irã, são os militares”, sustenta.
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E o
poder do exército também se estende à economia, continua Armanian, onde as
forças armadas controlam amplos setores e desempenham um papel predominante nas
decisões. A decapitação do exército contribuiu para uma crise econômica que
levou ao colapso do rial iraniano, uma situação que intensificou os protestos
contra o governo.
Segundo
declarou o ministro das Relações Exteriores de Omã horas antes do ataque, o
acordo com o Irã estava próximo e poderia ser alcançado em um dia, embora tenha
advertido que uma ação militar o faria fracassar.
Os
Estados Unidos não buscam uma guerra longa nem uma invasão terrestre, afirma
Armanian, mas sim “um militar sem barba que assuma o poder a partir do
próprio sistema”, para também desativar qualquer sinal de uma “revolução
democrática e republicana” que possa substituir o modelo de governo vigente
desde 1979. A fragilidade do Estado iraniano, ainda afetado pelas sanções,
pelos protestos e pela decapitação de sua cúpula militar, explica por que a
tentação da via venezuelana foi tão forte. No entanto, o desenrolar do primeiro
dia da operação militar contra o Irã deixa claro que não será tão fácil para os
Estados Unidos alcançarem seus objetivos.
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As negociações podiam funcionar — e isso era um problema
Os
ataques dos Estados Unidos e de Israel ocorreram apenas um dia após a última
rodada de negociações com o Irã. Negociações que, segundo o ministro das
Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi — um dos mediadores —, estavam
avançando bem. Horas antes do início dos ataques, Albusaidi declarou no
programa de TV Face the Nation (Encare a Nação, em tradução
livre) que “um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã já está ao alcance”. Um
acordo baseado no compromisso de que o Irã “nunca” possuiria armas nucleares
graças a uma “verificação rigorosa” da comunidade internacional.
Segundo
o ministro omanense, o acordo poderia ser alcançado em um dia, embora tenha
advertido que uma ação militar o faria fracassar. Ao saber que os Estados
Unidos haviam sabotado as negociações quando elas poderiam prosperar, expressou
sua consternação nas redes sociais:
Estou
consternado. Mais uma vez, negociações ativas e sérias foram minadas. Isso não
beneficia nem os interesses dos Estados Unidos nem a causa da paz mundial. E
rezo pelos inocentes que sofrerão. Insto os Estados Unidos a não se deixarem
arrastar ainda mais. Esta não é sua guerra.Badr Albusaidi, ministro das Relações
Exteriores de Omã
A
afirmação de Trump de que o ataque preventivo contra o Irã pretendia evitar que
Teerã obtivesse a bomba atômica entra em choque com declarações anteriores da
própria Casa Branca, que havia repetido várias vezes que os ataques de junho de
2025 contra o Irã haviam destruído o programa nuclear do país.
“Nós
arrasamos tudo e agora querem começar do zero”, disse Trump durante seu
discurso anual sobre o Estado da União, em 24 de fevereiro. A porta-voz da Casa
Branca, Karoline Leavitt, também confirmou nesta semana que o ataque “destruiu
as instalações nucleares do Irã”. Diante de um relatório de inteligência que
sugeria que nem todo o programa havia sido destruído, Leavitt afirmou que se
tratava de “uma avaliação totalmente equivocada”, destinada a “difamar o
presidente Trump e desacreditar os valentes pilotos” que bombardearam o Irã.
“Todos sabemos o que acontece quando se lançam 14 bombas de 13.600 quilos sobre
seus alvos: uma aniquilação total”, declarou.
O
governo russo condenou duramente o ataque e acusou os Estados Unidos de
utilizarem as negociações para “encobrir” uma ofensiva que vinham preparando há
tempos. “Mais uma vez, ataques sob o pretexto de um novo processo de
negociação”, criticou o ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov.
“Todos
sabemos o que acontece quando se lançam 14 bombas de 13.600 quilos sobre seus
alvos: uma aniquilação total”, declarou a porta-voz da Casa Branca, Karoline
Leavitt, há alguns meses.
O
ataque preventivo contra o Irã pretende forçar a queda do sistema herdado da
Revolução de 1979, que destituiu o Xá. A ofensiva segue a chamada Doutrina
Carter, estabelecida pelo presidente dos Estados Unidos em 1980 e que defendia
o direito de utilizar a força militar para controlar o Golfo Pérsico, inclusive
para impedir que qualquer outra potência exercesse esse controle. É essa
doutrina, destaca Armanian, que explica a política dos Estados Unidos nas
últimas quatro décadas, uma estratégia traduzida em duas linhas paralelas: por
um lado, enfraquecer o Iraque e o Irã; e, por outro, fortalecer Israel como
potência hegemônica na região.
Acabar
com os aiatolás e com a Guarda Revolucionária, bem como com sua influência no
Oriente Médio, é o último passo dessa estratégia para controlar uma região por
onde passam diariamente 18 milhões de barris de petróleo destinados à
Europa, China, Índia e Japão, afirma a analista. “O controle do Oriente Médio
faz com que os Estados Unidos controlem o mundo”, resume. Para essa
cientista política, após perder a guerra tecnológica para a China, os Estados
Unidos pretendem vencer no único campo em que ainda mantêm vantagem: o militar.
“O ataque é uma demonstração militar para a China”, país que se tornou o
principal comprador do petróleo iraniano, afirma.
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O problema não é apenas o Irã. Uma guerra regional?
Apesar
das evidências de que o Irã estava disposto a conceder tudo o que os Estados
Unidos exigiam — ou justamente por isso —, a necessidade de intervenção militar
tornou-se uma questão urgente. “Esta é uma guerra de oportunidade”, explica Ali
Vaez, do Crisis Group, em declarações à Al Jazeera, diante da “fraqueza
histórica” demonstrada pelo Irã após semanas de mobilizações que provocaram
entre 3 mil e 5 mil mortes de manifestantes, segundo dados da Anistia
Internacional.
O
analista Gérard Araud, também do Crisis Group, apontou paralelos com a invasão
do Iraque:
Este
é um momento de 2003… Há um agressor, há uma violação flagrante do direito
internacional. Não podemos permanecer em silêncio. É paradoxal pressionar os
iranianos que assinaram e implementaram um acordo que os Estados Unidos
violaram.Gérard
Araud, analista do Crisis Group
O Irã
reagiu, assim como em junho de 2025, com ondas de ataques contra Israel,
incluindo Jerusalém, Haifa e Tel Aviv, além de ataques contra bases dos Estados
Unidos no Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrein.
Por
volta das 15h de 28 de fevereiro, a Arábia Saudita confirmou que o Irã havia
atacado Riade, capital do país, embora os mísseis tenham sido neutralizados,
sem causar mortes. Todos os governos da região atingidos pela resposta iraniana
reservaram-se o “pleno direito” de responder militarmente a Teerã. “Diante
desta agressão injustificada, o Reino afirma que tomará todas as medidas
necessárias para defender sua segurança e proteger seu território, cidadãos e
residentes, incluindo a opção de responder à agressão”, afirmou o governo
saudita. A Guarda Revolucionária declarou que não haveria “linhas vermelhas”
para responder aos ataques dos Estados Unidos e de Israel.
A
possibilidade de um conflito regional volta a ameaçar uma das regiões-chave
para o fluxo mundial de petróleo. Os rebeldes houthis no Iêmen, aliados de
Teerã, anunciaram que retomarão os ataques contra navios israelenses e
norte-americanos no estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o Oceano Índico ao
Mar Vermelho.
Segundo
diversas fontes, a Guarda Revolucionária ordenou na tarde de 28 de fevereiro o
fechamento do Estreito de Ormuz, por onde circula um quarto do petróleo mundial. Um funcionário da
Operação Aspides, uma articulação naval da União Europeia na região, afirmou
ter interceptado transmissões da Guarda Revolucionária indicando que “nenhum
navio pode passar pelo Estreito de Ormuz”. Trata-se de uma rota obrigatória
para petroleiros que viajam dos países produtores do Golfo Pérsico para o
restante do mundo. Um bloqueio prolongado do estreito — com o qual o Irã ameaça
há anos em caso de ataque — implicaria uma escalada dos preços e uma potencial
crise econômica de escala global.
¨ Tucker Carlson afirma
que guerra contra o Irã atende a interesses de Israel e cobra retirada imediata
dos EUA
O
comentarista norte-americano Tucker Carlson publicou um longo vídeo em seu
canal no YouTube no qual sustenta que o conflito não foi iniciado por razões de
segurança nacional dos Estados Unidos, mas por pressão direta do governo de
Israel. Ao organizar sua análise em torno de quatro perguntas — por que a
guerra começou, qual é seu objetivo, para onde ela pode evoluir e como os EUA
deveriam responder — Carlson defendeu que Washington precisa rever
imediatamente sua posição e encerrar seu envolvimento.
Logo no
início, ele afirma que, diante de um evento “que pode mudar a história do
mundo”, é fundamental buscar clareza. Segundo Carlson, “isso aconteceu
porque Israel queria que acontecesse. Esta é a guerra de Israel. Esta não é a
guerra dos Estados Unidos”. Para ele, o conflito não foi motivado por
interesses estratégicos americanos nem por uma ameaça nuclear iminente do Irã,
mas por um projeto político defendido há décadas pelo primeiro-ministro
israelense, Benjamin Netanyahu.
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Decisão política e disputa de narrativas
Carlson
sustenta que dizer isso abertamente no começo do conflito é essencial para
evitar que, no futuro, a história seja recontada sob outra versão. Ele
argumenta que guerras costumam ser reinterpretadas ao longo do tempo e que
mentiras repetidas acabam se tornando consenso.
“Você
não sabe o que o futuro vai acreditar sobre o presente. Você não sabe como a
história será escrita”, afirma. Na sua avaliação, a pressão por uma mudança de
regime em Teerã teria sido defendida reiteradamente por Netanyahu junto à Casa
Branca. “Os Estados Unidos não tomaram a decisão aqui. Benjamin
Netanyahu tomou”, diz.
O
comentarista também rejeita a tese de que a ofensiva tenha sido motivada por
uma ameaça nuclear iminente. “Eles não estavam à beira de conseguir
armas nucleares. (…) Se isso fosse realmente sobre isso, como essa ameaça
poderia ter durado 40 anos?”, questiona.
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Hegemonia regional como objetivo
Ao
discutir o que estaria por trás da estratégia israelense, Carlson afirma que o
objetivo central seria a hegemonia regional. “O ponto é hegemonia
regional. Super simples”, declara. Segundo ele, Israel buscaria consolidar
poder absoluto no Oriente Médio, removendo adversários estratégicos como o Irã
e enfraquecendo qualquer força capaz de impor limites às suas ações.
Ele
reconhece que o Irã financia grupos armados hostis a Israel, como Hezbollah,
Hamas e os Houthis, mas afirma que a lógica do conflito vai além disso. Para
Carlson, trata-se de uma disputa clássica entre potências por primazia
geopolítica, e não de uma guerra moral entre “bem” e “mal”.
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Impacto sobre Estados do Golfo e Europa
No
vídeo, Carlson amplia a análise e sustenta que o conflito atinge diretamente os
Estados do Golfo — como Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait,
Omã e Bahrein —, além da Europa. Ele argumenta que a instabilidade na região
ameaça infraestrutura energética vital para a economia global e pode gerar
consequências econômicas severas, incluindo inflação e crises de abastecimento.
Segundo
ele, um dos efeitos mais imediatos seria o impacto sobre o fornecimento de gás
natural liquefeito do Catar, essencial para países europeus. Além disso, alerta
para o risco de uma nova onda de refugiados caso o Irã mergulhe em caos
interno.
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Críticas à política externa dos EUA
Carlson
afirma que a liderança política em Washington, tanto democratas quanto
republicanos, apoiaria majoritariamente a escalada militar, mesmo sem amplo
respaldo popular. Ele critica declarações de autoridades americanas que
minimizam a possibilidade de envio de tropas terrestres, sugerindo que mudanças
de regime não podem ser alcançadas apenas por ataques aéreos.
Para
ele, o envolvimento prolongado dos EUA tende a gerar mais instabilidade, mortes
e desgaste político interno. “Declarar vitória e ir para casa” seria,
em sua visão, o caminho mais prudente para evitar uma escalada imprevisível.
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Risco de ampliação do conflito
O
comentarista também alerta para o risco de uma escalada que envolva armas mais
sofisticadas ou até armamentos nucleares, caso Israel se sinta ameaçado de
forma existencial. Ele menciona ainda a sensibilidade extrema em torno de
locais religiosos em Jerusalém, cujo eventual ataque poderia desencadear um
conflito religioso de proporções globais.
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Política doméstica e desclassificação de documentos
Além da
dimensão militar, Carlson afirma que o conflito agrava divisões internas nos
Estados Unidos e intensifica a desconfiança pública em relação ao governo. Ele
defende a desclassificação de documentos históricos — incluindo arquivos sobre
o assassinato de John F. Kennedy e os ataques de 11 de setembro — como forma de
restaurar a confiança institucional.
Na sua
avaliação, a falta de transparência alimenta suspeitas e teorias
conspiratórias, corroendo a coesão nacional.
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Críticas a lideranças religiosas e tom final
Em
parte final do vídeo, Carlson aborda o papel de líderes religiosos
norte-americanos que apoiam a guerra. Ele critica sermões que, segundo ele,
justificam violência em nome da fé cristã. Citando um trecho de uma oração
atribuída a John Henry Newman, ele encerra defendendo uma visão de paz e
prudência.
“Nenhuma
espada é erguida senão a espada da justiça, nenhuma força é conhecida senão a
força do amor”,
cita.
Ao
concluir, Carlson reafirma sua posição de que os Estados Unidos devem
interromper imediatamente seu envolvimento direto no conflito e priorizar a
proteção de seus cidadãos e interesses nacionais. Para ele, prolongar a guerra
no Oriente Médio aumentará os riscos globais e aprofundará divisões internas
sem trazer ganhos estratégicos claros para o país.
Fonte:
El Salto/Brasil 247

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