Reynaldo
José Aragon: Governar é antecipar - a estratégia que decidirá 2026
O Brasil entra em um ciclo de alta tensão
marcado por crise internacional, disputa informacional e reorganização da
extrema-direita. Nesse cenário, não basta governar nem comunicar bem. É preciso
antecipar ataques, preparar a percepção coletiva e disputar o sentido da
realidade antes que ele seja capturado por operações políticas, econômicas e
psicológicas. A diferença entre estabilidade e colapso não estará nos fatos,
mas em quem chegar primeiro à mente da sociedade.
<><> O tempo da política foi
capturado pela antecipação
A política contemporânea deixou de operar no
tempo dos acontecimentos e passou a se organizar no tempo da percepção.
Investigações sobre plataformas digitais, intensificadas após o escândalo
envolvendo Facebook e Cambridge Analytica, evidenciaram que conteúdos baseados
em medo, conflito e indignação são privilegiados por sistemas de recomendação.
Isso alterou o próprio funcionamento do debate público: quem antecipa a
interpretação de um fato passa a controlar seus efeitos.
As instituições, no entanto, ainda operam em
um tempo que já não existe. A lógica dominante continua sendo anunciar, reagir
e corrigir. Esse modelo foi funcional em um ambiente de comunicação mais lento
e concentrado. Hoje, ele produz vulnerabilidade. No Brasil, episódios recentes
envolvendo ajustes em sistemas digitais de pagamento e debates sobre regulação
tecnológica seguiram o mesmo padrão: decisões que exigiam compreensão pública
chegaram sem preparação e foram rapidamente absorvidas como ameaça.
Nesse ambiente, não existe fato neutro. Toda
decisão entra em disputa no instante em que é percebida. Quando não há
construção prévia de sentido, esse espaço é ocupado por interpretações mais
simples, mais emocionais e mais rápidas. Governar, portanto, deixou de ser
apenas decidir corretamente. Passou a exigir algo anterior: organizar como a
sociedade compreenderá a decisão antes que ela exista.
<><> A extrema-direita atua antes
do acontecimento
A extrema-direita contemporânea não opera no
tempo da reação, mas no da preparação. Sua força está na capacidade de
estruturar, com antecedência, o modo como os fatos serão recebidos. Antes que
um evento ocorra, já existe uma moldura interpretativa pronta, geralmente
baseada em insegurança, ameaça moral e desconfiança institucional.
Esse padrão é observável. Nos Estados Unidos,
a construção antecipada de desconfiança sobre o sistema eleitoral antecedeu a
contestação dos resultados em 2020. No Brasil, o mesmo mecanismo se manifesta
na amplificação recorrente de episódios de violência urbana como prova de
colapso permanente, na mobilização de pautas religiosas como campo de conflito
político e na tentativa de reconfiguração de trajetórias de atores antes
associados ao radicalismo.
Não se trata de reação a fatos isolados, mas
da produção de um ambiente. Quando o acontecimento finalmente ocorre, ele já
encontra um significado pronto. Nesse ponto, o debate deixa de ser sobre o que
aconteceu e passa a ser sobre a confirmação de algo previamente estabelecido.
A assimetria é decisiva: enquanto um lado
prepara o sentido antes do fato, o outro ainda tenta explicá-lo depois. Em um
ambiente regido por velocidade e emoção, isso define quem conduz e quem reage.
<><> Crises são traduzidas, não
apenas vividas
Crises contemporâneas não chegam à sociedade
como fatos brutos. Elas chegam já interpretadas. Guerra, energia, inflação e
ruptura logística produzem efeitos materiais reais, mas seu impacto político
decorre da forma como esses efeitos são traduzidos.
O cenário internacional recente ilustra esse
mecanismo. Tensões no Oriente Médio que pressionam rotas estratégicas elevam o
preço do petróleo, encarecem o transporte e impactam alimentos. Esse
encadeamento é estrutural. No cotidiano, porém, ele é simplificado: o aumento
da gasolina passa a ser percebido como decisão direta do governo. O mesmo
ocorre com a inflação alimentar. Cada ida ao supermercado ou ao posto de
combustível se torna uma experiência política imediata.
No Brasil, esse processo já é visível.
Oscilações de preço, mesmo quando vinculadas a dinâmicas globais, são
rapidamente convertidas em narrativa de culpa local. Onde há cadeia,
constrói-se culpado. Onde há processo, impõe-se simplificação.
Se não houver antecipação, a crise econômica
deixa de ser apenas um desafio de gestão e passa a ser instrumento de desgaste
político. Quem não disputa o significado da crise perde o controle sobre seus
efeitos.
<><> O erro estratégico: decidir
antes de preparar
O principal ponto de vulnerabilidade não está
apenas na ofensiva adversária, mas na forma como decisões são introduzidas no
espaço público. Políticas continuam sendo anunciadas como se chegassem a um
terreno neutro. Não chegam. Elas entram em um ambiente já estruturado por
suspeitas, simplificações e enquadramentos prontos.
No Brasil, esse padrão se repetiu em
episódios recentes. Ajustes em sistemas digitais de pagamento, que exigiam
compreensão técnica mínima, foram rapidamente interpretados como mecanismos de
controle. Debates sobre regulação tecnológica, antes mesmo de amadurecerem,
passaram a ser apresentados como ameaça à liberdade.
Quando uma decisão é apresentada sem
preparação prévia, abre-se um intervalo que não permanece vazio. Esse espaço é
ocupado por narrativas mais simples, mais emocionais e mais rápidas. A
explicação posterior, por mais correta que seja, chega como defesa, não como
orientação.
O resultado é um ciclo previsível: reação
negativa, desgaste acelerado e, muitas vezes, recuo. Não por erro técnico, mas
por erro de tempo. Em ambiente polarizado, a surpresa é interpretada como
ameaça.
Inoculação e pré-bunking como método de
governo
A governabilidade passa a depender de uma
capacidade específica: preparar a sociedade antes que a disputa se estabeleça.
Esse princípio encontra base na psicologia social. Estudos clássicos de William
McGuire demonstraram que indivíduos expostos previamente a versões
enfraquecidas de um argumento desenvolvem resistência a ele. Pesquisas mais
recentes conduzidas por Sander van der Linden, na Universidade de Cambridge,
mostram que intervenções de inoculação cognitiva reduzem a suscetibilidade à
desinformação ao antecipar seus padrões.
O pré-bunking é a aplicação dessa lógica no
ambiente político contemporâneo. Em vez de desmentir depois, antecipa-se o
ataque, expõe-se sua estrutura e oferece-se uma chave interpretativa antes da
circulação massiva.
Isso exige método. Antes de qualquer decisão
relevante, é necessário identificar três elementos: quais narrativas serão
mobilizadas, quais emoções serão ativadas e quais simplificações serão
utilizadas. A partir disso, constrói-se previamente o entendimento público.
Sem esse procedimento, o governo entra na
disputa sempre em desvantagem. Com ele, passa a definir, desde o início, as
condições em que suas decisões serão percebidas.
<><> Antecipar é disputar a
realidade antes que ela exista
Antecipar não é apenas prever ataques. É
disputar o campo onde a realidade será interpretada. Em um ambiente mediado por
plataformas, primeiro se forma a percepção, depois o fato é absorvido dentro
dela. Isso transforma a comunicação em elemento constitutivo da própria
realidade política.
Durante a pandemia, países que estabeleceram
rapidamente um enquadramento claro sobre risco coletivo obtiveram maior adesão
às medidas sanitárias. Onde essa disputa foi perdida, o mesmo conjunto de
políticas gerou resistência e polarização.
No Brasil, essa lógica já se manifesta.
Variações de preço, episódios de violência e propostas de política pública são
imediatamente absorvidos por interpretações disponíveis. Sem antecipação, cada
evento confirma uma narrativa adversa. Com antecipação, ele é integrado a um
quadro mais amplo de compreensão.
Antecipar, nesse contexto, significa
comunicar não apenas o que será feito, mas como será interpretado. Mapear
distorções, prever enquadramentos e estabelecer referências antes do
acontecimento.
<><> A disputa de 2026 começa
agora, e começa na mente
A eleição de 2026 não será definida apenas
por indicadores econômicos ou arranjos políticos. Ela será decidida pela
capacidade de moldar percepções ao longo do tempo. O processo já começou.
Os vetores estão ativos. A segurança pública
tende a ser convertida em sensação permanente de desordem. A religião
continuará sendo mobilizada como campo de conflito moral. A economia cotidiana
será traduzida em narrativas diretas de culpa. E a soberania nacional será
tensionada por pressões externas e enquadramentos internos.
No Brasil, cada alta de preço, cada episódio
de violência amplificado e cada pauta moral inflada funciona como elemento de
confirmação de narrativas previamente construídas. Esses fatores operam de
forma combinada, produzindo desgaste contínuo.
Se não houver antecipação, esses temas
emergem como crises isoladas. Com antecipação, podem ser reconhecidos como
parte de um padrão.
A disputa de 2026 não começa no calendário
eleitoral. Começa agora, na mente.
Sem antecipação, não há democracia estável
A estabilidade democrática passou a depender
da capacidade de organizar, com antecedência, a forma como a sociedade
interpreta a realidade. Quando essa capacidade falha, crises deixam de ser
eventos e passam a operar como instrumentos de deslegitimação.
Democracias não colapsam apenas por rupturas
abruptas, mas por processos graduais de corrosão da confiança. Esse processo é
alimentado por narrativas que associam governo à incompetência, instituições a
manipulação e política a ameaça permanente.
Sem antecipação, essas narrativas encontram
terreno livre. Com antecipação, podem ser identificadas e neutralizadas antes
de se consolidarem.
Governar, nesse contexto, exige reconhecer
que toda decisão carrega um campo de disputa simbólica que precisa ser
organizado previamente.
No século XXI, antecipar deixou de ser
vantagem. Tornou-se condição para governar e para preservar a democracia.
¨
Aldo Fornazieri: O governo na defensiva
O
governo Lula e o campo político-partidário que o apoiam regressaram novamente
ao modo defensivo. Durante o terceiro mandato, experimentaram, em 2025, um
breve lapso de ofensividade por ocasião dos embates da PEC da blindagem e da
campanha contra o Congresso por votar pautas em favor dos ricos e contra os
pobres.
Ao
longo desses anos, chamamos a atenção várias vezes para as consequências
negativas do defensivismo político, para a falta de existência de um
estado-maior (um comando político no governo), para os erros de discursos e
políticas (exemplo do Pix), para os equívocos da comunicação e para a apatia
dos partidos da base governista. O governo se expressa por duas sínteses: uma
articulação política desastrosa e uma comunicação incompetente.
O
resultado era previsível: Lula e o governo se arrastando nas avaliações, com
índices mais negativos do que positivos. O governo e os partidos da base são
incapazes de traduzir em ganhos políticos os bons dados da economia, relativos
à inflação, ao desemprego, ao crescimento do PIB, ao aumento da renda familiar
e do poder de compra, aos programas habitacionais, ao Pé de Meia etc.
As
últimas pesquisas vêm mostrando uma resiliente estagnação da intenção de voto
em Lula e um crescimento consistente de Flávio Bolsonaro, depois que ele foi
definido como candidato do bolsonarismo. A pesquisa Quaest de fevereiro mostra
que a distância entre Lula e Flávio se encurtou para apenas 5 pontos nas
simulações de segundo turno.
A
estratégia do defensivismo político, em regra, conduz a derrotas. Somente em
condições de extrema dificuldade e de grande adversidade de correlação de
forças a estratégia se justifica. Não é o caso do governo, até porque ele é
governo e tem vários instrumentos e meios de poder.
A
passividade e a cautela do governismo foram assumidas desde os atos golpistas
de 8 de janeiro. O campo governista terceirizou a luta em defesa da democracia,
delegando a tarefa ao STF. Governo e partidos se acomodaram à manutenção das
posições de poder conquistadas. Na medida em que o poder tem uma natureza
expansiva, a mera manutenção se erode e a estratégia se torna defensiva e
derrotista.
Com o
defensivismo, as forças opositoras aumentam seus ataques, criando dificuldades
crescentes ao governo que, por não ter comando político, reage com erros
sucessivos. O mais notório foi a crise do Pix no início de 2025. Nas últimas
semanas, o governo persiste na escalada de equívocos, a exemplo do desfile da
escola de samba Acadêmicos de Niterói e da taxação das importações de bens de
capital e de outros itens.
São
erros grosseiros e bisonhos, dignos de amadorismo. No caso da Acadêmicos de
Niterói, houve uma evidente articulação entre o Planalto e a escola. Ainda no
ano passado, a senhora Janja e duas ministras visitaram a escola. No caso do
aumento do imposto de importação, era evidente, como a luz do sol, que o ato
provocaria estragos enormes em ano eleitoral. Tudo isso revela que o governo
opera sem análise de risco em suas decisões e ações. Move-se pelo
impressionismo, espontaneísmo e amadorismo, princípios contrários à ação
dirigente.
A
oposição está auferindo o máximo de ganhos com os dois eventos, sem que os
defensores do governo tenham argumentos razoáveis para defendê-lo. Pior: o
governo se deixou contaminar pelos dois maiores escândalos do momento: o do
INSS e o do Master.
No caso
do INSS, entre outros alvos, o foco é Lulinha. O problema cresce de dimensão
sem que o governo tenha uma gestão sobre o assunto. Ora, se Lulinha é inocente,
deveria ter oferecido a abertura do sigilo bancário desde as primeiras menções.
Se é culpado, revela que Lula e o PT não aprenderam nada com as acusações e
escândalos do passado. Na CPMI, os petistas dormiram no ponto e permitiram a
quebra do sigilo do filho do presidente.
No caso
do Master, vários ativistas de esquerda classificaram as exigências de apuração
do escândalo e de afastamento do ministro Toffoli da relatoria como
lavajatismo. Quer dizer: o governo e os partidos da base perderam a agenda
republicana de combate à corrupção, aos privilégios, aos penduricalhos e aos
supersalários. A oposição vem se apropriando dessa agenda nas redes e nas ruas,
criando um ambiente negativo para o governo que, quanto mais se alastra, mais
difícil se torna de ser contornado.
Os
ataques do bolsonarismo nas redes não têm resposta. Assim, as narrativas
mentirosas assumem um estatuto de “verdades”. Com os atos de protesto do dia
primeiro de março, a oposição ensaia uma retomada das ruas, fazendo crescer a
pressão sobre o governo. Em São Paulo, foram mais de 22 mil pessoas na Avenida
Paulista.
Com a
chamada “Acorda Brasil”, as lideranças de direita retomaram a pauta da anistia
a Bolsonaro e aos golpistas, pediram “Fora Lula”, “Fora Toffoli” e “Fora
Alexandre de Moraes”, ligando o caso Master ao governo e ao STF. No caso
Master, enquanto o governo agasalha em seus braços uma criança que não é sua e
a acalenta, os artífices do escândalo — os governadores Ibaneis Rocha e Cláudio
Castro e vários políticos do centrão, associados aos dirigentes do banco — saem
à francesa, sem ser notados.
Nos
discursos, os líderes da direita apelaram para a mobilização e o ativismo.
Sustentaram que o Brasil “está indignado, inconformado com tudo o que está
acontecendo”. “Eles têm medo da nossa voz”, disse o governador mineiro, que
cortou em mais de 90% as verbas da prevenção das enchentes. Michelle Bolsonaro
vem sendo esculpida como a imagem viva da dor e do sofrimento, por conta das
“injustiças” praticadas contra o seu marido.
É
preciso notar que, quando não há combate e enfrentamento, os pecadores se
tornam santos, as mentiras se tornam verdades e os rapinantes são vistos como
salvadores. Este é um processo que se alimenta de duas vertentes: a ofensiva
das oposições e a passividade acovardada do governismo. As esquerdas precisam
olhar não só para aquilo que a direita faz, mas também para aquilo que elas não
fazem.
Enquanto
Bolsonaro, da cadeia, vem montando chapas em vários estados, o governo, com
todo o aparato de poder, se mostra lerdo e confuso, sem liderança, sem comando,
embasbacado, empacado em vários estados, à mercê das tensões particularistas de
vários políticos e grupos. Quando falta comando e liderança, o particularismo
dos interesses egoístas provoca a erosão dos projetos gerais orientados para o
bem público. O combo de erros e a passividade do governo hoje agrava o risco
não só de uma derrota grave no Senado e nos governos estaduais, mas da própria
reeleição de Lula.
Fonte:
Brasil 247

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