quinta-feira, 5 de março de 2026

Reynaldo José Aragon: Governar é antecipar - a estratégia que decidirá 2026

O Brasil entra em um ciclo de alta tensão marcado por crise internacional, disputa informacional e reorganização da extrema-direita. Nesse cenário, não basta governar nem comunicar bem. É preciso antecipar ataques, preparar a percepção coletiva e disputar o sentido da realidade antes que ele seja capturado por operações políticas, econômicas e psicológicas. A diferença entre estabilidade e colapso não estará nos fatos, mas em quem chegar primeiro à mente da sociedade.

<><> O tempo da política foi capturado pela antecipação

A política contemporânea deixou de operar no tempo dos acontecimentos e passou a se organizar no tempo da percepção. Investigações sobre plataformas digitais, intensificadas após o escândalo envolvendo Facebook e Cambridge Analytica, evidenciaram que conteúdos baseados em medo, conflito e indignação são privilegiados por sistemas de recomendação. Isso alterou o próprio funcionamento do debate público: quem antecipa a interpretação de um fato passa a controlar seus efeitos.

As instituições, no entanto, ainda operam em um tempo que já não existe. A lógica dominante continua sendo anunciar, reagir e corrigir. Esse modelo foi funcional em um ambiente de comunicação mais lento e concentrado. Hoje, ele produz vulnerabilidade. No Brasil, episódios recentes envolvendo ajustes em sistemas digitais de pagamento e debates sobre regulação tecnológica seguiram o mesmo padrão: decisões que exigiam compreensão pública chegaram sem preparação e foram rapidamente absorvidas como ameaça.

Nesse ambiente, não existe fato neutro. Toda decisão entra em disputa no instante em que é percebida. Quando não há construção prévia de sentido, esse espaço é ocupado por interpretações mais simples, mais emocionais e mais rápidas. Governar, portanto, deixou de ser apenas decidir corretamente. Passou a exigir algo anterior: organizar como a sociedade compreenderá a decisão antes que ela exista.

<><> A extrema-direita atua antes do acontecimento

A extrema-direita contemporânea não opera no tempo da reação, mas no da preparação. Sua força está na capacidade de estruturar, com antecedência, o modo como os fatos serão recebidos. Antes que um evento ocorra, já existe uma moldura interpretativa pronta, geralmente baseada em insegurança, ameaça moral e desconfiança institucional.

Esse padrão é observável. Nos Estados Unidos, a construção antecipada de desconfiança sobre o sistema eleitoral antecedeu a contestação dos resultados em 2020. No Brasil, o mesmo mecanismo se manifesta na amplificação recorrente de episódios de violência urbana como prova de colapso permanente, na mobilização de pautas religiosas como campo de conflito político e na tentativa de reconfiguração de trajetórias de atores antes associados ao radicalismo.

Não se trata de reação a fatos isolados, mas da produção de um ambiente. Quando o acontecimento finalmente ocorre, ele já encontra um significado pronto. Nesse ponto, o debate deixa de ser sobre o que aconteceu e passa a ser sobre a confirmação de algo previamente estabelecido.

A assimetria é decisiva: enquanto um lado prepara o sentido antes do fato, o outro ainda tenta explicá-lo depois. Em um ambiente regido por velocidade e emoção, isso define quem conduz e quem reage.

<><> Crises são traduzidas, não apenas vividas

Crises contemporâneas não chegam à sociedade como fatos brutos. Elas chegam já interpretadas. Guerra, energia, inflação e ruptura logística produzem efeitos materiais reais, mas seu impacto político decorre da forma como esses efeitos são traduzidos.

O cenário internacional recente ilustra esse mecanismo. Tensões no Oriente Médio que pressionam rotas estratégicas elevam o preço do petróleo, encarecem o transporte e impactam alimentos. Esse encadeamento é estrutural. No cotidiano, porém, ele é simplificado: o aumento da gasolina passa a ser percebido como decisão direta do governo. O mesmo ocorre com a inflação alimentar. Cada ida ao supermercado ou ao posto de combustível se torna uma experiência política imediata.

No Brasil, esse processo já é visível. Oscilações de preço, mesmo quando vinculadas a dinâmicas globais, são rapidamente convertidas em narrativa de culpa local. Onde há cadeia, constrói-se culpado. Onde há processo, impõe-se simplificação.

Se não houver antecipação, a crise econômica deixa de ser apenas um desafio de gestão e passa a ser instrumento de desgaste político. Quem não disputa o significado da crise perde o controle sobre seus efeitos.

<><> O erro estratégico: decidir antes de preparar

O principal ponto de vulnerabilidade não está apenas na ofensiva adversária, mas na forma como decisões são introduzidas no espaço público. Políticas continuam sendo anunciadas como se chegassem a um terreno neutro. Não chegam. Elas entram em um ambiente já estruturado por suspeitas, simplificações e enquadramentos prontos.

No Brasil, esse padrão se repetiu em episódios recentes. Ajustes em sistemas digitais de pagamento, que exigiam compreensão técnica mínima, foram rapidamente interpretados como mecanismos de controle. Debates sobre regulação tecnológica, antes mesmo de amadurecerem, passaram a ser apresentados como ameaça à liberdade.

Quando uma decisão é apresentada sem preparação prévia, abre-se um intervalo que não permanece vazio. Esse espaço é ocupado por narrativas mais simples, mais emocionais e mais rápidas. A explicação posterior, por mais correta que seja, chega como defesa, não como orientação.

O resultado é um ciclo previsível: reação negativa, desgaste acelerado e, muitas vezes, recuo. Não por erro técnico, mas por erro de tempo. Em ambiente polarizado, a surpresa é interpretada como ameaça.

Inoculação e pré-bunking como método de governo

A governabilidade passa a depender de uma capacidade específica: preparar a sociedade antes que a disputa se estabeleça. Esse princípio encontra base na psicologia social. Estudos clássicos de William McGuire demonstraram que indivíduos expostos previamente a versões enfraquecidas de um argumento desenvolvem resistência a ele. Pesquisas mais recentes conduzidas por Sander van der Linden, na Universidade de Cambridge, mostram que intervenções de inoculação cognitiva reduzem a suscetibilidade à desinformação ao antecipar seus padrões.

O pré-bunking é a aplicação dessa lógica no ambiente político contemporâneo. Em vez de desmentir depois, antecipa-se o ataque, expõe-se sua estrutura e oferece-se uma chave interpretativa antes da circulação massiva.

Isso exige método. Antes de qualquer decisão relevante, é necessário identificar três elementos: quais narrativas serão mobilizadas, quais emoções serão ativadas e quais simplificações serão utilizadas. A partir disso, constrói-se previamente o entendimento público.

Sem esse procedimento, o governo entra na disputa sempre em desvantagem. Com ele, passa a definir, desde o início, as condições em que suas decisões serão percebidas.

<><> Antecipar é disputar a realidade antes que ela exista

Antecipar não é apenas prever ataques. É disputar o campo onde a realidade será interpretada. Em um ambiente mediado por plataformas, primeiro se forma a percepção, depois o fato é absorvido dentro dela. Isso transforma a comunicação em elemento constitutivo da própria realidade política.

Durante a pandemia, países que estabeleceram rapidamente um enquadramento claro sobre risco coletivo obtiveram maior adesão às medidas sanitárias. Onde essa disputa foi perdida, o mesmo conjunto de políticas gerou resistência e polarização.

No Brasil, essa lógica já se manifesta. Variações de preço, episódios de violência e propostas de política pública são imediatamente absorvidos por interpretações disponíveis. Sem antecipação, cada evento confirma uma narrativa adversa. Com antecipação, ele é integrado a um quadro mais amplo de compreensão.

Antecipar, nesse contexto, significa comunicar não apenas o que será feito, mas como será interpretado. Mapear distorções, prever enquadramentos e estabelecer referências antes do acontecimento.

<><> A disputa de 2026 começa agora, e começa na mente

A eleição de 2026 não será definida apenas por indicadores econômicos ou arranjos políticos. Ela será decidida pela capacidade de moldar percepções ao longo do tempo. O processo já começou.

Os vetores estão ativos. A segurança pública tende a ser convertida em sensação permanente de desordem. A religião continuará sendo mobilizada como campo de conflito moral. A economia cotidiana será traduzida em narrativas diretas de culpa. E a soberania nacional será tensionada por pressões externas e enquadramentos internos.

No Brasil, cada alta de preço, cada episódio de violência amplificado e cada pauta moral inflada funciona como elemento de confirmação de narrativas previamente construídas. Esses fatores operam de forma combinada, produzindo desgaste contínuo.

Se não houver antecipação, esses temas emergem como crises isoladas. Com antecipação, podem ser reconhecidos como parte de um padrão.

A disputa de 2026 não começa no calendário eleitoral. Começa agora, na mente.

Sem antecipação, não há democracia estável

A estabilidade democrática passou a depender da capacidade de organizar, com antecedência, a forma como a sociedade interpreta a realidade. Quando essa capacidade falha, crises deixam de ser eventos e passam a operar como instrumentos de deslegitimação.

Democracias não colapsam apenas por rupturas abruptas, mas por processos graduais de corrosão da confiança. Esse processo é alimentado por narrativas que associam governo à incompetência, instituições a manipulação e política a ameaça permanente.

Sem antecipação, essas narrativas encontram terreno livre. Com antecipação, podem ser identificadas e neutralizadas antes de se consolidarem.

Governar, nesse contexto, exige reconhecer que toda decisão carrega um campo de disputa simbólica que precisa ser organizado previamente.

No século XXI, antecipar deixou de ser vantagem. Tornou-se condição para governar e para preservar a democracia.

¨      Aldo Fornazieri: O governo na defensiva

O governo Lula e o campo político-partidário que o apoiam regressaram novamente ao modo defensivo. Durante o terceiro mandato, experimentaram, em 2025, um breve lapso de ofensividade por ocasião dos embates da PEC da blindagem e da campanha contra o Congresso por votar pautas em favor dos ricos e contra os pobres.

Ao longo desses anos, chamamos a atenção várias vezes para as consequências negativas do defensivismo político, para a falta de existência de um estado-maior (um comando político no governo), para os erros de discursos e políticas (exemplo do Pix), para os equívocos da comunicação e para a apatia dos partidos da base governista. O governo se expressa por duas sínteses: uma articulação política desastrosa e uma comunicação incompetente.

O resultado era previsível: Lula e o governo se arrastando nas avaliações, com índices mais negativos do que positivos. O governo e os partidos da base são incapazes de traduzir em ganhos políticos os bons dados da economia, relativos à inflação, ao desemprego, ao crescimento do PIB, ao aumento da renda familiar e do poder de compra, aos programas habitacionais, ao Pé de Meia etc.

As últimas pesquisas vêm mostrando uma resiliente estagnação da intenção de voto em Lula e um crescimento consistente de Flávio Bolsonaro, depois que ele foi definido como candidato do bolsonarismo. A pesquisa Quaest de fevereiro mostra que a distância entre Lula e Flávio se encurtou para apenas 5 pontos nas simulações de segundo turno.

A estratégia do defensivismo político, em regra, conduz a derrotas. Somente em condições de extrema dificuldade e de grande adversidade de correlação de forças a estratégia se justifica. Não é o caso do governo, até porque ele é governo e tem vários instrumentos e meios de poder.

A passividade e a cautela do governismo foram assumidas desde os atos golpistas de 8 de janeiro. O campo governista terceirizou a luta em defesa da democracia, delegando a tarefa ao STF. Governo e partidos se acomodaram à manutenção das posições de poder conquistadas. Na medida em que o poder tem uma natureza expansiva, a mera manutenção se erode e a estratégia se torna defensiva e derrotista.

Com o defensivismo, as forças opositoras aumentam seus ataques, criando dificuldades crescentes ao governo que, por não ter comando político, reage com erros sucessivos. O mais notório foi a crise do Pix no início de 2025. Nas últimas semanas, o governo persiste na escalada de equívocos, a exemplo do desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói e da taxação das importações de bens de capital e de outros itens.

São erros grosseiros e bisonhos, dignos de amadorismo. No caso da Acadêmicos de Niterói, houve uma evidente articulação entre o Planalto e a escola. Ainda no ano passado, a senhora Janja e duas ministras visitaram a escola. No caso do aumento do imposto de importação, era evidente, como a luz do sol, que o ato provocaria estragos enormes em ano eleitoral. Tudo isso revela que o governo opera sem análise de risco em suas decisões e ações. Move-se pelo impressionismo, espontaneísmo e amadorismo, princípios contrários à ação dirigente.

A oposição está auferindo o máximo de ganhos com os dois eventos, sem que os defensores do governo tenham argumentos razoáveis para defendê-lo. Pior: o governo se deixou contaminar pelos dois maiores escândalos do momento: o do INSS e o do Master.

No caso do INSS, entre outros alvos, o foco é Lulinha. O problema cresce de dimensão sem que o governo tenha uma gestão sobre o assunto. Ora, se Lulinha é inocente, deveria ter oferecido a abertura do sigilo bancário desde as primeiras menções. Se é culpado, revela que Lula e o PT não aprenderam nada com as acusações e escândalos do passado. Na CPMI, os petistas dormiram no ponto e permitiram a quebra do sigilo do filho do presidente.

No caso do Master, vários ativistas de esquerda classificaram as exigências de apuração do escândalo e de afastamento do ministro Toffoli da relatoria como lavajatismo. Quer dizer: o governo e os partidos da base perderam a agenda republicana de combate à corrupção, aos privilégios, aos penduricalhos e aos supersalários. A oposição vem se apropriando dessa agenda nas redes e nas ruas, criando um ambiente negativo para o governo que, quanto mais se alastra, mais difícil se torna de ser contornado.

Os ataques do bolsonarismo nas redes não têm resposta. Assim, as narrativas mentirosas assumem um estatuto de “verdades”. Com os atos de protesto do dia primeiro de março, a oposição ensaia uma retomada das ruas, fazendo crescer a pressão sobre o governo. Em São Paulo, foram mais de 22 mil pessoas na Avenida Paulista.

Com a chamada “Acorda Brasil”, as lideranças de direita retomaram a pauta da anistia a Bolsonaro e aos golpistas, pediram “Fora Lula”, “Fora Toffoli” e “Fora Alexandre de Moraes”, ligando o caso Master ao governo e ao STF. No caso Master, enquanto o governo agasalha em seus braços uma criança que não é sua e a acalenta, os artífices do escândalo — os governadores Ibaneis Rocha e Cláudio Castro e vários políticos do centrão, associados aos dirigentes do banco — saem à francesa, sem ser notados.

Nos discursos, os líderes da direita apelaram para a mobilização e o ativismo. Sustentaram que o Brasil “está indignado, inconformado com tudo o que está acontecendo”. “Eles têm medo da nossa voz”, disse o governador mineiro, que cortou em mais de 90% as verbas da prevenção das enchentes. Michelle Bolsonaro vem sendo esculpida como a imagem viva da dor e do sofrimento, por conta das “injustiças” praticadas contra o seu marido.

É preciso notar que, quando não há combate e enfrentamento, os pecadores se tornam santos, as mentiras se tornam verdades e os rapinantes são vistos como salvadores. Este é um processo que se alimenta de duas vertentes: a ofensiva das oposições e a passividade acovardada do governismo. As esquerdas precisam olhar não só para aquilo que a direita faz, mas também para aquilo que elas não fazem.

Enquanto Bolsonaro, da cadeia, vem montando chapas em vários estados, o governo, com todo o aparato de poder, se mostra lerdo e confuso, sem liderança, sem comando, embasbacado, empacado em vários estados, à mercê das tensões particularistas de vários políticos e grupos. Quando falta comando e liderança, o particularismo dos interesses egoístas provoca a erosão dos projetos gerais orientados para o bem público. O combo de erros e a passividade do governo hoje agrava o risco não só de uma derrota grave no Senado e nos governos estaduais, mas da própria reeleição de Lula.

 

Fonte: Brasil 247

 

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