Paulo
Kliass: Juros, a despesa VIP no Brasil
O mais
recente Relatório sobre Estatísticas Fiscais do Banco Central, divulgado no
final de fevereiro, traz a consolidação das informações relativas a este
importante instrumento de política econômica do governo federal. De acordo com
a Nota à Imprensa, pode-se perceber que, ao longo do mês de janeiro de 2026,
foram transferidos do Orçamento da União valores equivalentes a R$ 64 bilhões
para honrar os compromissos junto aos detentores de títulos da dívida pública
brasileira. Esse é o total das despesas financeiras para o primeiro mês do novo
ano, que se constitui em um montante relativo ao pagamento de juros que incide
sobre o estoque de endividamento do Estado brasileiro.
Interessante
observar que esse valor é 58% mais elevado do que os R$ 40 bi destinados para a
mesma rubrica ao longo de janeiro do ano passado. No entanto, como podem
ocorrer variações mensais ao longo do exercício, é sempre mais interessante
observarmos o movimento de tendência de prazo um pouco mais longo. Assim, o que
se percebe é que o total acumulado de 12 meses se mantém acima do patamar
tragicamente simbólico de um trilhão de reais. Durante 2025, esse montante já
tinha ultrapassado esse teto, alcançando R$ 1,007 tri. Se incluirmos os valores
de janeiro passado, os 12 meses somam R$ 1,023 tri.
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Juros seguem na faixa do R$ trilhão
De
acordo com o Boletim do Tesouro Nacional, esse valor de pagamento de juros
representou 7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. Uma loucura! Trata-se do
maior dispêndio orçamentário por programa ou área de governo, mais elevado
inclusive do que as necessidades de financiamento da previdência social, que
ficaram em 2,5% do PIB. Esses dados demonstram que o déficit fiscal nominal do
governo se manteve em uma média de 7,7% do PIB durante o primeiro triênio do
terceiro mandato do presidente Lula. Assim, ao contrário dos discursos dos
responsáveis pela área econômica, o governo continua apresentando um resultado
deficitário no conjunto das contas públicas.
Afinal,
o impacto dos juros no total de despesas é muito relevante.
A
malandragem contábil e metodológica reside na continuidade da utilização do
famigerado adjetivo “primário” sempre que se trata de avaliar o desempenho das
contas estatais. Esse procedimento vem de longe, tendo sido iniciado na década
de 1990. Isso porque, ao restringir o foco da austeridade fiscal para o
conceito de “primário”, o resultado significa a exclusão das despesas
financeiras dos cálculos. Em termos mais concretos, esta metodologia implica a
retirada de todo o volume de pagamento de juros da dívida pública da apreciação
do desempenho fiscal do governo. Esta manobra na manipulação das contas
públicas decorre de uma simples tautologia de definição. De acordo com os
manuais do financês internacional, plenamente assimilado e incorporado pela
tecnocracia de Brasília há várias décadas, o conceito de “primário” significa
“não financeiro”.
No
entanto, se o objetivo da análise for avaliar o impacto das despesas do governo
em termos macroeconômicos, não faz o menor sentido que seja efetuada tal
divisão entre despesas financeiras e não-financeiras. Afinal, o dispêndio com o
pagamento de juros promove um impacto efetivo sobre o total de gastos
orçamentários, assim como os dispêndios com saúde, educação ou previdência
social. O golpe de mestre mais se parece com aqueles truques da cartola do
mágico do que qualquer outra coisa. Se a existência de déficit fiscal é algo a
ser combatido a qualquer custo, como quer nos convencer o povo do financismo e
seus aliados na Esplanada dos Ministérios, então não faz sentido isolar as
despesas financeiras do cálculo.
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Obsessão fiscalista não afeta despesa com juros
Essa
verdadeira pedalada na apreciação das contas fiscais pretende tirar o foco do
volume escandaloso de gastos com o pagamento de juros dos títulos da dívida
pública. Durante o terceiro mandato de Lula, por exemplo, esse total alcançou
até o momento a impressionante cifra de R$ 2,6 tri. Ou seja, uma média mensal
de R$ 69 bi entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026. Esse total representa 21%
dos R$ 12 tri gastos desde o início de 1997, quando a série começou a ser
apurada pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN). Assim, em 37 meses deste
terceiro mandato, foram gastos quase 1/5 do total ao longo dos 349 meses de
toda a série.
Esse
quadro é incompatível com a narrativa oficial de que está sendo cumprida a
“responsabilidade fiscal” de acordo com os objetivos estabelecidos por sugestão
do próprio governo. No final do ano passado, foi aprovada a Lei de Diretrizes
Orçamentárias para 2026, a Lei nº 15.321. Mais uma vez, Haddad parece ter
convencido Lula a perseguir objetivos de política econômica que são verdadeiros
tiros no pé do presidente e da maioria da população. Não contente em ter
apresentado metas de “zerar o déficit fiscal primário” nos primeiros anos, o
governo agora dobra a aposta no bom mocismo. Ali pode-se perceber que a meta
para o resultado fiscal é de um superávit fiscal da ordem de 0,25% do PIB para
este ano. Em termos monetários, isso significaria obter um saldo positivo um
pouco superior a R$ 34 bi nas contas primárias. Ou seja, mais uma vez, fica de
fora deste cálculo o montante superior a R$ 1 tri relativo às despesas com
juros.
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Por que gastos com juros recebem tapete vermelho?
Os
responsáveis pela área econômica terminaram por criar mais uma armadilha para o
próprio governo. Essa obsessão austericida é ainda mais grave se considerarmos
que estamos em um ano marcado por eleições altamente polarizadas e em que as
pesquisas de aprovação da equipe não são lá muito portadoras de otimismo até o
momento atual. Ao se propor o cumprimento de uma meta de superávit fiscal
primário para este exercício, o governo sinaliza que deverão ser operados ainda
mais cortes nas rubricas sociais e de investimento do orçamento. Uma loucura!
Esse grande esforço para obtenção do saldo positivo de R$ 34 bi ao longo de 12
meses de 2026 equivale tão somente ao
valor das despesas com juros realizadas em 14 dias úteis do mês de janeiro.
Assim,
seguimos na toada de cortar nos programas de políticas públicas de natureza
social e dirigida à grande maioria da população, ao mesmo tempo em que são
elevados os valores de despesas dirigidas a uma parcela ínfima da sociedade —
os portadores de títulos da dívida pública. Afinal, nem a Lei de
Responsabilidade Fiscal nem o Novo Arcabouço Fiscal contêm dispositivos para
constranger o volume de juros gastos pelo governo. Ao contrário do que o
governo pratica ao longo do exercício fiscal com as despesas sociais, não
existe nenhum teto, nem valor máximo, nem contingenciamento para as despesas
financeiras. Para elas, o céu é o limite.
Já
passou da hora de os juros deixarem de ser encarados como uma despesa VIP por
parte do Estado brasileiro. Essa ideia de que os recursos públicos de volume
trilionário transferidos para o topo da nossa pirâmide da desigualdade sejam
merecedores de um tratamento “very important people” (VIP) já deveria ter sido
abolida há muito tempo. Pelo menos desde 2003, quando Lula iniciou seu primeiro
mandato na Presidência da República.
• A hegemonia da lógica da
financeirização. Por Paulo Ghiraldelli
Fiz uma
observação crítica – publicada no site A
Terra é Redonda – ao livro de Fernando Haddad, Capitalismo superindustrial.
Cometi dois tropeços. Primeiro, questionei o título do livro. O título era uma
questão secundária em minhas observações, eu não deveria ter tocado no assunto.
Segundo
tropeço: disse que no mundo atual passamos por uma desindustrialização. Não
deveria ter falado isso. Dependendo da perspectiva que o leitor adota, a minha
frase pode ser facilmente rebatida. O que temos hoje em dia é um crescimento de
empresas de vários tipos, as transnacionais, e que estão enredadas no âmbito da
financeirização.
Caso
alguém queira considerá-las como indústria, falando de um modo geral, não há
qualquer problema. Se assim fizer, pode até considerar que está havendo uma
reindustrialização do mundo.
Mas
esses tropeços não foram inúteis. Motivaram o professor Eleutério Prado a dar
atenção ao meu artigo e produzir o seu próprio, comentando um certo itinerário
do livro do Fernando Haddad. Este artigo também foi publicado no site A Terra é
Redonda. Assim, ampliamos a conversação sobre o capitalismo atual. Gosto disso,
pois sem a conversação fica difícil qualquer desenvolvimento intelectual. O
professor Eleutério Prado na USP, como o professor Ladislau Dowbor na PUC-SP,
nunca param de nos ensinar. Cabe a nós procurar aprender.
Se eu
entendi o que Eleutério Prado disse, penso que posso sintetizar da seguinte
maneira. Fernando Haddad vem seguindo uma escola de pensamento que tem em Ruy
Fausto o elaborador do termo “pós-grande indústria”. A expressão teria surgido
nos escritos de Ruy Fausto. Particularmente, diz respeito aos famosos
Grundrisse. Mais especificamente, trata-se da célebre passagem em que Marx fala
da incorporação da ciência ao trabalho e da redução extrema do tempo de
trabalho.
Sabe-se
que essa parte dos rascunhos de Karl Marx gerou grande polêmica entre
marxistas, sobre uma futura não validade da teoria do valor de Marx, mas isso
não importa aqui. Lembro apenas que Marx estava tentando dar pistas – para si
mesmo – sobre como poderia ser o futuro da laboratividade humana.
Por sua
vez, Ruy Fausto interpretou essa fase futura sob o nome de pós-grande
indústria. Segundo Eleutério Prado, Fernando Haddad teria acertado ao descartar
o “pós” e tomado o nosso tempo como a época do capitalismo superindustrial. O
“pós-grande indústria” teria o defeito da incompletude, aludiria apenas ao que
“vem depois”, sem especificações, agora já possíveis de vislumbrar.
Gostei
da explicação de Eleutério Prado. Dá-se a Marx o que é de Marx, nomeia-se o que
é de Ruy Fausto e, enfim, parabeniza-se Fernando Haddad por ser um uspiano da
gema, uma vez que, segundo Eleutério Prado, ele próprio e Leda Paulani são
uspianos na linha de preocupações de Ruy Fausto.
Desse
modo, a USP estaria unida historicamente ao Ministério da Fazenda do governo
Lula, em uma orientação de esquerda. Não é pouca coisa em um país como o nosso,
com universidades bem novas, louvar a formação de escolas de pensamento, ainda
mais no âmbito da esquerda.
Também
sou uspiano. Todavia, por conta de carreira dupla, em filosofia e filosofia da
educação, passei por diversas escolas e grupos de estudos, e ganhei uma
filiação de pensamento cuja preocupação põe Karl Marx como um clássico,
certamente, mas sem qualquer dever de encontrá-lo todas as vezes que escrevo.
Dito
isso, quero lembrar que, a respeito dos estudos marxistas e, em especial, sobre
o tema dos Grundrisse, escrevi uma objeção a David Harvey – postada no site A
Terra é Redonda – sobre o descarte que ele promoveu ao termo capitalismo
cognitivo. Digo isso para contar para o leitor, e em especial ao Eleutério
Prado, que tenho alguma familiaridade com os Grundrisse e com o debate sobre o
trecho citado por Fernando Haddad. Acho que, dizendo isso, facilito a
conversação.
Feita
essas observações, passo então ao problema que está acima da questão de se
aceitamos ou não a expressão “capitalismo superindustrial”.
Sobre o
capitalismo atual, começo observando que, em geral, grosso modo há quatro
estilos de narrativa sobre o que estamos passando nos últimos cinquenta anos.
Os economistas tendem a descrever esses anos a partir do movimento do capital,
considerando as novas formas de acumulação. O capitalismo centrado na lógica do
capital industrial teve de abrir espaço para a lógica do capitalismo
financeiro.
Os
sociólogos tendem a observar as mudanças no mundo do trabalho: notam o fordismo
cedendo para o toyotismo e, em seguida, para a uberização, digitalização e toda
a parafernália dos ditames da Inteligência Artificial associados à internet.
Os
filósofos procuram enxergar essas duas alterações e, então, tentam entender as
subjetivações produzidas, os tipos de subjetividade de nossa época. Por fim, os
estudiosos da política chamam tudo isso de neoliberalismo, como o que
substituiu o horizonte dado pelo Welfare State.
Quando
escrevi o livro Capitalismo 4.0 procurei
levar em conta esses quatro tipos de narrativa. Considerei a terminologia
política, o neoliberalismo, mas também busquei ver como a lógica do capitalismo
financeiro se fez em simbiose com o capitalismo de plataforma; como a lógica
das mudanças do mundo do trabalho, inclusive do mundo empresarial, geraram
novas formas de pensar, agir e sentir de todos nós, e como que isso não se
deveu a alterações exclusivamente tecnológicas.
Assim,
ao não autonomizar a tecnologia, talvez eu tenha seguido Karl Marx. Olhei para
a tecnologia como fruto das exigências da mudança do regime de acumulação do
capital e não o contrário, e justamente isso é que não encontrei em Fernando
Haddad. Sendo ele o marxista – como explica o artigo de Eleutério Prado – e eu
não, eu tinha lá as minhas razões em esperar de Fernando Haddad uma atenção
para simbiose entre plataformização/digitalização e financeirização.
Na
primeira parte do meu livro Capitalismo 4.0, creio que fiz a tarefa de casa,
mostrando o que mudou no capitalismo em geral, e só então, na segunda parte,
passei em revista os autores que destacaram as subjetividades emergentes,
principalmente nos últimos vinte anos ou trinta anos. Também nessa parte se fez
presente uma intuição marxiana: o capitalismo produz antes que mercadorias, a
subjetividade humana.
Não
encontrei no livro do Fernando Haddad um quadro suficiente sobre as
subjetividades. Poderia dizer: foi o gosto do autor e pronto. Todavia, essa
falta me pareceu ser o que o conduziu ao impasse do final do livro, ou seja, a
incógnita a respeito de quanto os homens podem ou não transformar o que temos.
O livro
termina com uma esperança de transformação, mas ela é vaga. Eis o problema:
trata-se de uma esperança de Fernando Haddad como homem de esquerda, mas que
independe do livro. Esperança por esperança, muita gente tem. Embora ele tenha
se preocupado com a lógica do capitalismo cognitivo, ou seja, com os
desdobramentos de uma parte da simbiose que citei, ele simplesmente não deu
ênfase ao polo chamado financeirização.
Ora,
sendo Fernando Haddad o ministro da Fazenda, e tendo ele sido fustigado
cotidianamente pelas exigências vindas do mercado financeiro, é claro que eu
senti uma ausência em seu livro. O capitalismo cognitivo descrito por ele
aparece sem seu par, o capitalismo financeiro. Isso deu um sabor pouco marxista
ao livro, e ficou como que incompleto.
Creio
que veio daí as dificuldades dele, no final, pois não conseguiu dizer o que as
pessoas podem querer mudar, e o que podem fazer se querem de fato mudar. Quando
a alma humana não é mostrada, como saber, ao menos em princípio, o que ela
poderá produzir? E alma dos trabalhadores mudancistas ficou soterrada no livro
de Fernando Haddad.
Alertei
para isso na minha nota crítica. Mas, ao fazê-lo, procurei não citar livros que
Fernando Haddad não tivesse usado. Ele usou um livro de Yanes Varoufakis, um
autor que radicaliza teses do chamado “tecnofeudalismo”. Eu não concordo com o
nome “tecnofeudalismo”. Segundo o que entendo, vivemos no capitalismo. Mas,
penso, o livro de Yanes Varoufakis deveria ter produzido em Fernando Haddad uma
curiosidade sobre a acumulação capitalista em conjunto com o advento do
capitalismo cognitivo. Há no livro de Yanes Varoufakis alguns dados que
poderiam tê-lo alertado exatamente para o problema da hegemonia da lógica da
financeirização em nossos tempos.
Ora, é
incrível que Fernando Haddad, vindo do problema do capitalismo cognitivo, não
tenha imaginado que Karl Marx, se estivesse entre nós, trataria do tema
associadamente: capitalismo cognitivo e capitalismo financeiro, isto é,
plataformização e financeirização.
Aliás,
penso que Karl Marx seria o primeiro a enfatizar isso: notar o trabalho ser
alterado junto com os efeitos da lógica da acumulação. Esta foi a sugestão de
Gilles Deleuze, antes mesmo da internet se tornar popular e dar o mundo as
características que se fizeram sentir depois dela, principalmente aquelas que
ocorreram após as crises das empresas “ponto com”.
Foi
segundo essa ótica integrada que Gilles Deleuze tratou o tema em seu fecundo
“Sociedade do controle”. Este seu artigo foi seminal para mim. Norteou parte do
meu Capitalismo 4.0. Depois de ler o artigo do professor Eleutério Prado,
vinculando a curiosidade do Fernando Haddad à questão do cognitivismo contida
nos Grundrisse, fiquei ainda mais convencido de que o ministro da Fazenda
poderia ter ruminado mais tempo o seu escrito.
Insisto:
não vamos compreender o que estamos passando se não levarmos a sério a simbiose
ocorrida – e que se acentua – entre capitalismo de plataforma e capitalismo
financeiro.
Fonte:
Outras Palavras/A Terra é Redonda

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