"O
bem comum não é uma propriedade privada", diz Gaël Giraud
Com
Costruire un mondo comune (Construir um mundo comum, Piemme-Libreria Editrice
Vaticana, €21), com prefácio de Carlo Petrini, retorna às livrarias Gaël
Giraud, matemático, economista, teólogo, padre jesuíta e diretor de pesquisa do
CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) de Paris, com um passado de
economista-chefe da agência francesa do desenvolvimento e de diretor do
programa de justiça ambiental da Universidade de Georgetown, de Washington, que
ele fundou.
Giraud
é considerado um dos mais importantes teóricos da transição ecológica
internacionalmente. Com esse novo livro – lançado dois anos após "Il gusto
di cambiare. La transizione ecologica come via per la felicita” (O sabor da
mudança: a transição ecológica como caminho para a felicidade) – ele nos diz
que é chegou a hora de encontrarmos respostas concretas para algumas questões
fundamentais, como: o conceito de propriedade privada deve ser reexaminado? A
soberania dos Estados nacionais ainda é sustentável? Como podemos colaborar
eficazmente para construir instituições internacionais capazes de preservar
nossos bens comuns globais?
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Eis a entrevista.
• Giraud, ao pegar o livro nas mãos,
imediatamente o olho salta para um subtítulo provocativo na capa: "E Deus
NÃO abençoou a propriedade privada". O que quer nos dizer?
As
Escrituras não condenam a propriedade privada em si, mas a apropriação
exclusiva que nega o acesso a bens fundamentais aos mais necessitados. Deus
criou o mundo como um dom gratuito para todos, não como um privilégio para
poucos. Quando a propriedade privada se torna absoluta, desumaniza e destrói a
fraternidade. Esse livro é um convite a repensar a propriedade como serviço ao
bem comum, não como domínio. No direito latino clássico, a res communis era
considerada a forma mais elevada de propriedade, enquanto a res privata
constituía a sua forma mais baixa. Hoje, nossa sociedade subverteu
completamente essa ordem hierárquica.
• Esse é o primeiro de dois volumes nos
quais pretendo oferecer reflexões e propostas para a construção de um futuro
sustentável baseado nos ensinamentos bíblicos. Concretamente?
Nesse
primeiro volume, exploro os fundamentos teológicos e econômicos para uma
ecologia integral. Proponho a relocalização da economia, a criação de moedas
complementares, a instituição de uma renda básica ecológica e o reconhecimento
jurídico dos bens comuns fundamentais: água doce, clima, saúde, florestas e
conhecimento. A Bíblia nos ensina que a justiça social é inseparável do cuidado
com a Terra. Na grande tradição patrística, São Tomás também coloca a
propriedade comum no ápice da hierarquia das formas de compreender o dom da
criação. Os bens comuns fazem parte do direito natural, mas não a propriedade
privada. Esta última faz parte apenas do direito positivo — aquilo que os seres
humanos atribuem a si mesmos e que pode ser contingente ou arbitrário — de modo
a aliviar o cansaço que comporta o indispensável debate para a gestão dos bens
comuns. Em última análise, poderíamos dizer que a propriedade privada é uma
medida paliativa para nos aliviar do esforço democrático. Foi o inglês John
Locke (1632-1704) quem inverteu o papel da propriedade privada, inserindo-a no
direito natural. Isso contraria toda a grande tradição cristã. Mas nesse livro
também mostro que os Atos dos Apóstolos nos ensinam que existe outro perigo,
simétrico à absolutização da propriedade privada: o da absolutização da res
publica, isto é, do poder do Estado. Esses dois perigos são extremamente
atuais.
• E quanto ao segundo volume?
Abordarei
a imensa questão da reforma gregoriana e como, ao inventar o direito canônico
no século XI, o Papa Gregório VII reinventou o Estado moderno na Europa. Todos
os Estados que conhecemos hoje se inspiraram em sua reforma. Trata-se,
portanto, de uma virada fundamental que precisa ser compreendida. Mas falaremos
sobre isso no próximo ano.
• Acima falamos sobre os bens comuns e,
consequentemente, também sobre a defesa da Terra. O senhor esteve na COP30 em
Belém (Brasil). Qual foi a sua opinião sobre esse evento, onde estratégias para
a defesa do planeta deveriam ser elaboradas?
Não foi
nem um sucesso nem um fracasso total. Por um lado, marcou um progresso real na
justiça climática: maior reconhecimento dos direitos dos povos indígenas,
fortalecimento da ligação entre clima e questões de gênero e a confirmação da
triplicação dos financiamentos para a adaptação até 2035. A arquitetura das
finanças verdes também foi fortalecida, com novas iniciativas para a proteção
das florestas e um envolvimento mais explícito dos ministros das finanças nas
negociações climáticas. No entanto, a COP30 falhou no ponto central: a ausência
de um roteiro concreto para a saída gradual dos combustíveis fósseis. Sem um
planejamento claro para o fim do petróleo, gás e carvão, será impossível
atingir as metas climáticas. Felizmente, porém, alguns países não se renderam a
esse fracasso.
• Quais?
Refiro-me
à Colômbia de Gustavo Petro e à Holanda, que, ao final da COP30, anunciaram sua
decisão de organizar a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição
Justa dos Combustíveis Fósseis, nos dias 28 e 29 de abril, em Santa Marta,
Colômbia. A ideia é criar um fórum paralelo à COP para trabalhar em um roteiro
global para a saída dos combustíveis fósseis. Na prática, reunir uma coalizão
de países e voluntários para discutir os caminhos jurídicos, econômicos e
sociais para implementar essa transição. Naturalmente, se analisará a questão
da legitimidade de quaisquer conclusões resultantes de tal evento em relação à
"comunidade internacional", ou melhor, ao que resta dela hoje. Se
essas negociações paralelas forem bem-sucedidas e reunirem um número
significativo de países, será muito difícil ignorá-las na COP31 em Antalya, na
Turquia.
• Muitos se perguntam se a Conferência das
Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas ainda tem sentido quando os acordos
estão consistentemente sendo redefinidos para baixo.
O
multilateralismo está em crise hoje, não apenas em relação ao clima, mas em
muitas outras questões globais. Hoje, são os Estados Unidos que estão
pisoteando a própria ideia de direito internacional, sem o qual nenhum
multilateralismo faz sentido. No entanto, a COP continua sendo o único espaço
político no qual os povos do mundo ainda podem se confrontar. Em sua exortação
apostólica Laudate Deum, o Papa Francisco expressou seus votos por um
"multilateralismo de baixo". Acredito que ele estava absolutamente
certo: precisamos criar fóruns de diálogo onde não apenas diplomatas e lobistas
se encontrem, mas também a sociedade civil do planeta. A COP pode se tornar
esse fórum. De fato, uma novidade extremamente interessante já foi atribuída à
última COP no Brasil.
• A que se refere?
Ao
Pacote de Belém, que pela primeira vez inclui referências explícitas ao
comércio internacional como tema de coordenação entre as nações. Essa é uma
inovação fundamental, visto que alguns países reivindicavam há anos poder
discutir sobre comércio internacional e, durante anos, a maioria de seus
interlocutores apontava que a COP não é o fórum apropriado para tais
discussões, mas sim a Organização Mundial do Comércio (OMC). A partir de agora,
a COP também se torna o fórum mundial para discutir sobre comércio
internacional. A razão para esse importante avanço político reside, obviamente,
na nova política tarifária imposta pela Casa Branca, na paralisia da OMC em
Genebra, mas também no poder das exportações tecnológicas chinesas de baixo
custo, que já arruinaram a indústria fotovoltaica europeia, para citar apenas
um exemplo.
• Quais alternativas econômicas viáveis
devemos buscar?
Já
existem iniciativas muito interessantes, como as comunidades energéticas na
Itália ou as cooperativas de produção de eletricidade descentralizadas na
Alemanha. Na Bélgica, estão tentando firmar contratos entre municípios e
agricultores orgânicos, para que estes possam se estabelecer perto das cidades.
Os cidadãos se comprometem em comprar seus produtos durante todo o ano, mas
também a dedicar uma certa porcentagem do seu tempo para ajudar na fazenda. O
agricultor orgânico, em troca, produz exclusivamente para eles. Em nível
estadual, é urgente introduzir uma tributação redistributiva que vise
patrimônios, rendas e extração de recursos não renováveis, em vez de onerar o
trabalho. Do lado das empresas é preciso um novo estatuto jurídico que
subordine o lucro à responsabilidade social e ambiental, no modelo das sociétés
à mission francesas. Devemos também ter em mente que a justiça social não é um
custo, mas sim o motor da resiliência.
• Outra questão: como tornar a transição
energética uma realidade, quando ela é frequentemente submetida à chantagem dos
empregos?
A
chantagem é uma falsa oposição. A transição pode criar milhões de empregos
dignos: na reestruturação energética dos edifícios, nas energias renováveis
distribuídas, na agroecologia. Precisamos de um Plano de Conversão Ecológica,
financiado por impostos verdes e empréstimos específicos do BCE, acompanhado de
formação profissional e garantias salariais. Trabalho e ecologia caminham
juntos, não um contra a outra. E a transição ecológica é uma aliada do emprego,
não sua inimiga.
• O prato está menor e o corpo está sob
vigilância. Por Sara York
Em
fevereiro de 2025, a influenciadora Maya Massafera provocou ampla repercussão
ao reagir às críticas sobre sua magreza afirmando que "gente rica", a
elite e o mundo da moda preferem corpos muito magros, enquanto "gente mais
simples" tenderia a valorizar corpos mais cheinhos. Ao defender a perda de
25 quilos como escolha pessoal e cultural, sua fala foi lida como elitista e
expôs como os padrões corporais seguem atravessados por classe social, capital
simbólico e hierarquias de valor.
Meses
depois, no BBB26, a atriz Solange Couto protagonizou nova controvérsia ao
comentar de forma agressiva a alimentação de uma colega, consolidando sua
imagem como uma espécie de "fiscal da comida". O episódio evidenciou
como o ato de comer pode se transformar em alvo de vigilância, julgamento e
constrangimento público.
Embora
situados em universos distintos - redes sociais e
televisão de massa - , ambos os casos revelam como fenômeno
estrutural uma transformação da alimentação e do corpo em
territórios morais permanentemente avaliados. Comer, engordar,
emagrecer ou desejar determinados corpos deixa de ser experiência
íntima para se tornar marcador de classe, status e
pertencimento cultural.
Este
artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre práticas alimentares, fome e
formas contemporâneas de controle do comer. Articula dados sobre insegurança
alimentar com dispositivos midiáticos, econômicos e biomédicos que moldam o
consumo e os ideais corporais. Analisa, ainda, como a farmacologização do
emagrecimento - por meio de
medicamentos como Ozempic e Mounjaro - se insere em um cenário
no qual milhões seguem enfrentando a fome concreta.
Comida
é, simultaneamente, biologia e cultura. Em um mercado global de estética, saúde
e performance, comer ultrapassa a função nutritiva e passa a envolver disputas
simbólicas, políticas e afetivas. Comer é também negociar poder, pertencimento
e legitimidade social.
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Fome, Insegurança Alimentar e Qualidade Nutricional
Apesar
de avanços pontuais, a fome permanece uma das maiores tragédias contemporâneas.
Em
2024, cerca de 8,2% da população mundial - aproximadamente 673 milhões
de pessoas - viviam em situação
de fome. No Brasil, embora o país tenha deixado
oficialmente o Mapa da Fome da ONU em 2025, mais de 60 milhões
de brasileiros ainda convivem com algum grau de insegurança
alimentar.
Entretanto,
como destaca a nutricionista Aryene Zangale Vieira, é fundamental distinguir
comer de nutrir-se. Estar fora do Mapa da Fome não significa, necessariamente,
estar bem alimentado.
Segundo
a especialista, um ponto pouco discutido é a qualidade da alimentação
disponível, especialmente em populações de baixa renda. Em muitos territórios,
predominam os chamados "desertos alimentares", onde há escassez de
alimentos frescos e abundância de produtos ultraprocessados. Nesses contextos,
a oferta é limitada e, quando existe, frequentemente é composta por alimentos
com baixo valor nutricional e alto teor de aditivos.
Aryene
ressalta que a ausência de nutrientes essenciais e o consumo excessivo de
ultraprocessados podem gerar impactos significativos na saúde. Muitos desses
produtos atuam como desreguladores endócrinos, interferindo no equilíbrio
hormonal e favorecendo o ganho de peso. Isso desmonta a ideia simplista de que
"se está acima do peso é porque come bem". A realidade é mais
complexa: é possível ingerir calorias em excesso e, ainda assim, permanecer
desnutrido.
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Moralização do Comer e Biopolítica
Cercear
significa limitar, tolher, impedir. Quando o acesso à comida é negado por
desigualdades econômicas, cerceia-se o direito à vida. Quando o comer é
moralizado e ridicularizado, cerceia-se a dignidade com novas manobras e outras
intensidades.
A
sociedade contemporânea produz uma pedagogia silenciosa do apetite onde comer
pouco é virtude; comer muito é falha moral; controlar-se é sinal de sucesso.
Essa lógica constrói sujeitos permanentemente em dívida com seus próprios
corpos e sob olhar alheio.
Trata-se
de uma forma do que chamamos de biopolítica, o poder não apenas administra
populações, mas ensina como cada indivíduo deve gerir sua fome, seu desejo e
sua aparência - como vimos nas
entrevistas de Michel Alcoforado em sua pesquisa de doutorado sobre "A
vida dos endinheirados brasileiros".
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A Indústria do Corpo Gerenciável
Medicamentos
como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida), originalmente indicados
para o tratamento do diabetes tipo 2, tornaram-se símbolos da nova economia do
emagrecimento. Ao reduzirem o apetite e acelerarem a perda de peso, passaram a
circular como ferramentas de gestão corporal.
Essas
tecnologias, além de operarem no campo médico, elas produzem subjetividades e
reforçam a ideia de que o corpo deve ser constantemente corrigido e otimizado.
Enquanto o mercado desses sintéticos (agonistas de GLP-1) movimenta bilhões de
dólares, milhões de pessoas ainda lutam para garantir o básico, a comida
suficiente e de qualidade.
Surge,
então, uma pergunta ética incontornável, quem pode gerir o próprio corpo com
tecnologia? E quem permanece lutando apenas para comer?
A fome
estrutural convive com tecnologias sofisticadas de controle do apetite. A
escassez material divide espaço com a abundância vigiada. Entre o prato vazio e
a caneta emagrecedora, constrói-se a mesma lógica, a de que os corpos devem ser
administrados, corrigidos e hierarquizados. Não se trata apenas de combater a
fome, mas de enfrentar a cultura que transforma o ato de comer em culpa, o
corpo em projeto inacabado e a vida em planilha de desempenho performático.
Imagine que alguns usuários de fato tratam quem come como "seres de outro
planeta". Eles mal se percebem tão dependentes quanto.
Enquanto
não reconhecermos que comida é direito, afeto, cultura e dignidade,
continuaremos produzindo uma sociedade onde alguns aprendem a passar fome - e outros, a sentir
vergonha de comer.
Fonte:
Entrevista para Giorgio Vincenzi, no il manifesto/Brasil 247

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