quinta-feira, 5 de março de 2026

"O bem comum não é uma propriedade privada", diz Gaël Giraud

Com Costruire un mondo comune (Construir um mundo comum, Piemme-Libreria Editrice Vaticana, €21), com prefácio de Carlo Petrini, retorna às livrarias Gaël Giraud, matemático, economista, teólogo, padre jesuíta e diretor de pesquisa do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) de Paris, com um passado de economista-chefe da agência francesa do desenvolvimento e de diretor do programa de justiça ambiental da Universidade de Georgetown, de Washington, que ele fundou.

Giraud é considerado um dos mais importantes teóricos da transição ecológica internacionalmente. Com esse novo livro – lançado dois anos após "Il gusto di cambiare. La transizione ecologica come via per la felicita” (O sabor da mudança: a transição ecológica como caminho para a felicidade) – ele nos diz que é chegou a hora de encontrarmos respostas concretas para algumas questões fundamentais, como: o conceito de propriedade privada deve ser reexaminado? A soberania dos Estados nacionais ainda é sustentável? Como podemos colaborar eficazmente para construir instituições internacionais capazes de preservar nossos bens comuns globais?

<><> Eis a entrevista.

•        Giraud, ao pegar o livro nas mãos, imediatamente o olho salta para um subtítulo provocativo na capa: "E Deus NÃO abençoou a propriedade privada". O que quer nos dizer?

As Escrituras não condenam a propriedade privada em si, mas a apropriação exclusiva que nega o acesso a bens fundamentais aos mais necessitados. Deus criou o mundo como um dom gratuito para todos, não como um privilégio para poucos. Quando a propriedade privada se torna absoluta, desumaniza e destrói a fraternidade. Esse livro é um convite a repensar a propriedade como serviço ao bem comum, não como domínio. No direito latino clássico, a res communis era considerada a forma mais elevada de propriedade, enquanto a res privata constituía a sua forma mais baixa. Hoje, nossa sociedade subverteu completamente essa ordem hierárquica.

•        Esse é o primeiro de dois volumes nos quais pretendo oferecer reflexões e propostas para a construção de um futuro sustentável baseado nos ensinamentos bíblicos. Concretamente?

Nesse primeiro volume, exploro os fundamentos teológicos e econômicos para uma ecologia integral. Proponho a relocalização da economia, a criação de moedas complementares, a instituição de uma renda básica ecológica e o reconhecimento jurídico dos bens comuns fundamentais: água doce, clima, saúde, florestas e conhecimento. A Bíblia nos ensina que a justiça social é inseparável do cuidado com a Terra. Na grande tradição patrística, São Tomás também coloca a propriedade comum no ápice da hierarquia das formas de compreender o dom da criação. Os bens comuns fazem parte do direito natural, mas não a propriedade privada. Esta última faz parte apenas do direito positivo — aquilo que os seres humanos atribuem a si mesmos e que pode ser contingente ou arbitrário — de modo a aliviar o cansaço que comporta o indispensável debate para a gestão dos bens comuns. Em última análise, poderíamos dizer que a propriedade privada é uma medida paliativa para nos aliviar do esforço democrático. Foi o inglês John Locke (1632-1704) quem inverteu o papel da propriedade privada, inserindo-a no direito natural. Isso contraria toda a grande tradição cristã. Mas nesse livro também mostro que os Atos dos Apóstolos nos ensinam que existe outro perigo, simétrico à absolutização da propriedade privada: o da absolutização da res publica, isto é, do poder do Estado. Esses dois perigos são extremamente atuais.

•        E quanto ao segundo volume?

Abordarei a imensa questão da reforma gregoriana e como, ao inventar o direito canônico no século XI, o Papa Gregório VII reinventou o Estado moderno na Europa. Todos os Estados que conhecemos hoje se inspiraram em sua reforma. Trata-se, portanto, de uma virada fundamental que precisa ser compreendida. Mas falaremos sobre isso no próximo ano.

•        Acima falamos sobre os bens comuns e, consequentemente, também sobre a defesa da Terra. O senhor esteve na COP30 em Belém (Brasil). Qual foi a sua opinião sobre esse evento, onde estratégias para a defesa do planeta deveriam ser elaboradas?

Não foi nem um sucesso nem um fracasso total. Por um lado, marcou um progresso real na justiça climática: maior reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, fortalecimento da ligação entre clima e questões de gênero e a confirmação da triplicação dos financiamentos para a adaptação até 2035. A arquitetura das finanças verdes também foi fortalecida, com novas iniciativas para a proteção das florestas e um envolvimento mais explícito dos ministros das finanças nas negociações climáticas. No entanto, a COP30 falhou no ponto central: a ausência de um roteiro concreto para a saída gradual dos combustíveis fósseis. Sem um planejamento claro para o fim do petróleo, gás e carvão, será impossível atingir as metas climáticas. Felizmente, porém, alguns países não se renderam a esse fracasso.

•        Quais?

Refiro-me à Colômbia de Gustavo Petro e à Holanda, que, ao final da COP30, anunciaram sua decisão de organizar a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição Justa dos Combustíveis Fósseis, nos dias 28 e 29 de abril, em Santa Marta, Colômbia. A ideia é criar um fórum paralelo à COP para trabalhar em um roteiro global para a saída dos combustíveis fósseis. Na prática, reunir uma coalizão de países e voluntários para discutir os caminhos jurídicos, econômicos e sociais para implementar essa transição. Naturalmente, se analisará a questão da legitimidade de quaisquer conclusões resultantes de tal evento em relação à "comunidade internacional", ou melhor, ao que resta dela hoje. Se essas negociações paralelas forem bem-sucedidas e reunirem um número significativo de países, será muito difícil ignorá-las na COP31 em Antalya, na Turquia.

•        Muitos se perguntam se a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas ainda tem sentido quando os acordos estão consistentemente sendo redefinidos para baixo.

O multilateralismo está em crise hoje, não apenas em relação ao clima, mas em muitas outras questões globais. Hoje, são os Estados Unidos que estão pisoteando a própria ideia de direito internacional, sem o qual nenhum multilateralismo faz sentido. No entanto, a COP continua sendo o único espaço político no qual os povos do mundo ainda podem se confrontar. Em sua exortação apostólica Laudate Deum, o Papa Francisco expressou seus votos por um "multilateralismo de baixo". Acredito que ele estava absolutamente certo: precisamos criar fóruns de diálogo onde não apenas diplomatas e lobistas se encontrem, mas também a sociedade civil do planeta. A COP pode se tornar esse fórum. De fato, uma novidade extremamente interessante já foi atribuída à última COP no Brasil.

•        A que se refere?

Ao Pacote de Belém, que pela primeira vez inclui referências explícitas ao comércio internacional como tema de coordenação entre as nações. Essa é uma inovação fundamental, visto que alguns países reivindicavam há anos poder discutir sobre comércio internacional e, durante anos, a maioria de seus interlocutores apontava que a COP não é o fórum apropriado para tais discussões, mas sim a Organização Mundial do Comércio (OMC). A partir de agora, a COP também se torna o fórum mundial para discutir sobre comércio internacional. A razão para esse importante avanço político reside, obviamente, na nova política tarifária imposta pela Casa Branca, na paralisia da OMC em Genebra, mas também no poder das exportações tecnológicas chinesas de baixo custo, que já arruinaram a indústria fotovoltaica europeia, para citar apenas um exemplo.

•        Quais alternativas econômicas viáveis devemos buscar?

Já existem iniciativas muito interessantes, como as comunidades energéticas na Itália ou as cooperativas de produção de eletricidade descentralizadas na Alemanha. Na Bélgica, estão tentando firmar contratos entre municípios e agricultores orgânicos, para que estes possam se estabelecer perto das cidades. Os cidadãos se comprometem em comprar seus produtos durante todo o ano, mas também a dedicar uma certa porcentagem do seu tempo para ajudar na fazenda. O agricultor orgânico, em troca, produz exclusivamente para eles. Em nível estadual, é urgente introduzir uma tributação redistributiva que vise patrimônios, rendas e extração de recursos não renováveis, em vez de onerar o trabalho. Do lado das empresas é preciso um novo estatuto jurídico que subordine o lucro à responsabilidade social e ambiental, no modelo das sociétés à mission francesas. Devemos também ter em mente que a justiça social não é um custo, mas sim o motor da resiliência.

•        Outra questão: como tornar a transição energética uma realidade, quando ela é frequentemente submetida à chantagem dos empregos?

A chantagem é uma falsa oposição. A transição pode criar milhões de empregos dignos: na reestruturação energética dos edifícios, nas energias renováveis distribuídas, na agroecologia. Precisamos de um Plano de Conversão Ecológica, financiado por impostos verdes e empréstimos específicos do BCE, acompanhado de formação profissional e garantias salariais. Trabalho e ecologia caminham juntos, não um contra a outra. E a transição ecológica é uma aliada do emprego, não sua inimiga.

•        O prato está menor e o corpo está sob vigilância. Por Sara York

Em fevereiro de 2025, a influenciadora Maya Massafera provocou ampla repercussão ao reagir às críticas sobre sua magreza afirmando que "gente rica", a elite e o mundo da moda preferem corpos muito magros, enquanto "gente mais simples" tenderia a valorizar corpos mais cheinhos. Ao defender a perda de 25 quilos como escolha pessoal e cultural, sua fala foi lida como elitista e expôs como os padrões corporais seguem atravessados por classe social, capital simbólico e hierarquias de valor.

Meses depois, no BBB26, a atriz Solange Couto protagonizou nova controvérsia ao comentar de forma agressiva a alimentação de uma colega, consolidando sua imagem como uma espécie de "fiscal da comida". O episódio evidenciou como o ato de comer pode se transformar em alvo de vigilância, julgamento e constrangimento público.

Embora situados em universos distintos-redes sociais e televisão de massa-, ambos os casos revelam como fenômeno estrutural uma transformação da alimentação e do corpo em territórios morais permanentemente avaliados. Comer, engordar, emagrecer ou desejar determinados corpos deixa de ser experiência íntima para se tornar marcador de classe, status e pertencimento cultural.

Este artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre práticas alimentares, fome e formas contemporâneas de controle do comer. Articula dados sobre insegurança alimentar com dispositivos midiáticos, econômicos e biomédicos que moldam o consumo e os ideais corporais. Analisa, ainda, como a farmacologização do emagrecimento-por meio de medicamentos como Ozempic e Mounjaro-se insere em um cenário no qual milhões seguem enfrentando a fome concreta.

Comida é, simultaneamente, biologia e cultura. Em um mercado global de estética, saúde e performance, comer ultrapassa a função nutritiva e passa a envolver disputas simbólicas, políticas e afetivas. Comer é também negociar poder, pertencimento e legitimidade social.

<><> Fome, Insegurança Alimentar e Qualidade Nutricional

Apesar de avanços pontuais, a fome permanece uma das maiores tragédias contemporâneas.

Em 2024, cerca de 8,2% da população mundial-aproximadamente 673 milhões de pessoas-viviam em situação de fome. No Brasil, embora o país tenha deixado oficialmente o Mapa da Fome da ONU em 2025, mais de 60 milhões de brasileiros ainda convivem com algum grau de insegurança alimentar.

Entretanto, como destaca a nutricionista Aryene Zangale Vieira, é fundamental distinguir comer de nutrir-se. Estar fora do Mapa da Fome não significa, necessariamente, estar bem alimentado.

Segundo a especialista, um ponto pouco discutido é a qualidade da alimentação disponível, especialmente em populações de baixa renda. Em muitos territórios, predominam os chamados "desertos alimentares", onde há escassez de alimentos frescos e abundância de produtos ultraprocessados. Nesses contextos, a oferta é limitada e, quando existe, frequentemente é composta por alimentos com baixo valor nutricional e alto teor de aditivos.

Aryene ressalta que a ausência de nutrientes essenciais e o consumo excessivo de ultraprocessados podem gerar impactos significativos na saúde. Muitos desses produtos atuam como desreguladores endócrinos, interferindo no equilíbrio hormonal e favorecendo o ganho de peso. Isso desmonta a ideia simplista de que "se está acima do peso é porque come bem". A realidade é mais complexa: é possível ingerir calorias em excesso e, ainda assim, permanecer desnutrido.

<><> Moralização do Comer e Biopolítica

Cercear significa limitar, tolher, impedir. Quando o acesso à comida é negado por desigualdades econômicas, cerceia-se o direito à vida. Quando o comer é moralizado e ridicularizado, cerceia-se a dignidade com novas manobras e outras intensidades.

A sociedade contemporânea produz uma pedagogia silenciosa do apetite onde comer pouco é virtude; comer muito é falha moral; controlar-se é sinal de sucesso. Essa lógica constrói sujeitos permanentemente em dívida com seus próprios corpos e sob olhar alheio.

Trata-se de uma forma do que chamamos de biopolítica, o poder não apenas administra populações, mas ensina como cada indivíduo deve gerir sua fome, seu desejo e sua aparência-como vimos nas entrevistas de Michel Alcoforado em sua pesquisa de doutorado sobre "A vida dos endinheirados brasileiros".

<><> A Indústria do Corpo Gerenciável

Medicamentos como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida), originalmente indicados para o tratamento do diabetes tipo 2, tornaram-se símbolos da nova economia do emagrecimento. Ao reduzirem o apetite e acelerarem a perda de peso, passaram a circular como ferramentas de gestão corporal.

Essas tecnologias, além de operarem no campo médico, elas produzem subjetividades e reforçam a ideia de que o corpo deve ser constantemente corrigido e otimizado. Enquanto o mercado desses sintéticos (agonistas de GLP-1) movimenta bilhões de dólares, milhões de pessoas ainda lutam para garantir o básico, a comida suficiente e de qualidade.

Surge, então, uma pergunta ética incontornável, quem pode gerir o próprio corpo com tecnologia? E quem permanece lutando apenas para comer?

A fome estrutural convive com tecnologias sofisticadas de controle do apetite. A escassez material divide espaço com a abundância vigiada. Entre o prato vazio e a caneta emagrecedora, constrói-se a mesma lógica, a de que os corpos devem ser administrados, corrigidos e hierarquizados. Não se trata apenas de combater a fome, mas de enfrentar a cultura que transforma o ato de comer em culpa, o corpo em projeto inacabado e a vida em planilha de desempenho performático. Imagine que alguns usuários de fato tratam quem come como "seres de outro planeta". Eles mal se percebem tão dependentes quanto.

Enquanto não reconhecermos que comida é direito, afeto, cultura e dignidade, continuaremos produzindo uma sociedade onde alguns aprendem a passar fome-e outros, a sentir vergonha de comer.

 

Fonte: Entrevista para Giorgio Vincenzi, no il manifesto/Brasil 247

 

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