Irã
vai disputar a Copa do Mundo?
Daqui a
pouco mais de 100 dias, os Estados Unidos serão um dos três países anfitriões
da Copa do Mundo de futebol masculino. E o Irã é uma das seleções classificadas
para a disputa.
No
sábado (28/2), os Estados Unidos atacaram o Irã, em uma operação conjunta com
Israel que segue em andamento, despertando ataques retaliatórios em todo o
Golfo Pérsico.
O que o
conflito pode significar para os países envolvidos, para a Fifa e para uma Copa
do Mundo que já estava altamente politizada?
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O Irã ainda irá disputar a Copa do Mundo?
Esta
seria a quarta Copa do Mundo consecutiva com a participação do Irã. Seus três
jogos na fase de grupos estão marcados para os Estados Unidos: contra a Nova
Zelândia e a Bélgica, em Los Angeles, e contra o Egito, em Seattle.
O Irã
não desistiu da competição no ano passado, quando os Estados Unidos
bombardearam três instalações nucleares iranianas.
Mas, em
vista da maior seriedade da convulsão atual, o presidente da federação iraniana
de futebol teria levantado dúvidas sobre a participação do país.
"Com
o que aconteceu... e com aquele ataque dos Estados Unidos, é improvável que
possamos olhar para a Copa do Mundo à nossa frente, mas os dirigentes do
esporte são quem deve tomar a decisão", teria dito Mehdi Taj à televisão
iraniana.
Em meio
à morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), e às
imensas incertezas sobre o futuro cenário político do país, é impossível prever
qual será essa decisão — e até mesmo quem irá tomá-la.
"Para
Teerã, esta não é uma guerra curta de 12 dias, nem uma escalada contida que
possa sofrer uma pausa e, depois, reiniciar", afirma Sanam Vakil, diretora
do Programa de Oriente Médio e Norte da África do grupo de estudos sobre
assuntos internacionais Chatham House.
Para
ela, "este novo estágio de conflito é existencial e claramente sobre a
sobrevivência do regime. É também improvável que ele termine rapidamente."
A Fifa,
que dirige o futebol mundial, declarou estar acompanhando os acontecimentos.
Mas, neste momento, as autoridades estão afirmando de forma privada que esperam
que o Irã participe da Copa do Mundo.
No
sábado (1/3), o secretário-geral da Fifa, Mattias Grafstrom, declarou que
"o nosso objetivo é ter uma Copa do Mundo segura, com a participação de
todos".
Pelas
regras da Fifa, no caso da desistência ou exclusão de uma equipe, a entidade
pode "tomar qualquer ação que considerar necessária" e "pode
decidir substituir a associação participante por outra".
A BBC
Sport entrou em contato com a Fifa, pedindo esclarecimentos sobre as sugestões
de que o Irã poderia ser substituído por outra equipe da Confederação Asiática
de Futebol (AFC, na sigla em inglês).
Se isso
acontecer, os favoritos seriam o Iraque, que ainda poderá ganhar uma vaga na
repescagem intercontinental a ser disputada no final deste mês, ou os Emirados
Árabes Unidos, que foram desclassificados nas eliminatórias.
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'Estamos em território desconhecido'
O
presidente americano, Donald Trump, assinou no ano passado uma ordem executiva
proibindo a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de 12 países, incluindo o
Irã. O motivo indicado foi uma tentativa de gerenciar ameaças à segurança
americana.
Os
jogadores e a equipe técnica das equipes que irão disputar a Copa do Mundo são
exceções, mas o Irã ameaçou boicotar o sorteio da Copa, realizado em Washington
no mês de dezembro, quando os pedidos de visto de parte das suas autoridades
foram rejeitados.
Mas, se
o Irã jogar a Copa, provavelmente haverá um escrutínio ainda maior em relação à
segurança dos jogos da equipe e da base de treinamento planejada pelo Irã, no
Arizona.
Os
jogos da seleção iraniana na Copa do Mundo do Catar, em 2022, ocorreram em um
cenário de protestos em massa contra o governo no Irã. As partidas incluíram
uma derrota por 1x0 frente aos Estados Unidos.
Na
segunda partida da seleção iraniana, contra o País de Gales, houve confrontos
entre torcedores com visões opostas sobre o governo do país.
E,
considerando as esperanças de Trump em relação a uma possível mudança de regime
no Irã, é possível que ocorra uma situação parecida na Copa deste ano. Afinal,
Los Angeles, que irá receber duas partidas do Irã, abriga uma das maiores
comunidades iranianas do planeta.
"Estamos
em território desconhecido, a apenas pouco mais de três meses do início da Copa
do Mundo e com os anfitriões lançando uma guerra de agressão contra um país
participante", afirma Nick McGeehan, do grupo de defesa dos direitos
humanos FairSquare.
"Se
o Irã retirar sua equipe da Copa (uma decisão que parece totalmente plausível),
a Fifa provavelmente irá suspirar de alívio, considerando a possibilidade de
protestos e distúrbios."
Mesmo
se o Irã não comparecer, as tensões poderão aumentar, especialmente
considerando que o evento fará parte das comemorações dos 250 anos da
Declaração de Independência dos Estados Unidos. Espera-se que Trump seja uma
presença muito visível no evento, como ocorreu no Mundial de Clubes de futebol
e na Ryder Cup de golfe, no ano passado.
O
conflito começou poucos dias depois que autoridades do governo americano foram
alertadas de que poderá haver consequências "catastróficas" para a
segurança se as 11 cidades-sede norte-americanas não receberem o dinheiro que
foi congelado em meio a um fechamento parcial do governo do país. Afirma-se que
o cronograma das preparações está atrasado.
Também
existem preocupações cada vez maiores sobre a possibilidade de uso de
autoridades do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na
sigla em inglês) durante o torneio e com um surto de violência dos cartéis no
México, país vizinho e outro anfitrião da Copa.
Além
disso, as relações entre os Estados Unidos e o terceiro anfitrião, o Canadá,
também sofreram tensões, com Trump impondo uma série de tarifas de importação
para o vizinho do norte.
Durante
o fim de semana (28/2-1/3), o chefe da força-tarefa da Casa Branca para a Copa
do Mundo, Andrew Giuliani, elogiou os ataques de Trump ao Irã. Ele postou nas
redes sociais que suas ações iriam "fazer do mundo um lugar seguro".
"Cuidaremos
do futebol amanhã", acrescentou ele. "Esta noite, comemoramos a
chance de liberdade" do povo iraniano.
Mas o
conflito no Oriente Médio provavelmente aumentará as críticas ao presidente da
Fifa, Gianni Infantino, sobre seu relacionamento próximo com Donald Trump.
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E o 'Prêmio da Paz' da Fifa?
Em
dezembro, a Fifa concedeu a Donald Trump seu primeiro "Prêmio da
Paz", durante a cerimônia do sorteio da Copa do Mundo de 2026.
A
entidade declarou que o presidente americano "desempenhou papel
fundamental" no estabelecimento de um cessar-fogo entre Israel e os
palestinos, além de buscar pôr fim a outros conflitos.
Desde a
entrega do prêmio, os Estados Unidos realizaram ações militares na Venezuela,
Nigéria e Irã, além de indicarem possíveis operações na Groenlândia, no México
(outro país-sede da Copa do Mundo) e na Colômbia, que também participa do
torneio.
Em
janeiro, Trump também disse a Cuba que "faça um acordo" ou enfrente
as consequências.
Trump
vem defendendo intensamente sua política externa. Ele insiste que está agindo
no interesse dos Estados Unidos.
No mês
passado, Infantino defendeu a concessão do "Prêmio da Paz". Ele
chegou a comparecer à primeira reunião do Conselho de Paz do presidente
americano, usando um boné temático de Trump, com as inscrições "USA"
e "45-47" (Trump, com dois mandatos não consecutivos, é o 45° e 47°
presidente americano).
A
decisão de Donald Trump de atacar o Irã foi objeto de apoio e de condenação.
Mas o certo é que ela irá gerar maior escrutínio sobre a decisão da Fifa de se
alinhar com o presidente americano.
Críticos
defendem que este posicionamento gerou o risco de politização do órgão que
dirige o futebol mundial.
Em
janeiro, 27 políticos britânicos trabalhistas, liberal-democratas, do Partido
Verde e do Plaid Cymru (o Partido do País de Gales) subscreveram uma moção no
parlamento nacional convocando as organizações esportivas a considerar a
expulsão dos Estados Unidos das principais competições internacionais,
incluindo a Copa do Mundo de futebol.
A moção
afirma que esses eventos "não devem ser empregados para legitimar ou
normalizar violações do direito internacional por Estados poderosos".
Também
no mês passado, uma autoridade da Federação Alemã de Futebol declarou que está
na hora de considerar um boicote à Copa do Mundo de 2026, em vista das ações de
Donald Trump.
Essas
demandas poderão ser repetidas. E os Estados do Golfo Pérsico também podem
pedir a punição do Irã pelos ataques retaliatórios ao seu território.
A Fifa
defende que, como organizadora de eventos futebolísticos, sua obrigação
estatutária é permanecer neutra.
Neste
sentido, Infantino declarou no ano passado que a Fifa "não pode resolver
problemas geopolíticos", em meio às pressões para sancionar Israel, quando
uma comissão das Nações Unidas concluiu que o país cometeu genocídio contra os
palestinos na Faixa de Gaza.
O
Ministério das Relações Exteriores israelense rejeitou categoricamente o
relatório, considerado "falso e distorcido".
Alguns
críticos acreditam que as regras da Fifa devem ser fortalecidas, para que a
entidade possa reagir adequadamente a eventos geopolíticos sérios. E esta não é
a primeira vez que o organismo sofre pressões devido a ações tomadas por um
país-sede da Copa do Mundo.
Em
2018, o torneio foi realizado na Rússia, quatro anos depois que o país anexou a
península da Crimeia. A Rússia também foi acusada de ciberataques,
interferência em eleições ocidentais e de realizar o ataque com o agente
nervoso Novichok em Salisbury, no Reino Unido.
A
Rússia acabou banida da Fifa em 2022, após a invasão da Ucrânia. Diversos
países europeus se recusaram a competir contra o país.
Mas
Infantino declarou recentemente que a punição não funcionou. O presidente da
entidade afirmou que ele deseja considerar a suspensão da medida e alterar o
estatuto da Fifa para evitar boicotes.
Certamente,
não há sinal de que ele tenha qualquer disposição para criar sanções contra os
Estados Unidos, por mais controversa que possa ser a política externa
americana.
O que
fica claro é que, nos últimos dias, o que já era um cenário político complicado
para a Copa do Mundo se transformou em um desafio ainda maior.
Fonte:
BBC News

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