Há
36 anos, bairro de Madri apelou a Fidel Castro na luta contra expropriação
Há 36
anos atrás, quando o atual bairro de Valdezarza (na região oeste de Madri) se
chamava Cerro Belmonte, seus moradores empreenderam uma dura batalha contra a
especulação imobiliária, que envolveu proclamação de “independência”, greve de
fome e até apelo a Fidel Castro.
O caso
teve início no verão de 1990, quando a Prefeitura de Madri ofereceu aos
moradores cerca de cinco mil pesetas (antiga moeda espanhola) por metro
quadrado, enquanto o valor real do terreno na região girava em torno de 200 mil
pesetas.
A
indignação entre os residentes foi imediata. Cerro Belmonte era um bairro de
classe baixa, formado principalmente por famílias que migraram da Espanha rural
nos anos 60 e construíram suas próprias moradias.
O plano
impulsionado pelo prefeito Agustín Rodríguez Sahagún era realojar os habitantes
do bairro em regiões mais distantes para e, em seguida, construir casas mais
caras nessas ruas da região oeste.
Depois
de várias tentativas de negociação sem sucesso, os moradores da localidade
resolveram adotar uma estratégia inusitada: pedir ajuda ao governo de Cuba.
Membros
da comunidade enviaram uma carta ao líder cubano Fidel Castro no dia 25 de
julho de 1990, explicando a situação e pedindo seu apoio. O mandatário
comunista não só respondeu aos vizinhos como também os convidou a visitar a
ilha.
Em
Cuba, Castro disse ao grupo que lutasse pelos seus direitos e chegou até mesmo
a oferecer moradia de graça aos espanhóis desse bairro madrilenho, mas nenhum
aceitou a oferta e os moradores retornaram a Madri.
Quem
participou dessa mobilização social foi Santiago Botana, que naquela época
tinha 30 anos. “Eu não morava no bairro mas a gente vinha bastante apoiar à
causa porque a minha ideologia de construir um mundo mais justo e de empatizar
com as pessoas que lutam era e continua sendo a mesma até hoje”, hoje com 56
anos.
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‘Reino’ de Belmonte
Na
volta, ao ver que essa estratégia midiática não tinha funcionado, os vizinhos
mudaram a tática e fizeram um plebiscito. A maioria optou por tornar a
resistência ainda mais simbólica: o grupo proclamou a “independência” do
bairro, e passou a tratá-lo como um reino separado da Espanha.
Apesar
de a iniciativa não ter sido reconhecida pelo governo espanhol nem por outros
países da Europa, os moradores a levaram bastante a sério, e chegaram até mesmo
a criar uma bandeira, uma constituição própria e uma moeda.
Quem
lembra bem da época da “independência” é Jorge Molinero, que continua morando
em Cerro Belmonte.
“Eu
tinha apenas 14 anos e lembro que para ir de um bairro a outro tínhamos que
passar por uma espécie de cerca onde havia uma fita de plástico vermelha
pendurada. Para chegar do outro lado, tínhamos que atravessar um país”, conta o
espanhol, entre risos, a Opera Mundi.
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Greve de fome e vitória
A
“independência” chamou a atenção da imprensa, tanto quanto a visita a Cuba, mas
não convenceu a Prefeitura de Madri a desistir de seu projeto. Assim, os
moradores partiram para o terceiro plano: realizar uma greve de fome.
A
medida foi tomada em meio a um cenário pré-eleitoral – em função das eleições
municipais que aconteceriam em maio de 1991 – e os políticos temiam o impacto
negativo que a greve poderia gerar, por exemplo, se algum dos grevistas
sofresse com problemas graves de saúde, especialmente os idosos.
Com
isso, os moradores finalmente convenceram a Prefeitura a interromper o processo
de expropriação de Cerro Belmonte
A
partir dessa decisão, cada morador pôde decidir o que queria fazer com a sua
propriedade: quem quis vender seu imóvel negociou o preço da melhor maneira
possível, enquanto outros decidiram ficar no bairro – que foi o caso de
Molinero que herdou a casa que era da sua avó, uma das poucas daquela época que
continuam de pé.
“Recebo
ofertas o tempo todo, mas já disse mil vezes que não vendo. Quero ficar aqui e
que meus filhos continuem vivendo nesta casa quando eu falecer. Este bairro
mudou muito, antigamente, aqui na frente, tinha uma pequena granja, na esquina
havia plantações e agora está cheio de casas grandes e novas”, conta.
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Da realidade à ficção
O
episódio de luta social foi tão inusitado que artistas se inspiraram nesse
momento da história madrilenha para escrever livros e peças de teatro.
A
novela O reino de Belmonte: uma utopia urbana, lançada pelo escritor Alfonso
Mateo-Sagasta em 2025, conta a história em detalhes, ao longo de pouco mais de
400 páginas.
Quem
também se inspirou nesse episódio de resistência comunitária, foi o dramaturgo
e ator Fernando de Luxán que escreveu uma obra de teatro que celebra a
criatividade da população local.
“As
partes mais malucas da história são reais, isso fez com que eu não tivesse que
inventar muito para que a peça ficasse surrealista. Acredito que a ficção e o
humor são boas ferramentas para transformar a realidade”, explica o artista a
Opera Mundi.
Hoje em
dia, restam poucas casas com muros baixos e fachadas simples no antigo bairro
de Cerro Belmonte, que atualmente é conhecido como Valdezarza. Aquelas que
resistem estão cercadas por moradias novas e alguns edifícios altos.
Um
cenário que se afasta das origens humildes do bairro e da memória de vizinhos
que, no passado, deixaram um grande legado de mobilização e ativismo social.
Fonte:
Opera Mundi

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