Vinicius
de Andrade: O desserviço de desqualificar a universidade pública
"Um
dos fatores maiores de não permitir nossos filhos irem para a federal é a gente
manter nossos valores familiares. A faculdade particular [se] alinha mais aos
nossos princípios [...]. A federal aqui no Rio está bem precária, tem greve
vários meses, prédio quebrado, está caindo aos pedaços."
As
falas acima saíram de um vídeo em que o ex-jogador Túlio Maravilha, sua esposa
e sua filha explicam as razões pelas quais a jovem não iria para a Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ou para a estadual (UERJ) mesmo após, segundo
eles, ter sido aprovada.
Parecia
uma nota ao público – ainda que, curiosamente, não tenha havido demanda popular
por uma. Na verdade, a maior motivação parece ter sido aproveitar a
oportunidade para subestimar e desdenhar publicamente das universidades
públicas.
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Valores não alinhados?
Segundo
Cristiane, esposa de Túlio, as universidades privadas estão mais alinhadas aos
seus valores familiares do que as universidades públicas. O que exatamente ela
quis dizer? Ela não explicou, mas sua fala pode reforçar estigmas
preconceituosos contra as universidades públicas.
Alguns
acham que são apenas um espaço de drogas e sem qualquer produção científica, o
que não é verdade. A UFRJ, por exemplo, está acima das privadas do estado nos
rankings de produção científica.
Outros,
partindo de um viés político, sustentam a rasa ideia de que são um espaço de
ditadura política em que apenas uma visão é permitida e em que uma verdadeira
lavagem cerebral é feita em seus alunos, o que também não é verdade. As
universidades públicas são plurais, produzem ciência e instigam o senso
crítico.
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Não estão caindo aos pedaços
Segundo
Túlio, a federal é bem precária. Sua filha complementa: "Caindo aos
pedaços". Entendo que há sim problemas de infraestrutura em muitas
universidades públicas do país, devido a questões orçamentárias. Mas gravar um
vídeo resumindo-as a "caindo aos pedaços" é muito perigoso e não faz
justiça a toda a inovação que produzem.
Trarei
aqui, o que nem precisou de muita pesquisa, dois exemplos de inovações de
pesquisadores da UFRJ.
Tatiana
Coelho de Sampaio lidera uma pesquisa que está desenvolvendo um medicamento
capaz de reverter a lesão medular. Sua pesquisa – inovadora, diga-se de
passagem – ganhou reconhecimento nacional e internacional.
Já
Christal Abraham, Cristiane de Sá Ferreira Facio, Amanda Ranhel, Daniele
Fernandes, Enrico Riscarolli e Elaine Sobral da Costa, do laboratório de
citometria de fluxo, desenvolveram em parceria com o instituto nacional de
Câncer (INCA) um método que reduz o tempo de espera do diagnóstico do câncer
infantil de até 15 dias para apenas um dia, agilizando o tratamento.
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Devemos nos orgulhar das nossas universidades
Vivemos
em um país polarizado. Lidar com fake news e vivenciar o efeito delas na
população, sobretudo em quem acredita sem questionar, já é parte do nosso
cotidiano.
Não há
problema em uma família não permitir que seus filhos ingressem em uma
universidade pública.
Agora,
uma família com acesso à informação e com o poder de influenciar outras nas
redes sociais chegar ao ponto de publicar um vídeo reforçando estigmas e
desvalorizando nossas universidades públicas é sim um grande problema.
Nossas
universidades públicas têm sim problemas, mas devido à falta de orçamento, e
não à falta de produtividade acadêmica e científica, pois é justamente essa
produtividade que as torna referência não apenas nacional como também
internacional.
O vídeo
de Túlio Maravilha e sua família, ao desqualificar universidades públicas com
base em desinformação, não é apenas um desserviço ao debate educacional, mas
também um gesto profundamente antipatriótico.
• O custo da mentalidade utilitarista na
educação. Por Lívia Vitória dos Santos
"Não
faz sentido eu estudar fórmula de Bhaskara e equação de segundo grau, porque o
que isso vai me ajudar na minha vida? A longo prazo não te dá retorno
financeiro. Como que eu vou ganhar dinheiro com isso?"
Embora
a maioria dos professores já tenham sido confrontados com a pergunta canônica
"se não vou usar na minha vida, para que vou estudar isso?", a
citação acima não foi retirada de uma sala de aula, mas de um corte de podcast
que viralizou em 2024.
A fala,
dita por um jovem de 14 anos, chama a atenção justamente por revelar a
mentalidade utilitarista enraizada na nossa sociedade desde a adolescência.
Esse discurso desvaloriza os centros educacionais e transforma a educação em
mercadoria, uma vez que apenas aquilo que tem uma utilidade prática é
legitimado e valorizado: uma lógica prejudicial para a formação intelectual dos
cidadãos brasileiros.
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Nosso modelo de educação está em ruínas?
O
sistema educacional vigente no Brasil foi originado a partir da paideia, modelo
de educação da Grécia Antiga. Ao ensinar sobre literatura, ginástica, retórica,
matemática e ciências, os gregos focavam na formação integral do cidadão, ou
seja, um processo contínuo que aprimorava as características físicas e
intelectuais para a vida na pólis.
Foi
partindo dessa ideia, com algumas adaptações a cada época, que a centralidade
nas matérias tradicionais se perpetuou até os dias de hoje. Ou seja, lecionar
português, matemática, geografia, ciências da natureza e história não é um
método retrógrado, mas a base estruturante do conhecimento.
É
importante reconhecer que atualizações na educação poderiam ser interessantes,
como a proposta de flexibilização de escolhas sugerida pela Base Nacional Comum
Curricular (BNCC). Entretanto, a escola ainda precisa ser um espaço de formação
cidadã e não apenas profissional.
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Para quê? x por quê?: um conflito de valores
Alterar
a base estruturante do conhecimento para uma visão focada apenas no mercado
profissional é renunciar ao objetivo primário da educação: a potencialização de
seres humanos. Quando digo isso, me refiro aos valores que estarão sendo
cultivados na nossa sociedade.
É
provável que, em um dia comum, você nunca tenha usado a fórmula de Bhaskara ou
a equação de segundo grau. Porém, é através desse e outros conhecimentos
fornecidos pelas matérias tradicionais que pensamento crítico, raciocínio
lógico, capacidade de abstração e análise do mundo são estruturados no
intelecto humano.
Ao
invés de manter a visão utilitarista de "para quê?”, é necessário fomentar
uma mentalidade curiosa, investigativa e crítica do porquê cada coisa acontece
no mundo. Isso propiciaria não só uma sociedade com valores mais humanos e
menos automatizados, mas também aumentaria a autonomia intelectual e a
capacidade de resolução de problemas nos indivíduos.
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Custo da visão utilitarista
Essa
mentalidade utilitarista na educação, além de ser uma negligência com a
formação humana, é também reduzir o processo de aprendizagem a uma linha de
produção. Ao priorizar a utilidade do conhecimento em detrimento dos valores
anteriormente citados, um ciclo de alienação e esgotamento mental se perpetua.
O resultado: síndrome de burnout. Os jovens, ao perseguirem apenas o status e o
retorno imediato, veem-se despersonalizados e presos em carreiras vazias de
propósito, produzindo uma sociedade em que, não só a educação, mas a própria
vida se torna uma mercadoria.
Romper
com esse ciclo, através da mudança de mentalidade, é construir uma sociedade
com valores mais humanos.
• Brasileiro ganha prêmio na Alemanha por
pesquisa com IA
Métodos
baseados em inteligência artificial (IA) são confiáveis para diagnosticar
transtornos mentais. Essa é uma das conclusões de estudos liderados pelo
brasileiro, Francisco Rodrigues, da Universidade de São Paulo (USP). Nos testes
em laboratório, imagens de ressonância magnética foram usadas para gerar dados
e treinar um algoritmo capaz de identificar a condição mental dos pacientes com
mais de 90% de acerto.
Os
resultados dessa pesquisa foram publicados em artigos de revistas científicas
como Nature e PLOS One. "Conseguimos identificar quais regiões foram
alteradas em uma pessoa com epilepsia, autismo ou esquizofrenia, por exemplo, e
entender quais alterações estão relacionadas com aquele transtorno",
explica Rodrigues.
A
técnica está em estágio inicial de desenvolvimento, e poderá auxiliar
psicólogos e psiquiatras no diagnóstico automático desses transtornos,
principalmente entre aqueles com sintomas semelhantes e que geram dúvidas entre
os profissionais, ou ainda em fases iniciais das doenças. "Hoje com o
procedimento tradicional, o psiquiatra não vai conseguir identificar se você
vai desenvolver esquizofrenia daqui a dez anos, esse é o ponto".
Segundo
o Censo de 2022, pelo menos 2,4 milhões de brasileiros foram diagnosticados com
o transtorno do espectro autista (TEA), outros 1,6 milhão entre 15 e 44 anos
têm esquizofrenia e mais 1,7 milhão acima de 60 anos têm algum tipo de demência
como mal de Alzheimer e Parkinson.
Atualmente,
o diagnóstico é feito após a avaliação do histórico dos pacientes por
psicólogos e psiquiatras, além da aplicação de testes. "Não há um marcador
para os transtornos mentais, assim como há para o diabetes, por exemplo",
diz Rodrigues. "A ideia é de que no futuro, um escaneamento do cérebro
seja capaz de dizer se a pessoa tem depressão, ou outra questão".
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Coleta de dados é desafio
Em São
Paulo, as análises feitas no laboratório se baseiam justamente em imagens
obtidas por exames de ressonância magnética ou eletroencefalograma (EEG) que
mapeiam o cérebro e sua atividade em pacientes saudáveis e outros com algum
tipo de transtorno. "Tiramos várias dessas medidas e inserimos em um
sistema de aprendizagem de máquina".
Mas
coletar esses dados é um desafio para a pesquisa, uma vez que os EEG podem ser
imprecisos, e as ressonâncias são difíceis de produzir. "Como colocar uma
pessoa com esquizofrenia ou que tenha déficit de atenção mais de 40 minutos
parada dentro de uma máquina?" Por isso, até agora, as análises se
limitaram a algumas dezenas de indivíduos.
Nos
estudos em questão, o pesquisador recorreu a informações coletadas a partir de
ressonâncias magnéticas do cérebro de pacientes dos Estados Unidos. "Um
dos grandes problemas que temos é o número limitado de participantes. Para que
os métodos sejam mais precisos, a máquina precisa de dados, e quanto mais tem,
mais aprende", afirma Rodrigues.
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Colaboração Brasil-Alemanha
E são
exatamente esses dados advindos de técnicas como os minicérebros que o
pesquisador vai buscar na Alemanha. Em janeiro deste ano, Rodrigues foi um dos
20 cientistas agraciados com o prêmio Friedrich Wilhelm Bessel da fundação
alemã Alexander von Humboldt. A instituição concede 60 mil euros (cerca de
R$370 mil) a pesquisadores estrangeiros cujas produções científicas tiveram
impacto no seu campo de estudos.
"Essa
colaboração com a Alemanha é extremamente importante. Já temos bastante
experiência com a parte teórica de aprendizagem de máquina e modelos de
sistemas complexos, trabalho com isso desde o meu doutorado em 2007. Só que na
Alemanha eles conseguem coletar os dados".
Os
minicérebros são obtidos a partir da extração de células do córtex cerebral de
embriões de animais que são isoladas e depois crescem em placas. Um chip capta
a atividade neuronal e os sinais elétricos entre os neurônios, que servirão de
base de dados para os estudos.
A
expectativa é usar esses dados para testar como determinadas intervenções, como
medicamentos, alteram a dinâmica das redes neurais simuladas. Ainda assim, os
organoides não reproduzem a complexidade de um cérebro humano completo e
funcionam como modelos experimentais.
Formado
em Física pela USP, a relação de Rodrigues com a Alemanha começou em 2006,
quando foi aluno visitante do Instituto Max Planck durante o doutorado. Depois,
em 2011, passou a colaborar com a professora Cristiane Thielemann da
Universidade de Ciências Aplicadas de Aschaffenburg em pesquisas com
minicérebros. Foi ela quem o indicou para o prêmio Friedrich Wilhelm Bessel, da
Fundação Humboldt.
Até o
fim de 2026, Rodrigues embarca para Frankfurt, onde vai prosseguir com a
pesquisa durante um ano. Além disso, ele vai ministrar dois cursos na Fundação
Humboldt ligados ao seu tema de estudo: sistemas complexos e aprendizagem de
máquina.
Quando
retornar ao Brasil, a expectativa é de continuar com os trabalhos, mas um
método geral de previsão e diagnóstico de transtornos mentais só deve estar
disponível nos próximos dez anos. "Já sabemos que funciona, mas o
protocolo de coleta de dados ainda é muito restrito, tem que passar por um
processo de implementação da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]
e isso demora".
Fonte:
DW Brasil

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