quinta-feira, 5 de março de 2026

Vinicius de Andrade: O desserviço de desqualificar a universidade pública

"Um dos fatores maiores de não permitir nossos filhos irem para a federal é a gente manter nossos valores familiares. A faculdade particular [se] alinha mais aos nossos princípios [...]. A federal aqui no Rio está bem precária, tem greve vários meses, prédio quebrado, está caindo aos pedaços."

As falas acima saíram de um vídeo em que o ex-jogador Túlio Maravilha, sua esposa e sua filha explicam as razões pelas quais a jovem não iria para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ou para a estadual (UERJ) mesmo após, segundo eles, ter sido aprovada.

Parecia uma nota ao público – ainda que, curiosamente, não tenha havido demanda popular por uma. Na verdade, a maior motivação parece ter sido aproveitar a oportunidade para subestimar e desdenhar publicamente das universidades públicas.

<><> Valores não alinhados?

Segundo Cristiane, esposa de Túlio, as universidades privadas estão mais alinhadas aos seus valores familiares do que as universidades públicas. O que exatamente ela quis dizer? Ela não explicou, mas sua fala pode reforçar estigmas preconceituosos contra as universidades públicas.

Alguns acham que são apenas um espaço de drogas e sem qualquer produção científica, o que não é verdade. A UFRJ, por exemplo, está acima das privadas do estado nos rankings de produção científica.

Outros, partindo de um viés político, sustentam a rasa ideia de que são um espaço de ditadura política em que apenas uma visão é permitida e em que uma verdadeira lavagem cerebral é feita em seus alunos, o que também não é verdade. As universidades públicas são plurais, produzem ciência e instigam o senso crítico.

<><> Não estão caindo aos pedaços

Segundo Túlio, a federal é bem precária. Sua filha complementa: "Caindo aos pedaços". Entendo que há sim problemas de infraestrutura em muitas universidades públicas do país, devido a questões orçamentárias. Mas gravar um vídeo resumindo-as a "caindo aos pedaços" é muito perigoso e não faz justiça a toda a inovação que produzem.

Trarei aqui, o que nem precisou de muita pesquisa, dois exemplos de inovações de pesquisadores da UFRJ.

Tatiana Coelho de Sampaio lidera uma pesquisa que está desenvolvendo um medicamento capaz de reverter a lesão medular. Sua pesquisa – inovadora, diga-se de passagem – ganhou reconhecimento nacional e internacional.

Já Christal Abraham, Cristiane de Sá Ferreira Facio, Amanda Ranhel, Daniele Fernandes, Enrico Riscarolli e Elaine Sobral da Costa, do laboratório de citometria de fluxo, desenvolveram em parceria com o instituto nacional de Câncer (INCA) um método que reduz o tempo de espera do diagnóstico do câncer infantil de até 15 dias para apenas um dia, agilizando o tratamento.

<><> Devemos nos orgulhar das nossas universidades

Vivemos em um país polarizado. Lidar com fake news e vivenciar o efeito delas na população, sobretudo em quem acredita sem questionar, já é parte do nosso cotidiano.

Não há problema em uma família não permitir que seus filhos ingressem em uma universidade pública.

Agora, uma família com acesso à informação e com o poder de influenciar outras nas redes sociais chegar ao ponto de publicar um vídeo reforçando estigmas e desvalorizando nossas universidades públicas é sim um grande problema.

Nossas universidades públicas têm sim problemas, mas devido à falta de orçamento, e não à falta de produtividade acadêmica e científica, pois é justamente essa produtividade que as torna referência não apenas nacional como também internacional.

O vídeo de Túlio Maravilha e sua família, ao desqualificar universidades públicas com base em desinformação, não é apenas um desserviço ao debate educacional, mas também um gesto profundamente antipatriótico.

•        O custo da mentalidade utilitarista na educação. Por Lívia Vitória dos Santos

"Não faz sentido eu estudar fórmula de Bhaskara e equação de segundo grau, porque o que isso vai me ajudar na minha vida? A longo prazo não te dá retorno financeiro. Como que eu vou ganhar dinheiro com isso?"

Embora a maioria dos professores já tenham sido confrontados com a pergunta canônica "se não vou usar na minha vida, para que vou estudar isso?", a citação acima não foi retirada de uma sala de aula, mas de um corte de podcast que viralizou em 2024.

A fala, dita por um jovem de 14 anos, chama a atenção justamente por revelar a mentalidade utilitarista enraizada na nossa sociedade desde a adolescência. Esse discurso desvaloriza os centros educacionais e transforma a educação em mercadoria, uma vez que apenas aquilo que tem uma utilidade prática é legitimado e valorizado: uma lógica prejudicial para a formação intelectual dos cidadãos brasileiros.

<><> Nosso modelo de educação está em ruínas?

O sistema educacional vigente no Brasil foi originado a partir da paideia, modelo de educação da Grécia Antiga. Ao ensinar sobre literatura, ginástica, retórica, matemática e ciências, os gregos focavam na formação integral do cidadão, ou seja, um processo contínuo que aprimorava as características físicas e intelectuais para a vida na pólis.

Foi partindo dessa ideia, com algumas adaptações a cada época, que a centralidade nas matérias tradicionais se perpetuou até os dias de hoje. Ou seja, lecionar português, matemática, geografia, ciências da natureza e história não é um método retrógrado, mas a base estruturante do conhecimento.

É importante reconhecer que atualizações na educação poderiam ser interessantes, como a proposta de flexibilização de escolhas sugerida pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Entretanto, a escola ainda precisa ser um espaço de formação cidadã e não apenas profissional.

<><> Para quê? x por quê?: um conflito de valores

Alterar a base estruturante do conhecimento para uma visão focada apenas no mercado profissional é renunciar ao objetivo primário da educação: a potencialização de seres humanos. Quando digo isso, me refiro aos valores que estarão sendo cultivados na nossa sociedade.

É provável que, em um dia comum, você nunca tenha usado a fórmula de Bhaskara ou a equação de segundo grau. Porém, é através desse e outros conhecimentos fornecidos pelas matérias tradicionais que pensamento crítico, raciocínio lógico, capacidade de abstração e análise do mundo são estruturados no intelecto humano.

Ao invés de manter a visão utilitarista de "para quê?”, é necessário fomentar uma mentalidade curiosa, investigativa e crítica do porquê cada coisa acontece no mundo. Isso propiciaria não só uma sociedade com valores mais humanos e menos automatizados, mas também aumentaria a autonomia intelectual e a capacidade de resolução de problemas nos indivíduos.

<><> Custo da visão utilitarista

Essa mentalidade utilitarista na educação, além de ser uma negligência com a formação humana, é também reduzir o processo de aprendizagem a uma linha de produção. Ao priorizar a utilidade do conhecimento em detrimento dos valores anteriormente citados, um ciclo de alienação e esgotamento mental se perpetua. O resultado: síndrome de burnout. Os jovens, ao perseguirem apenas o status e o retorno imediato, veem-se despersonalizados e presos em carreiras vazias de propósito, produzindo uma sociedade em que, não só a educação, mas a própria vida se torna uma mercadoria.

Romper com esse ciclo, através da mudança de mentalidade, é construir uma sociedade com valores mais humanos.

•        Brasileiro ganha prêmio na Alemanha por pesquisa com IA

Métodos baseados em inteligência artificial (IA) são confiáveis para diagnosticar transtornos mentais. Essa é uma das conclusões de estudos liderados pelo brasileiro, Francisco Rodrigues, da Universidade de São Paulo (USP). Nos testes em laboratório, imagens de ressonância magnética foram usadas para gerar dados e treinar um algoritmo capaz de identificar a condição mental dos pacientes com mais de 90% de acerto.

Os resultados dessa pesquisa foram publicados em artigos de revistas científicas como Nature e PLOS One. "Conseguimos identificar quais regiões foram alteradas em uma pessoa com epilepsia, autismo ou esquizofrenia, por exemplo, e entender quais alterações estão relacionadas com aquele transtorno", explica Rodrigues.

A técnica está em estágio inicial de desenvolvimento, e poderá auxiliar psicólogos e psiquiatras no diagnóstico automático desses transtornos, principalmente entre aqueles com sintomas semelhantes e que geram dúvidas entre os profissionais, ou ainda em fases iniciais das doenças. "Hoje com o procedimento tradicional, o psiquiatra não vai conseguir identificar se você vai desenvolver esquizofrenia daqui a dez anos, esse é o ponto".

Segundo o Censo de 2022, pelo menos 2,4 milhões de brasileiros foram diagnosticados com o transtorno do espectro autista (TEA), outros 1,6 milhão entre 15 e 44 anos têm esquizofrenia e mais 1,7 milhão acima de 60 anos têm algum tipo de demência como mal de Alzheimer e Parkinson.

Atualmente, o diagnóstico é feito após a avaliação do histórico dos pacientes por psicólogos e psiquiatras, além da aplicação de testes. "Não há um marcador para os transtornos mentais, assim como há para o diabetes, por exemplo", diz Rodrigues. "A ideia é de que no futuro, um escaneamento do cérebro seja capaz de dizer se a pessoa tem depressão, ou outra questão".

<><> Coleta de dados é desafio

Em São Paulo, as análises feitas no laboratório se baseiam justamente em imagens obtidas por exames de ressonância magnética ou eletroencefalograma (EEG) que mapeiam o cérebro e sua atividade em pacientes saudáveis e outros com algum tipo de transtorno. "Tiramos várias dessas medidas e inserimos em um sistema de aprendizagem de máquina".

Mas coletar esses dados é um desafio para a pesquisa, uma vez que os EEG podem ser imprecisos, e as ressonâncias são difíceis de produzir. "Como colocar uma pessoa com esquizofrenia ou que tenha déficit de atenção mais de 40 minutos parada dentro de uma máquina?" Por isso, até agora, as análises se limitaram a algumas dezenas de indivíduos.

Nos estudos em questão, o pesquisador recorreu a informações coletadas a partir de ressonâncias magnéticas do cérebro de pacientes dos Estados Unidos. "Um dos grandes problemas que temos é o número limitado de participantes. Para que os métodos sejam mais precisos, a máquina precisa de dados, e quanto mais tem, mais aprende", afirma Rodrigues.

<><> Colaboração Brasil-Alemanha

E são exatamente esses dados advindos de técnicas como os minicérebros que o pesquisador vai buscar na Alemanha. Em janeiro deste ano, Rodrigues foi um dos 20 cientistas agraciados com o prêmio Friedrich Wilhelm Bessel da fundação alemã Alexander von Humboldt. A instituição concede 60 mil euros (cerca de R$370 mil) a pesquisadores estrangeiros cujas produções científicas tiveram impacto no seu campo de estudos.

"Essa colaboração com a Alemanha é extremamente importante. Já temos bastante experiência com a parte teórica de aprendizagem de máquina e modelos de sistemas complexos, trabalho com isso desde o meu doutorado em 2007. Só que na Alemanha eles conseguem coletar os dados".

Os minicérebros são obtidos a partir da extração de células do córtex cerebral de embriões de animais que são isoladas e depois crescem em placas. Um chip capta a atividade neuronal e os sinais elétricos entre os neurônios, que servirão de base de dados para os estudos.

A expectativa é usar esses dados para testar como determinadas intervenções, como medicamentos, alteram a dinâmica das redes neurais simuladas. Ainda assim, os organoides não reproduzem a complexidade de um cérebro humano completo e funcionam como modelos experimentais.

Formado em Física pela USP, a relação de Rodrigues com a Alemanha começou em 2006, quando foi aluno visitante do Instituto Max Planck durante o doutorado. Depois, em 2011, passou a colaborar com a professora Cristiane Thielemann da Universidade de Ciências Aplicadas de Aschaffenburg em pesquisas com minicérebros. Foi ela quem o indicou para o prêmio Friedrich Wilhelm Bessel, da Fundação Humboldt.

Até o fim de 2026, Rodrigues embarca para Frankfurt, onde vai prosseguir com a pesquisa durante um ano. Além disso, ele vai ministrar dois cursos na Fundação Humboldt ligados ao seu tema de estudo: sistemas complexos e aprendizagem de máquina.

Quando retornar ao Brasil, a expectativa é de continuar com os trabalhos, mas um método geral de previsão e diagnóstico de transtornos mentais só deve estar disponível nos próximos dez anos. "Já sabemos que funciona, mas o protocolo de coleta de dados ainda é muito restrito, tem que passar por um processo de implementação da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e isso demora".

 

Fonte: DW Brasil

 

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