quinta-feira, 5 de março de 2026

Luís Nassif: É hora do governo Lula ganhar uma cara - a do Presidente Orquestrador

As eleições de 2026 se darão com a mídia normalizando o perfil de Flávio Bolsonaro. A irresponsabilidade midiática está atingindo nível que ainda vai se equiparar à pior fase do jornalismo de esgoto da revista Veja.

Não é apenas a Folha afirmando que o brasileiro trabalha pouco por dar preferência ao lazer, ou o Estadão cedendo à sanha sionista de seu editorialista e manchetar que ninguém irá chorar pelas vítimas do Irã, no momento em que as notícias são de morte de dezenas de crianças e professores em uma escola bombardeada por Israel-EUA.

Agora, tratam de normalizar uma pessoa intrinsecamente ligada às milícias do Rio de Janeiro, envolvido com familiares do chefe do escritório do crime, com a morte de Marielle Franco, com as milícias de Rio das Pedras, com a prática de rachadinha, com processos nebulosos de enriquecimento.

Até onde vai a insensibilidade dos jornalões? Quando irão se dar conta de sua responsabilidade institucional perante o país? Não conseguiram entender que sua única estratégia de sobrevivência é como porta-vozes dos setores civilizados da sociedade.

<><> O plano de metas

Esse pacto crime organizado-mídia-mercado exige uma estratégia que o governo Lula ainda não se deu conta.

Tem tudo à mão:

•        possibilidades imensas para um salto da economia, com terras raras, energia verde, um bom sistema tecnológico, empresas estatais de bom porte, que escaparam à sanha destrutiva dos governos Temer e Bolsonaro.

•        uma estrutura social e econômica que permite grandes voos, com o sistema S, os institutos de pesquisa federeais, as universidades públicas, a Embrapii, o Sebrae, o cooperativismo, o MST.

•        Ministros com experiência de organizar atores sociais e econômicos em torno de planos de desenvolvimento, como Fernando Haddad.

Em 26 de abril do ano passado já dávamos a receita:

“Para organizar as informações, tem que haver poucas metas”. Como diz Simone Tebet, “cinco metas, que caibam na palma da mão”.

Toda comunicação social deveria consistir em divulgar essas metas. A partir daí, cada entrega iria sendo enquadrada em cada uma das metas propostas, tijolo a tijolo, passando ao público a noção de uma obra maior, um trabalho conjunto de recriação do futuro.

Hoje em dia há três Ministérios trabalhando nesse formato: o do Orçamento e Planejamento, de Tebet, o da Transição Energética, de Fernando Haddad, e a Nova Indústria Brasil, de Geraldo Alckmin”.

No dia 2 de maio de 2024 mostramos todas as possibilidades abertas pela nova economia. Ambos entenderam algo simples — e esquecido: mercados funcionam melhor quando o Estado coordena expectativas.

<><> A lição esquecida

O Brasil de hoje se parece mais com o pré-JK do que com o JK.

E o mundo atual se parece mais com 1933 do que muitos admitem.

A diferença é que:

•        as instituições já existem,

•        a tecnologia facilita a coordenação,

•        o capital humano é maior.

O que falta não é capacidade.

É coragem política para coordenar.

Ou, em versão menos acadêmica:

governos fracassam não porque fazem demais,

mas porque fazem cada um por conta própria.

<><> O governo orquestrador

Vou repetir, aqui, artigo publicado no Projeto Brasil sobre o governo orquestrador:

Dá para fazer muita coisa — e rápido — quando o governo para de tentar reinventar a roda e passa a alinhar as engrenagens que já existem no Brasil. O país não sofre de falta de instituições; sofre de descoordenação crônica. Eis um mapa do que é possível fazer agora, com o que já está aí:

<><>  Desenvolvimento produtivo sem criar novos ministérios (milagre possível)

>>>> Quem já existe

•        BNDES, Finep, Embrapii

•        SENAI, SENAC, SENAR

•        Sebrae, Apex

•        Universidades federais, IFs

•        Bancos públicos (BB, CEF, BNB, Basa)

>>>> O que pode ser feito

•        Programas nacionais por cadeia produtiva (não por setor genérico):

 alimentos processados, fármacos, defesa, mobilidade elétrica, agroindústria, economia do cuidado

•        Crédito + tecnologia + compras públicas num único pacote

•        Contratos de desempenho com metas claras (exportação, emprego, inovação)

 Resumo: o Estado deixa de ser caixa eletrônico e vira orquestrador.

<><>  Segurança pública: menos bravata, mais inteligência integrada

Quem já existe

•        PF, PRF, polícias civis e militares

•        Coaf, Receita Federal

•        CNJ, MP, Detrans, guardas municipais

O que pode ser feito

•        Centros integrados regionais de inteligência financeira + criminal

•        Força-tarefa permanente contra lavagem de dinheiro local (jogo, milícia, tráfico, grilagem)

•        Banco único de dados operacionais (com controle judicial)

 Resumo: crime organizado odeia integração. Vive de silo.

<><>  Saúde: SUS com cérebro digital

Quem já existe

•        SUS, Fiocruz, Butantan

•        Datasus, Anvisa

•        Universidades e hospitais públicos

O que pode ser feito

•        Prontuário nacional interoperável (já tecnicamente viável)

•        Produção local de insumos estratégicos com compras públicas garantidas

•        Rede nacional de vigilância epidemiológica em tempo real

 Resumo: o SUS já é gigante — falta coordenação tecnológica, não discurso.

<><>  Educação e trabalho: parar de formar desempregados sofisticados

Quem já existe

•        MEC, IFs, SENAI/SENAC

•        Sistema S

•        Universidades públicas

•        Ministérios do Trabalho e da Indústria

O que pode ser feito

•        Pactos regionais: formação ligada a projetos produtivos reais

•        Cursos técnicos conectados a compras públicas e crédito

•        Reconversão profissional contínua (IA, energia, logística, saúde

 Resumo: diploma sem demanda é só papel bonito.

<><>  Infraestrutura: usar o Estado para destravar, não substituir

Quem já existe

•        DNIT, EPL, Infra S.A.

•        TCU, BNDES

•        Estatais e concessionárias

O que pode ser feito

•        Projetos padronizados e replicáveis (menos obra “artesanal”)

•        Coordenação entre União, estados e municípios para licenciamento

•        Planejamento logístico integrado (ferrovias, portos, energia

Resumo: atraso não é falta de dinheiro — é excesso de atrito.

<><>  Meio ambiente e economia: parar de tratar como inimigos

Quem já existe

•        Ibama, ICMBio

•        Embrapa

•        Universidades

•        Cooperativas e povos tradicionais

O que pode ser feito

•        Bioeconomia amazônica com crédito, assistência técnica e mercado garantido

•        Rastreabilidade obrigatória (já existe tecnologia)

•        Valorização econômica de quem preserva

Resumo: floresta em pé precisa modelo de negócios, não só discurso moral.

<><>  Democracia e instituições: coordenação é proteção

Quem já existe

•        STF, TSE, CNJ

•        CGU, TCU

•        MP, Defensorias

•        Universidades e imprensa

O que pode ser feito

•        Protocolos institucionais contra desinformação e ataques coordenados

•        Transparência ativa e dados abertos integrados

•        Educação midiática e institucional permanente]

Resumo: democracia não se defende sozinha — precisa engenharia.

<><>  A virada de chave

O Brasil não precisa de mais estruturas. Precisa de:

•        coordenação,

•        metas claras,

•        integração institucional,

•        liderança política com visão de sistema.

Ou, em termos menos diplomáticos:

  menos improviso, menos vaidade, menos silo.

O material já existe. Falta só alguém juntar as peças — como num Lego institucional gigante.

 

Fonte: Jornal GGN

 

Nenhum comentário: