Luís
Nassif: É hora do governo Lula ganhar uma cara - a do Presidente Orquestrador
As
eleições de 2026 se darão com a mídia normalizando o perfil de Flávio
Bolsonaro. A irresponsabilidade midiática está atingindo nível que ainda vai se
equiparar à pior fase do jornalismo de esgoto da revista Veja.
Não é
apenas a Folha afirmando que o brasileiro trabalha pouco por dar preferência ao
lazer, ou o Estadão cedendo à sanha sionista de seu editorialista e manchetar
que ninguém irá chorar pelas vítimas do Irã, no momento em que as notícias são
de morte de dezenas de crianças e professores em uma escola bombardeada por
Israel-EUA.
Agora,
tratam de normalizar uma pessoa intrinsecamente ligada às milícias do Rio de
Janeiro, envolvido com familiares do chefe do escritório do crime, com a morte
de Marielle Franco, com as milícias de Rio das Pedras, com a prática de
rachadinha, com processos nebulosos de enriquecimento.
Até
onde vai a insensibilidade dos jornalões? Quando irão se dar conta de sua
responsabilidade institucional perante o país? Não conseguiram entender que sua
única estratégia de sobrevivência é como porta-vozes dos setores civilizados da
sociedade.
<><>
O plano de metas
Esse
pacto crime organizado-mídia-mercado exige uma estratégia que o governo Lula
ainda não se deu conta.
Tem
tudo à mão:
• possibilidades imensas para um salto da
economia, com terras raras, energia verde, um bom sistema tecnológico, empresas
estatais de bom porte, que escaparam à sanha destrutiva dos governos Temer e
Bolsonaro.
• uma estrutura social e econômica que
permite grandes voos, com o sistema S, os institutos de pesquisa federeais, as
universidades públicas, a Embrapii, o Sebrae, o cooperativismo, o MST.
• Ministros com experiência de organizar
atores sociais e econômicos em torno de planos de desenvolvimento, como
Fernando Haddad.
Em 26
de abril do ano passado já dávamos a receita:
“Para
organizar as informações, tem que haver poucas metas”. Como diz Simone Tebet,
“cinco metas, que caibam na palma da mão”.
Toda
comunicação social deveria consistir em divulgar essas metas. A partir daí,
cada entrega iria sendo enquadrada em cada uma das metas propostas, tijolo a
tijolo, passando ao público a noção de uma obra maior, um trabalho conjunto de
recriação do futuro.
Hoje em
dia há três Ministérios trabalhando nesse formato: o do Orçamento e
Planejamento, de Tebet, o da Transição Energética, de Fernando Haddad, e a Nova
Indústria Brasil, de Geraldo Alckmin”.
No dia
2 de maio de 2024 mostramos todas as possibilidades abertas pela nova economia.
Ambos entenderam algo simples — e esquecido: mercados funcionam melhor quando o
Estado coordena expectativas.
<><>
A lição esquecida
O
Brasil de hoje se parece mais com o pré-JK do que com o JK.
E o
mundo atual se parece mais com 1933 do que muitos admitem.
A
diferença é que:
• as instituições já existem,
• a tecnologia facilita a coordenação,
• o capital humano é maior.
O que
falta não é capacidade.
É
coragem política para coordenar.
Ou, em
versão menos acadêmica:
governos
fracassam não porque fazem demais,
mas
porque fazem cada um por conta própria.
<><>
O governo orquestrador
Vou
repetir, aqui, artigo publicado no Projeto Brasil sobre o governo orquestrador:
Dá para
fazer muita coisa — e rápido — quando o governo para de tentar reinventar a
roda e passa a alinhar as engrenagens que já existem no Brasil. O país não
sofre de falta de instituições; sofre de descoordenação crônica. Eis um mapa do
que é possível fazer agora, com o que já está aí:
<><> Desenvolvimento produtivo sem criar novos
ministérios (milagre possível)
>>>>
Quem já existe
• BNDES, Finep, Embrapii
• SENAI, SENAC, SENAR
• Sebrae, Apex
• Universidades federais, IFs
• Bancos públicos (BB, CEF, BNB, Basa)
>>>>
O que pode ser feito
• Programas nacionais por cadeia produtiva
(não por setor genérico):
alimentos processados, fármacos, defesa,
mobilidade elétrica, agroindústria, economia do cuidado
• Crédito + tecnologia + compras públicas
num único pacote
• Contratos de desempenho com metas claras
(exportação, emprego, inovação)
Resumo: o Estado deixa de ser caixa eletrônico
e vira orquestrador.
<><> Segurança pública: menos bravata, mais
inteligência integrada
Quem já
existe
• PF, PRF, polícias civis e militares
• Coaf, Receita Federal
• CNJ, MP, Detrans, guardas municipais
O que
pode ser feito
• Centros integrados regionais de
inteligência financeira + criminal
• Força-tarefa permanente contra lavagem
de dinheiro local (jogo, milícia, tráfico, grilagem)
• Banco único de dados operacionais (com
controle judicial)
Resumo: crime organizado odeia integração.
Vive de silo.
<><> Saúde: SUS com cérebro digital
Quem já
existe
• SUS, Fiocruz, Butantan
• Datasus, Anvisa
• Universidades e hospitais públicos
O que
pode ser feito
• Prontuário nacional interoperável (já
tecnicamente viável)
• Produção local de insumos estratégicos
com compras públicas garantidas
• Rede nacional de vigilância
epidemiológica em tempo real
Resumo: o SUS já é gigante — falta coordenação
tecnológica, não discurso.
<><> Educação e trabalho: parar de formar
desempregados sofisticados
Quem já
existe
• MEC, IFs, SENAI/SENAC
• Sistema S
• Universidades públicas
• Ministérios do Trabalho e da Indústria
O que
pode ser feito
• Pactos regionais: formação ligada a
projetos produtivos reais
• Cursos técnicos conectados a compras
públicas e crédito
• Reconversão profissional contínua (IA,
energia, logística, saúde
Resumo: diploma sem demanda é só papel bonito.
<><> Infraestrutura: usar o Estado para destravar,
não substituir
Quem já
existe
• DNIT, EPL, Infra S.A.
• TCU, BNDES
• Estatais e concessionárias
O que
pode ser feito
• Projetos padronizados e replicáveis
(menos obra “artesanal”)
• Coordenação entre União, estados e
municípios para licenciamento
• Planejamento logístico integrado
(ferrovias, portos, energia
Resumo:
atraso não é falta de dinheiro — é excesso de atrito.
<><> Meio ambiente e economia: parar de tratar
como inimigos
Quem já
existe
• Ibama, ICMBio
• Embrapa
• Universidades
• Cooperativas e povos tradicionais
O que
pode ser feito
• Bioeconomia amazônica com crédito,
assistência técnica e mercado garantido
• Rastreabilidade obrigatória (já existe
tecnologia)
• Valorização econômica de quem preserva
Resumo:
floresta em pé precisa modelo de negócios, não só discurso moral.
<><> Democracia e instituições: coordenação é
proteção
Quem já
existe
• STF, TSE, CNJ
• CGU, TCU
• MP, Defensorias
• Universidades e imprensa
O que
pode ser feito
• Protocolos institucionais contra
desinformação e ataques coordenados
• Transparência ativa e dados abertos
integrados
• Educação midiática e institucional
permanente]
Resumo:
democracia não se defende sozinha — precisa engenharia.
<><> A virada de chave
O
Brasil não precisa de mais estruturas. Precisa de:
• coordenação,
• metas claras,
• integração institucional,
• liderança política com visão de sistema.
Ou, em
termos menos diplomáticos:
menos improviso, menos vaidade, menos silo.
O
material já existe. Falta só alguém juntar as peças — como num Lego
institucional gigante.
Fonte:
Jornal GGN

Nenhum comentário:
Postar um comentário