Por
que segue urgente pensar a Atenção Básica
Estamos
vivendo o ano de eleições decisivas para a democracia. O Sistema Único de Saúde
(SUS), como sistema de acesso universal, será objeto de críticas e propostas a
partir de diferentes projetos de sociedade. Nesse cenário, a atenção básica e
os processos de regionalização são temas importantes e espaços estratégicos
para defesa do SUS.
O mundo
registra grandes esforços teóricos e políticos para fortalecer a Atenção
Primária à Saúde (APS) e produzir redes de cuidado. No Brasil, um momento
importante para esse debate aconteceu em 2010 e anos seguintes, com a
consolidação de políticas para o desenvolvimento de redes, regiões de saúde e
política nacional de atenção básica. Elas coincidiam no entendimento de que a
APS deveria ser fortalecida e trabalhar em rede, em uma tessitura entre atuação
territorial e inserção em temas. Esses avanços foram limitados em 2017 e
suspensos pelo Programa Previne Brasil, que atacou a perspectiva territorial da
APS.
Atualmente,
cerca de 20% da população brasileira, que tem plano privado, segue tendo a
experiência de atenção à saúde a partir de modelo de atenção sem coordenação,
sendo o acesso à especialidade uma opção do cliente limitada apenas pelo tempo
de espera ou copagamento. A adesão acrítica a esse modelo vai consolidando o
equívoco de que, para quem pagar, há algo melhor que a APS. O que isso reflete
é a hegemonia do mercado, traduzida em estratégias setoriais.
É
evidente que uma APS robusta não está alinhada com a saúde de mercado: a APS de
base territorial cuida, previne e utiliza recursos adequados, pois tem como
objetivo proteger indivíduos e comunidades da exposição desnecessária a
diagnósticos e consumo de medicamentos. Sendo de base comunitária e
territorial, está atenta aos sinais emitidos pela vigilância.
Sim,
faltam serviços – especialmente os denominados secundários, exames e consultas
com especialidades médicas – para quem usa exclusivamente o SUS. Se quem usa o
SUS o avalia melhor que quem não usa, também é verdade que conferências,
reuniões e notícias repercutem o fato de que as populações vinculadas à APS
reivindicam a presença de especialistas, com destaque para psiquiatras,
pediatras, ginecologistas e obstetras.
A
atenção básica é a grande estratégia para articular ações de vigilância e o
cuidado; isso exige, simultaneamente, a ampliação da clínica e o
desenvolvimento de estratégias de acolhimento. Estamos vivendo em um tempo em
que a complexidade do processo saúde-doença, a situação de vulnerabilidade, a
violência e o aumento da expectativa da população exigem, para a continuidade
do cuidado, as características da APS.
O censo
da APS, recentemente divulgado, dá pistas importantes para o fortalecimento da
APS para a consolidação de ações que impactam em outros níveis de atenção.
A
Atenção Básica/APS oferta um escopo de ações importantes, estratégicas e
alinhadas aos conhecimentos validados pela ciência: atendimentos individuais,
coletivos, vacinas e visitas. Boa parte das equipes faz reunião, discute caso,
faz mapeamento do território e elabora Projeto Terapêutico para situações mais
complexas. Agentes comunitários reforçam a capacidade de antecipação,
identificação de situações a serem priorizadas e acompanhamento. Isso tudo
importa para a vida, mas tende a ser desqualificado para a lógica de mercado.
Ao
mesmo tempo, indica o Censo, a atenção básica carece de definição de fluxos
para encaminhamentos de urgências e emergências. Nenhuma das situações
elencadas nas entrevistas tem mais de 70% de chance de ser bem encaminhada. Ou
seja, uma tarefa urgente para as regiões é desenhar fluxos, identificar áreas e
localização dos serviços necessários, e pactuá-los no município e região.
Assim
como foi a experiência em relação ao desenho das redes temáticas, as ações do
Programa Agora Tem Especialistas serão potencializadas se encontrarem como
lastro uma APS capaz de identificar, encaminhar e seguir o acompanhamento de
pessoas que necessitam de outros níveis de atenção. Para isso, precisam contar
com Equipes de Referência que conheçam a comunidade, tenham como rotina o
planejamento das ações e o trabalho em rede e com suporte de profissões e
especialidades mais focadas. É esse encontro entre a equipe de referência e o
apoio que garante maiores coeficientes de integralidade. Além disso, a atenção
básica deve ter facilitada a tarefa de encaminhar os casos que necessitam de
intervenção de equipamentos de outros níveis de atenção.
Por
isso, o programa Agora Tem Especialistas é necessário e oportuno, e deve ser
acompanhado de suporte para o desenho de fluxos, a identificação de barreiras
de acesso e a indicação de serviços a serem contratados ou criados nas
diferentes regiões de saúde. Uma parte dessa tarefa cabe à região e exige
conhecer a atenção e gestão do SUS, além de capacidade para lidar com relações
de poder e interesses difíceis de conciliar.
Em
2026, teremos também as etapas municipais e estaduais da 18ª Conferência
Nacional de Saúde. Ela terá início 40 anos após a realização da 8ª Conferência
Nacional, que, em 1986, lançou as bases para o texto constitucional que
instituiu o SUS. Provavelmente, neste ano, em muitos lugares, nossa rede de
serviços de saúde será impactada pelos efeitos do aquecimento global. Defender
serviços de saúde de base comunitária e territorial, como a Estratégia de Saúde
da Família, que conta com equipes de referência ligadas a uma localidade e
articuladas com outros pontos da rede, é um imperativo ético. Isso é necessário
para diminuir sofrimento e mortes evitáveis por doenças ou por emergências de
saúde pública e suas repercussões.
A
atenção básica integra o projeto de democracia – que sustenta o SUS – e é
imprescindível à vida de qualquer pessoa.
Fonte:
Por Liane Beatriz Righi, em Outra Saúde

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