sexta-feira, 6 de março de 2026

Rui Abreu: O grande adversário de Lula

Com a devida distância da realidade e a dez meses das eleições, as pesquisas vão apresentando um provável quadro de reeleição presidencial no Brasil. A imagem da presidência foi se recuperando na segunda metade do ano passado após alguns movimentos erráticos do neofascismo nacional e internacional. Pedidos de sansões, tarifas, tentativa do congresso blindar os crimes dos ricos e ataques à soberania foram fortalecendo o governo mesmo num quadro de precariedade econômica para a esmagadora maioria das famílias brasileiras que a isenção de rendimentos até cinco mil reais pretende mitigar. Sucessivos nomes são colocados em disputa com Lula e todos apresentam tendências de voto inferiores, tendo o presidente mais ou menos vantagem em todos os cenários.

Neste último ano de mandato em que são logicamente esperadas as melhores medidas da governação e com o bolsonarismo atravessando uma crise de sucessão, será de esperar uma reeleição menos apertada que a eleição? Lula não tem adversário à altura?

Direita e extrema direita vêm ensaiando diversas candidaturas presidenciais permitindo vários governadores se perfilarem perante o grande capital como potenciais representantes de seus interesses. De fenômenos populistas a oportunistas eleitos na esteira de Jair Bolsonaro passando por agrofascistas, vários nomes são apresentados e consultados à sociedade e a resposta popular parece não deixar margem para candidatos de direita sem a chancela do bolsonarismo.

A potencial candidatura de Tarcísio de Freitas é o caso mais visível e vem oscilando entre a emancipação do carioca em relação à família Bolsonaro e a sua aceitação como autêntico representante do ideário neofascista. Com a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro o instinto de sobrevivência parece se impor e Tarcísio de Freitas acalma sua ambição num quadro de reeleição fácil em São Paulo. 2030 é já ali.

Flávio Bolsonaro parece assumir a tarefa de reagrupar em seu torno a liderança da oposição, tarefa dificultada pelos sucessivos movimentos erráticos de seu irmão Eduardo que vivendo nos EUA conseguiu criar mais dano à extrema direita que o governo e a esquerda juntos. A imposição da vontade da família Bolsonaro nas candidaturas de outubro de 2026 tem trazido muitas contradições na extrema direita envolvendo caciques locais e digitais.

Os lugares a disputar para o senado em Santa Catarina e até a candidatura de Flávio Bolsonaro tem despontado oposição interna, sendo Michelle Bolsonaro uma das figuras principais nessa disputa com os filhos de Bolsonaro. Mas o ex-presidente parece já ter decidido e serão seus filhos a carregar a chama neofascista na contenda eleitoral e, respeitando a tradição, quem não estiver de acordo será alvo a abater.

Entretanto a direita do “neoliberalismo tradicional” mantém sua aspiração de candidatura própria, afinal o bolsonarismo ainda não aprendeu a comer de garfo e faca e, mais importante, tinha um plano de assassinato de dois dos seus. Mas o neoliberalismo tem muitas dificuldades em ganhar eleições só com seu discurso.

Embora tenha incutido valores na sociedade, há muito que as teses neoliberais têm dificuldade em penetrar numa classe trabalhadora esgotada de uma economia que funciona contra si. Não por acaso o neofascismo vai assumindo o papel de frente na defesa dos interesses dos bilionários, desviando para a agenda de costumes o foco político, escondendo de forma mais eficaz a contradição entre o capital e o trabalho.

No lavar das cestas será na proposta de domínio social que estes interesses se encontram, garantindo lucros cada vez maiores para o grande capital enquanto submete a população trabalhadora à agenda reacionária de domínio ideológico neofascista. Figura maior desse encontro é o ex-Ministro da Fazenda Paulo Guedes que até hoje nem investigado foi pelos muitos crimes econômicos cometidos sobre a população brasileira.

É um encontro de vontades das elites, com judiciário, com tudo. Um encontro que para já parece ser Flávio Bolsonaro a estabelecer num provável segundo turno das eleições presidenciais, podendo o primeiro turno ser povoado de candidaturas de direita que mobilizará mais o seu campo político. A fragmentação de candidatos à direita potenciará mais a votação no segundo turno em torno do seu fio condutor: o antipetismo, o voto anti-esquerda.

O governo parece querer jogar parado confiando nalgumas medidas com apoio popular deixadas para o último ano de mandato e nos dados econômicos. Com taxa de ocupação alta e com o crescimento econômico estável, Lula parece confiar na economia para a sua reeleição. Pena é que estes indicadores não se transportam para a vida das famílias trabalhadoras. Uma economia que é construída em cima de baixos salários e precariedade não traz satisfação popular.

O social liberalismo já devia ter aprendido que as políticas neoliberais derrotam governos. Jair Bolsonaro, Donald Trump, Joe Biden são alguns exemplos recentes da derrota da austeridade nas urnas. Joe Biden chegou a ter taxas de desocupação históricas atingindo baixos níveis só vistos no pós-Segunda Guerra Mundial. Mas ocupação não é emprego com perspectiva de carreira, salário valorizado e condições de trabalho dignas. E o povo já sabe disso.

Para arriscar mais a posição do governo, o colete de forças orçamental autoimposto vai criando muitas dificuldades de funcionamento do Estado. As limitações que o arcabouço fiscal trouxe vão ser determinantes para as eleições presidenciais. Sem investimento público de monta, acerto salarial significativo e diminuição das prestações sociais do Estado será difícil a classe trabalhadora se rever nesse projeto, podendo o arcabouço fiscal per si derrotar Lula. A austeridade é a criptonita eleitoral também do social liberalismo.

Também as medidas populares a aprovar neste ano eleitoral podem estar colocadas em causa pela oposição no congresso e pela antecipação do capital. A tão esperada medida de alteração da escala de trabalho 6×1 pode estar a ser ultrapassada pelas decisões judiciais, em particular a Pejotização que tramita no STF que promete driblar um conjunto de direitos da classe trabalhadora, inclusive a alteração da escala.

O grupo de distribuição do interior paulista Savegnago já anunciou o início da escala 5×2 a partir de fevereiro em todas as suas 65 unidades. O capital antecipa-se contando para isso com seu mais ágil serviçal, o judiciário.

Com a importância estratégica que o Brasil tem será de esperar que o império mais uma vez tente influenciar as eleições de 2026. Perante a sede imperialista de Donald Trump, o palácio do planalto parece apostar na entrega prévia de recursos ao império a fim de apaziguar sua gula territorial, um gênero de entreguismo preventivo. Tática desajustada para a fase de hiper-imperialismo que a casa branca vem desenvolvendo, prevendo-se a interferência das Bigtechs na tentativa de influenciar a disputa eleitoral, pendendo o jogo para o neofascismo. Cenários de golpe também não são desconsideráveis.

É este quadro de disputa intensa que requer uma candidatura à esquerda de Lula. Ao contrário do que o senso comum possa indicar, a fragmentação de candidaturas à esquerda potencializaria o voto de esquerda e diminuiria as chances de vitória do neofascismo. A esquerda está descrente do projeto de Lula que é mais ou menos a continuação da política surgida do golpe de 2016.

A política de juros muito altos, a legislação trabalhista de Michel Temer e a consolidação do Brasil como fazenda do mundo com seus custos sociais e ambientais tem trazido o governo Lula 3 a um descrédito na esquerda que pode levar a uma desmobilização eleitoral. Uma candidatura de esquerda dinamizaria esse campo político e, apesar do governo ser ruim, poderia ser uma alavancagem na votação antifascista.

Mesmo sabendo que as políticas neoliberais são a pavimentação do descrédito do sistema e que só o neofascismo tem sabido capitalizar por ausência de projetos de esquerda, Lula não é neofascista e no segundo turno a responsabilidade política indica o voto nele.

Urge ativar uma agenda de esquerda na sociedade brasileira que dispute politicamente com o grande capital a mente e alma da classe trabalhadora. As eleições de 2026 serão muito apertadas e o arcabouço fiscal pode derrotar Lula. Mas mesmo que ganhe, a herança política ancorada no neoliberalismo trará grandes desafios à esquerda e à classe trabalhadora no pós-Lula, estando abertas as portas para o neofascismo governar de forma duradoura se não houver uma alternativa clara de esquerda a ebulir na sociedade brasileira.

•        Partido da mídia prepara campanha contra Lula batizada de "jornalismo profissional". Por Mario Vitor Santos

A Folha fez editorial de capa autocelebrando o aniversário de 105 anos.

Decidiu fazê-lo lembrando logo que neste mesmo ano de 2026 fazem aniversários "completos" o Globo, Estadão, G1, UOL e Valor.

Sobre o Valor, de propriedade exclusiva do Globo, a Folha registra manifestação de orgulho assumidamente subalterno: [Valor], "que esta Folha 'ajudou' a construir".

Ao juntar-se a esses veículos, a Folha denomina-os e a si mesma como "praticantes do jornalismo profissional".

Longe estão os tempos em que a Folha se orgulhava de competir com identidade própria, com seu projeto particular de jornalismo.

Agora o que impera é a brodagem, a pertença a um mesmo corpo.

Diz o editorial que este grupo tem os mesmos "princípios", "regras" e "éticas".

O editorial prefere não fazer um balanço dos 105 anos.

Este poderia suscitar autoelogios pela campanha das diretas ou pelo apoio à punição dos culpados pela tentativa de golpe contra a eleição de Lula em 2022.

Remexer a história poderia, contudo, abrir a porta para demandas por autocríticas do apoio ao golpe de 64, da cessão de veículos aos torturadores na fase mais cruel da "ditabranda" ou da participação nas farsas do "mensalão" (com Roberto Jefferson) ou da Lava-Jato (com Sergio Moro).

Melhor não.

Em vez disso, a Folha aponta para o futuro.

Opta por já se defender pelo que vai cometer na disputa eleitoral deste ano.

Diz que fará "jornalismo profissional", ou seja, que não optará entre Lula e Flávio Bolsonaro, a nova versão da "escolha difícil" já anunciada pelo Estadão em 2018.

Repele preventivamente a crítica previsível de que essa equidistância seria uma espécie de "outroladismo" ou "doisladismo", operação retórica de construção de equivalência entre opções evidentemente muito desiguais.

Ao contrário do que pode parecer, a união do partido da mídia é um recurso de socorro diante da perda progressiva do sentido da existência política e social autônoma deste grupo, mais uma vez incapaz de gestar uma opção eleitoral viável desde a debacle tucana, condenado a ser não mais do que um apêndice (inflamado e pernicioso que seja) à direita ou à esquerda.

O partido da mídia concorda programaticamente com o bolsonarismo.

Não discorda de nenhuma de suas "ideias" para a economia.

Comparte com o bolsonarismo o ódio a Lula.

Recruta seus quadros cada vez mais na extrema-direita, sonha com um bolsonarismo sem Bolsonaro e chama o lixo que produz de "jornalismo profissional".

O ímpeto irrefreável desse partido seria, sim, desaparecer, mas atrás de um bolsonarismo maquiado pela presença à sua frente de um bolsonarista como Tarcísio, seu candidato recalcado e bloqueado, talvez para sempre, à Presidência.

•        Apesar da taxa de juros, políticas de crédito do governo Lula foram decisivas para o crescimento, aponta Fazenda

A Secretaria de Política Econômica (SPE), vinculada ao Ministério da Fazenda, avaliou que as taxas de juros elevadas adotadas pelo Banco Central do Brasil funcionaram como freio para a atividade econômica, mas destacou que políticas de ampliação do crédito implementadas pelo Governo Lula contribuíram para sustentar a expansão do Produto Interno Bruto (PIB). As informações constam em nota divulgada pela Agência Gov, nesta terça-feira (4).

De acordo com a análise, a política monetária contracionista foi o principal fator por trás da desaceleração do crescimento do PIB, que passou de 3,4% em 2024 para 2,3% em 2025. O resultado oficial foi anunciado na manhã de terça-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Sem mencionar nominalmente o Banco Central, a secretaria afirmou que “a política monetária contracionista foi o fator preponderante que explica o crescimento de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2025, ante 3,4% em 2024)”. Em outro trecho, a Nota Informativa “PIB de 2025 — Desaceleração da atividade no ano” registra que “a política monetária contracionista exerceu impacto relevante sobre a atividade, contribuindo para o fechamento do hiato do produto”.

A SPE aponta que a desaceleração foi mais intensa nos setores cíclicos, cujo crescimento recuou de 4% em 2024 para 1,5% em 2025. Segundo o documento, a perda de fôlego tornou-se mais evidente no segundo semestre do ano passado, quando a atividade econômica ficou praticamente estável em relação aos seis primeiros meses do ano.

Ainda conforme a nota, “não fosse a contribuição da agropecuária e da indústria extrativa, pela ótica da oferta, e do setor externo, pela ótica da demanda, a economia teria apresentado desempenho ainda mais fraco nos últimos dois trimestres de 2025”. A secretaria também informou que, entre os países do G-20 que já divulgaram o resultado do quarto trimestre, o Brasil ficou na décima posição na margem, na sétima na comparação interanual e na sexta no acumulado em quatro trimestres.

<><> Perspectivas para 2026

Para 2026, a projeção da SPE é de crescimento de 2,3%, repetindo o ritmo de 2025, mesmo diante de um baixo carregamento estatístico entre os anos. “Pela ótica da oferta, a expectativa é de desaceleração acentuada da agropecuária, compensada por maior ritmo de crescimento da indústria e dos serviços. Pela demanda, a expectativa é de maior contribuição da absorção doméstica comparativamente a 2025, contrabalançada por menor contribuição do setor externo”, sinaliza o documento.

No campo industrial, a secretaria avalia que programas de crédito devem reforçar a expansão. “Políticas oficiais já em curso também devem impulsionar o setor industrial ao longo deste ano”, afirma a SPE. A nota cita iniciativas como o Move Brasil, o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e o Reforma Casa Brasil, além da nova regra de direcionamento da poupança para facilitar o acesso à casa própria. Segundo o texto, essas medidas “devem contribuir para a maior expansão industrial em 2026”.

Para a agropecuária, a perspectiva é de nova safra recorde de soja, mas com impacto negativo de menor produção de milho e arroz e redução no abate de bovinos, o que tende a limitar o crescimento do setor.

Já o setor de serviços deve apresentar desempenho mais forte ao longo de 2026, impulsionado pela reforma da tributação sobre a renda — com isenção de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês e redução de alíquotas para rendas de até R$ 7.350 —, pela ampliação do crédito consignado ao trabalhador do setor privado, por meio do Crédito do Trabalhador, e pela resiliência do mercado de trabalho, conforme destaca a SPE.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

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