Michael
Hudson: A III Guerra pode ter começado esta semana
Na
última sexta-feira, o mediador das negociações nucleares entre os EUA e o Irã
em Omã, o ministro das Relações Exteriores daquele país, Badr Albusaidi,
desmascarou a falsa ameaça de guerra do presidente Trump contra Teerã. Por que?
Porque Washington recusou as propostas iranianas de abrir mão do que Trump
alegava ser sua bomba atômica. O ministro omanita explicou no programa Face
the Nation, da CBS, que a equipe iraniana de negociadores concordou em não
acumular urânio enriquecido e ofereceu “verificação completa e abrangente pela
AIEA”. Essa nova concessão foi um “avanço sem precedentes”, disse ele. E
acrescentou: “Acredito que, se conseguirmos aproveitá-la e construir sobre essa
base, um acordo estará ao nosso alcance” — “um acordo em que o Irã jamais terá
material nuclear capaz de produzir uma bomba. Isso é, sem dúvida, uma grande
conquista”.
Ao
salientar que este avanço “passou despercebido pela grande mídia”, ele
enfatizou que o apelo por “estoque zero” ia muito além do que havia sido
negociado durante o governo do presidente Obama, porque “se você não pode
estocar material enriquecido, não há como realmente criar uma bomba”.
O
aiatolá Ali Khamenei – que já havia emitido uma fatwa contra
tal ato e reiterado essa posição ano após ano – convocou os líderes xiitas e o
chefe militar do Irã para discutir a ratificação do acordo de cessão do
controle do urânio enriquecido, a fim de evitar uma guerra.
Mas tal
atitude era precisamente o que nem os Estados Unidos nem Israel podiam aceitar.
Uma resolução pacífica teria impedido o plano de longo prazo dos EUA de
consolidar e instrumentalizar seu controle sobre o petróleo do Oriente Médio,
seu transporte e o investimento das receitas de exportação de petróleo, e de
usar Israel e a Al-Qaeda/ISIS como seus exércitos-clientes, para impedir que
países produtores de petróleo independentes agissem em função de seus próprios
interesses soberanos.
Aparentemente,
os serviços de espionagem israelenses alertaram os militares dos EUA, sugerindo
que a reunião no complexo do aiatolá oferecia uma grande oportunidade para
decapitar os principais dirigentes de uma só vez. Isso seguia a recomendação do
manual militar dos EUA, de que matar um líder político considerado
antidemocrático por Washington libertaria os supostos anseios populares por uma
mudança de regime. Essa era a esperança por trás do bombardeio à residência
campestre do presidente Putin no mês passado, e estava em consonância com a
recente tentativa dos EUA, por meio do programa Starlink, de mobilizar a
oposição popular para uma revolução no Irã.
O
ataque conjunto EUA-Israel deixa claro que não havia nada que o Irã pudesse ter
cedido que impedisse a longa trajetória dos EUA de controlar o petróleo do
Oriente Médio, juntamente com o uso de Israel e dos exércitos clientes do
ISIS/Al-Qaeda para impedir que nações soberanas da região assumam o controle de
suas reservas de petróleo. Esse controle continua sendo um pilar essencial da
política externa dos EUA. É a chave para a capacidade dos EUA de prejudicar
outras economias, negando-lhes o acesso à energia caso não se alinhem à
política externa norte-americana. Essa insistência em bloquear o acesso mundial
a fontes de energia que não estejam sob controle dos EUA é o motivo pelo qual o
país atacou a Venezuela, a Síria, o Iraque, a Líbia e a Rússia.
O
ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso contra
o Irã) é uma perfídia que ficará marcada na história. O objetivo era impedir
a tentativa de alcançar a paz, antes que os líderes iranianos pudessem
refutar a falsa alegação de Trump de que se recusavam a desistir de obter sua
própria bomba atômica. Seria interessante saber quantos dos assessores de Trump
fizeram grandes apostas de que os preços do petróleo disparariam na abertura
dos mercados na segunda-feira de manhã.
Na
semana passada, os mercados subestimaram enormemente o risco do fechamento do
Golfo Pérsico. As empresas petrolíferas norte-americanas lucrarão enormemente.
A China e outros importadores de petróleo sofrerão. Os especuladores
financeiros americanos também lucrarão muito, pois sua produção de petróleo é
doméstica. Esse fato pode até ter influenciado a decisão dos EUA de encerrar o
acesso mundial ao petróleo do Oriente Médio por um período que promete ser
longo.
A
perturbação comercial e financeira será, de fato, tão global que creio que
podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, como o verdadeiro
estopim da Terceira Guerra Mundial. Para a maior parte do mundo, a iminente
crise financeira (para não mencionar a indignação moral) definirá a próxima
década de reestruturação política e econômica internacional.
Os
países europeus, asiáticos e do Sul Global não conseguirão obter petróleo a não
ser a preços que tornem muitas indústrias não rentáveis e muitos orçamentos
familiares inacessíveis. A subida dos preços do petróleo também impossibilitará
os países do Sul Global de honrar as suas dívidas em dólares para com os
detentores de títulos ocidentais, os bancos e o FMI.
Os
países só poderão evitar a imposição de “austeridade” interna, desvalorização
cambial e inflação se reconhecerem que o ataque dos EUA (apoiado pela
Grã-Bretanha e pela Arábia Saudita, com a aquiescência ambígua da Turquia) pôs
fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional
dolarizado. Se isso não for reconhecido, a aquiescência continuará até se
tornar, ao fim das contas, insustentável.
Se esta
é a batalha inaugural da Terceira Guerra Mundial, ela é, em muitos aspectos, a
batalha final para definir o verdadeiro propósito da Segunda Guerra Mundial. O
direito internacional ruirá, devido à relutância de um número suficiente de
países em proteger as normas do direito civilizado, que sustentaram os
princípios da soberania nacional, livres de interferência e coerção
estrangeiras, desde a Paz de Vestfália de 1648 até a Carta da ONU? E quanto às
guerras que inevitavelmente serão travadas – pouparão civis e não beligerantes,
ou serão como o ataque da Ucrânia à sua população de língua russa nas
províncias orientais, o genocídio israelense contra os palestinos, a limpeza
étnica wahabita contra populações árabes não sunitas ou as populações iraniana,
cubana e de outros países, submetidos a ataque patrocinado pelos EUA?
Será
possível salvar as Nações Unidas sem libertá-las e aos seus países membros do
controle dos EUA? Um teste decisivo para avaliar o rumo das alianças será a
adesão de cada país a uma ação que, sob o Direito internacional, busque
classificar Donald Trump e seu gabinete como criminosos de guerra. É necessário
algo mais do que o atual Tribunal Penal Internacional (TPI), quando se leva em
conta os ataques pessoais do governo norte-americano aos juízes do TPI que
condenaram Netanyahu.
O que
se exige é um julgamento em escala semelhante à de Nuremberg, agora contra a
política militar ocidental que busca mergulhar o mundo inteiro no caos político
e econômico, caso não se submeta à ordem unipolar baseada em governantes
estadunidenses. Se outros países não criarem uma alternativa à ofensiva
estadunidense-europeia-japonesa-wahabita, sofrerão o que o secretário de Estado
norte-americano, Marco Rubio, chamou (em seu recente discurso em Munique) de um
ressurgimento da história ocidental de conquistas contra os princípios básicos
do direito internacional e da equidade.
Uma
alternativa exige a reestruturação das Nações Unidas, para acabar com a
capacidade dos EUA de bloquear resoluções de maioria. Considerando que o
secretário-Geral da ONU, António Guterres, afirmou que a organização pode falir
até agosto e ter que fechar sua sede em Nova York, este é um momento oportuno
para transferi-la dos Estados Unidos. Os EUA proibiram a entrada de Francesca
Albanese no país em decorrência de seu relatório que descreve o genocídio
israelense em Gaza. Não pode haver Estado de Direito enquanto o controle da ONU
e de suas agências permanecer nas mãos dos EUA e de seus satélites europeus.
¨
Isis Paris Maia: Ciberguerras - o que a China entendeu
antes do mundo
A
advertência recente de Celso Amorim de que é preciso “preparar-se para o pior”
diante da escalada de tensões no Oriente Médio não deve ser lida apenas sob a
chave militar tradicional. A guerra no século XXI já não se define
prioritariamente pela ocupação territorial, mas pelo controle de
infraestruturas digitais, fluxos de dados e capacidades tecnológicas
estratégicas. Em um sistema internacional progressivamente estruturado pelo
poder informacional, a superioridade militar torna-se indissociável do domínio
tecnológico, da inteligência de dados e do controle sobre redes, plataformas e
sistemas digitais. Nesse contexto, conflitos contemporâneos não se iniciam
necessariamente com tropas ou bombardeios, mas com vigilância massiva,
rastreamento digital, interceptação de comunicações e capacidade de processar e
integrar grandes volumes de informação em tempo real.
É
precisamente nesse cenário que a experiência chinesa adquire relevância
analítica, ao ter antecipado que a soberania, na era digital, depende tanto do
controle do território físico, mas também da capacidade estatal de governar seu
próprio ciberespaço, suas infraestruturas informacionais e suas cadeias
tecnológicas estratégicas.
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EUA, Big Techs e guerra
Nesse
contexto, a pergunta “qual o papel das Big Techs em operações de guerra e
inteligência?” deixa de ser retórica e passa a ser analiticamente central. A
capacidade de localizar lideranças, monitorar deslocamentos, interceptar
comunicações e mapear padrões comportamentais depende, hoje, de um ecossistema
tecnológico altamente concentrado. Plataformas digitais, serviços de nuvem,
sistemas de geolocalização, infraestrutura de dados e redes de comunicação
constituem a espinha dorsal da vida digital contemporânea, mas também da guerra
informacional.
A
eliminação de altas lideranças em cenários de conflito, como observado no caso
iraniano, suscita precisamente essa dimensão tecnológica da guerra. A
inteligência contemporânea não se restringe mais à espionagem clássica, mas
envolve análise massiva de dados, rastros digitais, inteligência de sinais,
vigilância satelital e integração entre plataformas tecnológicas e estruturas
de segurança nacional. Em tal configuração, o poder militar torna-se
indissociável do poder informacional.
A
dimensão cibernética torna-se ainda mais evidente quando observamos episódios
recentes na Venezuela, nos quais ataques a sistemas, comunicações e
infraestrutura crítica antecederam operações diretas contra a liderança
estatal, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro. Longe de uma
ação puramente militar, o episódio revela que a superioridade tecnológica e
domínio sobre redes e fluxos de dados criam as condições operacionais para
neutralizar a capacidade de comando e controle do Estado antes mesmo do
confronto visível.
Trata-se
de um poder estrutural tecnológico que se projeta para além das fronteiras
territoriais e permeia o funcionamento cotidiano do sistema internacional. As
grandes empresas tecnológicas estadunidenses controlam parcelas significativas
da infraestrutura digital global, incluindo serviços de nuvem, sistemas
operacionais, plataformas de comunicação, mapas digitais, serviços de
inteligência artificial e fluxos massivos de dados. Essa concentração cria uma
assimetria estrutural, uma vez que países que dependem dessas infraestruturas
operam sob condições de vulnerabilidade informacional.
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A China e o ecossistema digital soberano
A
constituição de um ecossistema digital soberano na China deve ser compreendida
como parte de uma estratégia estatal de longo prazo voltada à construção de
autonomia tecnológica em um sistema internacional crescentemente estruturado
pelo poder informacional. Longe de se restringir a medidas pontuais de
regulação ou ao debate normativo sobre censura, a política chinesa de
restrição, regulação e substituição de plataformas digitais
estrangeiras insere-se em uma concepção mais ampla de soberania tecnológica, na
qual o ciberespaço é tratado como infraestrutura crítica do poder estatal.
Nesse sentido, dados governamentais, comunicações institucionais, sistemas
estratégicos e fluxos informacionais são progressivamente internalizados em
arquiteturas tecnológicas sob jurisdição nacional, reduzindo vulnerabilidades
externas e ampliando a capacidade de governança digital. Tal orientação revela
uma antecipação da centralidade do domínio tecnológico-digital como dimensão
estruturante da segurança nacional, do desenvolvimento econômico e da
competição geopolítica, evidenciando que, na experiência chinesa, o ecossistema
digital não emerge como reação conjuntural a pressões externas, mas como
projeto deliberado de construção de capacidades estatais técnico-digitais e de
reorganização soberana das infraestruturas informacionais.
Nesse
processo, a figura de Fang Binxing, engenheiro de computação e um dos
principais arquitetos do sistema de filtragem e controle do ciberespaço chinês,
conhecido internacionalmente como “Grande Firewall”, é particularmente
emblemática. Sua relevância decorre não apenas de sua atuação técnica, mas de
sua contribuição estratégica para a formulação de uma concepção de soberania
digital centrada na segurança do ciberespaço nacional. Fang operacionaliza essa
lógica ao sustentar que a autonomia tecnológica só pode existir quando o Estado
é capaz de proteger, regular e estruturar seu próprio ambiente informacional.
Isso implica controle sobre infraestrutura crítica, tais como dados, redes e
plataformas, desenvolvimento de capacidades humanas e institucionais nacionais
e a construção de mecanismos econômicos e regulatórios próprios. Trata-se,
portanto, de uma concepção abrangente de soberania digital, que articula
tecnologia, Estado e segurança.
Posteriormente,
o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT), a partir de 2008,
transforma essa base em política de Estado, por meio da criação de normas,
padrões técnicos, exigências regulatórias para empresas tecnológicas e
alinhamento estratégico com setores como 5G, computação em nuvem e
infraestrutura digital avançada. O que se observa, portanto, não é uma reação
conjuntural, mas um projeto de longo prazo de construção de autonomia
tecnológica.
Sob
essa perspectiva, a construção de um ecossistema digital próprio, incluindo
plataformas nacionais, infraestrutura de nuvem doméstica, redes soberanas e
sistemas tecnológicos autônomos, deve ser interpretada não apenas como
estratégia de sobrevivência estatal em um ambiente internacional marcado por
guerra informacional, ciberconflitos e disputa por dados, mas também como
inserção na principal fronteira tecnológica contemporânea. Trata-se de um campo
decisivo para múltiplas frentes de inovação, geração de empregos qualificados,
desenvolvimento industrial avançado e liderança em setores estratégicos como
inteligência artificial, big data e computação em nuvem.
Nesse
contexto, a soberania digital ultrapassa a dimensão do controle informacional
interno e passa a envolver a capacidade de estruturar cadeias tecnológicas
nacionais, reduzir dependências externas e sustentar a competitividade
econômica de longo prazo. Ao mesmo tempo, essa autonomia tecnológica possui
implicações diretas para a segurança nacional, na medida em que o domínio sobre
dados, redes e infraestruturas críticas condiciona a resiliência do Estado
frente a pressões externas, espionagem tecnológica e vulnerabilidades
sistêmicas.
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Palavras finais
A
trajetória chinesa ilustra para o Sul Global o caráter estratégico das
tecnologias digitais para o exercício da soberania no século XXI. Essa
centralidade tecnológica coincide com o aprofundamento das disputas sistêmicas
e com o recrudescimento das formas contemporâneas de projeção de poder dos
Estados Unidos, cada vez mais mediadas por instrumentos tecnológicos,
financeiros, informacionais e regulatórios, que ampliam a capacidade de
influência extraterritorial e reforçam assimetrias globais. É nesse cenário de
transição sistêmica e intensificação da competição tecnológica que ganham
relevância as iniciativas de articulação do Sul Global, particularmente no
âmbito dos BRICS, como tentativa de diversificação de parcerias, redução de
vulnerabilidades tecnológicas e construção de alternativas diante da ordem
digital centrada em Washington. E, nesse caso, a experiência chinesa contém
lições valiosas para a atual quadra histórica.
Fonte:
Outras Palavras

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