sexta-feira, 6 de março de 2026

Michael Hudson: A III Guerra pode ter começado esta semana

Na última sexta-feira, o mediador das negociações nucleares entre os EUA e o Irã em Omã, o ministro das Relações Exteriores daquele país, Badr Albusaidi, desmascarou a falsa ameaça de guerra do presidente Trump contra Teerã. Por que? Porque Washington recusou as propostas iranianas de abrir mão do que Trump alegava ser sua bomba atômica. O ministro omanita explicou no programa Face the Nation, da CBS, que a equipe iraniana de negociadores concordou em não acumular urânio enriquecido e ofereceu “verificação completa e abrangente pela AIEA”. Essa nova concessão foi um “avanço sem precedentes”, disse ele. E acrescentou: “Acredito que, se conseguirmos aproveitá-la e construir sobre essa base, um acordo estará ao nosso alcance” — “um acordo em que o Irã jamais terá material nuclear capaz de produzir uma bomba. Isso é, sem dúvida, uma grande conquista”.

Ao salientar que este avanço “passou despercebido pela grande mídia”, ele enfatizou que o apelo por “estoque zero” ia muito além do que havia sido negociado durante o governo do presidente Obama, porque “se você não pode estocar material enriquecido, não há como realmente criar uma bomba”.

O aiatolá Ali Khamenei – que já havia emitido uma fatwa contra tal ato e reiterado essa posição ano após ano – convocou os líderes xiitas e o chefe militar do Irã para discutir a ratificação do acordo de cessão do controle do urânio enriquecido, a fim de evitar uma guerra.

Mas tal atitude era precisamente o que nem os Estados Unidos nem Israel podiam aceitar. Uma resolução pacífica teria impedido o plano de longo prazo dos EUA de consolidar e instrumentalizar seu controle sobre o petróleo do Oriente Médio, seu transporte e o investimento das receitas de exportação de petróleo, e de usar Israel e a Al-Qaeda/ISIS como seus exércitos-clientes, para impedir que países produtores de petróleo independentes agissem em função de seus próprios interesses soberanos.

Aparentemente, os serviços de espionagem israelenses alertaram os militares dos EUA, sugerindo que a reunião no complexo do aiatolá oferecia uma grande oportunidade para decapitar os principais dirigentes de uma só vez. Isso seguia a recomendação do manual militar dos EUA, de que matar um líder político considerado antidemocrático por Washington libertaria os supostos anseios populares por uma mudança de regime. Essa era a esperança por trás do bombardeio à residência campestre do presidente Putin no mês passado, e estava em consonância com a recente tentativa dos EUA, por meio do programa Starlink, de mobilizar a oposição popular para uma revolução no Irã.

O ataque conjunto EUA-Israel deixa claro que não havia nada que o Irã pudesse ter cedido que impedisse a longa trajetória dos EUA de controlar o petróleo do Oriente Médio, juntamente com o uso de Israel e dos exércitos clientes do ISIS/Al-Qaeda para impedir que nações soberanas da região assumam o controle de suas reservas de petróleo. Esse controle continua sendo um pilar essencial da política externa dos EUA. É a chave para a capacidade dos EUA de prejudicar outras economias, negando-lhes o acesso à energia caso não se alinhem à política externa norte-americana. Essa insistência em bloquear o acesso mundial a fontes de energia que não estejam sob controle dos EUA é o motivo pelo qual o país atacou a Venezuela, a Síria, o Iraque, a Líbia e a Rússia.

O ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso contra o Irã) é uma perfídia que ficará marcada na história. O objetivo era impedir a tentativa de alcançar a paz, antes que os líderes iranianos pudessem refutar a falsa alegação de Trump de que se recusavam a desistir de obter sua própria bomba atômica. Seria interessante saber quantos dos assessores de Trump fizeram grandes apostas de que os preços do petróleo disparariam na abertura dos mercados na segunda-feira de manhã.

Na semana passada, os mercados subestimaram enormemente o risco do fechamento do Golfo Pérsico. As empresas petrolíferas norte-americanas lucrarão enormemente. A China e outros importadores de petróleo sofrerão. Os especuladores financeiros americanos também lucrarão muito, pois sua produção de petróleo é doméstica. Esse fato pode até ter influenciado a decisão dos EUA de encerrar o acesso mundial ao petróleo do Oriente Médio por um período que promete ser longo.

A perturbação comercial e financeira será, de fato, tão global que creio que podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, como o verdadeiro estopim da Terceira Guerra Mundial. Para a maior parte do mundo, a iminente crise financeira (para não mencionar a indignação moral) definirá a próxima década de reestruturação política e econômica internacional.

Os países europeus, asiáticos e do Sul Global não conseguirão obter petróleo a não ser a preços que tornem muitas indústrias não rentáveis e muitos orçamentos familiares inacessíveis. A subida dos preços do petróleo também impossibilitará os países do Sul Global de honrar as suas dívidas em dólares para com os detentores de títulos ocidentais, os bancos e o FMI.

Os países só poderão evitar a imposição de “austeridade” interna, desvalorização cambial e inflação se reconhecerem que o ataque dos EUA (apoiado pela Grã-Bretanha e pela Arábia Saudita, com a aquiescência ambígua da Turquia) pôs fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional dolarizado. Se isso não for reconhecido, a aquiescência continuará até se tornar, ao fim das contas, insustentável.

Se esta é a batalha inaugural da Terceira Guerra Mundial, ela é, em muitos aspectos, a batalha final para definir o verdadeiro propósito da Segunda Guerra Mundial. O direito internacional ruirá, devido à relutância de um número suficiente de países em proteger as normas do direito civilizado, que sustentaram os princípios da soberania nacional, livres de interferência e coerção estrangeiras, desde a Paz de Vestfália de 1648 até a Carta da ONU? E quanto às guerras que inevitavelmente serão travadas – pouparão civis e não beligerantes, ou serão como o ataque da Ucrânia à sua população de língua russa nas províncias orientais, o genocídio israelense contra os palestinos, a limpeza étnica wahabita contra populações árabes não sunitas ou as populações iraniana, cubana e de outros países, submetidos a ataque patrocinado pelos EUA?

Será possível salvar as Nações Unidas sem libertá-las e aos seus países membros do controle dos EUA? Um teste decisivo para avaliar o rumo das alianças será a adesão de cada país a uma ação que, sob o Direito internacional, busque classificar Donald Trump e seu gabinete como criminosos de guerra. É necessário algo mais do que o atual Tribunal Penal Internacional (TPI), quando se leva em conta os ataques pessoais do governo norte-americano aos juízes do TPI que condenaram Netanyahu.

O que se exige é um julgamento em escala semelhante à de Nuremberg, agora contra a política militar ocidental que busca mergulhar o mundo inteiro no caos político e econômico, caso não se submeta à ordem unipolar baseada em governantes estadunidenses. Se outros países não criarem uma alternativa à ofensiva estadunidense-europeia-japonesa-wahabita, sofrerão o que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, chamou (em seu recente discurso em Munique) de um ressurgimento da história ocidental de conquistas contra os princípios básicos do direito internacional e da equidade.

Uma alternativa exige a reestruturação das Nações Unidas, para acabar com a capacidade dos EUA de bloquear resoluções de maioria. Considerando que o secretário-Geral da ONU, António Guterres, afirmou que a organização pode falir até agosto e ter que fechar sua sede em Nova York, este é um momento oportuno para transferi-la dos Estados Unidos. Os EUA proibiram a entrada de Francesca Albanese no país em decorrência de seu relatório que descreve o genocídio israelense em Gaza. Não pode haver Estado de Direito enquanto o controle da ONU e de suas agências permanecer nas mãos dos EUA e de seus satélites europeus.

¨      Isis Paris Maia: Ciberguerras - o que a China entendeu antes do mundo

A advertência recente de Celso Amorim de que é preciso “preparar-se para o pior” diante da escalada de tensões no Oriente Médio não deve ser lida apenas sob a chave militar tradicional. A guerra no século XXI já não se define prioritariamente pela ocupação territorial, mas pelo controle de infraestruturas digitais, fluxos de dados e capacidades tecnológicas estratégicas. Em um sistema internacional progressivamente estruturado pelo poder informacional, a superioridade militar torna-se indissociável do domínio tecnológico, da inteligência de dados e do controle sobre redes, plataformas e sistemas digitais. Nesse contexto, conflitos contemporâneos não se iniciam necessariamente com tropas ou bombardeios, mas com vigilância massiva, rastreamento digital, interceptação de comunicações e capacidade de processar e integrar grandes volumes de informação em tempo real.

É precisamente nesse cenário que a experiência chinesa adquire relevância analítica, ao ter antecipado que a soberania, na era digital, depende tanto do controle do território físico, mas também da capacidade estatal de governar seu próprio ciberespaço, suas infraestruturas informacionais e suas cadeias tecnológicas estratégicas.

<><> EUA, Big Techs e guerra

Nesse contexto, a pergunta “qual o papel das Big Techs em operações de guerra e inteligência?” deixa de ser retórica e passa a ser analiticamente central. A capacidade de localizar lideranças, monitorar deslocamentos, interceptar comunicações e mapear padrões comportamentais depende, hoje, de um ecossistema tecnológico altamente concentrado. Plataformas digitais, serviços de nuvem, sistemas de geolocalização, infraestrutura de dados e redes de comunicação constituem a espinha dorsal da vida digital contemporânea, mas também da guerra informacional.

A eliminação de altas lideranças em cenários de conflito, como observado no caso iraniano, suscita precisamente essa dimensão tecnológica da guerra. A inteligência contemporânea não se restringe mais à espionagem clássica, mas envolve análise massiva de dados, rastros digitais, inteligência de sinais, vigilância satelital e integração entre plataformas tecnológicas e estruturas de segurança nacional. Em tal configuração, o poder militar torna-se indissociável do poder informacional.

A dimensão cibernética torna-se ainda mais evidente quando observamos episódios recentes na Venezuela, nos quais ataques a sistemas, comunicações e infraestrutura crítica antecederam operações diretas contra a liderança estatal, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro. Longe de uma ação puramente militar, o episódio revela que a superioridade tecnológica e domínio sobre redes e fluxos de dados criam as condições operacionais para neutralizar a capacidade de comando e controle do Estado antes mesmo do confronto visível.

Trata-se de um poder estrutural tecnológico que se projeta para além das fronteiras territoriais e permeia o funcionamento cotidiano do sistema internacional. As grandes empresas tecnológicas estadunidenses controlam parcelas significativas da infraestrutura digital global, incluindo serviços de nuvem, sistemas operacionais, plataformas de comunicação, mapas digitais, serviços de inteligência artificial e fluxos massivos de dados. Essa concentração cria uma assimetria estrutural, uma vez que países que dependem dessas infraestruturas operam sob condições de vulnerabilidade informacional.

<><> A China e o ecossistema digital soberano

A constituição de um ecossistema digital soberano na China deve ser compreendida como parte de uma estratégia estatal de longo prazo voltada à construção de autonomia tecnológica em um sistema internacional crescentemente estruturado pelo poder informacional. Longe de se restringir a medidas pontuais de regulação ou ao debate normativo sobre censura, a política chinesa de restrição, regulação  e  substituição de plataformas digitais estrangeiras insere-se em uma concepção mais ampla de soberania tecnológica, na qual o ciberespaço é tratado como infraestrutura crítica do poder estatal. Nesse sentido, dados governamentais, comunicações institucionais, sistemas estratégicos e fluxos informacionais são progressivamente internalizados em arquiteturas tecnológicas sob jurisdição nacional, reduzindo vulnerabilidades externas e ampliando a capacidade de governança digital. Tal orientação revela uma antecipação da centralidade do domínio tecnológico-digital como dimensão estruturante da segurança nacional, do desenvolvimento econômico e da competição geopolítica, evidenciando que, na experiência chinesa, o ecossistema digital não emerge como reação conjuntural a pressões externas, mas como projeto deliberado de construção de capacidades estatais técnico-digitais e de reorganização soberana das infraestruturas informacionais.

Nesse processo, a figura de Fang Binxing, engenheiro de computação e um dos principais arquitetos do sistema de filtragem e controle do ciberespaço chinês, conhecido internacionalmente como “Grande Firewall”, é particularmente emblemática. Sua relevância decorre não apenas de sua atuação técnica, mas de sua contribuição estratégica para a formulação de uma concepção de soberania digital centrada na segurança do ciberespaço nacional. Fang operacionaliza essa lógica ao sustentar que a autonomia tecnológica só pode existir quando o Estado é capaz de proteger, regular e estruturar seu próprio ambiente informacional. Isso implica controle sobre infraestrutura crítica, tais como dados, redes e plataformas, desenvolvimento de capacidades humanas e institucionais nacionais e a construção de mecanismos econômicos e regulatórios próprios. Trata-se, portanto, de uma concepção abrangente de soberania digital, que articula tecnologia, Estado e segurança.

Posteriormente, o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT), a partir de 2008, transforma essa base em política de Estado, por meio da criação de normas, padrões técnicos, exigências regulatórias para empresas tecnológicas e alinhamento estratégico com setores como 5G, computação em nuvem e infraestrutura digital avançada. O que se observa, portanto, não é uma reação conjuntural, mas um projeto de longo prazo de construção de autonomia tecnológica.

Sob essa perspectiva, a construção de um ecossistema digital próprio, incluindo plataformas nacionais, infraestrutura de nuvem doméstica, redes soberanas e sistemas tecnológicos autônomos, deve ser interpretada não apenas como estratégia de sobrevivência estatal em um ambiente internacional marcado por guerra informacional, ciberconflitos e disputa por dados, mas também como inserção na principal fronteira tecnológica contemporânea. Trata-se de um campo decisivo para múltiplas frentes de inovação, geração de empregos qualificados, desenvolvimento industrial avançado e liderança em setores estratégicos como inteligência artificial, big data e computação em nuvem.

Nesse contexto, a soberania digital ultrapassa a dimensão do controle informacional interno e passa a envolver a capacidade de estruturar cadeias tecnológicas nacionais, reduzir dependências externas e sustentar a competitividade econômica de longo prazo. Ao mesmo tempo, essa autonomia tecnológica possui implicações diretas para a segurança nacional, na medida em que o domínio sobre dados, redes e infraestruturas críticas condiciona a resiliência do Estado frente a pressões externas, espionagem tecnológica e vulnerabilidades sistêmicas.

<><> Palavras finais

A trajetória chinesa ilustra para o Sul Global o caráter estratégico das tecnologias digitais para o exercício da soberania no século XXI. Essa centralidade tecnológica coincide com o aprofundamento das disputas sistêmicas e com o recrudescimento das formas contemporâneas de projeção de poder dos Estados Unidos, cada vez mais mediadas por instrumentos tecnológicos, financeiros, informacionais e regulatórios, que ampliam a capacidade de influência extraterritorial e reforçam assimetrias globais. É nesse cenário de transição sistêmica e intensificação da competição tecnológica que ganham relevância as iniciativas de articulação do Sul Global, particularmente no âmbito dos BRICS, como tentativa de diversificação de parcerias, redução de vulnerabilidades tecnológicas e construção de alternativas diante da ordem digital centrada em Washington. E, nesse caso, a experiência chinesa contém lições valiosas para a atual quadra histórica.

 

Fonte: Outras Palavras

 

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