A
religião como tecnologia de guerra no século XXI
Enquanto
acusa adversários de teocracia, o próprio Ocidente continua mobilizando
narrativas religiosas para legitimar guerras, moldar percepções públicas e
mobilizar soldados. No século XXI, a fé não desapareceu do campo de batalha.
Ela foi transformada em tecnologia estratégica de poder.
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Quando Deus volta ao campo de batalha
A
modernidade vendeu uma promessa sedutora: a de que a religião teria sido
empurrada para o espaço privado e que as guerras passariam a obedecer à
gramática limpa da razão de Estado. A realidade é mais áspera. A fé não saiu do
conflito. Ela apenas trocou de função. Saiu do centro institucional e
reapareceu como linguagem de mobilização, como cola moral, como repertório
simbólico capaz de fazer sociedades aceitarem o inaceitável.
No
século XXI, essa permanência fica mais visível porque a guerra passou a exigir
mais do que força militar. Ela exige legitimidade. Exige narrativa. Exige
capacidade de enquadrar o conflito como necessidade histórica, como defesa
civilizacional, como resposta moral a um mal absoluto. Nesse terreno, a
religião entrega algo que a propaganda secular raramente oferece com a mesma
potência: sentido. Um sentido que organiza medo, sacrifício, obediência e
identidade coletiva em torno de uma história simples, carregada de destino.
Por
isso, a religião funciona hoje como tecnologia de guerra. Não no sentido
místico, mas no sentido político e operacional: um instrumento para transformar
disputas materiais em cruzadas morais, para converter cálculo estratégico em
missão, para reduzir hesitação a dever. É aqui que nasce a contradição central
do artigo. Os mesmos poderes que apontam o dedo para “teocracias”, como se
fossem exotismo irracional, recorrem com naturalidade a gramáticas sagradas
quando precisam mobilizar seus próprios públicos, justificar escaladas e
disciplinar dúvidas. O sagrado vira defeito no inimigo e vira combustível no
aliado. A guerra, então, continua falando a língua de Deus, mesmo quando jura
que é laica.
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A genealogia da guerra sagrada
A
utilização da religião como instrumento de mobilização política não é um
fenômeno recente nem excepcional. Ela acompanha a própria história da guerra
organizada. Muito antes da consolidação dos Estados modernos, líderes políticos
e instituições religiosas já compreendiam que a linguagem do sagrado possuía
uma capacidade singular de transformar conflitos materiais em causas morais
capazes de mobilizar sociedades inteiras.
Um dos
exemplos mais conhecidos dessa dinâmica ocorreu durante as Cruzadas medievais.
Em 1095, no Concílio de Clermont, o papa Urbano II convocou cavaleiros europeus
a marcharem rumo a Jerusalém sob o argumento de que participariam de uma missão
espiritual. A guerra foi apresentada como dever religioso e como caminho para a
remissão dos pecados. Ao enquadrar uma campanha militar dentro de uma narrativa
de salvação, o discurso religioso transformou um conflito político em missão
sagrada. O resultado foi uma mobilização continental que dificilmente teria
ocorrido apenas com base em interesses estratégicos.
Esse
mecanismo reapareceu em diferentes momentos da história moderna. Durante o
século XIX, por exemplo, a expansão territorial dos Estados Unidos foi
frequentemente acompanhada pela ideologia do chamado Destino Manifesto. A
conquista do Oeste e a incorporação de novos territórios eram apresentadas por
muitos líderes políticos e religiosos como parte de um plano providencial. A
expansão territorial aparecia, portanto, não apenas como projeto político e
econômico, mas como cumprimento de uma missão histórica supostamente inscrita
na própria ordem do mundo.
No
século XX, a Guerra Fria ofereceu outro exemplo eloquente dessa mobilização
simbólica. O confronto entre Estados Unidos e União Soviética foi
frequentemente descrito em termos morais e civilizacionais. Em discursos
políticos e campanhas ideológicas, o bloco ocidental aparecia associado à
tradição religiosa judaico-cristã, enquanto o adversário comunista era
retratado como representante do ateísmo e da negação dos fundamentos
espirituais da civilização. Uma disputa geopolítica complexa era transformada
em narrativa moral simples, capaz de mobilizar sociedades inteiras em torno da
ideia de defesa da civilização.
Esses
episódios revelam um padrão recorrente. A religião oferece uma linguagem
particularmente eficaz para organizar percepções coletivas sobre a guerra. Ao
atribuir significado transcendente aos conflitos, ela reduz ambiguidades
morais, fortalece identidades coletivas e amplia a disposição ao sacrifício. A
violência política deixa de ser percebida apenas como cálculo estratégico e
passa a ser interpretada como participação em uma missão histórica dotada de
significado moral.
O mundo
contemporâneo não rompeu com esse padrão. O que mudou foram os meios pelos
quais essas narrativas circulam e se consolidam. Se, no passado, a mobilização
religiosa dependia sobretudo de instituições e autoridades espirituais, hoje
ela se difunde também por meio da política, da mídia e das redes de comunicação
que moldam percepções públicas em escala global. A linguagem do sagrado
continua oferecendo uma ferramenta poderosa para transformar disputas de poder
em batalhas morais compreensíveis para sociedades inteiras.
A
religião não reaparece nas guerras contemporâneas como resquício do passado.
Ela permanece como uma das linguagens mais eficazes para transformar disputas
materiais em narrativas moralmente compreensíveis para sociedades inteiras. O
século XXI não eliminou essa lógica. Apenas a incorporou a formas mais
sofisticadas de mobilização psicológica e disputa simbólica.
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Religião como tecnologia psicológica de guerra
Se a
história mostra que a religião sempre esteve presente na mobilização da guerra,
o mundo contemporâneo revela uma transformação importante. A fé deixou de
aparecer principalmente como instituição que convoca conflitos e passou a
operar como linguagem simbólica capaz de organizar percepções coletivas sobre
eles. Em vez de declarar guerras religiosas, as sociedades modernas passaram a
enquadrar guerras políticas dentro de narrativas morais profundamente marcadas
por referências espirituais.
Essa
mudança está diretamente ligada à natureza das guerras contemporâneas.
Conflitos modernos não são travados apenas no terreno físico. Eles se
desenvolvem também no campo das percepções públicas, da legitimidade moral e da
mobilização social. Estados precisam convencer suas próprias populações de que
determinados conflitos são necessários, inevitáveis ou moralmente justificados.
É nesse ponto que a religião continua oferecendo um recurso poderoso.
Narrativas
inspiradas em tradições religiosas possuem três características particularmente
úteis para esse tipo de mobilização. Primeiro, elas simplificam conflitos
complexos ao transformá-los em confrontos morais claros. Segundo, criam
identidades coletivas fortes, capazes de distinguir com nitidez o “nós” e o
“eles”. Terceiro, atribuem significado transcendente ao sacrifício individual,
permitindo que perdas humanas sejam interpretadas como parte de uma causa
maior.
Quando
esses elementos entram em circulação dentro do discurso político, a guerra
deixa de ser percebida apenas como decisão estratégica. Ela passa a ser
apresentada como defesa de valores fundamentais, como luta contra forças
consideradas ameaçadoras ou como missão histórica. Esse enquadramento reduz
ambiguidades morais e facilita a mobilização emocional das sociedades.
No
século XXI, essa dinâmica tornou-se ainda mais potente porque as narrativas
circulam em um ambiente de comunicação instantânea. Discursos políticos,
símbolos religiosos e referências morais podem ser amplificados por meios de
comunicação globais e redes sociais, atingindo públicos muito mais amplos do
que em períodos anteriores. A linguagem da guerra torna-se, portanto, também
uma disputa por significado.
Nesse
contexto, a religião opera como uma tecnologia psicológica de mobilização. Ela
fornece símbolos, metáforas e narrativas capazes de organizar percepções
coletivas sobre o conflito. Ao transformar disputas materiais em histórias
moralmente compreensíveis, essa linguagem ajuda a construir legitimidade
política e a sustentar a mobilização social necessária para a guerra.
O ponto
central não é que guerras contemporâneas sejam propriamente religiosas. O que
se observa é que narrativas inspiradas em tradições espirituais continuam
oferecendo uma gramática poderosa para explicar, justificar e mobilizar
sociedades em torno da violência política. É justamente essa gramática que
reaparece, de maneira particularmente visível, na cultura estratégica dos
Estados Unidos.
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Armagedom e a cultura estratégica dos Estados Unidos
A
influência de narrativas religiosas na política internacional contemporânea
torna-se particularmente visível quando se observa a cultura estratégica dos
Estados Unidos. Embora o país se apresente institucionalmente como um Estado
secular, elementos provenientes da tradição religiosa continuam atravessando
discursos políticos, identidades nacionais e percepções de guerra. Em momentos
de tensão internacional, essas referências reaparecem como linguagem capaz de
enquadrar conflitos em termos morais e civilizacionais.
Durante
a Guerra Fria, por exemplo, o confronto com a União Soviética foi
frequentemente descrito dentro de uma moldura simbólica que opunha valores
espirituais e materialismo ateu. Discursos políticos apresentavam o bloco
ocidental como herdeiro da tradição judaico-cristã, enquanto o adversário
comunista era retratado como ameaça à própria base moral da civilização.
Durante
a Guerra Fria, esse enquadramento chegou a aparecer de forma explícita no
discurso presidencial americano. Em 1983, Ronald Reagan descreveu a União
Soviética como um “império do mal”, expressão que rapidamente se tornou símbolo
da retórica moral que acompanhava o conflito. A disputa geopolítica entre duas
potências nucleares era apresentada não apenas como competição estratégica, mas
como confronto entre sistemas morais incompatíveis.
Ao
converter um adversário político em figura quase metafísica do mal, o discurso
reforçava uma narrativa que mobilizava imaginários religiosos profundamente
enraizados na cultura política americana.
Esse
tipo de enquadramento não desapareceu com o fim da Guerra Fria. Ao longo das
últimas décadas, referências morais e religiosas continuaram aparecendo em
discursos que procuram explicar conflitos internacionais para o público
americano.
Dentro
desse universo simbólico, imaginários escatológicos também encontram espaço em
setores da cultura política e religiosa do país. Em determinados círculos
religiosos, conflitos no Oriente Médio são interpretados à luz de narrativas
bíblicas associadas ao fim dos tempos.
Esse
imaginário não determina sozinho a política externa dos Estados Unidos, que
continua sendo conduzida por interesses estratégicos e cálculos de poder. No
entanto, ele influencia o ambiente cultural no qual decisões políticas são
interpretadas e debatidas.
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Conclusão: quando a guerra fala a linguagem do sagrado
A
história moderna costuma apresentar a guerra como produto de cálculos
estratégicos, interesses materiais e disputas de poder entre Estados. Essa
interpretação é correta, mas incompleta.
No
século XXI, portanto, a religião não desapareceu da guerra. Ela foi incorporada
ao repertório simbólico que acompanha a disputa por legitimidade e poder no
sistema internacional. A fé continua fornecendo narrativas, metáforas e
identidades capazes de mobilizar sociedades em torno da violência política.
A
guerra pode ter se tornado mais tecnológica, mais global e mais sofisticada em
seus instrumentos. Satélites, inteligência artificial e sistemas de vigilância
moldam hoje o campo de batalha. No entanto, por trás dessas tecnologias
avançadas continua operando um mecanismo muito antigo de mobilização humana.
Mesmo
na era das armas hipersônicas e da informação em tempo real, guerras ainda
precisam de histórias capazes de dar sentido ao medo, ao sacrifício e à
violência. E, repetidas vezes, essas histórias continuam sendo escritas na
linguagem do sagrado.
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Comandantes de Trump dizem às tropas para se prepararem
para o retorno de Jesus e fazem profecia sobre o Armagedom
Comandantes
militares associados ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
foram acusados de transmitir mensagens religiosas a tropas americanas em meio
ao conflito com o Irã, afirmando que a guerra faria parte de um plano divino
ligado ao “Armagedom”. As denúncias surgiram após relatos de soldados que dizem
ter ouvido interpretações bíblicas sobre o conflito durante orientações
internas.
Segundo
reportagem publicada pelo Daily Mail, a organização civil
Military Religious Freedom Foundation (MRFF) afirma ter recebido 110
reclamações de militares desde o início da guerra no último sábado. As queixas
teriam sido registradas em mais de 40 unidades espalhadas por cerca de 30
instalações militares dos Estados Unidos.
<><> Denúncias partem de militares de diversas
unidades
De
acordo com os relatos encaminhados à MRFF, um sargento — identificado apenas
como suboficial — relatou que o comandante de sua unidade afirmou que Donald
Trump teria sido “ungido por Jesus” para iniciar um evento que levaria ao
Armagedom. O militar disse que a declaração foi feita durante orientações à
tropa.
Segundo
o depoimento encaminhado à organização, o comandante afirmou que Trump havia
sido “ungido por Jesus para acender o sinal de fogo no Irã para causar o
Armagedom e marcar seu retorno à Terra”.O mesmo militar relatou ainda que a
liderança teria orientado os soldados a transmitir essa interpretação religiosa
às tropas. Em seu relato, ele afirmou que o comandante disse que o conflito
seria “parte do plano divino de Deus”, citando passagens do Livro do
Apocalipse relacionadas ao Armagedom e ao retorno de Jesus Cristo.
O
suboficial, cuja identidade foi preservada pela MRFF, declarou que escreveu a
denúncia em nome de outros 15 militares de sua unidade, entre eles 11 cristãos,
um muçulmano e um judeu. Segundo ele, os soldados estão fora da zona direta de
combate no Irã, mas permanecem em status de apoio pronto, o que significa que
podem ser mobilizados a qualquer momento.
No
documento enviado à organização, o militar afirmou que os comentários de seu
comandante “destroem o moral e a coesão da unidade e violam os juramentos
que fizemos de apoiar a Constituição”.
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Governo nega uso de argumentos religiosos
Um
funcionário da Casa Branca negou que comandantes estejam dando ordens com base
em interpretações religiosas sobre o fim dos tempos. De acordo com o
representante do governo, os objetivos da guerra são militares e estratégicos:
destruir os mísseis iranianos, enfraquecer a indústria de armamentos do país e
neutralizar sua marinha.
O
Departamento de Defesa dos Estados Unidos não respondeu imediatamente aos
pedidos de comentário sobre as denúncias.
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Influência religiosa no entorno político e militar
A
presença de discursos religiosos em ambientes ligados ao governo não se limita
ao campo de batalha. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, identificado como
cristão renascido, realiza encontros mensais de oração no Pentágono e participa
de estudos bíblicos semanais na Casa Branca.
Essas
reuniões são conduzidas por um pastor que defende que Deus abençoa aqueles que
apoiam Israel. A conselheira espiritual de longa data de Donald Trump, Paula
White, também defende essa posição e há décadas incentiva cristãos a “ficarem
ao lado de Israel”.
Outras
lideranças religiosas próximas ao círculo político de Trump também associaram o
conflito atual a interpretações proféticas. Em culto realizado no domingo, o
pastor John Hagee afirmou a seus fiéis que os acontecimentos indicariam a
proximidade do chamado “fim dos tempos”.
“Profeticamente,
estamos exatamente no momento certo. As sirenes estão soando e profecias
escritas há milhares de anos estão entrando no palco do mundo”, declarou.
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Tensão internacional após escalada militar
A crise
no Oriente Médio se intensificou após uma operação militar conjunta dos Estados
Unidos e de Israel que resultou na morte do aiatolá Ali Khamenei no sábado,
durante um ataque aéreo. A ação ampliou drasticamente a instabilidade regional.
Após o
episódio, forças iranianas passaram a lançar mísseis e drones contra embaixadas
e bases americanas na região, além de alvos em Israel e em aliados árabes dos
Estados Unidos, como Bahrein, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Inicialmente,
Donald Trump afirmou que a guerra poderia durar entre quatro e cinco semanas.
Posteriormente, o presidente dos Estados Unidos declarou que o conflito pode se
estender por um período “muito mais longo”, diante da escalada militar em curso
no Oriente Médio.
Fonte: Por
Reynaldo José Aragon: em Brasil 247

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