Salário
de professores ( e demais servidores) na Bahia está entre os cinco piores do
Brasil
Os
professores da rede estadual da Bahia têm o quinto pior salário inicial do
país. Enquanto as remunerações de entrada podem chegar a R$ 13 mil em outros
estados, um professor baiano recebe R$ 4.965,24 no início da carreira. Os dados
são de um estudo do Movimento Profissão Docente, divulgado nesta terça-feira
(3).
A
pesquisa, que analisou a estrutura da carreira docente nas redes estaduais a
partir do levantamento de legislações de cada estado, mostra que a remuneração
na Bahia está menos de R$ 100 acima do Piso do Magistério do ano passado (R$
4.867,77) e 20% abaixo da média nacional, que é R$ 6.212,36.
“Por
que a gente olha o salário inicial, o primeiro nível da carreira? Porque o
primeiro nível da carreira é o nível que os jovens olham quando pensam em ser
professor. ‘Vale a pena eu ser professor para ganhar R$ 5 mil ou ainda tem um
outro trabalho que me agrada e que eu possa ganhar mais do que isso?’. Então, é
importante que o nível inicial seja o mais alto possível para ser atrativo”,
explica Haroldo Rocha, diretor do Profissão Docente.
O
estudo identificou que o salário inicial não reflete toda a remuneração que o
professor pode receber, sendo mapeados 180 tipos de gratificações, adicionais e
outros penduricalhos que, no entanto, os professores não mais levam para a
aposentadoria, após a reforma da previdência de 2019. Com as eventuais
gratificações, o salário inicial na Bahia pode ser de R$ 6.513,40, levemente
menor que a média nacional (R$ 6.599,46).
Após 18
anos de sala de aula, os docentes da rede estadual baiana atingem o topo da
carreira e podem receber até R$ 6.396,58, um aumento de 28.8% em relação ao
início da vida profissional. É o décimo menor aumento do país.
Segundo
Rocha, a amplitude atual mostra que a estrutura das carreiras do magistério na
Bahia não estimula que o professor aperfeiçoe sua prática e contribua para que
as crianças possam se desenvolver.
“A
Bahia vai precisar fazer uma reestruturação de carreira para que essa amplitude
aumente. Isso depende muito da conjuntura do momento, tem que olhar recursos
disponíveis, por exemplo. Mas esse deve ser um objetivo que a Bahia tem que
perseguir: conseguir reestruturar a carreira para que se dê uma perspectiva
melhor de remuneração para o professor que está na rede”, diz.
Para o
especialista, as posições baixas da Bahia em indicadores de avaliação de
aprendizagem como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e o
Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) certamente refletem as
dificuldades e a falta de estímulo dos professores em sala de aula.
“Um bom
professor é um professor que tem competência profissional e motivação para
ensinar. Tanto na remuneração de entrada quanto na remuneração de saída, a
Bahia está abaixo da média. Então, o estado tem que fazer um esforço nesse
sentido. A nossa intenção é que o estudo sirva para ajudar e orientar as
políticas que cada estado vai adotar com seus professores”, acrescenta.
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Educação na Bahia em 2024
A nível
nacional, a amplitude remuneratória – ou seja, a evolução salarial – média é de
49%, consideravelmente mais alta que o progresso observado na Bahia. Mas, de
acordo com Haroldo Rocha, o ideal é que essa diferença seja ainda mais
expressiva.
“O
professor, além de permanecer na rede, precisa ter uma perspectiva de conseguir
melhorar. O que nós pesquisamos na literatura internacional, que é o mais
praticado e o razoável, é que o final da carreira [a remuneração] supere de 70%
a 100% o valor do início da carreira. Se olharmos de estado a estado, em uns o
aumento é de 150% e em outros é zero”, diz. “Isso desestimula o professor a
fazer um esforço de estudar, de aperfeiçoar seu processo de práticas
pedagógicas para as crianças aprenderem mais, porque ele não tem perspectiva de
melhorar e acaba se acomodando.”
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Desafios
Para os
jovens que estão prestes a entrar na faculdade, a preocupação com o salário
anda lado a lado com o sonho de exercer a profissão desejada. No caso dos
cursos de licenciatura, o percentual de jovens brasileiros interessados é menor
do que os padrões internacionais, mas a matrícula é sempre grande, diz Haroldo
Rocha. O problema está na evasão que acontece nos anos seguintes.
“A
qualidade dos cursos foi muito depreciada na última década, principalmente em
função de uma descontrolada expansão da
oferta
de cursos auto instrucionais, à distância. Ou
seja, uma plataforma em que alguns professores gravam e cada estudante vai ver
esses vídeos sozinho, sem interação. O que no nosso juízo é uma forma
absolutamente inadequada de formar professores, pela razão principal de que
educação, ensino e aprendizagem são relação humana do professor com aluno. Se o
professor que está em formação na universidade não interage com os colegas e
com seu professor, humanamente falando, ele não vai aprender”, afirma Rocha.
A
Secretaria da Educação do Estado da Bahia (SEC) foi procurada para oferecer um
posicionamento em relação à remuneração dos professores baianos em comparação
com outros estados, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.
• Bahia tem pior desempenho do país na
alfabetização infantil
A Bahia
tem os piores índices de alfabetização na rede pública no Brasil. De acordo com
dados do Indicador Criança Alfabetizada, o estado tem 66.645 crianças que ainda
não foram alfabetizadas – o equivalente a 64,04% dos 104.069 alunos da educação
básica na Bahia. Os números por estado foram divulgados em homenagem ao Dia
Nacional da Alfabetização, celebrado nesta sexta-feira (14).
O
índice, que contempla estudantes da rede pública, é ainda maior que o
registrado em 2023, quando a porcentagem de crianças não alfabetizadas foi de
63,22%. A meta para 2024, conforme o Programa Bahia Alfabetizada, era ensinar
42,80% das crianças baianas a ler e escrever, mas o resultado foi uma queda em
relação ao ano anterior. Para 2025, a intenção é ainda maior: alfabetizar
49,73% dos estudantes do ensino básico. O objetivo maior é atingir 80% de
crianças alfabetizadas até 2030.
Daniela
Mendes, coordenadora de políticas educacionais do Todos Pela Educação, afirma
que apesar da educação básica ser atribuição dos municípios, é necessário que
exista apoio técnico e financeiro do governo estadual no processo de
alfabetização.
“Os
municípios são o ente federativo que tem menos capacidade financeira e menos
capacidade técnica para fazer uma tarefa tão difícil e tão importante como
alfabetizar. Então acaba que se o governo estadual não apoia os governos
municipais, a gente tem um desafio muito grande, porque estamos falando de um
estado grande, que tem muitos municípios. municípios com realidades
diferentes”, diz.
A
partir desse apoio, vem a parte crucial: investir na formação de professores,
na construção de materiais pedagógicos e livros didáticos que serão utilizados
em sala de aula, além da realização de avaliações ao longo do percurso de
alfabetização.
“Essas
avaliações conseguem dar um norte para os professores sobre o que precisa ser
aprimorado, como essa criança está evoluindo e se desenvolvendo para que ações
de recomposição de aprendizagem sejam feitas antes que ela chegue lá na frente
com essas defasagens e não consiga se alfabetizar. Então tem um conjunto de
ações que os estados podem fazer para apoiar os municípios nesse sentido”,
afirma.
Segundo
o Todos Pela Educação, um dos fatores que podem ajudar a explicar a posição da
Bahia no ranking é o atraso na legislação voltada para uma política de
colaboração na educação, que causa “dificuldades em alinhar e coordenar
esforços para melhoria dos resultados no território”.
Questionada
sobre as ações do Governo do Estado para instituir esse regime de colaboração
entre os níveis de governo, a Secretaria de Educação afirmou que há ações para
auxiliar os municípios. Uma delas é o Programa Bahia Alfabetizada, que foi
estabelecido através da Lei nº 25.668/2025, sancionada em agosto deste ano.
“A bem
da verdade, a gente vem implementando desde 2023 ações específicas de apoio aos
municípios no que tange à alfabetização das crianças na idade certa. Então,
desde 2023 a gente vem constituindo a Renalfa [Rede Nacional de Articulação de
Gestão, Formação e Mobilização], entregando material didático específico para
os municípios. As ações já vinham sendo desenvolvidas, mas a gente sanciona a
lei que não só abrange o compromisso com a criança alfabetizada, mas também com
o eixo Paulo Freire para as pessoas acima de 15 anos”, explica Helaine Souza,
Superintendente de Políticas para a Educação Básica do estado.
Ainda
de acordo com ela, o programa prevê apoio aos municípios em diversos eixos:
formação de professores e das equipes de gestão em secretarias municipais de
educação; acompanhamento técnico; auxílio com material didático e com as
avaliações; e construções de creches e unidades escolares através de convênios.
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A outra ponta
Se os
números da Bahia pioraram de 2023 para 2024, a situação é oposta no Ceará. O
estado, que manteve em 2024 a melhor taxa de alfabetização do país (com 85,3%
das crianças alfabetizadas, de acordo com o levantamento mais recente) e supera
tanto a meta estadual quanto a meta nacional, tem muito a ensinar à Bahia, diz
Daniela Mendes.
“Apesar
de ser nacional, o Indicador Criança Alfabetizada foi criado num momento em que
os estados estão em pontos de partida diferentes. É importante levar isso em
consideração. Por exemplo, o Estado do Ceará já tinha uma política em regime de
colaboração com os municípios há muito tempo. E políticas públicas, para
começar a gerar resultado, precisam de tempo, de continuidade. Os estados com
bons resultados trazem um contexto em que o Estado apoia os municípios em
políticas que já têm uma trajetória um pouco mais longas”, afirma.
O
indicador foi criado em 2023 e reúne resultados de provas realizadas com alunos
do 2º ano do ensino fundamental pelos governos estaduais e pelos municípios. Os
dados podem ser comparados à avaliação federal tradicional, o Sistema de
Avaliação da Educação Básica (Saeb), que ocorre a cada dois anos.
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Aprender com estímulo
A
coordenadora de políticas educacionais do Todos Pela Educação reforça que, por
mais que a educação infantil não seja uma etapa em que seja esperado que haja
alfabetização - conforme a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) -, é um
momento essencial para que a criança possa construir os elementos necessários
para uma alfabetização mais adequada nos anos seguintes.
"O
contato com livros desde cedo, a prática da oralidade, tem uma uma série de
questões pedagógicas que já podem ser e devem ser feitas na educação infantil
para que a criança entre no ensino fundamental mais preparada para esse
processo de alfabetização. A educação infantil é a construção de uma base para
essa alfabetização e precisa ser cuidada pelos governos, tanto dos estados
quanto dos municípios", defende.
Segundo
ela, é necessário ter em mente a realidade dessas crianças no processo de
alfabetização e trazer um olhar individualizado para o ensino. "Entendendo
a criança como é, um sujeito ativo que tem a sua própria realidade e que
precisa ser acompanhado em seus diferentes ritmos. Respeitando o seu ritmo, mas
também mantendo expectativas de aprendizagem sobre elas, para que nenhuma
criança fique para trás."
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Veja os percentuais de crianças não alfabetizadas em cada estado:
1. Bahia: 64,04%
2. Sergipe: 61,61%
3. Rio Grande do Norte: 60,71%
4. Rio Grande do Sul: 55,24%
5. Amapá: 53,38%
6. Pará: 51,80%
7. Alagoas: 51,36%
8. Amazonas: 50,83%
9. Tocantins: 49,93%
10. Acre: 48,62%
11. Rio de Janeiro: 44,74%
12. Mato Grosso do Sul: 44,13%
13. Paraíba: 44,04%
14. São Paulo: 41,86%
15. Distrito Federal: 40,87%
16. Maranhão: 40,35%
17. Piauí: 40,17%
18. Minas Gerais: 27,92%
19. Paraná: 29,58%
20. Goiás: 27,26%
21. Mato Grosso: 39,41%
22. Pernambuco: 39,21%
23. Santa Catarina: 37,98%
24. Rondônia: 37,37%
25. Espírito Santo: 28,30%
26. Ceará: 14,69%
*Roraima
não realizou o teste em 2024
• Entenda por que a Bahia está entre os
piores estados em abandono escolar do Brasil
A Bahia
é o segundo estado com maior índice de abandono escolar no Ensino Médio no
Brasil. A informação foi divulgada no Anuário Brasileiro da Educação Básica,
elaborado pelo Todos Pela Educação a partir de microdados do Censo Escolar da
Educação Básica, do Ministério da Educação (MEC). O relatório aponta que 5,8%
dos estudantes baianos do nível médio abandonaram os estudos em 2024. A taxa de
abandono, empatada com a da Paraíba, fica atrás apenas do Rio Grande do Norte e
é também superior à média nacional, que é 3,2%.
Para
Manoela Miranda, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, essa
alta taxa de abandono pode estar relacionada a fatores como a transição do
ensino fundamental para o ensino médio, que para muitos jovens vem acompanhada
da necessidade de começar a trabalhar. Outro motivo mencionado pela
especialista é a distorção idade-série na Bahia, ou seja, o número de alunos do
Ensino Médio com dois ou mais anos de atraso na trajetória escolar. Neste
campo, o estado ocupa o quarto lugar no país, com 27,1% de estudantes atrasados
– nove pontos percentuais acima da média nacional. Aqui, apenas 56,8% dos
jovens de 19 anos já finalizaram o ensino médio, o pior número do Nordeste e
terceiro pior do Brasil, atrás apenas do Amapá (52,4%) e do Acre (55%). “Esse
atraso, essas dificuldades na aprendizagem e essas constantes reprovações são
também, muitas vezes, associadas ao abandono escolar. Portanto, é muito
importante ter um diagnóstico aprofundado, entender as particularidades desses
estudantes e se é possível recuperá-los. Mas, principalmente investir na
recomposição da aprendizagem, para que esses estudantes possam continuar sua
trajetória escolar sem maiores interrupções e evitar que essa distorção da
idade acabe em novos abandonos na Bahia”, pontua.
Sandra
(nome fictício), coordenadora de um colégio estadual em Salvador, aponta ainda
outros motivos que percebe no dia-a-dia, sobretudo lecionando à noite. “Todas
as escolas do noturno estão com problema de baixa frequência, porque os alunos
têm problemas com as questões de facção. Eles ficam com dificuldade de se
deslocar até a escola, que, às vezes, é de uma rua para outra. Alguns estão
cansados, desestimulados e têm outras propostas
de
trabalho”, diz.
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Melhora com ressalvas
Em
relação aos dados de 2013, os números da educação baiana em 2023 apresentaram
melhora em quase todas as categorias consideradas pelo anuário. Ainda assim, a
Bahia figura entre as piores colocações na maioria dessas categorias, o que
demanda atenção nos próximos anos, de acordo com Manoela Miranda.
“Os
dados de aprendizagem, por exemplo, de 2023, mostram que como país nós não
voltamos aos níveis de aprendizagem pré-pandêmicos. Na Bahia, um destaque que
merece atenção é que os jovens concluem o ensino médio com níveis de
aprendizagem ainda muito baixos. Apesar de algum avanço em língua portuguesa na
última década, hoje, apenas 22,2% dos estudantes que concluem o Ensino Médio
têm aprendizagem adequada em língua portuguesa. Mais preocupante é o dado de
matemática: apenas 2,5% dos estudantes concluem o ensino médio na Bahia com
aprendizagem adequada em matemática”, diz.
As
informações mencionadas pela gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela
Educação dizem respeito à quantidade de estudantes de escola pública com
aprendizagem adequada da Bahia. Em relação ao que é aprendido por aqueles que
estudaram em colégios privados, a discrepância chama atenção: enquanto 2,2% de
alunos do ensino público aprendem adequadamente língua portuguesa e matemática,
a porcentagem em colégios particulares é 26%.
De
acordo com Miranda, a melhoria exige um conjunto de medidas, que passa pela formação inicial e
continuada dos professores, investimento em políticas de recomposição de
aprendizagem e políticas desde a base, ainda no ensino fundamental e na
alfabetização. “[Também] na garantia da trajetória escolar regular dos
estudantes, com uma especial atenção para redução das desigualdades regionais,
socioeconômicas e raciais, e um olhar muito atento para esses estudantes que
hoje estão em distorção idade-série, para garantir que possam não só continuar
na escola, como concluir os ensinos fundamental e médio com aprendizagem
continuada”, enumera.
Na
mesma linha, Sandra, que convive de perto com essa diferença, acredita que é
preciso que medidas venham de cima para incentivar os jovens de escolas
públicas a permanecerem nos estudos. “No dia que a gente tiver uma elite que
pensa que a educação é o caminho, aí sim as coisas mudam”, defende a
coordenadora da escola estadual.
Fonte:
Correio 24 horas

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