Viagem
para a Disney e 'consultoria informal': como Vorcaro conseguiu se infiltrar no
Banco Central, segundo a PF
A nova
fase da operação Compliance Zero, deflagrada nesta quarta-feira (4/3), teve
como alvos, além do banqueiro Daniel Vorcaro e seu cunhado, o empresário
Fabiano Zettel — que foram presos —, dois servidores de carreira do Banco
Central (BC).
Paulo
Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do BC, e Belline Santana,
ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, foram impedidos de seguirem em
suas funções e deverão utilizar tornozeleira eletrônica, segundo determinação
do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator da
inquérito que apura a fraude no Master.
De
acordo com as investigações, Santana e Souza prestavam uma espécie de
consultoria para Vorcaro, fornecendo informações estratégicas de dentro do BC e
orientando sobre decisões do Master. Na decisão, Mendonça aponta Belline como
um "empregado" de Vorcaro.
Os
servidores tinham um grupo de mensagens com o banqueiro, no qual compartilhavam
documentos, informações e "solicitações de apoio relacionadas a processos
de interesse do Banco Master". Em troca, ambos recebiam pagamentos
indevidos.
As
investigações apontam ainda que Vorcaro chegou a contratar os serviços de um
"guia" para Paulo Sérgio Souza, ao saber que ele faria uma viagem aos
parques de diversões da Disney e Universal, em Orlando, nos Estados Unidos.
Procurada
pela BBC News Brasil, a defesa de Vorcaro negou as alegações atribuídas ao
banqueiro. E afirmou que o empresário "sempre esteve à disposição das
autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o
início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da
Justiça."
A BBC
News Brasil tentou localizar as defesas dos servidores do BC investigados pela
PF, mas não conseguiu contato.
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As acusações contra os servidores do BC
Souza e
Santana são servidores de carreira do BC. Entraram praticamente juntos, em
1998, como auditores, por meio de concurso.
Formado
em Economia pela Universidade São Judas Tadeu, Belline Santana é também
vice-presidente da Asociación de Supervisores Bancarios de las Américas A.C.
(ASBA), entidade da qual Souza já foi presidente.
Nos
bastidores, Santana chegou a ser descrito como alguém muito respeitado e,
talvez, o funcionário do BC com maior experiência em supervisão bancária.
Souza
se tornou diretor do BC em 2017, na gestão do ex-presidente Roberto Campos
Neto. Formou-se em Ciências Econômicas pela Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo e passou pelo Banco do Brasil antes de chegar ao BC.
"Caso
tenha a hora da aprovação do meu nome pelo Senado", ele disse, ao ser
indicado para assumir a diretoria de Fiscalização do BC, "gostaria de ter
ampliada a oportunidade de retribuir àquela instituição pública o muito que lhe
devo, e o farei com redobrada dedicação."
No fim
de janeiro, o BC abriu uma investigação interna sobre o Master. Em meio à
sindicância, que ocorre em caráter sigiloso, os dois servidores foram afastados
dos seus cargos.
O BC
afirmou em nota que "identificou indícios de percepção de vantagens
indevidas por dois servidores de seu quadro permanente de pessoal, durante
revisão interna dos processos de fiscalização e liquidação do Banco
Master".
"De
imediato, o Banco Central afastou cautelarmente os referidos servidores do
exercício de seus cargos e do acesso às dependências da instituição e a seus
sistemas, instaurou procedimentos correcionais para apuração dos fatos e
comunicou os indícios de prática de crimes à Polícia Federal."
Apesar
de afastados dos seus cargos, eles ainda são funcionários da instituição. Em
janeiro, data da última atualização no Portal da Transparência, Santana recebeu
R$ 45.947,05 de remuneração bruta, valor que quase atinge o teto do
funcionalismo público federal, de R$ 46.366,19. Já Souza recebeu no mesmo mês
R$ 38.929,20.
Economistas
e especialistas com quem a BBC News Brasil conversou, alguns em caráter
reservado, concordam que ainda é cedo para dizer que a implicação dos
servidores na operação Compliance Zero carrega o BC para a crise.
Por
ora, tratam-se de casos isolados, mas com capacidade para deixar a instituição
mais frágil.
"É
um ponto pequeno, dentro dos 61 anos de bons serviços [do BC]", afirma
Roberto Luis Troster, sócio da consultoria Troster & Associados, que atuou
como economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e da
Associação Brasileira de Bancos (ABBC). "Não justifica que a imagem fique
manchada por isso."
Mas ele
defende que uma resposta deve ser dada com agilidade. "O BC deveria chamar
uma investigação externa para mostrar que é um problema localizado no
sistema", afirma Troster.
Por
outro lado, uma fonte afirmou que, ao realizar sindicância interna para apurar
eventuais desvios de conduta, a instituição mostra que não estaria fazendo
vista grossa.
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'Belline cobrando. Paga?'
Na
decisão que deu origem à operação, Mendonça afirmou que Souza "prestava
consultoria informal e contínua" a Vorcaro, "fornecendo orientações
estratégicas sobre a atuação do Banco Central em processos administrativos
envolvendo o Banco Master, inclusive sugerindo abordagens e argumentos a serem
utilizados em reuniões com dirigentes da autarquia reguladora".
"Em
diversas ocasiões", escreveu o ministro, Souza encaminhou a Vorcaro
"recomendações específicas acerca de temas que poderiam ser levantados por
autoridades do Banco Central em reuniões institucionais, orientando previamente
as respostas e estratégias a serem adotadas".
A
investigação aponta que Souza até mesmo revisava documentos e comunicações
institucionais elaboradas pelo Banco Master e destinadas ao próprio BC. E que o
servidor sugeria alterações e ajustes antes da formalização dos documentos
perante ao BC.
"Tal
atuação incluía análise de ofícios, relatórios e manifestações técnicas que
seriam submetidos ao órgão regulador, atividade incompatível com as atribuições
de fiscalização exercidas pelo próprio servidor público", pontuou
Mendonça.
Ainda
segundo as investigações, Souza chegou a alertar Vorcaro sobre movimentações
financeiras que haviam sido identificadas pelos sistemas de monitoramento do
BC, "permitindo que fossem adotadas medidas para mitigar questionamentos
regulatórios".
Santana
é descrito de maneira parecida na decisão do ministro Mendonça, que afirmou que
o servidor prestava "consultoria estratégica a Vorcaro". Segundo a
investigação, ele fornecia orientações, discutia temas relacionados à situação
regulatória do Master, revisava documentos e discutia temas estratégicos,
inclusive fora das dependências do BC.
"Em
diversas ocasiões, o investigado solicitava contato telefônico para tratar de
assuntos sensíveis, indicando a intenção de evitar o registro escrito das
comunicações", disse Mendonça.
O
servidor teria recebido proposta de contratação por meio de uma empresa, no
nome de um terceiro, que seria responsável pelo repasse de "pagamentos
relacionados aos serviços informais prestados ao controlador do Banco
Master".
"Pelos
serviços prestados à estrutura criminosa, Belline recebia uma
remuneração", mas o documento não aponta o valor.
Em
mensagem de WhatsApp identificada na investigação, enviada por Fabiano Zettel,
cunhado de Vorcaro e também preso nesta segunda-feira, ele pergunta para o dono
do Master: "Hoje tem que pagar a primeira do Belline, ok?". Em
seguida, Vorcaro responde: "Ok".
Em
outro momento, Zettel envia outra mensagem a Vorcaro: "Belline cobrando.
Paga?". E Vorcaro responde: "Claro".
Em sua
decisão, Mendonça suspendeu o exercício das funções dos dois servidores que já
estavam afastados, proibiu que eles deixem a cidade onde vivem, acessem as
dependências do BC e mantenham contato com os demais investigados, e que eles
entreguem seus passaportes e usem tornozeleira eletrônica.
• Em mensagens, Vorcaro celebra emenda do
senador Ciro Nogueira que favorecia o Banco Master
Em uma
troca de mensagens entre o Daniel Vorcaro e a companheira Martha Graeff, o
banqueiro celebrou uma emenda apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) à
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Autonomia Financeira do Banco
Central.
“Ciro
soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica mercado financeiro!
Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Esta todo mundo louco” -
disse Vorcaro.
O
diálogo consta em mensagens reunidas em documentos que estão sendo analisados
pela CPMI do INSS.
A
emenda, sem relação com o conteúdo central, chamado de 'jabuti', foi
apresentada em 13 de agosto de 2024, mesmo dia em que a troca de mensagens
ocorre.
Chama a
atenção a rapidez com que Vorcaro soube da ação de Nogueira, dado que o
documento da emenda foi criado às 17h57 e modificado pela última vez às 18h09.
A mensagem de Vorcaro para a namorada foi enviada pouco mais de uma hora
depois, às 19h44.
Três
meses antes, em outra troca de mensagens, Vorcaro demonstra proximidade com o
senador.
"Ciro
nogueira. É um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus
grandes amigos de vida", explicou Vorcaro à esposa.
O texto
de Nogueira previa aumentar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de
Crédito (FGC) dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
O Banco
Master entrou no radar das autoridades porque utilizava um modelo agressivo de
captação de recursos baseado na emissão de CDBs com garantia do FGC. Dessa
forma, a emenda de Nogueira ofereceria maior proteção à operação do Master.
A
proposta, que ficou conhecida como emenda Master, não avançou, bem como a PEC,
que até hoje não foi aprovada. O texto segue parado no Senado.
Em
nota, a equipe do senador Ciro Nogueira afirmou que ele mantém diálogos por
mensagens com centenas de pessoas, "o que não o torna próximo apenas por,
eventualmente, interagir com elas".
"Ciro
Nogueira volta a destacar que está tranquilo quanto às investigações da Polícia
Federal nas denúncias que envolvem o empresário, uma vez que não mantém nem
nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em
apuração", informou a assessoria de imprensa do senador.
• Crise cria 'tempestade perfeita' e abre
caminho para delação de Vorcaro com aval de Mendonça, PF e sem a PGR
Nos
bastidores da investigação que levou o banqueiro Daniel Vorcaro de volta à
cadeia, um entendimento começa a se consolidar entre interlocutores do caso. A
crise do Banco Master já não é vista apenas como um problema de um grupo ou de
outro. Para quem acompanha de perto as apurações, trata-se de uma crise que
expõe o próprio sistema.
Sem o
apoio da Procuradoria-Geral da República (PGR) às medidas mais duras da
operação, o recado institucional que emerge no dia seguinte é diferente — e
ajuda a explicar os movimentos que já começaram fora dos autos.
A
discussão sobre uma eventual delação premiada de Vorcaro ainda é considerada
precoce. Mas, entre aliados e advogados, a leitura já é clara: com o ministro
Dias Toffoli, a única saída possível para o banqueiro seria pela política. Já
com o ministro André Mendonça, que autorizou a operação atendendo a pedidos da
Polícia Federal (PF) a saída passaria por outro caminho — e dependeria do
próprio investigado.
Ou
seja: qualquer saída jurídica para Vorcaro teria de ser construída pelo próprio
Vorcaro. Na prática, isso recoloca a delação premiada no radar.
Essa
avaliação ganhou força nas últimas horas por dois sinais observados nos
bastidores.
O
primeiro é a movimentação em torno da defesa. Já há conversas sobre quem
assumiria o caso, e alguns advogados procurados disseram que não aceitariam
conduzir uma estratégia baseada em delação premiada. Esse tipo de recusa, neste
momento, costuma ser visto por investigadores como um indicativo relevante
sobre qual linha de defesa está sendo considerada.
O
segundo ponto envolve justamente a ausência de apoio da PGR às medidas pedidas
pela Polícia Federal. Na decisão que autorizou a operação, Mendonça registrou
que considerou lamentável o fato de a Procuradoria não ter apontado urgência
para as medidas solicitadas pelos investigadores.
Nos
bastidores da investigação, o episódio não é tratado como um fato isolado.
Integrantes do caso lembram que a PGR, sob comando de Paulo Gonet, já tomou
outras decisões que foram interpretadas como sinais importantes dentro desse
contexto.
Entre
elas, o entendimento de que não havia irregularidade no contrato da mulher do
ministro Alexandre de Moraes com o Master — um acordo de cerca de R$ 530
milhões — e a avaliação de que Dias Toffoli não era suspeito para seguir na
relatoria do caso.
Quando
essas peças são colocadas lado a lado, dizem interlocutores da investigação, o
quadro começa a ficar mais claro.
A
pergunta central passa a ser outra: se houver negociação de colaboração
premiada, quem conduziria esse processo?
A
resposta está na própria investigação. A Polícia Federal poderia assumir esse
papel — possibilidade que já conta com respaldo em decisões do Supremo Tribunal
Federal. O ponto sensível sempre foi quem daria a chancela jurídica final, já
que a homologação precisa ser feita pela Justiça.
Com
Toffoli na relatoria, investigadores avaliavam que seria difícil haver esse
aval.
Com
Mendonça, dizem fontes da investigação, esse caminho passa a ser visto como
mais viável. O entendimento que circula entre investigadores, juristas e também
no entorno de Vorcaro é de que o ministro tem sinalizado apoio à condução da
investigação pela Polícia Federal.
Na
prática, a mensagem interpretada por quem acompanha o caso é direta: se houver
colaboração, ela dependerá menos de articulações políticas e mais da disposição
do próprio Vorcaro em negociar com os investigadores.
E, se
decidir falar, dizem investigadores, ele terá de entregar algo além do que já
está nas mãos da polícia.
Segundo
integrantes da apuração, a Polícia Federal já reuniu um volume significativo de
material na investigação. O desafio, em uma eventual delação, seria justamente
apresentar informações novas capazes de abrir outros desdobramentos envolvendo
políticos, autoridades e personagens que ainda não apareceram formalmente no
caso.
Fonte:
BBC News Brasil/g1

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