sábado, 7 de março de 2026

Big techs se escondem atrás de outras empresas para operar data centers no Brasil

O que têm em comum uma empresa de energia eólica, uma consultoria para sociedades anônimas de futebol e uma gestora de projetos de tecnologia cuja sede fica em um consultório odontológico? Todas estão diretamente envolvidas na construção de data centers de grande porte no Brasil – embora tenham pouca ou nenhuma experiência no ramo.

Na prática, elas atuam para esconder a participação e interesse das big techs nos empreendimentos, em especial na fase inicial dos projetos. É o que está ocorrendo, por exemplo, nas cidades de Caucaia, no Ceará; Limeira, no interior de São Paulo; Maringá, no Paraná; e Uberlândia, em Minas Gerais.

O negócio se dá assim: empresas frequentemente sem histórico algum no ramo de data centers assumem o processo burocrático ligado à instalação desse tipo de infraestrutura, o que inclui desde pedidos de conexão de energia até o licenciamento ambiental. Quando todo o processo é concluído, alguma big tech entra em cena e assume o projeto, seja adquirindo ações ou alugando o espaço.

A estratégia não é acidental: faz parte do modus operandi de como se dá o desenvolvimento destas megainfraestruturas ao redor do mundo. À medida que a resistência contra data centers se fortalece devido ao significativo impacto socioambiental por trás desses empreendimentos, que consomem muita água e energia, as grandes empresas de tecnologia tentam minimizar os danos às suas reputações causados por esses projetos – e contam com a conivência do poder público para ocultar informações-chave.

No fim das contas, o ônus recai sobre as comunidades no entorno, que frequentemente só ficam sabendo sobre o data center e sobre o verdadeiro “cliente” quando o processo já se encontra em fase avançada.

“O que estamos vendo no Brasil não é uma exceção – é o manual de data centers. Poderosas empresas de tecnologia rotineiramente se protegem atrás de intermediários, NDAs [acordos de confidencialidade] e desenvolvedores de fachada para evitar o escrutínio público e, ao mesmo tempo, garantir mudanças de zoneamento, incentivos fiscais e aprovações de infraestrutura”, disse ao Intercept Brasil Myaisha Hayes, diretora sênior de mobilização da MediaJustice, uma organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos que atua pela justiça econômica, racial e de gênero na era digital.

Nos Estados Unidos, moradores do Arizona passaram a se opor a um grande projeto de data center pelo seu potencial uso hídrico em uma região desértica, desenvolvido por uma empresa de infraestrutura que avançava sob o codinome “Project Blue”. Foi um veículo investigativo local, o Arizona Luminaria, que descobriu e revelou que o cliente por trás do empreendimento era a Amazon Web Services.

O grupo de moradores agora está processando o condado de Pima por ter falhado em detalhar quão avançadas estavam as negociações quando houve uma votação para mudança no zoneamento da cidade.

“Essa estratégia [de se proteger atrás de intermediários] visa avançar projetos para além do ponto de participação pública antes mesmo que os moradores saibam com quem estão negociando. O resultado é um fracasso democrático: às comunidades são negadas as informações de que precisam para avaliar o impacto ambiental, o uso de energia, o acesso à água e as contrapartidas econômicas de longo-prazo”, acrescentou Hayes.

No Brasil, já há registro de pelo menos quatro processos que seguiram esse manual. Um deles é o data center do TikTok, em Caucaia, no Ceará. A empresa responsável pelo desenvolvimento do projeto, desde o acesso à eletricidade até o licenciamento ambiental, foi a Casa dos Ventos, uma das maiores empresas de energia renovável do Brasil – mas que não tinha até então nenhuma experiência no ramo de data centers.

Até setembro de 2024, a Casa dos Ventos era uma empresa de sociedade limitada cuja atividade econômica restringia-se a empreendimentos eólicos. Naquele mês, converteu uma de suas dezenas de subsidiárias, chamada Ventos de Santa Ester Energias Renováveis, em sociedade anônima e alterou seu objeto social para empresa de tratamento de dados. Em dezembro, deu entrada no processo da licença prévia do data center de Caucaia junto à Superintendência do Meio Ambiente do Ceará, a Semace.

Em menos de três meses, a empresa deixou de ser apenas uma eólica, adentrou o segmento de data centers e abocanhou um contrato para construir um data center avaliado em R$ 200 bilhões,o primeiro do TikTok no Brasil.

O nome do TikTok, ligado à chinesa ByteDance, só veio à tona quando o Intercept revelou, em abril de 2025, que a empresa estava por trás do projeto. Apenas oito meses depois, em dezembro, o TikTok confirmou publicamente seu envolvimento. A Casa dos Ventos atualmente já não têm mais ligação com o projeto. Isso porque, em dezembro, a Omnia, braço de data centers do fundo de investimentos Pátria, comprou a participação da eólica no data center de Caucaia.

<><> Empresa que atua com futebol pressionou para mudar zoneamento

Um outro caso emblemático ocorreu em Limeira, cidade do interior de São Paulo. Em abril de 2024, a SAF Play, uma empresa cuja atividade principal é a gestão de negócios esportivos, enviou ofícios para a prefeitura detalhando que, junto a uma empresa parceira chamada CBRE, estava interessada em viabilizar a instalação de uma multinacional no município que tem como uma de suas atividades econômicas a de data center.

O ofício também solicitava que fosse feita uma mudança no Plano Diretor da cidade para transformar uma área rural em área urbana. O objetivo informado por representantes da empresa, segundo os documentos obtidos pelo Intercept, era o de viabilizar a aquisição do terreno pela multinacional, já que há uma lei federal no Brasil que impõe entraves burocráticos a empresas estrangeiras que buscam adquirir áreas rurais.

Em menos de quatro meses, a SAF Play e a CBRE não só conseguiram o aval da prefeitura como contaram com sua ajuda para defender a urgência do projeto e aprovar a mudança no Plano Diretor no Conselho Municipal de Planejamento e Gestão Territorial Ambiental de Limeira, o Complan.

Conforme mostra a ata da reunião do Complan, na qual dois representantes da SAF Play apresentaram o projeto, secretários municipais recomendaram aos conselheiros para se manifestarem “bastante favoráveis” a esse tipo de iniciativa.

Foi também durante essa reunião que representantes da SAF Play disseram aos conselheiros que não havia “com o que se preocupar” quanto ao aspecto ambiental, “pois se trata de uma empresa multinacional, que respeita todos os princípios de compliance, ESG, ou seja, tudo que é necessário na questão ambiental”.

Na Câmara Municipal, a mudança foi inicialmente rejeitada. Vereadores que votaram contra a proposta apontaram a falta de transparência em torno do nome da empresa e dos impactos socioambientais do projeto, além de destacarem que seria uma mudança legal que privilegiaria empresas estrangeiras.  Três semanas depois, a mudança foi novamente colocada em votação e acabou aprovada por unanimidade.

Uma fonte que trabalha na Câmara Municipal e pediu para não ser identificada, por temer represálias, relatou ao Intercept que, entre as votações, os vereadores sofreram “grande pressão” de um funcionário da CBRE. Segundo ela, o funcionário ligou diversas vezes para os vereadores, inclusive para o presidente da Câmara, e fez um encontro com os vereadores durante o recesso legislativo para convencê-los a aprovar o projeto – ainda que tenha se negado a dar qualquer informação sobre a empresa por trás do data center.

No início de agosto de 2024, a lei foi sancionada pelo então prefeito, Mário Celso Botion, do PSD. Foi só em outubro, às vésperas das eleições municipais, que foi anunciado pelo prefeito que a empresa por trás do data center era a Microsoft. Até então, o nome da big tech não havia aparecido, nem mesmo nos processos aos quais tivemos acesso.

O data center da Microsoft em Limeira nunca foi construído. A prefeitura alega que as tratativas foram encerradas em outubro de 2024. Durante um programa de televisão após o fim de seu mandato, o ex-prefeito Botion foi questionado se teria inventado sobre a negociação com a empresa. Ele apresentou, então, o que disse ser um termo de confidencialidade que teria sido assinado em julho daquele ano, entre a prefeitura e a Microsoft, representada, segundo ele, pela então gerente geral da empresa no Brasil, Tania Cosentino.

Em setembro de 2024, a Microsoft havia anunciado um investimento de R$ 14,7 bilhões para expandir a infraestrutura de nuvem e IA em data centers no estado de São Paulo. Mais recentemente, em fevereiro de 2026, a empresa anunciou a inauguração de dois data centers no estado de São Paulo, mas não detalhou as localizações por “motivos de segurança”. No site da Microsoft, há informações sobre data centers em Hortolândia e Sumaré, mas não é especificado se esses são os dois que foram inaugurados.

O Intercept enviou uma série de perguntas à assessoria de imprensa da Microsoft no Brasil. A empresa disse que preferia não se posicionar sobre o projeto do data center de Limeira e também ignorou os questionamentos sobre os empreendimentos em Hortolândia e Sumaré.

A SAF Play disse, em resposta aos nossos questionamentos, que atua também na captação, regularização e comercialização de áreas para fins empresariais e que foi chamada para as negociações pela CBRE “devido à nossa proximidade e conhecimento da região de Campinas e Piracicaba”. A empresa disse ainda que teve conhecimento do envolvimento da Microsoft apenas após assinatura de “instrumentos contratuais autorizando os estudos das áreas” e que os contratos possuíam cláusulas de exclusividade e confidencialidade, “algo comum para esses negócios”.

A prefeitura de Limeira esclareceu que toda a negociação com as empresas se deu na gestão anterior, do ex-prefeito Mário Botion. O município disse ainda que abriu sindicâncias para apurar os fatos relacionados a essas tratativas. Uma delas, inclusive, está apurando os motivos pelos quais o termo de confidencialidade apresentado por Botion em uma entrevista, assinado pela Microsoft, está apenas em posse dele e não se encontra em nenhum processo administrativo oficial.

“Não há qualquer documento na prefeitura de Limeira que mencione a empresa Microsoft, motivo pelo qual a referida sindicância foi instaurada para apurar por qual motivo o ex-prefeito propôs a alteração no Plano Diretor, alterando o zoneamento de uma área rural distante da área urbana e das melhorias, nem por qual motivo este divulgou, de forma ampla, em período eleitoral, nas mídias, que a empresa Microsoft se instalaria no município como uma suposta conquista da gestão”, disse a atual administração municipal.

<><> Empresa com pouca experiência no ramo anuncia investimento bilionário em MG e PR

A estratégia das big techs de esconder seu interesse enquanto uma empresa intermediária inicia o projeto também se dá por meio do aluguel de estruturas sob sigilo. Dois exemplos disso ocorrem em Uberlândia, cidade do Triângulo Mineiro, e Maringá, no Paraná.

Em ambos os casos, quem assina a empreitada oficialmente é a empresa RT-One, que se apresenta como uma multinacional de tecnologia com presença estratégica nos Estados Unidos, México e Suíça. Em seu site, a RT-One diz que desenvolve “soluções de IA personalizadas” para atender “empresas que querem liderar a nova economia digital, com alta performance, segurança e escalabilidade”.

Isso significa que a empresa desenvolve a infraestrutura e constrói o data center para depois alugá-lo para um ou mais clientes. No ramo, essa modalidade é conhecida como “co-location”.

Segundo uma entrevista do CEO da empresa, Fernando Palamone, ao site Teletime, quase 70% da capacidade computacional do data center de Uberlândia já foi contratada – embora ele não revele quem é o cliente. Em seu site, a empresa lista como parceiros grandes nomes da tecnologia e da indústria de IA como Google, Oracle e a fabricante de chips Nvidia.

Mas não há nenhum data center em operação no mundo cujo nome esteja publicamente associado à RT-One. No Brasil, tanto o data center de Uberlândia quanto o de Maringá têm CNPJs específicos, abertos entre agosto e setembro de 2025. A empresa do data center de Maringá está registrada na Junta Comercial de São Paulo, com endereço na zona oeste da cidade, e capital de R$ 12 milhões.

Mas há ainda uma outra empresa da qual Palamone é sócio: a Core-One. A empresa foi criada para “gerenciar projetos de data centers no Brasil”, segundo um post no Linkedin sobre um evento no qual Palamone participou. O endereço da empresa registrado junto à Receita Federal é o mesmo de um consultório odontológico na zona oeste de São Paulo. O CNPJ foi aberto em dezembro de 2024, antes dos data centers, e o capital social declarado foi de R$ 450 mil.

Esses fatos chamaram a atenção de Amanda Gondim, vereadora pelo PSB em Uberlândia, que apontou inconsistências entre o porte da empresa e o porte do empreendimento anunciado.

“Como uma empresa de pequeno porte que nunca atuou nesse setor vai ter R$ 6 bilhões para investir em um data center do tipo mais raro e complexo que existe no mundo, que é um data center de inteligência artificial?”, disse Gondim, durante uma fala na Câmara Municipal

Em setembro do ano passado, a vereadora enviou um ofício à prefeitura solicitando esclarecimentos acerca da parceria com a RT-One. Em resposta, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação afirmou que o projeto será submetido, em momento oportuno, aos “respectivos órgãos de controle e fiscalização”. O Intercept enviou questões para a prefeitura de Uberlândia, mas a assessoria de imprensa do município não respondeu, enviando apenas o link para um release no site da administração.

Em resposta a questionamentos do Intercept, a RT-One disse que já opera infraestruturas de data center através de parcerias no México, Estados Unidos e Europa. A empresa disse ainda que tanto o data center de Maringá quanto o de Uberlândia serão ocupados por diferentes clientes, cujos nomes não foram revelados. “Em projetos de infraestrutura digital, é comum que contratos sejam protegidos por cláusulas de confidencialidade e assim, por estratégia comercial e contratual, os nomes dos clientes não são divulgados”, disse a empresa, em nota.

A RT-One disse também que as obras do data center de Uberlândia devem começar até o final de março. Por fim, esclareceu que a Core One é uma das marcas do grupo RT-One.

Para Hayes, diretora do MediaJustice, o antídoto à falta de transparência de empresas e autoridades é a pressão pública organizada. “Exigindo leis de transparência com firmeza, rejeitando sigilo em acordos municipais e insistindo que as comunidades tenham um lugar à mesa antes que as decisões sejam tomadas”, disse.

 

Fonte: Por Laís Martins e Isabella Mota, em The Intercept

 

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