Big
techs se escondem atrás de outras empresas para operar data centers no Brasil
O que
têm em comum uma empresa de energia eólica, uma consultoria para sociedades
anônimas de futebol e uma gestora de projetos de tecnologia cuja sede fica em
um consultório odontológico? Todas estão diretamente envolvidas na construção
de data centers de grande porte no Brasil – embora tenham pouca ou nenhuma
experiência no ramo.
Na
prática, elas atuam para esconder a participação e interesse das big techs nos
empreendimentos, em especial na fase inicial dos projetos. É o que está
ocorrendo, por exemplo, nas cidades de Caucaia, no Ceará; Limeira, no interior
de São Paulo; Maringá, no Paraná; e Uberlândia, em Minas Gerais.
O
negócio se dá assim: empresas frequentemente sem histórico algum no ramo de
data centers assumem o processo burocrático ligado à instalação desse tipo de
infraestrutura, o que inclui desde pedidos de conexão de energia até o
licenciamento ambiental. Quando todo o processo é concluído, alguma big tech
entra em cena e assume o projeto, seja adquirindo ações ou alugando o espaço.
A
estratégia não é acidental: faz parte do modus operandi de como se dá o
desenvolvimento destas megainfraestruturas ao redor do mundo. À medida que a
resistência contra data centers se fortalece devido ao significativo impacto
socioambiental por trás desses empreendimentos, que consomem muita água e
energia, as grandes empresas de tecnologia tentam minimizar os danos às suas
reputações causados por esses projetos – e contam com a conivência do poder
público para ocultar informações-chave.
No fim
das contas, o ônus recai sobre as comunidades no entorno, que frequentemente só
ficam sabendo sobre o data center e sobre o verdadeiro “cliente” quando o
processo já se encontra em fase avançada.
“O que
estamos vendo no Brasil não é uma exceção – é o manual de data centers.
Poderosas empresas de tecnologia rotineiramente se protegem atrás de
intermediários, NDAs [acordos de confidencialidade] e desenvolvedores de
fachada para evitar o escrutínio público e, ao mesmo tempo, garantir mudanças
de zoneamento, incentivos fiscais e aprovações de infraestrutura”, disse ao
Intercept Brasil Myaisha Hayes, diretora sênior de mobilização da MediaJustice,
uma organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos que atua pela justiça
econômica, racial e de gênero na era digital.
Nos
Estados Unidos, moradores do Arizona passaram a se opor a um grande projeto de
data center pelo seu potencial uso hídrico em uma região desértica,
desenvolvido por uma empresa de infraestrutura que avançava sob o codinome
“Project Blue”. Foi um veículo investigativo local, o Arizona Luminaria, que
descobriu e revelou que o cliente por trás do empreendimento era a Amazon Web
Services.
O grupo
de moradores agora está processando o condado de Pima por ter falhado em
detalhar quão avançadas estavam as negociações quando houve uma votação para
mudança no zoneamento da cidade.
“Essa
estratégia [de se proteger atrás de intermediários] visa avançar projetos para
além do ponto de participação pública antes mesmo que os moradores saibam com
quem estão negociando. O resultado é um fracasso democrático: às comunidades
são negadas as informações de que precisam para avaliar o impacto ambiental, o
uso de energia, o acesso à água e as contrapartidas econômicas de longo-prazo”,
acrescentou Hayes.
No
Brasil, já há registro de pelo menos quatro processos que seguiram esse manual.
Um deles é o data center do TikTok, em Caucaia, no Ceará. A empresa responsável
pelo desenvolvimento do projeto, desde o acesso à eletricidade até o
licenciamento ambiental, foi a Casa dos Ventos, uma das maiores empresas de
energia renovável do Brasil – mas que não tinha até então nenhuma experiência
no ramo de data centers.
Até
setembro de 2024, a Casa dos Ventos era uma empresa de sociedade limitada cuja
atividade econômica restringia-se a empreendimentos eólicos. Naquele mês,
converteu uma de suas dezenas de subsidiárias, chamada Ventos de Santa Ester
Energias Renováveis, em sociedade anônima e alterou seu objeto social para
empresa de tratamento de dados. Em dezembro, deu entrada no processo da licença
prévia do data center de Caucaia junto à Superintendência do Meio Ambiente do
Ceará, a Semace.
Em
menos de três meses, a empresa deixou de ser apenas uma eólica, adentrou o
segmento de data centers e abocanhou um contrato para construir um data center
avaliado em R$ 200 bilhões,o primeiro do TikTok no Brasil.
O nome
do TikTok, ligado à chinesa ByteDance, só veio à tona quando o Intercept
revelou, em abril de 2025, que a empresa estava por trás do projeto. Apenas
oito meses depois, em dezembro, o TikTok confirmou publicamente seu
envolvimento. A Casa dos Ventos atualmente já não têm mais ligação com o
projeto. Isso porque, em dezembro, a Omnia, braço de data centers do fundo de
investimentos Pátria, comprou a participação da eólica no data center de
Caucaia.
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Empresa que atua com futebol pressionou para mudar zoneamento
Um
outro caso emblemático ocorreu em Limeira, cidade do interior de São Paulo. Em
abril de 2024, a SAF Play, uma empresa cuja atividade principal é a gestão de
negócios esportivos, enviou ofícios para a prefeitura detalhando que, junto a
uma empresa parceira chamada CBRE, estava interessada em viabilizar a
instalação de uma multinacional no município que tem como uma de suas
atividades econômicas a de data center.
O
ofício também solicitava que fosse feita uma mudança no Plano Diretor da cidade
para transformar uma área rural em área urbana. O objetivo informado por
representantes da empresa, segundo os documentos obtidos pelo Intercept, era o
de viabilizar a aquisição do terreno pela multinacional, já que há uma lei
federal no Brasil que impõe entraves burocráticos a empresas estrangeiras que
buscam adquirir áreas rurais.
Em
menos de quatro meses, a SAF Play e a CBRE não só conseguiram o aval da
prefeitura como contaram com sua ajuda para defender a urgência do projeto e
aprovar a mudança no Plano Diretor no Conselho Municipal de Planejamento e
Gestão Territorial Ambiental de Limeira, o Complan.
Conforme
mostra a ata da reunião do Complan, na qual dois representantes da SAF Play
apresentaram o projeto, secretários municipais recomendaram aos conselheiros
para se manifestarem “bastante favoráveis” a esse tipo de iniciativa.
Foi
também durante essa reunião que representantes da SAF Play disseram aos
conselheiros que não havia “com o que se preocupar” quanto ao aspecto
ambiental, “pois se trata de uma empresa multinacional, que respeita todos os
princípios de compliance, ESG, ou seja, tudo que é necessário na questão
ambiental”.
Na
Câmara Municipal, a mudança foi inicialmente rejeitada. Vereadores que votaram
contra a proposta apontaram a falta de transparência em torno do nome da
empresa e dos impactos socioambientais do projeto, além de destacarem que seria
uma mudança legal que privilegiaria empresas estrangeiras. Três semanas depois, a mudança foi novamente
colocada em votação e acabou aprovada por unanimidade.
Uma
fonte que trabalha na Câmara Municipal e pediu para não ser identificada, por
temer represálias, relatou ao Intercept que, entre as votações, os vereadores
sofreram “grande pressão” de um funcionário da CBRE. Segundo ela, o funcionário
ligou diversas vezes para os vereadores, inclusive para o presidente da Câmara,
e fez um encontro com os vereadores durante o recesso legislativo para
convencê-los a aprovar o projeto – ainda que tenha se negado a dar qualquer
informação sobre a empresa por trás do data center.
No
início de agosto de 2024, a lei foi sancionada pelo então prefeito, Mário Celso
Botion, do PSD. Foi só em outubro, às vésperas das eleições municipais, que foi
anunciado pelo prefeito que a empresa por trás do data center era a Microsoft.
Até então, o nome da big tech não havia aparecido, nem mesmo nos processos aos
quais tivemos acesso.
O data
center da Microsoft em Limeira nunca foi construído. A prefeitura alega que as
tratativas foram encerradas em outubro de 2024. Durante um programa de
televisão após o fim de seu mandato, o ex-prefeito Botion foi questionado se
teria inventado sobre a negociação com a empresa. Ele apresentou, então, o que
disse ser um termo de confidencialidade que teria sido assinado em julho
daquele ano, entre a prefeitura e a Microsoft, representada, segundo ele, pela
então gerente geral da empresa no Brasil, Tania Cosentino.
Em
setembro de 2024, a Microsoft havia anunciado um investimento de R$ 14,7
bilhões para expandir a infraestrutura de nuvem e IA em data centers no estado
de São Paulo. Mais recentemente, em fevereiro de 2026, a empresa anunciou a
inauguração de dois data centers no estado de São Paulo, mas não detalhou as
localizações por “motivos de segurança”. No site da Microsoft, há informações
sobre data centers em Hortolândia e Sumaré, mas não é especificado se esses são
os dois que foram inaugurados.
O
Intercept enviou uma série de perguntas à assessoria de imprensa da Microsoft
no Brasil. A empresa disse que preferia não se posicionar sobre o projeto do
data center de Limeira e também ignorou os questionamentos sobre os
empreendimentos em Hortolândia e Sumaré.
A SAF
Play disse, em resposta aos nossos questionamentos, que atua também na
captação, regularização e comercialização de áreas para fins empresariais e que
foi chamada para as negociações pela CBRE “devido à nossa proximidade e
conhecimento da região de Campinas e Piracicaba”. A empresa disse ainda que
teve conhecimento do envolvimento da Microsoft apenas após assinatura de
“instrumentos contratuais autorizando os estudos das áreas” e que os contratos
possuíam cláusulas de exclusividade e confidencialidade, “algo comum para esses
negócios”.
A
prefeitura de Limeira esclareceu que toda a negociação com as empresas se deu
na gestão anterior, do ex-prefeito Mário Botion. O município disse ainda que
abriu sindicâncias para apurar os fatos relacionados a essas tratativas. Uma
delas, inclusive, está apurando os motivos pelos quais o termo de
confidencialidade apresentado por Botion em uma entrevista, assinado pela
Microsoft, está apenas em posse dele e não se encontra em nenhum processo
administrativo oficial.
“Não há
qualquer documento na prefeitura de Limeira que mencione a empresa Microsoft,
motivo pelo qual a referida sindicância foi instaurada para apurar por qual
motivo o ex-prefeito propôs a alteração no Plano Diretor, alterando o
zoneamento de uma área rural distante da área urbana e das melhorias, nem por
qual motivo este divulgou, de forma ampla, em período eleitoral, nas mídias,
que a empresa Microsoft se instalaria no município como uma suposta conquista
da gestão”, disse a atual administração municipal.
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Empresa com pouca experiência no ramo anuncia investimento bilionário em MG e
PR
A
estratégia das big techs de esconder seu interesse enquanto uma empresa
intermediária inicia o projeto também se dá por meio do aluguel de estruturas
sob sigilo. Dois exemplos disso ocorrem em Uberlândia, cidade do Triângulo
Mineiro, e Maringá, no Paraná.
Em
ambos os casos, quem assina a empreitada oficialmente é a empresa RT-One, que
se apresenta como uma multinacional de tecnologia com presença estratégica nos
Estados Unidos, México e Suíça. Em seu site, a RT-One diz que desenvolve
“soluções de IA personalizadas” para atender “empresas que querem liderar a
nova economia digital, com alta performance, segurança e escalabilidade”.
Isso
significa que a empresa desenvolve a infraestrutura e constrói o data center
para depois alugá-lo para um ou mais clientes. No ramo, essa modalidade é
conhecida como “co-location”.
Segundo
uma entrevista do CEO da empresa, Fernando Palamone, ao site Teletime, quase
70% da capacidade computacional do data center de Uberlândia já foi contratada
– embora ele não revele quem é o cliente. Em seu site, a empresa lista como
parceiros grandes nomes da tecnologia e da indústria de IA como Google, Oracle
e a fabricante de chips Nvidia.
Mas não
há nenhum data center em operação no mundo cujo nome esteja publicamente
associado à RT-One. No Brasil, tanto o data center de Uberlândia quanto o de
Maringá têm CNPJs específicos, abertos entre agosto e setembro de 2025. A
empresa do data center de Maringá está registrada na Junta Comercial de São
Paulo, com endereço na zona oeste da cidade, e capital de R$ 12 milhões.
Mas há
ainda uma outra empresa da qual Palamone é sócio: a Core-One. A empresa foi
criada para “gerenciar projetos de data centers no Brasil”, segundo um post no
Linkedin sobre um evento no qual Palamone participou. O endereço da empresa
registrado junto à Receita Federal é o mesmo de um consultório odontológico na
zona oeste de São Paulo. O CNPJ foi aberto em dezembro de 2024, antes dos data
centers, e o capital social declarado foi de R$ 450 mil.
Esses
fatos chamaram a atenção de Amanda Gondim, vereadora pelo PSB em Uberlândia,
que apontou inconsistências entre o porte da empresa e o porte do
empreendimento anunciado.
“Como
uma empresa de pequeno porte que nunca atuou nesse setor vai ter R$ 6 bilhões
para investir em um data center do tipo mais raro e complexo que existe no
mundo, que é um data center de inteligência artificial?”, disse Gondim, durante
uma fala na Câmara Municipal
Em
setembro do ano passado, a vereadora enviou um ofício à prefeitura solicitando
esclarecimentos acerca da parceria com a RT-One. Em resposta, a Secretaria
Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação afirmou que o projeto será
submetido, em momento oportuno, aos “respectivos órgãos de controle e
fiscalização”. O Intercept enviou questões para a prefeitura de Uberlândia, mas
a assessoria de imprensa do município não respondeu, enviando apenas o link
para um release no site da administração.
Em
resposta a questionamentos do Intercept, a RT-One disse que já opera
infraestruturas de data center através de parcerias no México, Estados Unidos e
Europa. A empresa disse ainda que tanto o data center de Maringá quanto o de
Uberlândia serão ocupados por diferentes clientes, cujos nomes não foram
revelados. “Em projetos de infraestrutura digital, é comum que contratos sejam
protegidos por cláusulas de confidencialidade e assim, por estratégia comercial
e contratual, os nomes dos clientes não são divulgados”, disse a empresa, em
nota.
A
RT-One disse também que as obras do data center de Uberlândia devem começar até
o final de março. Por fim, esclareceu que a Core One é uma das marcas do grupo
RT-One.
Para
Hayes, diretora do MediaJustice, o antídoto à falta de transparência de
empresas e autoridades é a pressão pública organizada. “Exigindo leis de
transparência com firmeza, rejeitando sigilo em acordos municipais e insistindo
que as comunidades tenham um lugar à mesa antes que as decisões sejam tomadas”,
disse.
Fonte:
Por Laís Martins e Isabella Mota, em The Intercept

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