Movimento
indígena pede garantia de continuidade na proteção da TI Uru-Eu-Wau-Wau
A
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) manifestam total apoio às
operações de proteção territorial na Terra Indígena (TI) Uru-Eu-Wau-Wau, em
Rondônia. Recentemente, o processo de desintrusão — a retirada de ocupantes não
indígenas do território — sofreu uma interrupção por decisão do ministro Gilmar
Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida determinou a suspensão
integral da desintrusão, incluindo a região de assentamentos do PAD Jaruaru e
da Gleba Novo Destino, o que representa uma grave ameaça à segurança dos povos
que ali residem.
Para os
indígenas, a suspensão das operações é recebida com profunda preocupação.
Bitaté, liderança do povo Uru-Eu-Wau-Wau, descreve a decisão como um “grande
baque” e uma retaliação diante dos discursos políticos que defendem a redução
do território. “Lutamos pelo nosso território desde o tempo do contato para
mantê-lo livre de invasões”, afirma a liderança, ressaltando que a terra abriga
as culturas, os cemitérios e as vidas de seu povo, além de nascentes vitais
para o estado de Rondônia.
Kleber
Karipuna, coordenador executivo da APIB pela Coordenação das Organizações
Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), também comenta a decisão:
“A
suspensão é um retrocesso, pois ocorre justamente quando o país retoma
demarcações, portarias declaratórias e políticas de proteção territorial. Havia
um diálogo em curso, com levantamentos para indenização e reassentamento de
ocupantes de boa-fé, e a decisão interrompe o processo que garantiria o pleno
usufruto do povo Uru-Eu-Wau-Wau e a proteção de povos isolados. Para o
movimento indígena, a medida compromete a segurança nos territórios e contraria
determinação do próprio STF na ADPF 709, que previa a apresentação e execução
de planos de desintrusão, incluindo o da TI Uru-Eu-Wau-Wau”, diz o coordenador.
As
organizações indígenas denunciam que a suspensão da desintrusão atende a
pressões de parlamentares de Rondônia e é impulsionada por campanhas de
desinformação. A Apib e a Coiab afirmam que a continuidade das operações é
indispensável para garantir a vida e a integridade do território.
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Histórico e papel do CNJ
As
ações de fiscalização na TI Uru-Eu-Wau-Wau decorrem de decisão do ministro Luís
Roberto Barroso na ADPF 709, proposta pela Apib em 2020 para proteger povos
indígenas na pandemia. A medida previa a desintrusão, com exceção do PAD
Burareiro, assentamento criado pelo Incra nos anos 1970, apesar de a área já
estar identificada como território indígena — o que gerou conflito marcado por
invasões e desmatamento.
O caso
do PAD foi levado à Comissão de Soluções Fundiárias do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ), responsável por mediar conflitos territoriais e construir
soluções pactuadas para a retirada dos ocupantes, seja por indenização ou por
realocação. Segundo a Apib, já houve a primeira sessão de mediação e o Incra
apresentou plano de retirada, mas a suspensão integral da desintrusão
enfraquece o monitoramento da TI e compromete a busca por uma solução
estruturada para o conflito.
Para as
lideranças indígenas, a luta pela continuidade da fiscalização na TI
Uru-Eu-Wau-Wau é uma defesa dos direitos fundamentais e do acesso à justiça
para os povos que guardam a floresta. Elas exigem que o Estado brasileiro
cumpra seu dever constitucional de proteger o território contra a exploração
ilegal e assegure a paz para as futuras gerações.
• “A gente quer a demarcação do nosso
território e não ferrovias”, afirmam as lideranças A’uwẽ em incidência política
em Brasília
Com
processo de demarcação do território paralisado há 26 anos, lideranças
indígenas do povo A’uwẽ (Xavante), do Mato Grosso, estiveram em Brasília entre
os dias 2 e 4 de março de 2026, para cobrar a demarcação da Terra Indígena
Areões, denunciar os impactos de grandes empreendimentos ferroviários, a falta
de consulta livre, prévia e informada e a pressão de setores do agronegócio. A
delegação é composta por 16 lideranças de diversas comunidades, e várias delas
ainda não conheciam a capital federal.
A Terra
Indígena Areões foi homologada em 1996. Trinta anos depois, o processo
demarcatório ainda não foi concluído, assim como os estudos de revisão de
limites não tiveram seguimento desde os anos 2000.
“Trinta
anos depois, o processo demarcatório ainda não foi concluído, assim como os
estudos de revisão de limites não tiveram seguimento desde os anos 2000”
“Os
estudos para concluir a demarcação estão muito lentos. Há anos que estão
parados porque eles não querem fazer nada. Não vamos sair sem resposta, sem
nada da comunidade”, assegura um dos caciques mais velhos em sua língua-mãe,
traduzido por Juvêncio Xavante, liderança do povo A’uwẽ.
Sem a
regularização das terras ancestrais A’uwẽ, o cacique Anderson Xavante fala da
intensidade das violências que o povo enfrenta. “Somos ameaçados, humilhados em
nosso território pelos que vieram para tomar a nossa terra. Não tem resposta
deles, não tem detalhe de cada processo, nem um detalhe de onde ficou parado,
por que?”, traduziu Juvêncio.
“Nosso
território ancestral enfrenta a pressão dos fazendeiros, do agronegócio e de
projetos de infraestrutura”
“Nosso
território ancestral enfrenta a pressão dos fazendeiros, do agronegócio e de
projetos de infraestrutura. Isso porque a Funai [Fundação Nacional dos Povos
Indígenas] engavetou o estudo da nossa terra. Só agora os caciques mais novos
encontraram esse documento, então, viemos aqui cobrar que vocês terminem a
demarcação da nossa terra”, completa Arnaldo Trerebudu, liderança do povo.
À
medida que os traçados de ferrovias, para escoar a produção agrícola e de
minérios, foram realizados cortando parte do território ancestral A’uwẽ, a
insegurança e os casos de violência contra as comunidades da TI Areões
aumentaram.
“Só
agora os caciques mais novos encontraram esse documento, então, viemos aqui
cobrar que vocês terminem a demarcação da nossa terra”
Em
dezembro de 2025, o cacique geral Silvério Tsereburã Tserenhib’ru Xavante foi
atropelado por um caminhão e veio a óbito. O fato abalou a comunidade A’uwe,
que perdeu uma de suas lideranças mais atuantes na luta pela demarcação dos
territórios originários no Mato Grosso. O caso foi relatado pelas lideranças em
todos os órgãos públicos nestes três dias na capital federal.
Impactados
pela construção da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO), os A’uwe
denunciam a ausência de Consulta Prévia, Livre, Informada e de Boa-fé, como
prevê a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “O que
o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis] fez foi consultar a Funai, e não nós, os indígenas, as lideranças
do povo. Isso está errado”, completa o vice-cacique Walmir Adzewe.
“Consulta
Prévia, Livre, Informada e de Boa-fé deve ser realizada antes da instalação de
qualquer empreendimento que impacte o povo”
Em
audiência com as lideranças na 6ª Câmara de Coordenação e Revisão (6CCR) do
Ministério Público Federal (MPF), a secretária-geral Eliana Péres Torelly
assegura aos indígenas que a “Consulta Prévia, Livre, Informada e de Boa-fé
deve ser realizada antes da instalação de qualquer empreendimento que impacte o
povo, seus meios de vida, costumes e tradições, independentemente de a terra
indígena estar demarcada ou não”.
A
procuradora reforça que “o mais importante no momento é a demarcação da terra,
inclusive para evitar que vocês fiquem sem a terra indígena, que é o local de
caça e de sítios arqueológicos, para que não sejam destruídos e para que vocês
possam ter acesso às plantas que fazem parte dos rituais”.
“O mais
importante no momento é a demarcação da terra, inclusive para evitar que vocês
fiquem sem a terra indígena”
Além da
FICO, que atravessa seus territórios, diversos outros projetos de
infraestrutura planejados representam uma ameaça existencial aos A’uwẽ, aponta
a Associação Xavante Warã. Como é o caso da rodovia federal BR-080, que conecta
o Distrito Federal ao norte de Goiás e Mato Grosso, facilitando o agronegócio;
e de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) ao longo do Rio das Mortes, rio
sagrado que delimita o território A’uwẽ.
Segundo
levantamento da Sociedade de Antropologia das Terras Baixas da América do Sul
(SALSA – Society for the Anthropology of Lowland South America): “A FICO
afetará os A’uwẽ, cerca de 25 mil pessoas que habitam onze Terras Indígenas
fragmentadas dentro do território tradicional A’uwẽ, no leste do estado de Mato
Grosso. O traçado planejado da ferrovia contorna a borda norte da Terra
Indígena (TI) Areões, em área ainda não demarcada entre as TIs Areões e
Pimentel Barbosa, e atravessa território A’uwẽ nas Terras Indígenas Parabubure
e Marechal Rondon”.
“A FICO
afeta aproximadamente 31 mil indígenas pertencentes a mais de 20 grupos étnicos
distintos, cujas terras, culturas e meios de vida serão severamente impactados”
Ao
todo, o traçado da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste “afeta
aproximadamente 31 mil indígenas pertencentes a mais de 20 grupos étnicos
distintos, cujas terras, culturas e meios de vida serão severamente impactados.
A ferrovia deverá atingir 24 Terras Indígenas na Amazônia Legal, incluindo 23
em Mato Grosso e uma em Rondônia”, denuncia a Sociedade de Antropologia,
somando as vozes das lideranças e comunidades A’uwẽ afetadas.
A
delegação aponta a Funai e a INFRA S.A. (vinculada ao Ministério dos
Transportes) como responsáveis por fornecer informações fragmentadas e
seletivas às comunidades, causando divisões internas e omitindo impactos
cumulativos dos empreendimentos. Afirma ainda que lideranças têm sofrido
pressão institucional para aceitar o Componente Indígena do Plano Básico
Ambiental (PBA-CI) da FICO, situação classificada pela Defensoria Pública da
União como possível “assédio institucional”.
“A
ferrovia deverá atingir 24 Terras Indígenas na Amazônia Legal, incluindo 23 em
Mato Grosso e uma em Rondônia”
De
todas as pautas apresentadas aos mais diversos órgãos dos Poderes Legislativo,
Judiciário e Executivo, o que ecoou foi um único pedido: “A gente quer a
demarcação do nosso território e não ferrovias”, afirmam as lideranças A’uwẽ.
Rafael
Modesto, assessor jurídico do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), aponta
não haver “impedimentos legais quanto ao entendimento de que a área
reivindicada é dos A’uwẽ (Xavante); o Supremo julgou que não há marco temporal,
não há impedimento para a demarcação de terra, essa terra é Xavante”. Em sua
avaliação, o que pode haver são outras questões relacionadas às indenizações e
ao direito de retenção de posse, “mas as indenizações e a retenção não estão
ligadas ao processo de demarcação, estão ligadas à posse, então o processo tem
que andar”, assegura o advogado.
“A
gente quer a demarcação do nosso território e não ferrovias”
• Funai e Ibama realizam operação de
combate à extração ilegal de madeira em terras indígenas no Amazonas
Com o
objetivo de combater a exploração ilegal de madeira em terras indígenas no sul
do Amazonas, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) participou da
Operação Xapiri, ação de fiscalização coordenada pelo Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A atuação conjunta
aconteceu no dia 21 de fevereiro nas Terras Indígenas (TI) Diahui e Tenharim
Marmelos.
Os
territórios indígenas vêm sofrendo pressão crescente de atividades ilícitas
relacionadas ao desmatamento e à retirada irregular de recursos naturais. No
Sul do estado, além da exploração ilegal de madeira, somam-se os impactos
associados a obras de infraestrutura, especialmente a ampliação e propostas de
asfaltamento de modais rodoviários, que tendem a intensificar a pressão sobre
os territórios.
Durante
a operação, dois caminhões carregados com toras de madeira foram inutilizados —
um no interior da Terra Indígena Diahui e outro na Terra Indígena Tenharim
Marmelos – e um terceiro foi abordado pelas equipes. A madeira apreendida
também foi inutilizada no local, conforme os procedimentos legais aplicáveis às
ações de fiscalização ambiental.
Segundo
a coordenadora-geral de fiscalização da Diretoria de Proteção Territorial
(DPT), Juliana Almeida, a Funai seguirá atuando de forma articulada com órgãos
ambientais e demais instituições competentes, “fortalecendo o diálogo com as
comunidades e as ações de fiscalização, com vistas à garantia da proteção dos
direitos territoriais dos povos indígenas.”
A
participação da Funai na operação integra sua atribuição institucional de
proteção e promoção dos direitos dos povos indígenas, incluindo a defesa da
integridade territorial e o enfrentamento a ilícitos que impactam diretamente
as comunidades.
Fonte:
Coiab/Cimi/Funai

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