Quem
tem medo das mestiçagens?
No
Brasil, e não é recente, debate-se que o reconhecimento das mestiçagens
serviria a construções ideológicas negadoras do racismo no país, presumidamente
porque contribuiriam para sustentar o chamado “mito da democracia racial” –
expressão que, aliás, foi convertida em acusação contra estudiosos brasileiros
a quem se atribui o que jamais formularam nesses termos simplificados.
“Mito”
que serviria à ideologia de uma inexistente “harmonia social” entre “raças” na
sociedade brasileira. Nossa história sendo marcada por violências e extermínio
das populações indígenas e negro-africanas. Há também aqueles que enxergam no
reconhecimento das mestiçagens uma estratégia de “branqueamento” simbólico de
segmentos da população que, não sendo brancos, seriam incentivados a
distanciar-se de suas origens – negros, indígenas e os chamados “pardos” – numa
operação que, sob outra forma, reproduziria o racismo.
Mas
vamos ao que é mais importante: em relação à sociedade brasileira, as
mestiçagens são fundadoras e constituem-na de alto a baixo – independentemente
de quem as critique ou busque manipulá-las para essa ou aquela produção
ideológica.
Desde o
período colonial, a formação social do Brasil resultou do encontro, do conflito
e da convivência entre populações indígenas, africanas e europeias. A
escravidão, como modo de produção, implicou violência estrutural e múltiplas
formas de sujeição e coerção, submetendo indígenas e africanos, arrancados de
suas terras, a crueldades e sofrimentos degradantes. Contudo, reduzir toda e
qualquer mestiçagem ao produto exclusivo de violências e a estupros é uma
generalização que merece problematização à luz da pesquisa histórica.
Entre
outros pesquisadores, a historiadora Mary Del Priore demonstra, com base
documental, que também houve uniões consensuais, casamentos interétnicos
reconhecidos e arranjos familiares estáveis entre pessoas de diferentes origens
étnicas, assim como experiências de ascensão social a partir de múltiplas
relações entre pessoas de origens étnicas e classes sociais distintas. A
experiência colonial das mestiçagens foi plural, ambígua e historicamente
situada – assim como foi na história de múltiplos povos.
Afirmar
que as mestiçagens brasileiras são um mero dispositivo ideológico discursivo de
produção de uma “falsa harmonia social” para negar o racismo ignora dados
demográficos e históricos, de ontem e de hoje.
Do
mesmo modo, sustentar que a miscigenação ocorrida em nossa história teria sido
um cálculo deliberado de genocídio das populações negras e indígenas – como por
vezes se sugeriu em formulações retóricas como em Abdias do Nascimento e Júlio
Chiavenato – simplifica processos históricos complexos. Se o genocídio fosse um
fato consumado nesses termos absolutos, o Brasil não seria hoje um dos países
com maior diversidade fenotípica e ancestral do mundo. A permanência e a
vitalidade dessas matrizes demonstram continuidade histórica, ainda que marcada
por desigualdades reais.
Quanto
à recorrente associação entre mestiçagem e “mito da democracia racial”, convém
lembrar que a expressão foi frequentemente atribuída a Gilberto Freyre sem que
o autor a tenha formulado nesses termos em nenhuma de suas obras. E, a verdade
dizer, foi Florestan Fernandes, insuspeito de edulcorar o racismo, quem
afirmou, em O negro no mundo dos brancos: “mau grado os contornos negativos
[das desigualdades], existem certos elementos potencialmente favoráveis à
emergência e à consolidação de uma autêntica democracia racial no Brasil”.
Nesses
termos, pois, o autor manifestava seu anseio pela superação das desigualdades
racistas no país. A formulação expressa um horizonte possível de superação das
desigualdades fundadas no racismo; não a descrição ingênua de uma realidade
harmônica existente, mas a possibilidade de um horizonte normativo no porvir.
De modo
semelhante, a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz, em Nem preto nem
branco, muito pelo contrário, assinalou: “Se a democracia racial não é uma
realidade, é com certeza uma ótima utopia para imaginar”. O que está bem
certo!, afinal, deseja-se a superação do racismo ou sua perpetuação? Se as
mestiçagens podem contribuir com esse justo anseio, por que negá-las como
realidade e por que interditá-las como ideal social? O ponto decisivo é este:
trata-se de apenas denunciar o racismo ou, mais que isso, devemos construir seu
fim?!
Hoje,
para sairmos do inferno do racismo, é um passo importante reconhecer a
objetividade histórica das mestiçagens na sociedade brasileira e como elas
podem nos conduzir a um ideal de sociedade sem racismo. Lamentavelmente, muitos
pensam o contrário.
E por
que as mestiçagens brasileiras podem contribuir com a luta pelo fim do racismo?
Como expus em trabalhos publicados antes: o racismo operante historicamente no
país, mas não apenas nele, ocorre em conexão profunda com o esnobismo de
classe. Trata-se de um racismo imbricado com a lógica da distinção social.
Setores
das elites e das classes dominantes buscam afastar e se afastar de todas as
misturas – de gentes, de espaços, de práticas culturais, de status –, fazendo
de tudo para ostentar signos de separação e apartação entre classes e
presumidas “raças” “superiores” e aquelas consideradas “inferiores”. A
discriminação racista, nesse contexto, reforça estratégias de diferenciação
social e simbólica.
O
preconceito não se limita à cor da pele; articula-se à busca permanente de
distinção, exclusividade e hierarquização – o que inclui não apenas negros, mas
todos aqueles que não integram imaginadas classes e “raças” “superiores”.
O
debate recente sobre “parditude” é sintomático. A categoria “pardo” permanece
no discurso oficial e estatístico, quando já deveria ter sido revista.
Categorias identitárias produzem pertencimento quando articulam memória,
narrativa histórica e reconhecimento social compartilhado. “Negro”, “indígena”
ou “branco” operam como identidades politicamente mobilizadoras e culturalmente
elaboradas.
“Pardo”,
ao contrário, raramente constitui comunidade simbólica ou projeto coletivo. Não
há tradição cultural “parda”. Além disso, quando “pardo” é automaticamente
subsumido a outra categoria – por exemplo, somado estatisticamente a “preto”
para compor um bloco homogêneo – revela que não se sustenta semanticamente;
sendo absorvida por outra, demonstra fragilidade conceitual e revela-se ainda
mais seu caráter instrumental.
Por
outro lado, a agregação automática de pardos à categoria “negros” ou “pretos”,
para inflar percentuais populacionais, constitui uma operação de fraude
semiótica (e estatística) condenável. Segundo estatísticas oficiais, a
autodeclaração como “preto” corresponde a 10,2 % da população, enquanto os
“pardos” formam contingente próprio. Converter essa pluralidade em bloco
homogêneo pode atender a estratégias políticas específicas, mas não elimina o
fato de que a maioria brasileira é mestiça.
Dados
do Censo Demográfico 2022, do IBGE, mostram que 45,3% da população do país se
declara “parda” (a bizarra categoria proposta aos mestiços nos formulários do
IBGE); 43,5% declaram-se branca, 10,2%, negra, 0,8% indígena e 0,4% amarela.
Conforme esses dados, 92,1 milhões de pessoas (ou 45,3% da população)
compõem-se de mulatos, caboclos, cafuzos, morenos, sararás … os mestiços
brasileiros, que o órgão oficial do censo demográfico se nega a reconhecer e
categorizar em seus levantamentos.
E
convenhamos: pesquisador ou observador sério não parte de um “lugar de fala”
como instância epistemológica soberana, mas de um lugar de escuta, como assim
sugeriu Mary Del Priore, em À procura deles: escuta dos arquivos, dos dados,
das estatísticas, das práticas sociais concretas, escuta da realidade, da
história. Quando a interpretação se subordina previamente a dogmas militantes,
perde-se o vínculo com a realidade empírica. Sobre mestiçagens, que se escute o
que contam nossa história e nosso cotidiano, de ontem e de hoje!
Na
campanha política para a eleição de Lula como presidente da República, o
Partido dos Trabalhadores circulou um documento intitulado “Brasil, mostra a
tua cara”, no qual estava escrito, em sua Introdução: “somos mestiços. Não
apenas etnicamente mestiços. Somos culturalmente mestiços. […] Somos
irremediavelmente mestiços. A lógica da homogeneização nos oprime. […] Como
formular um projeto de Políticas Públicas de Cultura que contemple esse mosaico
imperfeito?”.
Como já
pude indagar em outra ocasião: “após a campanha política daquele período, não
se ouviu mais o partido ou militantes de movimentos sociais ao partido
identificados falando do assunto. O que ocorreu? Por que repentinamente
deixou-se de falar que o Brasil é país mestiço? Quais as forças que calaram o
partido para que, nos anos seguintes, nada mais sobre o assunto fosse dito? O
que prevaleceu como entendimento que fez que o partido tenha caído em total
silêncio sobre o tema?”.
Não
apenas no caso brasileiro, mas de variados povos, as mestiçagens podem e devem
ser compreendidas como identidade macroétnica aberta, e tornam-se idioma
transcultural capaz de resistir às apartações letais, institucionalizadas por
sistemas que operam com ficções ideológicas de pureza racial, superioridade
étnica e outras hierarquias essencializadas. Num mundo atravessado por
xenofobias renovadas, a experiência histórica das mestiçagens pode funcionar
como antídoto simbólico e político.
Como
pude dizer em outro de meus textos: as mestiçagens não são uma mentira, nem no
Brasil nem no mundo. E, como realidade, podem fundar outra humanidade: sem
xenofobia, sem racismo.
Contra
todas as forças de separação – racistas, culturais, sociais ou nacionais – as
mestiçagens afirmam a interdependência constitutiva da condição humana. O medo
das mestiçagens é, em última instância, o medo da própria história: medo das
junções, das aproximações, das zonas de contato que quebram as apartações
elitistas de classe, status e supostas superioridades raciais. Reconhecer essa
possibilidade não significa negar o racismo, mas afirmar a esperança concreta
de sua superação.
Fonte:
Por Alipio DeSousa Filho, em A Terra é Redonda

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