Universidade
pública e coragem institucional
A
universidade pública não é um privilégio, mas sim uma poderosa infraestrutura
de cidadania. Quem a acessa, acessa sua própria condição de cidadã, de cidadão.
Dada sua relevância, quando ela vira alvo – por fora ou por dentro – o que está
em disputa não são isoladamente suas paredes, conteúdos, relações humanas e
sociais, mas sim o próprio pacto democrático.
Eu
respondia “Áurea Moretti” quando me perguntavam “Você é filho de quem?” durante
a infância. Não era exatamente fama. Era reconhecimento localizado, de
corredor, de repartição, de gente que se cruza por trabalho, mas também por
necessidade.
Na
Secretaria Municipal de Saúde de Ribeirão Preto (SP), nos anos 1990, quando o
SUS ainda era mais promessa do que rotina consolidada, eu era uma das crianças
que apareciam com frequência naquele espaço público, lugar de fluxos, demandas,
urgências e improvisos por parte principalmente de mulheres que tentavam
implementar certa visão de que cidadania é para todas e todos os cidadãos. Com
elas aprendi como a gestão pode promover os ideias de inclusão enquanto prática
na realidade concreta, especialmente para quem mais precisa do SUS.
Havia
algo que unia muitas daquelas crianças, já que todas eram filhas das
trabalhadoras da saúde, mulheres que se alternavam entre a ousadia de desafiar
o papel esperado pela sociedade misógina e machista e que dizia que ali não era
seu lugar, e a necessidade de criatividade e de garra para criar as crianças e
ganhar o pão do dia a dia.
A
Constituição de 1988 era recente, direitos trabalhistas ainda eram precários, e
a esperança do que de “novo” o SUS trazia, convivia com o velho do Brasil
desigual e suas oligarquias. Não era confortável para ninguém, mas eu guardo
lembranças nítidas das redes invisíveis de solidariedade, de quem segurava uma
criança, de quem emprestava um lanche, de quem puxava assunto para aliviar o
peso do dia, em meio aos desafios da saúde pública e da ampliação de direitos
cidadãos.
Havia,
contudo, uma diferença decisiva na minha história familiar. Não à toa tenho o
nome que tenho. Antes de eu existir, minha mãe foi presa por sua atuação
política como liderança estudantil no campus da Universidade de São Paulo, em
Ribeirão Preto, na década de 1960. Passou três anos submetida às violências da
ditadura, incluindo tortura.
Outros
“xarás” meus, nascidos na mesma época, tem chance de representar o registro de
quem admirava a resistência democrática ferozmente desempenhada pelo general
Rodrigo Otávio Jordão, voz singular que denunciou os horrores da ditadura no
Supremo Tribunal Militar, até seu silenciamento com aposentadoria. Para minha
mãe, a universidade pública nunca foi apenas “um lugar de estudo” mas também um
território de conflito, de risco e de coragem e, por isso, um símbolo do que a
democracia prometia e do que o autoritarismo tentava esmagar.
Muito
mudou desde a década de 1960. Mudaram as instituições, mudaram os dispositivos
de controle, mudaram as linguagens do ataque, mudaram os terrenos em disputa.
Mas uma coisa permanece. A universidade pública continua sendo um alvo
recorrente, ora exposto, ora disfarçado; ora pela via do moralismo, ora pelo
rebaixamento da inteligência; ora pela mentira bem embalada em “opinião”.
Nos
últimos dias, um episódio de grande circulação nas redes evidenciou esse
mecanismo. Trata-se da decisão de um ex-jogador de futebol de impedir que a
filha cursasse instituições públicas, apesar de aprovada, sob o argumento de
“valores”, “doutrinação” e contos equivalentes. O caso ganhou ampla repercussão
e sínteses simplificadoras que nem sempre ajudam, mas nesse caso é útil por um
motivo.
Mostra
como o ataque contemporâneo opera por caricaturas, quase sempre disfarçadas de
casualidades e espontaneidade. A universidade pública vira “bagunça”, “ameaça
moral”, “risco ideológico”; o conhecimento vira suspeito; a docência vira
acusação; a ciência vira luxo, lembrando que são as universidades públicas as
responsáveis por quase a totalidade da pesquisa de ponta que temos no Brasil.
Não há
como assumir esse tipo de retórica como casual. Trata-se de uma técnica
política. Ela desorganiza a ideia de bem público e desloca a conversa do
essencial, qualidade, inclusão, função social, produção científica, extensão,
saúde, cultura, para um teatro de ressentimentos. O objetivo não é “melhorar” a
universidade. É deslegitimá-la para, depois, submetê-la por cortes, por
precarização, por privatização indireta e por censura “bem-intencionada”.
Há
ainda uma camada mais incômoda quando essa mesma lógica aparece, de forma mais
discreta, em setores que se dizem progressistas e, por isso, surpreendem quando
a análise de um olhar treinado para as contradições que o sistema tenta blindar
como normalidade, salta aos olhos a mesma forma de operação, porém de dentro –
alcunhado muitas vezes como ‘fogo amigo’.
Para
quem convive no cotidiano, colecionam-se exemplos identificáveis quando a
crítica vira performance e a universidade vira bode expiatório de frustrações.
Em nome de uma estética individualista, frequentemente atravessada por impulsos
neoliberais, ataca-se a instituição sem assumir o custo político do gesto.
Trata-se de um negacionismo maquiado de “radicalidade”, mas desprovido de
responsabilidade pública e de real compromisso com a mudança. É pior que
reformismo.
Minha
família aprendeu cedo a lidar com o silêncio, não o silêncio da omissão, mas o
silêncio como proteção. Cresci sabendo que quem me gerou atravessou os sombrios
porões da ditadura. Essa mesma mulher que me amamentou e ensinou a olhar o
mundo também pagou um preço para que a universidade pública pudesse existir
como direito e não como favor.
Minha
mãe era estudante de primeiro para segundo ano do curso de Enfermagem da
EERP-USP quando foi presa. E isso refletiu não apenas em sua vida, mas no que a
vi construir a partir de tudo, mesmo com as dores e cicatrizes no corpo e na
alma. Por isso, quando falo em defesa da universidade, não falo a partir de uma
“pose”, muito menos de uma visão instagramável da política. Falo do que vi, do
que vivi e do que aprendi.
A
universidade pública é uma tecnologia social de longo prazo. Forma pessoas,
produz ciência, presta serviços, sustenta políticas públicas, cria repertório
cultural e oferece linguagem para que o país se compreenda. Sem ela, o Brasil
fica menor, mais dependente e mais vulnerável.
Essa
defesa, hoje, exige também olhar para um ponto pouco debatido, que é a gestão
universitária como zona de risco. Não se trata de metáfora. Em tempos de
perseguição política, judicialização performática e espetacularização
midiática, ser gestor público pode voltar a significar estar na linha de tiro
simbólica, institucional e, por vezes, existencial.
Certamente
atrás da repercussão que atacar a universidade pública sempre traz, uma horda
de profissionais das redes sociais – políticos profissionais disfarçados de
cidadãos de bem – aproveitam as fragilidades estruturais e, por outros
interesses, a desconfiança de certos segmentos que foram conduzidos
sistematicamente a duvidarem a seriedade da universidade e de suas intenções.
Buscando likes, engajamento, votos e, assim, capital econômico-político,
mostram-se apenas ângulos de fragilidades das universidades públicas, em
flagrante prática de rage bait, tal como definido em 2025 pelo Dicionário
oficial da Universidade de Cambridge.
Na
UFSC, o país acompanhou o caso do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, com
prisão, afastamento, linchamento público e um desfecho trágico. A partir dali,
multiplicaram-se debates, homenagens e propostas políticas que buscaram nomear
o ocorrido como abuso e violência institucional.
Eu não
vou recontar aquele processo aqui, que acompanhei de muito perto, nem deslocar
este texto para uma análise jurídica. O que importa para o argumento é que a
universidade pública só se sustenta se houver coragem institucional. E essa
coragem não é bravata ou voluntarismo; é a capacidade de agir dentro do
sistema, com método, discrição e firmeza, sem entregar a instituição ao medo e
com força para assumir o que for preciso em defesa dos princípios que devem
balizar a universidade enquanto instituição democrática, cidadã e socialmente
comprometida, parte de um projeto de Estado no qual cidadania é sinônimo de
educação superior garantida e de qualidade para todas e todos.
É nesse
ponto que volto a uma história que me acompanha desde pequeno. Minha mãe
contava sobre Glete de Alcântara, diretora da Escola de Enfermagem de Ribeirão
Preto da USP nos anos 1960. Quando minha mãe foi presa, minha avó ia
semestralmente à universidade, a matriculava e trancava imediatamente a
matrícula, em um gesto simples, quase burocrático, porém decisivo, pois
garantia o vínculo acadêmico para o dia em que a prisão acabasse.
Não sei
por que Dona Glete fez isso. Não sei sua filiação política. Não sei se era de
esquerda. Não sei se tinha vínculos com o regime ou apenas consciência do que o
país vivia. O que sei é que ela conhecia os riscos e, mesmo assim, agiu.
Era uma
mulher cuidando de outra mulher e uma gestora utilizando os recursos de que
dispunha, a institucionalidade, a norma, a caneta, o procedimento e a
capacidade de decisão. Em um país em que mulheres quase não ocupavam lugares de
decisão, com exceção de espaços muito delimitados, em um dos momentos políticos
mais delicado da história, quase não haviam mulheres no poder e, por todo esse
contexto, aquela decisão de Dona Glete diz muito sobre até onde a universidade
pode ser um lugar onde a regra também pode proteger os vulnerados, e onde a
burocracia pode se tornar ferramenta de resistência quando orientada por
valores democráticos.
É por
isso que ataques à universidade são também ataques a um tipo de sociedade. Eles
tentam destruir, de uma só vez, duas coisas, a possibilidade de mobilidade
social por direito e a existência de instituições capazes de manter, no tempo
longo, alguma continuidade civilizatória.
Defender
a universidade pública, hoje, não é apenas responder à caricatura da
“doutrinação” ou ao meme do “privilégio”. É lembrar que ela integra o que
sustenta o SUS, a educação básica, a ciência, a cultura, a formação de
profissionais, a produção de tecnologia e o próprio debate público qualificado.
Há,
porém, um passo adicional. Defender a universidade pública também significa
exigir uma gestão marcada por audácia democrática. Não se trata de audácia como
atalho, mas como coragem para decidir, proteger pessoas vulneradas, sustentar
processos, enfrentar pressões e não transformar a instituição em vitrine
pessoal nem em refém do medo.
Tenho
convicção de que, ao longo da ditadura e em outros ciclos autoritários, antes e
depois, existiram muitas “Donas Gletes”. Pessoas que, em silêncio, utilizaram o
poder institucional para preservar vidas, trajetórias e direitos, sem heroísmo
vazio, sem espetáculo, mas com senso de responsabilidade.
É essa
tradição que está em disputa quando a universidade pública é atacada. Por isso,
em tempos de terraplanismo científico, histórico e político, defendê-la não
constitui um tema corporativo, mas uma forma de defesa da democracia. Afinal de
contas, como elegantemente nos lembra Valter Hugo Mae “Ninguém tem uma vida
pequena. Cada vida tem o tamanho da sua luta”.
Fonte:
Por Rodrigo Otávio Moretti, em A Terra é Redonda

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