A
tarifa zero e os tentáculos do mercado
O
transporte público no Brasil atravessa uma crise estrutural. Décadas de
políticas historicamente focadas no automóvel e na redução do tempo de
deslocamento a qualquer custo resultaram em um sistema de transporte público
que hoje enfrenta um declínio acentuado de passageiros. Essa crise reflete uma
dinâmica global que expõe a incapacidade do setor em responder às demandas
contemporâneas por sustentabilidade e justiça social (Banister, 2008; Sheller e
Urry, 2006). O problema é agravado pela estrutura do setor, marcada pela alta
concentração de mercado em grandes grupos econômicos que, historicamente,
utilizam seu poder para limitar inovações que ameacem seus modelos de negócio.
Nesse
cenário de estagnação, políticas heterodoxas como a Tarifa Zero ganham força,
desafiando a lógica de que o transporte deve ser tratado como uma mercadoria
(Kębłowski, 2019). Este artigo, derivado de uma pesquisa de doutorado em
andamento, explora essa tensão. Argumentamos que a viabilidade da Tarifa Zero é
profundamente influenciada pela atuação desses grupos econômicos, que moldam a
agenda pública para proteger seus interesses.
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Acesso à cidade: transporte como direito e justiça social
Embora
a Constituição de 1988 tenha municipalizado a gestão do transporte urbano, o
reconhecimento do acesso à mobilidade como pilar da cidadania foi tardio.
Apenas com a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) em 2012 e,
principalmente, com a Emenda Constitucional de 2015, o transporte foi
formalmente incluído como um direito social. Essa conquista legal, no entanto,
não se traduziu em acesso universal. O modelo de financiamento, baseado na
cobrança de tarifas dos usuários, cria uma barreira econômica que contradiz a
própria noção de direito à cidade (Harvey, 2012). Na prática, para esses
grupos, o acesso à cidade continua a ser visto como uma mercadoria, não um bem
comum.
É nesse
ponto que a Tarifa Zero se alinha ao conceito de Direito à Cidade, pois propõe
a remoção completa dessa barreira. A política parte do princípio de que a
mobilidade é essencial para acessar outros direitos fundamentais, como saúde,
educação, trabalho e lazer. A isenção de pagamento para grupos específicos,
como idosos e estudantes, embora importante, é uma medida paliativa que não
resolve o problema estrutural. A Tarifa Zero, ao universalizar o acesso,
transforma o transporte de um serviço excludente em uma ferramenta de promoção
de equidade e justiça social (Santini, 2019).
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Os grupos econômicos e a hipótese da influência seletiva
A
principal barreira para reafirmação do transporte urbano enquanto um bem comum
reside na sua estrutura de mercado. O setor de transportes urbanos no Brasil é
dominado por grupos econômicos — conglomerados empresariais que controlam redes
de operação e exercem forte influência sobre a regulação e o financiamento do
serviço. A hipótese central desta pesquisa é que esses grupos influenciam a
adoção de políticas de Tarifa Zero de maneira seletiva: utilizam seu poder
político e econômico para limitar a implementação dessas políticas em
municípios de maior interesse comercial, enquanto deixam espaços para
experimentações em contextos periféricos ou menos atrativos para seus
investimentos.
Para
testar esta hipótese, a pesquisa utiliza a Análise de Redes Sociais para mapear
a estrutura de poder do setor. A partir de bases de dados públicas do Cadastro
Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), é possível visualizar as conexões
societárias que formam os grandes conglomerados, revelando clusters de
influência que atuam de forma coordenada. A figura abaixo ilustra a densidade
dessas redes, que muitas vezes operam de forma opaca ao controle público.
Na base
de CNPJs temos 12.902 empresas com 13.569 sócios. A figura 1 ilustra a
concentração. Ao filtrarmos os empresários que têm mais de 10 empresas, temos
uma concentração em apenas 189 pessoas, onde é possível dividi-las em 26 grupos
empresariais interrelacionados por sociedades em comum.
A
influência dessas redes manifesta-se em posicionamentos públicos de entidades
como a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU). A mudança
de postura da associação é um exemplo claro: em 2024, em um cenário de escassez
de crédito, a entidade via a Tarifa Zero como uma alternativa viável; já em
2025, com o lançamento do programa federal Pró-Frota, que trouxe novas linhas
de financiamento ao setor, passou a classificar a política como inviável para
grandes cidades¹. Essa oscilação sugere que o apoio à inovação está
condicionado aos interesses econômicos conjunturais. Para mercados menores,
alguns empresários menos inclinados ao direito à cidade defendem a Tarifa Zero
como uma espécie de “Bolsa Empresário”, desde que o poder público arque
integralmente com os custos da operação.
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Conclusão: para além da tarifa — transporte como bem comum
Este
artigo explorou a tensão fundamental que define o debate sobre a Tarifa Zero no
Brasil: de um lado, a luta pelo transporte como um Direito à Cidade e, de
outro, a resiliência de um modelo de financiamento que prioriza o lucro
privado. A hipótese apresentada, de que os grupos econômicos influenciam
seletivamente a adoção da política, expõe como os interesses de mercado se
sobrepõem à noção de direito.
Contudo,
a Tarifa Zero deixou de ser apenas uma proposta teórica. É um movimento em
franca expansão, com mais de uma centena de cidades brasileiras já adotando a
política de forma universal. A experiência prática destes municípios mostra que
a mudança é viável e, em muitos casos, com um custo inferior a 2% do orçamento
municipal, desmistificando o argumento da inviabilidade financeira.
Para
que o transporte coletivo seja, de fato, tratado como um bem comum, é preciso
consolidar e aprender com as experiências em curso. Para isso, espaços como
essa revista são fundamentais para o aumento da massa crítica sobre o tema e
difusão das pesquisas em andamento.
Fonte:
Por Thiago Von Zeidler Gomes, em Outras Palavras

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