Daniela
Doms: As bruxas do século XXI
A
relação entre o ser humano e o mundo natural nem sempre foi marcada pelo
distanciamento e pela exploração sistemática que caracteriza a sociedade
contemporânea. Durante séculos, a humanidade compreendeu-se como parte
integrante de um cosmos vivo, impregnado de significado e propósito, que em
tudo possuía uma força, um poder oculto. A concepção animista da natureza
embasava uma visão mágica do mundo. Os espaços naturais se entrelaçavam com a
vida humana de maneira orgânica e sagrada; estabeleciam-se com as águas,
rochas, animais, árvores, fungos, relações sociais holísticas fundadas na
inseparabilidade matéria/espírito. A natureza tinha alma. Essa visão de mundo, profundamente enraizada
na filosofia aristotélica e na tradição escolástica medieval, começou a ser
desmantelada no século XVII por um pensamento que revolucionaria para sempre a
forma como o homem se relaciona com a natureza: o mecanicismo cartesiano. As
consequências dessa virada filosófica são profundas e multifacetadas. Em
primeiro lugar, opera-se um desencantamento do mundo. A natureza, que antes era
mãe, livro sagrado ou organismo vivo, perde qualquer vestígio de subjetividade.
Torna-se matéria inerte, extensão desprovida de alma, propósito ou valor
intrínseco. Onde antes se via um cosmos cheio de correspondências e
significados, passa-se a ver apenas partículas em movimento. Em segundo lugar,
estabelece-se uma nova hierarquia epistemológica. Se a natureza é apenas
matéria, o conhecimento verdadeiro não pode vir dos sentidos — que nos mostram
cores, cheiros e sabores ilusórios, mas exclusivamente da razão matemática. O
real identifica-se com o mensurável, com aquilo que pode ser expresso em
equações. O homem conhece a natureza de fora, como um engenheiro que estuda o
funcionamento de uma máquina da qual não faz parte. Por fim, e talvez mais
importante, instaura-se uma relação de dominação. Se a natureza não tem alma,
se é apenas um reservatório de recursos, o homem não apenas pode, como deve,
tornar-se seu “mestre e possuidor”. A técnica e a ciência modernas nascem sob o
signo desse projeto: conhecer para dominar, dominar para explorar, explorar
para satisfazer as necessidades e os desejos humanos.
Ao
reduzir a natureza a objeto, a recurso disponível, a humanidade sentiu-se
autorizada a explorá-la sem limites, esquecendo-se de que, apesar de toda a
técnica, ainda depende dos ciclos ecológicos para sobreviver. A ideia de que o
homem é o “senhor” da natureza ocultou a verdade mais elementar: somos parte
dela; e ao destruí-la, destruímos as condições de nossa própria existência. Ao
transformar a natureza em máquina inerte e desprovida de alma, a revolução
cartesiana não poupou o corpo humano. Pelo contrário, foi precisamente a partir
da mecanização do corpo que Descartes fundamentou sua teoria do autocontrole e
da soberania da alma sobre a matéria. Se a natureza tornou-se objeto de
dominação, o corpo — essa porção da natureza que nos é mais íntima — tornou-se
a primeira e mais imediata instância de aplicação desse projeto de controle. A
concepção cartesiana do corpo como máquina não apenas separou o homem da
natureza exterior, mas também instaurou uma nova relação do homem consigo
mesmo, particularmente com seu próprio corpo. Essa mecanização, longe de
permanecer no âmbito da especulação filosófica, materializou-se historicamente
na disciplina do trabalho, na organização fabril, na educação dos corpos e,
contemporaneamente, nas múltiplas formas de otimização e performance que
caracterizam a sociedade atual. A filosofia de Descartes opera uma dupla
ruptura: externamente, separa o homem da natureza ao reduzir esta última a rês
extensa, matéria inerte desprovida de alma e propósito; internamente, separa a
alma do corpo, estabelecendo entre ambos uma relação hierárquica de comando e
subordinação.
O
corpo-máquina não quer nada, não deseja nada, não tende a nenhum fim. As
sensações de fome, sede, prazer ou dor não passam de “confusas percepções” na
alma, causadas por movimentos corporais. Cabe à razão interpretar corretamente
esses sinais e decidir se devem ser atendidos ou ignorados. O autocontrole,
nesse quadro, é precisamente a capacidade da alma de exercer sua soberania
ilimitada sobre essa máquina corporal, recusando-se a ser escravizada por suas
solicitações mecânicas. No entanto, o que era inicialmente uma teoria
filosófica sobre a liberdade humana rapidamente se transformou, ao longo dos
séculos seguintes, em um programa de dominação e disciplina. Se o corpo é uma
máquina, ele pode ser otimizado, regulado, consertado e, sobretudo, posto para funcionar
de acordo com interesses que transcendem o indivíduo. A filosofia de Descartes
era, em sua intenção original, também uma busca por respostas em um mundo em
colapso de velhas certezas. Seu impacto prático foi mediado por inúmeras outras
invenções, disputas e contingências históricas. O mecanicismo forneceu a
linguagem e a legitimidade para uma transformação que já estava em curso devido
a forças econômicas e sociais. O projeto cartesiano encontrou no capitalismo
industrial seu campo de realização mais completo. O filósofo e historiador
Michel Foucault, em suas análises sobre o poder disciplinar, demonstrou como os
séculos XVII e XVIII assistiram à descoberta do corpo como objeto e alvo de
poder.
A
fábrica moderna não poderia existir sem a concepção do corpo como máquina. O
operário não é mais um artesão que domina todo o processo produtivo, imprimindo
sua marca pessoal em cada peça; ele torna-se um apêndice da máquina, um
elemento intercambiável na linha de montagem. Seu corpo deve funcionar com a
regularidade de um relógio: iniciar o trabalho no mesmo horário, executar os
mesmos movimentos centenas de vezes por dia, interromper-se no mesmo instante
para a pausa regulamentar. Essa mecanização do trabalho operário implicou uma
progressiva alienação, termo que Marx utilizaria para descrever o estranhamento
do trabalhador em relação ao produto de seu trabalho e a si mesmo. O corpo do
operário não lhe pertence mais durante a jornada de trabalho; ele é alugado,
posto a serviço de uma produção que não controla e cujos frutos não lhe
pertencem. Seu corpo-máquina é avaliado por sua eficiência, por sua capacidade
de produzir mais em menos tempo, por sua docilidade às ordens da gerência. A
cronometragem dos movimentos, estudada por Taylor no início do século XX,
representa o ápice dessa concepção. Trata-se de decompor o trabalho humano em
gestos elementares, medir o tempo necessário para cada um deles e prescrever o
método mais eficiente, como se ajustasse as engrenagens de um mecanismo. O
corpo do trabalhador é reduzido a uma soma de movimentos padronizados,
despojado de qualquer criatividade ou singularidade. A revolução cartesiana se
desenvolveu em consonância com transformações materiais profundas que reconfiguraram
as relações de propriedade, trabalho e gênero na Europa moderna. A mecanização
do mundo natural e do corpo humano estabeleceu as bases filosóficas para a
exploração sem precedentes que caracterizaria o capitalismo, e se materializou
historicamente em dois processos indissociáveis: a expropriação das terras
comunais, que Marx denominou como “acumulação primitiva”, e a subordinação das
mulheres, cuja histórica identificação com a natureza as tornou alvos
privilegiados das novas formas de controle.
CERCAMENTOS
E ACUMULAÇÃO PRIMITIVA: A TERRA MÃE COMO MÁQUINA A SER EXPLORADA
Karl
Marx, no capítulo XXIV de O Capital, livro 1, dedicado à “A assim chamada
acumulação primitiva”, descreve o processo violento que separou os produtores
diretos dos meios de produção, criando as condições necessárias para o
desenvolvimento do capitalismo. Na Inglaterra, entre os séculos XV e XVIII, os
chamados enclosures (cercamentos) transformaram radicalmente a paisagem e as
relações sociais. Antes dos cercamentos, vastas extensões de terra eram de uso
comunal. Camponeses tinham direito a pastar seus animais, coletar lenha, caçar
e cultivar pequenos lotes em terras que não pertenciam a ninguém
individualmente, mas eram geridas coletivamente pela comunidade. Essa forma de
organização, herdeira de tradições medievais, implicava uma relação com a terra
que não era meramente instrumental: a terra era fonte de sustento, mas também
espaço de sociabilidade, de transmissão de saberes, de reprodução da vida
comunitária.
Os
cercamentos consistiram na apropriação privada dessas terras comunais pela
nobreza e pela burguesia nascente, cercando-as e transformando-as em
propriedade privada exclusiva. O gado ovino, cuja lã alimentava a nascente
indústria têxtil, substituiu os camponeses. Milhares de pessoas foram expulsas
das terras que habitavam há gerações, tornando-se vadios, mendigos ou,
finalmente, trabalhadores assalariados nas cidades industriais. É fundamental
compreender que esse processo não foi meramente econômico, mas profundamente
ontológico, ou seja, transformou o próprio ser da terra. A terra comunal era
viva, era mãe, era comunidade. A terra cercada, privatizada, tornou-se
mercadoria, meio de produção, máquina de gerar lucro. A mesma operação
filosófica que Descartes realizava no plano do pensamento — reduzir a natureza
a res extensa, a matéria inerte disponível para dominação — realizava-se, no
plano material, pelos cercamentos. A terra deixava de ser sujeito de relações
comunitárias e tornava-se objeto de exploração capitalista. A violência dos
cercamentos não foi apenas contra as pessoas, mas contra uma forma de vida. Os
saberes camponeses sobre os ciclos da natureza, sobre o manejo coletivo dos
recursos, sobre as plantas medicinais e os ritmos da terra, tudo isso foi
desqualificado como atraso, ignorância, superstição. A ciência nascente,
herdeira do mecanicismo cartesiano, oferecia a justificativa: a natureza é
máquina, e máquinas não têm saberes a transmitir; têm apenas leis a serem
descobertas e exploradas. Se a terra foi violentamente expropriada e
transformada em mercadoria, as mulheres sofreram um processo análogo, mas com
especificidades cruciais. A associação entre mulher e natureza é um dos temas
mais antigos e persistentes da cultura ocidental. A filósofa ecológica Carolyn
Merchant, em sua obra fundamental A Morte da Natureza, demonstra como, antes da
Revolução Científica, predominava uma imagem orgânica do cosmos frequentemente
associada ao feminino: a Terra era mãe, nutriz, provedora. Havia, nessa associação,
um certo limite implícito à exploração: não se viola impunemente o corpo da
mãe.
A
Revolução Científica e o mecanicismo cartesiano operaram uma dupla
transformação dessa imagem. Por um lado, a natureza-mãe foi substituída pela
natureza-máquina, autorizando sua exploração sem culpa. Por outro lado, a
associação entre mulher e natureza, longe de desaparecer, foi reconfigurada
como justificativa para a dominação feminina. Se as mulheres são “mais próximas
da natureza”, seja por sua capacidade
reprodutiva, seja por seu histórico envolvimento com atividades ligadas à terra
e ao corpo, então, elas também devem ser controladas, disciplinadas e
dominadas. A mesma razão que se propunha a dominar a natureza exterior
propunha-se a dominar a natureza interior, e as mulheres, identificadas com
essa natureza, tornaram-se objetos privilegiados desse domínio.
O
exemplo mais brutal dessa articulação entre a dominação da natureza e o
controle das mulheres é a caça às bruxas que assolou a Europa entre os séculos
XV e XVII, atingindo seu ápice justamente no período de consolidação do
capitalismo e da ciência moderna. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas,
a grande maioria mulheres, foram executadas acusadas de bruxaria. Essas
mulheres eram, frequentemente, camponesas pobres, viúvas, parteiras,
curandeiras, herbalistas, mulheres que
detinham saberes tradicionais sobre o corpo, sobre as plantas, sobre os ciclos
da natureza. Eram mulheres que, de certa forma, “controlavam” a natureza:
sabiam quais ervas induziam o aborto, quais aliviavam a dor do parto, quais
curavam feridas, quais provocavam sonhos. A emergência da medicina
profissional, exclusivamente masculina e formada nas universidades, viu nessas
mulheres uma concorrência perigosa. O saber feminino, transmitido oralmente de
geração em geração, foi sistematicamente desqualificado como superstição,
feitiçaria, pacto com o diabo. Ao mesmo tempo, a Reforma Protestante e a
Contra-Reforma Católica disputavam o controle das almas e dos corpos, e a
figura da bruxa serviu perfeitamente para demonizar qualquer forma de
resistência à nova ordem. A caça às bruxas foi, portanto, um processo de
expropriação de saberes análogo à expropriação das terras comunais. Assim como
os camponeses foram expulsos da terra que lhes garantia a subsistência, as
mulheres foram expulsas do corpo, do conhecimento sobre seu próprio corpo, sobre
a reprodução, sobre a saúde.
É
importante notar que as acusações de bruxaria frequentemente recaíam sobre
mulheres que resistiam aos cercamentos. Camponesas que protestavam contra a
expropriação de terras comunais, que coletavam lenha em florestas
recém-cercadas, que mantinham vivas as práticas comunitárias, eram
particularmente visadas. A bruxa era, nesse sentido, a figura da resistência:
resistência à nova ordem econômica que privatizava o comum, resistência à nova
ordem científica que desqualificava saberes ancestrais, resistência à nova
ordem religiosa que disciplinava corpos e almas. Os voos noturnos, os encontros
no sabá, os pactos com o diabo, tudo isso era, aos olhos dos perseguidores, a
prova de que essas mulheres estavam em conluio com forças que desafiavam o
controle racional. Mas podemos ler esses mesmos elementos como metáforas de uma
liberdade que precisava ser aniquilada: a liberdade de circular fora dos
espaços permitidos, de se reunir fora do controle masculino, de possuir saberes
que escapavam à nova ciência.
A
relação entre a mecanização da natureza e o controle das mulheres é uma relação
estrutural e orgânica. Ambas são faces do mesmo processo histórico: a
instauração de uma ordem patriarcal-capitalista que transforma tudo em recurso,
tudo em objeto, tudo em mercadoria. A terra comunal, viva e nutriz, precisava
ser cercada, privatizada, transformada em máquina de produzir lucro. O corpo
feminino, com seus ciclos, seus saberes, sua capacidade de gerar vida,
precisava ser controlado, medicalizado, transformado em máquina de reproduzir a
força de trabalho e de consumir mercadorias. Em ambos os casos, a violência foi
justificada por uma ideologia que naturalizava a submissão: assim como a
natureza deveria ser dominada pelo homem, a mulher, sua suposta extensão, também
deveria ser alvo desse mesmo controle. A filosofia cartesiana forneceu as
ferramentas conceituais para essa dupla sujeição. Ao separar radicalmente mente
e corpo, razão e emoção, cultura e natureza, Descartes não apenas estabeleceu a
soberania da alma racional sobre o corpo-máquina, mas também, implicitamente, a
soberania do homem (associado à razão, à cultura, ao espírito) sobre a mulher
(associada ao corpo, à natureza, à emoção). O dualismo cartesiano é, nesse
sentido, profundamente generificado: a res cogitans é masculina; a res extensa
é feminina.
COMUNIDADES
TRADICIONAIS: AS BRUXAS DO SÉCULO XXI
A
violência que expropriou terras comunais e queimou mulheres acusadas de
bruxaria entre os séculos XVI e XVIII não é um capítulo encerrado da história.
Ela persiste, reconfigurada, nas dinâmicas contemporâneas do capitalismo
global. A análise de Rosa Luxemburgo em A Acumulação do Capital oferece uma
contribuição fundamental ao debate sobre a expansão capitalista ao demonstrar
que o capitalismo, para se reproduzir, necessita constantemente de relações não
capitalistas de produção. Ela argumenta que a acumulação ampliada — o processo
pelo qual o capital se valoriza e se expande — não pode ocorrer exclusivamente
no interior das relações capitalistas. É necessário um “fora”, um espaço
externo onde o capital possa encontrar novos mercados, novas fontes de matérias-primas,
novos reservatórios de força de trabalho. Esse “fora”, contudo, não é
simplesmente exterior geográfico. É, sobretudo, um exterior social, formas de
organização da vida que não estão ainda inteiramente submetidas à lógica
capitalista: economias camponesas de subsistência, terras de uso comunal,
saberes tradicionais, práticas de cuidado e reprodução. O capital precisa
invadir esses espaços, destruí-los e incorporá-los, transformando terra em
mercadoria, trabalho em força de trabalho assalariada, saberes em propriedade
intelectual, natureza em recursos. O que Luxemburgo argumenta é que a violência
da acumulação primitiva, a expropriação violenta dos meios de produção, não é
um momento superado na história do capitalismo, mas uma necessidade permanente.
O capital precisa constantemente cercar os comuns.
O
neoextrativismo é uma das expressões contemporâneas desse processo.
Diferentemente do extrativismo clássico, baseado na exploração de recursos
minerais e vegetais nas colônias, o neoextrativismo caracteriza-se por sua
escala industrial, sua integração aos mercados globais e sua penetração em
territórios antes considerados marginais. Na América Latina, particularmente, o
neoextrativismo avançou nas últimas décadas como modelo dominante de
desenvolvimento: mineração a céu aberto, megaprojetos hidrelétricos,
monoculturas de soja e eucalipto, exploração de petróleo em áreas sensíveis,
garimpo ilegal em terras indígenas. Esses empreendimentos incidem precisamente
sobre os territórios ocupados por comunidades tradicionais, aqueles mesmos
espaços onde persistem formas não capitalistas de organização da vida. A lógica
é a mesma dos cercamentos ingleses: terras que eram de uso comum, geridas
coletivamente por comunidades que nelas habitam há séculos, são repentinamente
“descobertas” como reservas de valor, como jazidas a serem exploradas, como
fronteiras agrícolas a serem abertas. O Estado, frequentemente em aliança com
corporações nacionais e transnacionais, atua para remover os obstáculos, ou
seja, para remover as comunidades. Os argumentos são os mesmos de sempre:
desenvolvimento, progresso, geração de empregos, modernização. As comunidades
tradicionais são apresentadas como entraves a esse projeto, são “pobres”,
“atrasadas”, “ignorantes”, “inimigas do progresso”. Seus modos de vida,
baseados em relações de reciprocidade, em saberes transmitidos oralmente, em
práticas de baixo impacto ambiental, são sistematicamente desqualificados. O
que não se diz é que essas comunidades representam exatamente aquilo que
Luxemburgo identificou: o “fora” que o capital precisa destruir para continuar
se expandindo.
A
analogia com a caça às bruxas não é meramente retórica. As comunidades
tradicionais contemporâneas ocupam, no imaginário do desenvolvimento, o mesmo
lugar que as mulheres acusadas de feitiçaria ocupavam na Europa moderna: são
figuras demonizadas, associadas à ignorância e ao atraso, cuja eliminação se
justifica em nome de uma ordem superior. Os povos indígenas, por exemplo, são
frequentemente retratados pela grande mídia e por setores do agronegócio como
“obstáculos ao desenvolvimento”. Suas terras, ricas em minérios, em madeira, em
potencial agrícola, são cobiçadas por empresas que não reconhecem qualquer
legitimidade nos modos de vida tradicionais. Os saberes indígenas sobre a
floresta, sobre as plantas medicinais, sobre os ciclos da natureza — saberes
que a ciência moderna apenas começa a redescobrir — são desqualificados como
“folclore” ou “superstição”, exatamente como os saberes das parteiras e
curandeiras eram desqualificados como bruxaria. Os quilombolas, herdeiros da
resistência negra à escravidão, enfrentam processo análogo. Seus territórios,
conquistados por séculos de luta e ocupação, são constantemente ameaçados por
grileiros, madeireiros, grandes proprietários. A memória da escravidão, que os
transformava em propriedade, em corpos a serem possuídos e explorados, retorna
sob novas formas: agora são as terras que devem ser possuídas, os recursos que
devem ser extraídos, as comunidades que devem ser deslocadas. Os ribeirinhos,
os seringueiros, os castanheiros, os quebradeiras de coco, todos esses grupos
que desenvolveram formas de vida adaptadas aos ecossistemas específicos, que
manejam a floresta sem destruí-la, que reproduzem saberes ancestrais sobre a
natureza, todos eles são, aos olhos do capital extrativista, o que as bruxas
eram aos olhos da Inquisição: figuras a serem eliminadas em nome de uma verdade
superior.
E,
assim como na caça às bruxas, a violência não é apenas simbólica. Líderes
indígenas e quilombolas são assassinados impunemente em taxas crescentes.
Comunidades inteiras são deslocadas à força para dar lugar a hidrelétricas e
minas. Crianças adoecem pelo mercúrio despejado nos rios pelo garimpo. Mulheres
são violentadas em regiões de fronteira extrativista. A terra é envenenada, os
rios são mortos, as florestas são derrubadas e, com elas, morrem também modos
de vida, línguas, saberes, cosmologias. O que está em jogo no neoextrativismo é
o ataque sistemático aos comuns, aquilo que é de todos e de ninguém, que é
gerido coletivamente, que escapa à lógica da propriedade privada e da
mercadoria. A terra comunal, que os cercamentos ingleses começaram a destruir
no século XVI, ainda persiste em muitas comunidades tradicionais: terras
indígenas, territórios quilombolas, fundos de pasto, faxinais, babaçuais. São
terras usadas coletivamente, segundo regras transmitidas por gerações. O
neoextrativismo avança sobre essas terras exatamente como os cercamentos
avançaram sobre os commons ingleses: privatizando, concentrando, expulsando. A
água, bem comum por excelência, é crescentemente apropriada por hidrelétricas,
mineradoras, monoculturas. Comunidades ribeirinhas veem seus rios morrerem
contaminados ou terem seu fluxo alterado por barragens. A água, fonte de vida e
de reprodução material e simbólica, transforma-se em recurso hídrico, em insumo
industrial, em mercadoria. Os saberes tradicionais sobre plantas medicinais, sobre
técnicas de cultivo, sobre manejo florestal, são sistematicamente apropriados
pela indústria farmacêutica e biotecnológica, transformados em patentes, em
propriedade intelectual, sem qualquer reconhecimento ou compensação às
comunidades que os desenvolveram ao longo de séculos. É a expropriação do
conhecimento, análoga à expropriação da terra e à expropriação do corpo. Até o
ar, bem comum por excelência, é afetado: as queimadas para abertura de novas
áreas agrícolas, a poeira das minerações, a fumaça das indústrias, tudo isso
incide desproporcionalmente sobre as comunidades tradicionais, que veem sua
saúde e seu modo de vida comprometidos por externalidades das quais não se
beneficiam.
Assim
como na caça às bruxas, as mulheres das comunidades tradicionais são
particularmente visadas pela violência neoextrativista. São elas,
frequentemente, as guardiãs dos saberes sobre sementes, sobre plantas
medicinais, sobre os ciclos da água. São elas que garantem a reprodução da vida
comunitária, o cuidado com as crianças, com os doentes, com os idosos,
exatamente aquelas atividades que o capitalismo desvaloriza como “não
produtivas”. Quando a mineradora contamina o rio, são as mulheres que precisam
caminhar mais longe para buscar água. Quando a hidrelétrica alaga o território,
são as mulheres que perdem não apenas a casa, mas a horta, as plantas
medicinais, o local de encontro com outras mulheres. Quando o agronegócio
avança, são as mulheres que perdem as sementes crioulas que guardavam há
gerações. Não por acaso, são também as mulheres que estão na linha de frente da
resistência ao neoextrativismo. Movimentos como o das Quebradeiras de Coco
Babaçu, das camponesas da Via Campesina, ou as mulheres indígenas que lideram
lutas territoriais em toda a América Latina, todas elas retomam, sem
necessariamente saber, a tradição das mulheres queimadas como bruxas por
resistirem aos cercamentos e à expropriação dos saberes. Essas mulheres
compreendem, na prática, o que a análise teórica demonstra: que a defesa da
terra é defesa do corpo, que a defesa da floresta é defesa da vida, que a
defesa dos saberes tradicionais é defesa da autonomia. Elas encarnam a recusa
do projeto moderno-colonial que separou natureza e cultura, razão e emoção,
público e privado, e que fez dessa separação instrumento de dominação. O
capitalismo precisa constantemente do “fora” para se reproduzir. Mas esse
“fora”, as relações não capitalistas de produção, não é apenas reservatório a
ser saqueado. É também, e sobretudo, a memória viva de que outro mundo é
possível. As comunidades tradicionais que resistem ao neoextrativismo não são
apenas vítimas; são portadoras de alternativas. Seus modos de vida baseados no
comum, na terra de uso coletivo, na gestão compartilhada dos recursos, na
transmissão oral dos saberes, no cuidado como valor central, apontam para
formas de organização social que escapam à lógica destrutiva do capital.
O
desafio contemporâneo é duplo. Por um lado, é necessário defender essas
comunidades da violência do neoextrativismo, defender seus territórios, seus
corpos, seus saberes. Por outro lado, é preciso aprender com elas, reconhecer
que seus modos de vida contêm elementos fundamentais para a construção de uma
sociedade pós-capitalista, ecológica, feminista, decolonial. A bruxa queimada
na fogueira não era apenas uma vítima; era a portadora de um saber que a nova
ordem precisava destruir. A indígena assassinada na luta pela terra não é
apenas mártir; é testemunha de que é possível viver na floresta sem destruí-la.
A quilombola que lidera a ocupação de um território ameaçado não é apenas
militante; é a guardiã de uma memória de resistência que vem dos navios negreiros
e que aponta para o futuro. Reconhecer essas lutas, compreender sua
centralidade para a crítica do capitalismo contemporâneo, é tarefa urgente.
Pois o que está em jogo no neoextrativismo não é apenas a exploração de
recursos naturais ou a expropriação de comunidades. O que está em jogo é a
própria possibilidade de imaginar e construir formas de vida baseadas no comum,
na reciprocidade, no cuidado, na integração com a natureza. Os cercamentos não
terminaram. A caça às bruxas não terminou. Mas a resistência também não. E é
dessa resistência, das mulheres, dos povos indígenas, das comunidades
tradicionais, que pode vir a semente de um mundo onde a terra não seja
mercadoria, o corpo não seja máquina, a natureza não seja recurso. Um mundo
onde, enfim, possamos habitar a Terra como quem pertence a ela, e não como quem
a possui. Um ponto de partida ético e político fundamental.
Fonte:
Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário