“O
futebol brasileiro fica no Sudeste”
Quando
adentrei no ensino médio tive acesso a novas disciplinas escolares, dentre elas
a física. Meu primeiro professor de física, tentando atiçar a capacidade da
turma de pensar e também de não esquecer coisas básicas para a matéria, tinha,
dentre outros hábitos, apresentar um conjunto de pontos e a mesma pergunta:
“Qual ponto está mais distante?”. Nas primeiras aulas, no ímpeto de responder,
saíam respostas pouco refletidas e equivocadas. A resposta do professor sempre
foi a mesma: “Depende do referencial”. Passados mais de 15 anos das suas aulas,
a situação colocada por ele, como é possível observar, não foi esquecida.
Em
2025, o Clube do Remo conseguiu o acesso à primeira divisão nacional. A última
vez que a equipe disputou a elite foi em 1994, portanto, existem muitas
gerações de remistas que não viveram esse momento (incluso a pessoa que escreve
este texto). Passada a empolgação do feito e sua divulgação pela imprensa
esportiva, as atenções se voltam para “matérias-padrão”: janelas de
transferência, adivinhação dos possíveis desempenhos dos times, bastidores do
futebol e o deslocamento dos clubes pelo Brasil. No último, devido ao
rebaixamento de Ceará e Fortaleza, o Remo reina soberano: “é o time que joga
mais longe”, “é o time que mais viaja”, “é o time de descolamento mais
cansativo”.
Voltemos
então à pergunta de meu antigo professor: “Qual time está mais distante
geograficamente no Brasil?” Deixo ao próprio a resposta: “Depende do
referencial”. Para muitos jornalistas, consciente ou inconscientemente, o
centro, a referência do que é o futebol brasileiro são as regiões sul e sudeste
(principalmente essa última), e o resto é periferia, mas “alguns lugares são
mais periféricos que outros”. É justamente o caso do norte do Brasil nesta
temporada por causa do Clube do Remo, não pelo clube em si, mas pelos
“problemas de cansaço” que a viagem ao norte causa aos adversários.
Ainda
no final do ano passado, o ex-atleta Luís Fabiano “brincou” (segundo o canal
ESPN) que, na época de jogador, torcia para os “times mais distantes” serem
logo rebaixados. Coincidência ou não, o atacante, em sua primeira passagem pelo
São Paulo, precisou ir algumas vezes a Belém enfrentar o Paysandu.
Essa
mentalidade tacanha a respeito das dificuldades causada pela distância e pelo
deslocamento até o norte e mesmo até o nordeste tem suas raízes coloniais. Quem
prestou atenção às aulas de história nas escolas ou, por interesse próprio, se
aprofundou na história da formação de nosso país, sabe que por muito tempo o
território que hoje chamamos de Brasil era dividido em duas áreas de dominação
colonial, o Estado do Maranhão e o Estado do Brasil.
O
primeiro tinha como território o que hoje é a região norte e parte da região
nordeste, quanto o segundo abrangia Salvador e as regiões que hoje são o
sudeste e o sul do país. Esse sistema durou por mais de um século oficialmente,
mas na mentalidade do povo brasileiro ainda se faz presente. Um evento
histórico importante sobre a ideia de que o Brasil é o sul e o sudeste,
enquanto norte e nordeste seriam outra coisa foi a adesão do Pará a
Independência do Brasil, considerado hoje um feriado estadual, faz memória ao
fato do Pará, na época, não se reconhecer como pertencente ao Estado do Brasil
e preferir continuar sua relação com Portugal a ser submetido ao Império
Brasileiro.
Feita a
introdução, vamos ao tema central deste texto. Recentemente, foi noticiado que
o Clube do Remo estaria em negociação com um atleta inglês de relativo sucesso:
Jesse Lingard, meia-atacante inglês, com convocações de seleção no currículo,
mas que há duas temporadas atua no futebol da Coreia do Sul. Esse atleta, ao
final da temporada brasileira de futebol completará 34 anos, idade que no
futebol representa a reta final da carreira, em se tratando de jogadores de
linha.
Não
tardou a popularização da notícia, a situação logo começou a ser tratada como
uma coisa “inusitada”, “aleatória”, termos muitas vezes utilizados para tratar
de algo que é tido ao mesmo tempo como incomum e exótico. O fato de um jogador
inglês poder assinar com o Remo foi tratado por algumas matérias dessa forma,
mesmo a equipe tendo em seu elenco atualmente um jogador grego também com
passagens pela seleção nacional (talvez, pelo fato da temporada passada o time
jogar a segunda divisão, a imprensa esportiva que cobre apenas a elite do
futebol nacional desconhecia ou simplesmente ignorou o assunto).
Esse
tratamento chama ainda mais atenção, quando sabemos que cada vez mais atletas
estrangeiros atuam em nosso país. A título de informação, uma matéria publicada
no ano passado pelo portal GE dava conta de informar que no Brasil há mais de
200 atletas estrangeiros atuando nas séries A, B, C e D. Dentre esses atletas,
matéria identificou jogadores de nacionalidade portuguesa, espanhola, francesa,
sueca, belga, etc., e, lembremos também que o atual atacante da seleção
holandesa Memphis Depay está atuando no Corinthians.
Esses
dados sugerem uma nova fase do futebol brasileiro que, ao aumentar seu poder
aquisitivo tem cada vez mais se tornado um destino atrativo também para
jogadores europeus e não mais apenas para atletas sul-americanos como estávamos
habituados. É nesse contexto, e jogando em 2026 na elite do futebol brasileiro,
que o nome do inglês Jesse Lingard passou a ser viável para o Clube do Remo.
No
entanto, para um jornalista inglês que reside no Brasil desde 1994 e cobre o
futebol brasileiro para a imprensa esportiva brasileira e também estrangeira,
seria uma atitude arriscada para a carreira do jogador a possível ida para o
Remo, o motivo, quem poderia imaginar?! A “distância”, não somente geográfica,
mas também qualitativa.
Conforme
matéria, publicada em TalkSPORT, intitulada “‘Hard slog’ – Jesse Lingard warned
over shock transfer to little-known side” (“Contexto difícil” – Jesse Lingard é
alertado sobre transferência para clube pouco conhecido”, tradução livre), o
Clube do Remo está distante geograficamente e qualitativamente do centro do
futebol brasileiro que, para ele, é o sudeste do Brasil, o “heartland” (centro
vital, tradução livre).
Na
matéria também é sugerido ao jogador levar as negociações com o clube em
“banho-maria” para ver se aparece uma proposta mais “atrativa” no Brasil ou em
outro lugar. “What I wonder, this is putting on my Dick Dastardly
and his snickering hound hat, because what I would do in the circumstances is
draw the negotiation out a little bit, see if anyone else comes through. “Maybe there’ll be
more Brazilian clubs… that’s what I would do in his situation” (“O que eu
penso, isto é,fantasiando-me de Dick Vigarista e empunhando o seu chapéu, já
que é o que eu faria nessa circunstância, é adiar a negociação um pouco, ver se
há o interesse de outros”. “Talvez haja mais clubes brasileiros. Enfim, eu
esperaria se estivesse em sua situação”).
O
atleta resolveu seguir o conselho do jornalista e assinou contrato com um time
da cidade de São Paulo, o Corinthians.
A fim
de reforçar o “exotismo” de uma possível ida a um clube do norte do Brasil, sem
mencionar contexto nenhum, ele cita um causo do futebol brasileiro acerca de um
atleta que ao viajar até a capital do Pará para enfrentar uma das equipes da
cidade, deu uma entrevista dizendo estar contente por jogar Belém do Pará, “a
terra em que Jesus nasceu”.
Geralmente,
esse causo é atribuído a um ex-atacante do Internacional, Valdomiro, que atuou
na década de 1970, mas se realizarmos uma rápida investigação na internet,
veremos que essa tal entrevista é atribuída a pelo menos outros dois jogadores
brasileiros e mesmo a um jogador que foi atuar por uma equipe portuguesa, o
Belenenses. No chamado “folclore do futebol”, essa é uma das inúmeras falas que
todo mundo ouviu, mas que ninguém disse.
Pergunto-me
se, caso a notícia vinculasse um clube gaúcho como Internacional ou Grêmio, ou
um clube paranaense como Coritiba ou Atlhético-PR ao atleta inglês, se haveria
essa preocupação, já que são do sul, porém, não são o “centro” do futebol
brasileiro. Provavelmente não, pois alguns lugares são mais periféricos que
outros.
Se
fosse para haver algum questionamento sobre a negociação com o atleta seria
mais coerente questionar se Jesse Lingard teria condições de disputar o
campeonato brasileiro, considerado em 2025 pela Federação Internacional de
História e Estatística do Futebol, a terceira melhor liga de futebol, atrás
apenas da Inglaterra e da Espanha e na frente de Itália, Alemanha e França,
enquanto a liga coreana, onde estava Jesse Lingard, ocupa a 38º posição, atrás
de países como Costa Rica, Chipre e Azerbaijão, lembrando ainda, a “idade
avançada” do jogador para o padrão de exigência do esporte.
Independente
da contratação de Jesse Lingard ou de qualquer outro europeu se concretizar no
Clube do Remo, o mais importante é superar esta compreensão arcaica e
excludente do futebol brasileiro e sua “distância” ou então, propor uma outra
forma de fazer o torneio nacional.
Considerando
a segunda proposta, talvez pudessem se inspirar na liga americana de basquete
em que a elite é dividida em dois grandes grupos (Conferência Leste e
Conferência Oeste), no caso brasileiro o Grupo Norte-Nordeste e o Grupo
Sul-Sudeste-Centro-Oeste para matarem a saudade da época da Colônia, mas
destinando o mesmo número de vagas em competições internacionais para cada
“conferência brasileira” com uma final entre o primeiro de cada grupo, sem o
“incômodo do norte” para o “heartland of Brazilian football” (centro vital do
futebol brasileiro), mas ainda assim, não acabaria com o “problema da
distância”, pois, como dizia meu professor, ela depende do referencial.
Fonte:
Por Manoel Vitor Barbosa Neto em A Terra é Redonda

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