Emir
Sader: Os infernos fiscais
Todos
os grandes grupos financeiros e os maiores grupos econômicos estão hoje dotados
de filiais (ou matrizes) nos chamados paraísos fiscais. Este recurso de
extraterritorialidade constitui uma dimensão de praticamente todas as
atividades econômicas dos gigantes corporativos, formando um tipo de ampla
câmara mundial de compensações, onde os diversos fluxos financeiros entram na
zona de segredo, de imposto zero ou equivalente e de liberdade relativamente a
qualquer controle efetivo.
Ladislau
Dowbor, no seu excelente livro A era do capital improdutivo, faz um ótimo
resumo do tema.
Nos
paraísos fiscais, os recursos são reconvertidos em usos diversos, repassados a
empresas com nomes e nacionalidades diferentes, lavados e formalmente limpos,
livres de qualquer pecado. Não é que tudo se torna secreto, mas com a fragmentação do fluxo
financeiro, que ressurge em outros lugares e com outros nomes, é o conjunto do
sistema que se torna opaco, incluindo-se inúmeras empresas formalmente
pertencentes a nações concretas.
O
volume de recursos em paraísos fiscais passou a ser mais conhecido desde a
crise de 2008. Com a pressão das sucessivas reuniões do G20, além de vazamentos
mais recentes, se passou a ter ordens de grandeza: são cifras da ordem de 21
trilhões a 32 trilhões de dólares em paraísos fiscais, para um PIB mundial de
73,5 trilhões. O Brasil participa de algo como 520 bilhões de dólares,
equivalente a 27% do PIB.
O
sistema impacta diretamente os processos produtivos e as políticas
macroeconômicas de âmbito nacional. Quando se pode ganhar, aplicando em
produtos financeiros e, ainda por cima, deixar de pagar impostos, qualquer
política econômica de uma nação se torna pouco realista.
O
sistema offshore cresceu com metástases em todo o globo, e surgiu um poderoso
exército de advogados, contadores e banqueiros para fazer o sistema funcionar.
Na realidade raramente o sistema acrescenta algum valor. Ao contrário, está
redistribuindo a riqueza para cima e os riscos para baixo e criando uma nova
estufa global para o crime.
A
questão dos impostos é central. Trata-se do velho truque dos preços de
transferência: os lucros são offshore, onde escapam dos impostos, e os custos
(o pagamento dos juros) são onshore, onde são deduzidos dos impostos.
A maior
parte das atividades é legal. A grande corrupção gera a sua própria legalidade,
que passa pela apropriação da política, que pode ser chamada de “captura do
Estado”. Não é ilegal ter uma conta nas Ilhas Cayman, onde a legalidade e o
secreto são completos, um lugar que busca atrair dinheiro oferecendo
facilidades politicamente estáveis para ajudar pessoas ou entidades a contornar
regras, leis e regulamentações de outras jurisdições.
Trata-se,
em grande parte, de corrupção sistêmica. No essencial, a corrupção envolve
entendidos que abusam do bem comum, em segredo e com impunidade, minando as
regras e os sistemas que promovem o interesse público, e minando a nossa
confiança nessas regras e sistemas. Nesse processo, agravam a pobreza e a
desigualdade e entrincheiram os interesses envolvidos e um poder que não presta
contas.
A base
da lei das corporações, das sociedades anônimas, é que o anonimato da
propriedade e o direito de serem tratadas como pessoas jurídicas, podendo
declarar sua sede legal onde queiram e independentemente do local efetivo das
suas atividades, teriam como contrapeso a transparência das contas. Vários
grandes bancos brasileiros, por exemplo, têm sede em paraísos fiscais.
Na
origem, as corporações tinham de cumprir um conjunto de obrigações com as
sociedades onde se situavam, e em particular de serem transparentes nos seus
negócios e pagar impostos. O imposto não é um custo para os acionistas, a ser
minimizado, mas uma distribuição para os agentes econômicos da empresa: um
retorno sobre os investimentos que as sociedades e os seus governos fizeram em
infraestruturas, educação, saúde e outros requisitos básicos para o
funcionamento da sociedade.
O
mecanismo nos atinge a todos, na injustiça dos impostos, mas também nos preços
dos produtos. A construção de monopólios secretos, por meio do descontrole
offshore parece penetrar amplamente em certos setores, por exemplo, as contas
dos nossos celulares são tão elevadas em certos países da periferia do
capitalismo.
Os
impactos são sistêmicos. As propinas contaminam e corrompem governos e os
paraísos fiscais, contaminam e corrompem o sistema financeiro global. A
realidade é que se criou um sistema que tona inviável qualquer controle
jurídico e penal da criminalidade bancária.
Praticamente
todos os grandes grupos estão com dezenas de condenações por fraude dos mais
diferentes tipos, mas em praticamente nenhum caso houve sequelas judiciais como
condenação pessoal dos responsáveis. O sistema criado envolve uma multa, acordo
judicial que libera a corporação mediante pagamento do reconhecimento de culpa.
Basta a empresa fazer, enquanto pratica a ilegalidade, uma provisão financeira
para enfrentar os prováveis custos do acordo judicial.
Quando
condenadas a pagar multas, as corporações realizam um grande espetáculo de
mudança de algumas cabeças no topo da corporação, com o inevitável anúncio de
que houve erros, mas que a empresa é saudável e que as distorções estão
corrigidas.
Os
responsáveis não só saem livres, como munidos dos bônus legalmente cabíveis, já
que não há exigência de reconhecimento de culpa. Confrontar as condenações com
as imagens dos filmes corporativos de recrutamento de jovens para atuarem nos
respectivos grupos, anunciando os elevados valores éticos, com o elenco da
criminalidade corporativa, é um exercício deprimente, mas instrutivo.
Entre
as principais praças financeiras que gerem esses recursos, estão o estado
norte-americano de Delaware, Miami e Londres. As ilhas paradisíacas, portanto,
servem de localização legal e de proteção em termos de jurisdição, fiscalidade
e informação, mas a gestão é realizada pelos grandes bancos.
Trata-se
de um gigantesco dreno que permite que os ciclos fiquem ao abrigo das
investigações. A venda a preços fictícios é feita a empresas do mesmo grupo
situadas em paraísos fiscais, para depois ser refeita a preço cheio no mercado
internacional. Os fundos não declarados apenas no Panamá envolvem mais de 250
mil empresas de todo o mundo.
Um dos
maiores paraísos fiscais é um estado dos Estados Unidos (Delaware), as Ilhas
Virgens britânicas constituem de fato território britânico. Luxemburgo está no
coração da Europa, a Suíça continua a desempenhar um papel de impacto mundial.
A
lógica da acumulação de capital mudou, conclui Ladislau Dowbor. Os recursos,
que vêm em última instância do nosso bolso, não só são reinvestidos
produtivamente nas economias, como sequer pagam impostos. Não se trata apenas
da ilegalidade da evasão fiscal e da injustiça que gera a desigualdade.
Em
termos simplesmente econômicos, de lucro, reinvestimento, geração de empregos,
consumo e mais lucros – o ciclo de reprodução de capital –, o sistema trava o
desenvolvimento. É o capitalismo improdutivo, como está no título do livro
dele.
• Desemprego na mínima histórica: mercado
de trabalho resiste à desaceleração da economia. Por Paulo Gala
Saíram
os dados de desemprego de Janeiro para Brasil. Segundo a PNAD Contínua do IBGE
— a principal pesquisa de mercado de trabalho do país, baseada em uma amostra
muito ampla, com quase 700 mil entrevistas por ano — a taxa de desemprego ficou
em 5,4%, permanecendo na mínima histórica da série.
Esse
resultado confirma análises realizadas por diferentes instituições, incluindo
estudos da FGV, indicando que o mercado de trabalho brasileiro está no nível
mais forte desde o início dos anos 1980. É importante notar que isso ocorre
mesmo em um contexto de desaceleração da atividade econômica. O PIB apresentou
crescimento muito fraco no quarto trimestre e chegou a ficar praticamente
estagnado, mas ainda não houve impacto significativo sobre o emprego. O dado do
Caged para janeiro, com criação de cerca de 112 mil vagas formais, também
aponta para um mercado de trabalho que segue relativamente resiliente.
Esse
comportamento é bastante típico do que os economistas chamam de defasagem do
mercado de trabalho em relação ao ciclo econômico. Quando a economia desacelera
ou entra em recessão, o emprego demora alguns meses para reagir. O mesmo vale
para o movimento inverso: quando a economia acelera, o mercado de trabalho
também melhora com atraso. Isso ocorre porque decisões de contratação e
demissão são estruturais e cautelosas, envolvendo custos e planejamento das
empresas. Por isso, o emprego costuma reagir com mais lentidão às mudanças no
ritmo da atividade econômica.
Hoje o
Brasil conta com aproximadamente 102,7 milhões de pessoas ocupadas. Para termos
uma referência, no auge da pandemia esse número chegou a cair para cerca de 81
milhões, uma queda brutal de mais de 20 milhões de postos de trabalho,
refletindo o choque econômico daquele período.
Outro
indicador importante é a massa salarial, que também está em nível recorde.
Quando multiplicamos o número de ocupados pelo rendimento médio, atualmente em
torno de R$ 3.652 por mês, chegamos a uma massa total de rendimentos
historicamente elevada. Durante a pandemia houve um pico temporário do
rendimento médio, mas isso ocorreu por um efeito estatístico: muitos
trabalhadores de menor renda perderam o emprego, enquanto os trabalhadores
formais — frequentemente em regime de home office — permaneceram ocupados,
elevando artificialmente a média salarial.
Há
também uma melhora gradual na taxa de informalidade, que hoje está em 37,5% da
força de trabalho, próxima da mínima da série desde 2016. Ainda assim, trata-se
de um patamar elevado. Entre os mais de 20 milhões de trabalhadores por conta
própria no Brasil — como motoristas de aplicativo ou entregadores — apenas
cerca de 15% a 20% possuem CNPJ. A grande maioria opera na informalidade. Além
disso, o número de trabalhadores formais com carteira assinada permanece abaixo
de 40 milhões, enquanto cerca de 13 a 15 milhões trabalham sem carteira.
Apesar
da melhora recente, o nível médio de renda no Brasil continua baixo. O
rendimento médio mensal de R$ 3.652 está muito distante do observado em
economias avançadas, onde rendas médias podem equivaler a R$ 30 mil ou R$ 35
mil mensais. Além disso, a distribuição é bastante concentrada nas faixas
inferiores: aproximadamente 90% da população ganha até R$ 5 mil por mês, com
grande parte situada entre R$ 1.600 e R$ 4 mil mensais.
Em
resumo, os dados da PNAD mostram um mercado de trabalho ainda muito robusto,
apesar da desaceleração recente da economia. No curto prazo, esse quadro tende
a reduzir a probabilidade de cortes de juros, especialmente em um contexto de
maior incerteza internacional, como o aumento das tensões no Oriente Médio.
• Indústria cresce 1,8% em janeiro, maior
alta desde junho de 2024
A
produção industrial brasileira registrou crescimento de 1,8% em janeiro de 2026
na comparação com dezembro de 2025, recuperando parte das perdas acumuladas no
final do ano passado. O avanço marca o resultado mensal mais forte desde junho
de 2024, quando a atividade havia avançado 4,4%.
Os
dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) por meio da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) e publicados pela Agência
de Notícias do instituto. Na comparação com janeiro de 2025, a indústria
apresentou alta de 0,2%, interrompendo uma sequência de três meses de retração
registrada entre outubro e dezembro de 2025.
Apesar
da recuperação no início do ano, o nível de produção industrial ainda apresenta
distância significativa de seu pico histórico. Atualmente, o setor opera 1,8%
acima do patamar pré-pandemia, observado em fevereiro de 2020, mas permanece
15,3% abaixo do recorde registrado em maio de 2011.
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Produtos químicos e automóveis lideram expansão
O
crescimento de janeiro foi sustentado por um avanço disseminado entre os
segmentos industriais. Houve resultados positivos em 19 das 25 atividades
pesquisadas e nas quatro grandes categorias econômicas, algo que não ocorria
desde junho de 2024.
Entre
os setores com maior impacto no resultado geral estão produtos químicos, que
avançaram 6,2%, veículos automotores, reboques e carrocerias, com alta de 6,3%,
e coque, derivados do petróleo e biocombustíveis, que cresceram 2,0%.
No caso
da indústria química, o desempenho foi impulsionado principalmente pela
produção de adubos e fertilizantes, herbicidas e fungicidas, insumos fortemente
ligados ao setor agrícola. Já no segmento automotivo, destacaram-se a produção
de caminhões e autopeças.
Outras
atividades que também contribuíram para o avanço da indústria foram indústrias
extrativas (1,2%), metalurgia (4,1%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos
(6,5%), bebidas (4,1%), produtos de metal (2,3%) e equipamentos de informática,
eletrônicos e ópticos (3,3%).
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Juros altos ainda limitam recuperação industrial
Segundo
André Macedo, gerente da Pesquisa Industrial Mensal, parte da recuperação
observada em janeiro também reflete a retomada da produção após uma queda
significativa registrada no fim de 2025.
“Naquele
mês, além do movimento de menor dinamismo que vinha caracterizando o setor
industrial, observou-se também uma maior frequência de férias coletivas. Com a
retomada das atividades produtivas no início do ano, ocorre uma recuperação de
parte dessa perda”.
O
especialista também ressalta que o avanço ainda não compensa integralmente as
perdas recentes e que a política monetária restritiva segue impactando o setor.
“O
avanço registrado em janeiro de 2026 é relevante, mas ainda não é suficiente
para compensar integralmente a perda acumulada no final do ano passado, de
setembro a dezembro, permanecendo um saldo negativo de 0,8%”.
Entre
os segmentos que apresentaram desempenho negativo, o destaque foi máquinas e
equipamentos, que recuou 6,7% no mês e acumulou perda de 11,8% em dois meses
consecutivos de queda. De acordo com Macedo, o resultado está associado à
redução nos investimentos em bens de capital, especialmente aqueles voltados à
indústria e ao setor agrícola.
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Bens de consumo duráveis registram maior avanço
Considerando
as grandes categorias econômicas, o melhor desempenho em janeiro foi observado
em bens de consumo duráveis, que cresceram 6,3% e recuperaram parte da retração
acumulada nos dois últimos meses de 2025, quando haviam caído 7,7%.
Também
registraram crescimento bens de capital (2,0%), interrompendo dois meses
seguidos de queda, bens intermediários (1,7%), que voltaram a avançar após
quatro meses de retração, e bens de consumo semi e não duráveis (1,2%),
revertendo a queda de dezembro.
Fonte:
A Terra é Redonda/Brasil 247

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