sábado, 7 de março de 2026

O martírio de Khamenei e a Revolução que nenhum império poderá destruir

O martírio do Imam Seyyed Ali Khamenei não representa o fim de uma era, mas a transformação da Revolução Islâmica em um movimento ainda mais profundo, política e espiritualmente irreversível. 

Ao ser assassinado em um ataque dos Estados Unidos e de Israel, o Líder Supremo da República Islâmica não foi eliminado como dirigente político, mas foi elevado à condição de mártir, inserindo sua morte na longa tradição de sacrifício que marca a história do Islã e particularmente do xiismo.

Na tradição islâmica, especialmente na consciência histórica do xiismo, o martírio não representa derrota. Ao contrário, constitui a forma suprema de fidelidade ao pacto com Deus. 

Desde Karbala, quando o Imam Hussein tombou diante do poder injusto, o martírio tornou-se um princípio fundador da resistência. A morte de Khamenei inscreve-se nessa continuidade histórica; a de um líder que atravessou décadas de luta contra o imperialismo e o sionismo e que morreu como testemunha de uma causa que ultrapassa sua própria vida.

Durante quase quatro décadas como Líder Supremo, desde 1989, Khamenei representou a continuidade da Revolução Islâmica fundada pelo Imam Khomeini. Seu papel foi singular. Como autoridade religiosa e política máxima do país, exercia influência decisiva sobre as grandes orientações do Estado, incluindo a política externa, as forças armadas e a supervisão das instituições centrais da República Islâmica.

Embora frequentemente retratado no Ocidente como um governante absoluto, o sistema político iraniano possui uma estrutura institucional complexa, com parlamento, presidência e órgãos religiosos de supervisão. O Líder Supremo atua como guardião das diretrizes fundamentais da Revolução e da lei islâmica, garantindo a continuidade do projeto revolucionário.

Os estrategistas que planejaram sua eliminação provavelmente esperavam provocar desorganização interna, divisões políticas e talvez mesmo o colapso do sistema. No entanto, os sinais apontam para o efeito inverso. 

A morte do Líder Supremo provocou uma profunda comoção nacional e levou autoridades iranianas a declarar a necessidade de vingança e defesa da soberania do país, sinalizando que o assassinato poderá intensificar o confronto regional.

O assassinato covarde do Imam Khamenei marca, portanto, um ponto de ruptura. Diferentemente de outras figuras da resistência, como comandantes militares ou dirigentes políticos, Khamenei era percebido por milhões de iranianos como um guia espiritual. 

Sua figura ultrapassava o campo da política cotidiana. Ele encarnava a continuidade histórica da Revolução Islâmica e a ligação entre religião, soberania nacional e resistência contra a dominação estrangeira.

Por essa razão, sua morte tende a produzir um efeito paradoxal. Aquilo que seus inimigos imaginaram como um golpe decisivo contra a República Islâmica pode converter-se em um poderoso fator de mobilização. 

A história mostra que revoluções raramente desaparecem com a morte de seus líderes. Frequentemente tornam-se ainda mais intensas. A própria Revolução Islâmica nasceu do martírio de milhares de iranianos que tombaram durante a luta contra o regime do Xá Reza Pahlavi.

Nesse sentido, o martírio de Khamenei pode ser comparado ao assassinato do general Qassem Soleimani em 2020, que provocou uma mobilização popular sem precedentes. 

Contudo, existe uma diferença essencial. Soleimani era um comandante militar envolvido diretamente em operações de guerra. Khamenei era a autoridade religiosa máxima do país. Sua morte é percebida por muitos iranianos não apenas como um ato de agressão política, mas como uma profanação espiritual.

Essa dimensão religiosa é fundamental para compreender o momento histórico atual. Na cosmovisão xiita, a história não é apenas um processo político, mas um caminho espiritual orientado pela justiça divina. 

A expectativa da vinda do Imam Mahdi, o guia prometido que restaurará a justiça no mundo, constitui parte dessa visão histórica. O martírio dos líderes fiéis ao pacto com Deus é interpretado como sinal de perseverança e preparação para essa justiça futura.

Assim, longe de enfraquecer a Revolução Islâmica, o assassinato do Imam Khamenei tende a reforçar seu caráter espiritual. A República Islâmica não é apenas um Estado, é também uma experiência civilizacional que afirma a possibilidade de independência política e cultural diante das grandes potências.

O assassinato de Khamenei foi concebido como uma demonstração de força, mas poderá entrar para a história como o momento em que a Revolução Islâmica adquiriu uma nova legitimidade.

O próprio mecanismo de sucessão previsto pela Constituição iraniana demonstra que o sistema foi concebido para sobreviver aos indivíduos. Após a morte do Líder Supremo, um Conselho Direção Interino assumiu as funções até que a Assembleia dos Peritos escolha o novo líder religioso, assegurando a continuidade institucional.

Isso revela a realidade fundamental de que a Revolução Islâmica não depende de um homem. Ela se baseia em princípios religiosos, políticos e históricos que continuam a mobilizar milhões de pessoas dentro e fora do Irã.

O martírio do Imam Khamenei deve ser entendido, portanto, como um momento de transição histórica. Ao tombar, ele deixa de ser apenas o líder de uma revolução para tornar-se parte de sua memória sagrada. Sua morte não encerra o processo iniciado em 1979, mas tenderá à aprofundá-lo ainda mais.

Quem imaginou que a eliminação do Líder Supremo significaria o enfraquecimento do Irã talvez tenha compreendido mal a natureza da Revolução Islâmica. Revoluções baseadas apenas no poder podem desaparecer com seus dirigentes. Revoluções baseadas na fé sobrevivem aos séculos.

A morte do Imam Khamenei marca o fim de uma liderança histórica. Mas também inaugura uma nova etapa em que a Revolução Islâmica se redefine como herança espiritual, memória de sacrifício e promessa de continuidade.

¨      'Esta é uma guerra desnecessária': Americanos compartilham suas opiniões sobre os ataques dos EUA e de Israel ao Irã

Após centenas de civis e alguns militares americanos terem sido mortos na sequência do ataque de 28 de fevereiro contra o Irã, realizado pelos Estados Unidos e Israel, o jornal The Guardian perguntou aos seus leitores nos EUA qual a sua opinião sobre a mais recente ação militar no Irã.

Suas respostas foram em grande parte de desaprovação, com alguns reconhecendo que o regime iraniano precisava ser derrubado, mesmo que a um custo elevado.

“Não tenho qualquer simpatia pelos aiatolás”, disse Iraj Roshan, um cardiologista aposentado de 66 anos e cidadão americano nascido em Teerã, em entrevista ao The Guardian. “Mas essas guerras são vencidas pela narrativa.”

Roshan fugiu para a Turquia após a revolução iraniana, seguindo depois para a Áustria e, posteriormente, para os EUA, onde vive desde 1983.

Ao longo da última década, Donald Trump denunciou a intervenção militar dos EUA em outros países. Em dezembro de 2016, o então presidente eleito afirmou: “Vamos parar de correr para derrubar regimes estrangeiros sobre os quais não sabemos nada, com os quais não deveríamos nos envolver”. Durante a campanha eleitoral – em 2016, 2020 e 2024 – Trump e seus aliados se manifestaram contra a intervenção estrangeira, retratando os democratas como cúmplices da guerra. Em uma série de postagens nas redes sociais dias antes da eleição de 2024, o assessor de Trump, Stephen Miller, alertou repetidamente que uma vitória de Kamala Harris, então vice-presidente, levaria jovens a serem “recrutados para lutar” em uma “Terceira Guerra Mundial”.

Roshan argumenta que o governo dos EUA não tem uma estratégia para o Oriente Médio.

“Não vejo como esta guerra terminará de forma que os EUA possam declarar vitória sem enviar tropas terrestres ou sem armar os próprios iranianos”, disse ele.

“Detesto a ideia de que tantas crianças americanas acabem sendo arrastadas para uma guerra que não podemos vencer – pelo menos não segundo qualquer definição que possamos formular hoje.”

Meg, uma empresária de 41 anos de Bay Ridge, no Brooklyn, falou sobre os impactos do ataque em sua comunidade, que abriga a maior comunidade árabe da cidade de Nova York – aproximadamente 10% da população do bairro.

“Para muitos dos meus amigos muçulmanos, esta é a época favorita do ano”, disse Meg ao The Guardian, referindo-se ao Ramadã, que começou em 17 de fevereiro e vai até 19 de março. “Então, ter essa nova tragédia acontecendo bem no meio disso, como alguém que mora na periferia e se importa com as pessoas da minha comunidade e do meu círculo de amigos, parte meu coração.”

Meg também falou sobre os terrores persistentes que muitos de seus vizinhos enfrentaram, primeiro com a ameaça de batidas do ICE e depois com os ataques ao Irã.

“Tem sido um terror constante no meu bairro”, disse ela. “Até onde as pessoas conseguem aguentar? Quanto sofrimento precisa ser infligido a elas por motivos tão banais?”

Barb, uma conselheira de saúde mental aposentada de 74 anos que mora na Carolina do Norte, escreveu ao The Guardian: “Podemos ter certeza de que Trump iniciou esta guerra por motivos egoístas.

“Seja para ostentar seu poder, para controlar as manchetes (desviando a atenção de Epstein) ou para se entreter, esta guerra desnecessária não beneficia o povo iraniano”, continuou ela.

Enquanto muitos legisladores, cidadãos americanos e outras pessoas ao redor do mundo criticaram Trump pela intervenção desnecessária dos EUA em uma mudança de regime estrangeira, outros adotaram um tom menos crítico.

“O regime [iraniano] é algo muito controlador e horrível”, compartilhou Sriram Shanmugam, um jovem de 18 anos do Texas que se identifica como republicano, com o The Guardian. “Meu pai fugiu durante a revolução iraniana e eu também tenho muitos parentes no Oriente Médio.”

No entanto, Shanmugam reconheceu que os EUA "não estão fazendo muito para minimizar as baixas civis e que não temos um plano concreto para depois que terminarmos esta operação".

“O que substituirá o governo do Irã, e teremos tropas em solo iraniano? Existe alguma garantia de que este não será o Afeganistão ou o Iraque da nossa geração?”, perguntou ele.

Uma assistente social de 47 anos em Washington, que pediu para permanecer anônima, escreveu sobre o impacto que outra guerra terá sobre os veteranos americanos.

“Passei 15 anos trabalhando como assistente social e terapeuta, especificamente com veteranos de combate que serviram no Iraque e no Afeganistão”, disse ela. “Essas guerras transformaram milionários em bilionários e criaram uma vida inteira de dor emocional e física para aqueles que serviram.”

Ela também apontou para a miríade de problemas internos que as pessoas nos EUA estão enfrentando, incluindo uma crise de acessibilidade e menos empregos .

“As pessoas em nosso país estão sofrendo nas ruas, sem-teto, sem plano de saúde, sem esperança”, escreveu ela. “E é nisso que o governo concentra seu dinheiro e sua energia?”

¨      Estadunidenses não engolem salada de justificativas de Trump; só 1 em 4 apoia agressão ao Irã

Quantos estadunidenses apoiam os ataques aéreos contra o Irã ordenados pelo presidente Donald Trump no último fim de semana? Acham que eles deveriam continuar? Quão preocupados estão com uma guerra em grande escala contra o país? O Washington Post enviou uma mensagem de texto a 1.003 estadunidenses no domingo (1º) para fazer essas perguntas. A sondagem rápida revelou que mais americanos se opõem aos ataques do que os apoiam.

Com os ataques ao Irã, os países do Golfo estão pagando o preço de sua aliança com os Estados Unidos. Desde o início do conflito, na manhã de sábado (28), o Irã parece ter ampliado seus alvos, passando de objetivos estritamente militares — como o quartel-general da Quinta Frota da Marinha dos EUA, no Bahrein — para aeroportos e outras instalações civis. Em Teerã, autoridades advertiram que o país “não permanecerá em silêncio”, enquanto o fogo cruzado se intensifica. Israel reconheceu falhas em seu esquema de segurança. Além disso, o Hezbollah lançou mísseis e drones contra Israel a partir do Líbano. Também há relatos de explosões em cidades da Arábia Saudita, Catar e Bahrein.

Hotéis de luxo, centros comerciais, arranha-céus e terminais de embarque de aeroportos ultramodernos tornaram-se alvos de ataques esporádicos, à medida que surgem brechas nas defesas aéreas dos Estados árabes do Golfo Pérsico. Evidentemente, esses locais nunca foram projetados sob a perspectiva de que um dia seriam atingidos por drones e mísseis balísticos.

E, como se o que ocorreu no sábado (28) não bastasse, Trump voltou a ameaçar o Irã. “A grande onda de ataques nem sequer começou”, afirmou em entrevista, após anunciar que a ofensiva contra Teerã poderia durar quatro semanas. Nas primeiras 48 horas, já foram denunciadas mais de 550 mortes no Irã em decorrência dos ataques dos EUA e de Israel, enquanto os mortos pelas represálias da República Islâmica superam 30 em todo o Oriente Médio.

A percepção sobre os objetivos de Trump varia consideravelmente, embora uma clara maioria afirme que sua administração não os explicou com clareza. Ainda assim, cerca de metade dos entrevistados acredita que as ações das Forças Armadas dos EUA contribuirão para a segurança do país no longo prazo. Trump enfrenta, assim, um novo revés após ter iniciado a guerra contra o Irã ao lado de Israel.

O governo dos Estados Unidos justificou sua ofensiva militar como uma ação destinada a conter o programa nuclear iraniano, enfraquecer sua capacidade militar e garantir a segurança de Israel, em meio à escalada de tensões no Oriente Médio. A operação conjunta com Israel — seu aliado na guerra em Gaza — ocorreu em meio a negociações nucleares sabotadas e em um contexto de crescente pressão política e militar sobre o governo iraniano.

Posteriormente, em entrevista ao jornal The New York Post, Trump afirmou que decidiu bombardear o Irã junto a Israel porque, segundo ele, a República Islâmica estaria enriquecendo urânio secretamente, passo necessário para produzir uma arma nuclear. “Queriam fabricar uma arma nuclear, então os destruímos completamente”, declarou. Ao explicar por que interrompeu o processo de negociação do qual os Estados Unidos participavam, acrescentou: “Descobrimos que estavam trabalhando em uma área totalmente diferente… então simplesmente chegou o momento. Eu disse: ‘Vamos’”.

Mas poucos compreenderam suas explicações — menos ainda as do secretário de Estado, Marco Rubio. Ele afirmou que os Estados Unidos atacaram o Irã “preventivamente” no sábado (28) para proteger suas forças de possíveis represálias, após saberem que Israel realizaria um ataque. “Havia uma ameaça iminente. E a ameaça iminente era que sabíamos que, se o Irã fosse atacado — e acreditávamos que seria —, eles nos atingiriam imediatamente. E não ficaríamos de braços cruzados sem responder. Sabíamos que, se não os atingíssemos preventivamente antes que lançassem esses ataques, sofreríamos mais baixas”, disse, em uma justificativa que soou, para muitos, como a lógica de um jogo de computador.

Se, na semana anterior, antes do discurso sobre o Estado da União, as pesquisas já indicavam que o índice de impopularidade de Trump chegava a 60%, o início dos ataques no Oriente Médio ampliou a rejeição. Segundo uma nova pesquisa da Reuters/Ipsos, apenas um em cada quatro estadunidenses apoia os ataques dos EUA ao Irã. A sondagem foi iniciada no sábado (28), após o começo da operação conjunta com Israel, batizada de Fúria Épica.

De acordo com o levantamento, 27% dos entrevistados aprovam os ataques, enquanto 43% os desaprovam e 29% se declaram indecisos. A pesquisa também mostrou que 56% dos estadunidenses consideram que Trump — que nos últimos meses também ordenou ataques na Venezuela, Síria e Nigéria — está excessivamente disposto a recorrer à força militar para promover os interesses do país. Entre os democratas, 87% compartilham dessa avaliação.

O relatório da Reuters/Ipsos indica ainda que apenas 55% dos republicanos apoiam os ataques, e que esse número cairia para 42% caso a ofensiva resulte em baixas americanas. Além disso, 52% se opõem a que Trump ordene ataques aéreos contra o Irã, contra 39% que são favoráveis; 9% dizem não saber. Os opositores demonstram posição mais firme: cerca de quatro em cada dez se declaram fortemente contrários aos ataques, enquanto pouco mais de dois em cada dez afirmam apoiá-los com convicção.

O presidente iraniano, Masud Pezeshkian, assegurou que seu país não permanecerá “em silêncio” após denunciar os ataques de EUA e Israel contra uma escola e um hospital. “Os ataques contra hospitais atentam contra a própria vida. Os ataques contra escolas atentam contra o futuro da nação (…) O mundo deve condenar esses atos”, escreveu Pezeshkian. “O Irã não permanecerá em silêncio e não cederá diante desses crimes”, acrescentou. O líder iraniano se referiu ao bombardeio realizado no sábado (28), que provocou 168 mortes em uma escola infantil feminina em Minab, no sul do país.

A República Islâmica do Irã enfrenta o que analistas descrevem como uma prova existencial, depois que Estados Unidos e Israel lançaram uma ampla campanha militar e mataram seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Oito meses após a Guerra dos 12 dias entre Irã e Israel, em junho de 2025, forças estadunidenses e israelenses realizaram uma operação conjunta, com ataques contra alvos militares e do regime iraniano.

 

Fonte: Opera Mundi/The Guardian/Estratagia.la

 

 

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