O
martírio de Khamenei e a Revolução que nenhum império poderá destruir
O
martírio do Imam Seyyed Ali Khamenei não representa o fim de uma era, mas a
transformação da Revolução Islâmica em um movimento ainda mais profundo,
política e espiritualmente irreversível.
Ao ser
assassinado em um ataque dos Estados Unidos e de Israel, o Líder Supremo da
República Islâmica não foi eliminado como dirigente político, mas foi elevado à
condição de mártir, inserindo sua morte na longa tradição de sacrifício que
marca a história do Islã e particularmente do xiismo.
Na
tradição islâmica, especialmente na consciência histórica do xiismo, o martírio
não representa derrota. Ao contrário, constitui a forma suprema de fidelidade
ao pacto com Deus.
Desde
Karbala, quando o Imam Hussein tombou diante do poder injusto, o martírio
tornou-se um princípio fundador da resistência. A morte de Khamenei inscreve-se
nessa continuidade histórica; a de um líder que atravessou décadas de luta
contra o imperialismo e o sionismo e que morreu como testemunha de uma causa
que ultrapassa sua própria vida.
Durante
quase quatro décadas como Líder Supremo, desde 1989, Khamenei representou a
continuidade da Revolução Islâmica fundada pelo Imam Khomeini. Seu papel foi
singular. Como autoridade religiosa e política máxima do país, exercia
influência decisiva sobre as grandes orientações do Estado, incluindo a
política externa, as forças armadas e a supervisão das instituições centrais da
República Islâmica.
Embora
frequentemente retratado no Ocidente como um governante absoluto, o sistema
político iraniano possui uma estrutura institucional complexa, com parlamento,
presidência e órgãos religiosos de supervisão. O Líder Supremo atua como
guardião das diretrizes fundamentais da Revolução e da lei islâmica, garantindo
a continuidade do projeto revolucionário.
Os
estrategistas que planejaram sua eliminação provavelmente esperavam provocar
desorganização interna, divisões políticas e talvez mesmo o colapso do sistema.
No entanto, os sinais apontam para o efeito inverso.
A morte
do Líder Supremo provocou uma profunda comoção nacional e levou autoridades
iranianas a declarar a necessidade de vingança e defesa da soberania do país,
sinalizando que o assassinato poderá intensificar o confronto regional.
O
assassinato covarde do Imam Khamenei marca, portanto, um ponto de ruptura.
Diferentemente de outras figuras da resistência, como comandantes militares ou
dirigentes políticos, Khamenei era percebido por milhões de iranianos como um
guia espiritual.
Sua
figura ultrapassava o campo da política cotidiana. Ele encarnava a continuidade
histórica da Revolução Islâmica e a ligação entre religião, soberania nacional
e resistência contra a dominação estrangeira.
Por
essa razão, sua morte tende a produzir um efeito paradoxal. Aquilo que seus
inimigos imaginaram como um golpe decisivo contra a República Islâmica pode
converter-se em um poderoso fator de mobilização.
A
história mostra que revoluções raramente desaparecem com a morte de seus
líderes. Frequentemente tornam-se ainda mais intensas. A própria Revolução
Islâmica nasceu do martírio de milhares de iranianos que tombaram durante a
luta contra o regime do Xá Reza Pahlavi.
Nesse
sentido, o martírio de Khamenei pode ser comparado ao assassinato do general
Qassem Soleimani em 2020, que provocou uma mobilização popular sem
precedentes.
Contudo,
existe uma diferença essencial. Soleimani era um comandante militar envolvido
diretamente em operações de guerra. Khamenei era a autoridade religiosa máxima
do país. Sua morte é percebida por muitos iranianos não apenas como um ato de
agressão política, mas como uma profanação espiritual.
Essa
dimensão religiosa é fundamental para compreender o momento histórico atual. Na
cosmovisão xiita, a história não é apenas um processo político, mas um caminho
espiritual orientado pela justiça divina.
A
expectativa da vinda do Imam Mahdi, o guia prometido que restaurará a justiça
no mundo, constitui parte dessa visão histórica. O martírio dos líderes fiéis
ao pacto com Deus é interpretado como sinal de perseverança e preparação para
essa justiça futura.
Assim,
longe de enfraquecer a Revolução Islâmica, o assassinato do Imam Khamenei tende
a reforçar seu caráter espiritual. A República Islâmica não é apenas um Estado,
é também uma experiência civilizacional que afirma a possibilidade de
independência política e cultural diante das grandes potências.
O
assassinato de Khamenei foi concebido como uma demonstração de força, mas
poderá entrar para a história como o momento em que a Revolução Islâmica
adquiriu uma nova legitimidade.
O
próprio mecanismo de sucessão previsto pela Constituição iraniana demonstra que
o sistema foi concebido para sobreviver aos indivíduos. Após a morte do Líder
Supremo, um Conselho Direção Interino assumiu as funções até que a Assembleia
dos Peritos escolha o novo líder religioso, assegurando a continuidade
institucional.
Isso
revela a realidade fundamental de que a Revolução Islâmica não depende de um
homem. Ela se baseia em princípios religiosos, políticos e históricos que
continuam a mobilizar milhões de pessoas dentro e fora do Irã.
O
martírio do Imam Khamenei deve ser entendido, portanto, como um momento de
transição histórica. Ao tombar, ele deixa de ser apenas o líder de uma
revolução para tornar-se parte de sua memória sagrada. Sua morte não encerra o
processo iniciado em 1979, mas tenderá à aprofundá-lo ainda mais.
Quem
imaginou que a eliminação do Líder Supremo significaria o enfraquecimento do
Irã talvez tenha compreendido mal a natureza da Revolução Islâmica. Revoluções
baseadas apenas no poder podem desaparecer com seus dirigentes. Revoluções
baseadas na fé sobrevivem aos séculos.
A morte
do Imam Khamenei marca o fim de uma liderança histórica. Mas também inaugura
uma nova etapa em que a Revolução Islâmica se redefine como herança espiritual,
memória de sacrifício e promessa de continuidade.
¨
'Esta é uma guerra desnecessária': Americanos
compartilham suas opiniões sobre os ataques dos EUA e de Israel ao Irã
Após centenas de civis e alguns
militares americanos terem sido mortos na sequência do
ataque de 28 de fevereiro contra o Irã, realizado pelos Estados Unidos e
Israel, o jornal The Guardian perguntou aos seus leitores nos EUA qual a sua
opinião sobre a mais recente ação militar no Irã.
Suas
respostas foram em grande parte de desaprovação, com alguns reconhecendo que o
regime iraniano precisava ser derrubado, mesmo que a um custo elevado.
“Não
tenho qualquer simpatia pelos aiatolás”, disse Iraj Roshan, um cardiologista
aposentado de 66 anos e cidadão americano nascido em Teerã, em entrevista ao
The Guardian. “Mas essas guerras são vencidas pela narrativa.”
Roshan
fugiu para a Turquia após a revolução iraniana, seguindo depois para a Áustria
e, posteriormente, para os EUA, onde vive desde 1983.
Ao
longo da última década, Donald Trump denunciou a intervenção militar dos EUA em
outros países. Em dezembro de 2016, o então presidente eleito afirmou: “Vamos
parar de correr para derrubar regimes estrangeiros sobre os quais não sabemos
nada, com os quais não deveríamos nos envolver”. Durante a campanha eleitoral –
em 2016, 2020 e 2024 – Trump e seus aliados se manifestaram contra a
intervenção estrangeira, retratando os democratas como cúmplices da guerra. Em
uma série de postagens nas redes sociais dias antes da
eleição de 2024, o assessor de Trump, Stephen Miller, alertou repetidamente que
uma vitória de Kamala Harris, então vice-presidente, levaria jovens a serem
“recrutados para lutar” em uma “Terceira Guerra Mundial”.
Roshan
argumenta que o governo dos EUA não tem uma estratégia para o Oriente Médio.
“Não
vejo como esta guerra terminará de forma que os EUA possam declarar vitória sem
enviar tropas terrestres ou sem armar os próprios iranianos”, disse ele.
“Detesto
a ideia de que tantas crianças americanas acabem sendo arrastadas para uma
guerra que não podemos vencer – pelo menos não segundo qualquer definição que
possamos formular hoje.”
Meg,
uma empresária de 41 anos de Bay Ridge, no Brooklyn, falou sobre os impactos do
ataque em sua comunidade, que abriga a maior comunidade árabe da cidade de Nova
York – aproximadamente 10% da população do bairro.
“Para
muitos dos meus amigos muçulmanos, esta é a época favorita do ano”, disse Meg
ao The Guardian, referindo-se ao Ramadã, que começou em 17 de fevereiro e vai
até 19 de março. “Então, ter essa nova tragédia acontecendo bem no meio disso,
como alguém que mora na periferia e se importa com as pessoas da minha
comunidade e do meu círculo de amigos, parte meu coração.”
Meg
também falou sobre os terrores persistentes que muitos de seus vizinhos
enfrentaram, primeiro com a ameaça de batidas do ICE e depois com os
ataques ao Irã.
“Tem
sido um terror constante no meu bairro”, disse ela. “Até onde as pessoas
conseguem aguentar? Quanto sofrimento precisa ser infligido a elas por motivos
tão banais?”
Barb,
uma conselheira de saúde mental aposentada de 74 anos que mora na Carolina do
Norte, escreveu ao The Guardian: “Podemos ter certeza de que Trump iniciou esta
guerra por motivos egoístas.
“Seja
para ostentar seu poder, para controlar as manchetes (desviando a atenção de
Epstein) ou para se entreter, esta guerra desnecessária não beneficia o povo
iraniano”, continuou ela.
Enquanto
muitos legisladores, cidadãos americanos e outras pessoas ao redor do mundo
criticaram Trump pela intervenção desnecessária dos EUA em uma mudança de
regime estrangeira, outros adotaram um tom menos crítico.
“O
regime [iraniano] é algo muito controlador e horrível”, compartilhou Sriram
Shanmugam, um jovem de 18 anos do Texas que se identifica como republicano, com
o The Guardian. “Meu pai fugiu durante a revolução iraniana e eu também tenho
muitos parentes no Oriente Médio.”
No
entanto, Shanmugam reconheceu que os EUA "não estão fazendo muito para
minimizar as baixas civis e que não temos um plano concreto para depois que
terminarmos esta operação".
“O que
substituirá o governo do Irã, e teremos tropas em solo iraniano? Existe alguma
garantia de que este não será o Afeganistão ou o Iraque da nossa geração?”,
perguntou ele.
Uma
assistente social de 47 anos em Washington, que pediu para permanecer anônima,
escreveu sobre o impacto que outra guerra terá sobre os veteranos americanos.
“Passei
15 anos trabalhando como assistente social e terapeuta, especificamente com
veteranos de combate que serviram no Iraque e no Afeganistão”, disse ela.
“Essas guerras transformaram milionários em bilionários e criaram uma vida
inteira de dor emocional e física para aqueles que serviram.”
Ela
também apontou para a miríade de problemas internos que as pessoas nos EUA
estão enfrentando, incluindo uma crise de acessibilidade e menos empregos .
“As
pessoas em nosso país estão sofrendo nas ruas, sem-teto, sem plano de saúde,
sem esperança”, escreveu ela. “E é nisso que o governo concentra seu dinheiro e
sua energia?”
¨ Estadunidenses não
engolem salada de justificativas de Trump; só 1 em 4 apoia agressão ao Irã
Quantos
estadunidenses apoiam os ataques aéreos contra o Irã ordenados pelo presidente Donald
Trump no último fim de semana? Acham que eles deveriam continuar? Quão
preocupados estão com uma guerra em grande escala contra o país? O Washington
Post enviou uma mensagem de texto a 1.003 estadunidenses no domingo
(1º) para fazer essas perguntas. A sondagem rápida revelou que mais americanos
se opõem aos ataques do que os apoiam.
Com os
ataques ao Irã, os países do Golfo estão pagando o preço de sua aliança com os
Estados Unidos. Desde o início do conflito, na manhã de sábado (28), o Irã
parece ter ampliado seus alvos, passando de objetivos estritamente militares —
como o quartel-general da Quinta Frota da Marinha dos EUA, no Bahrein — para
aeroportos e outras instalações civis. Em Teerã, autoridades advertiram que o
país “não permanecerá em silêncio”, enquanto o fogo cruzado se intensifica.
Israel reconheceu falhas em seu esquema de segurança. Além disso, o Hezbollah
lançou mísseis e drones contra Israel a partir do Líbano. Também há relatos de
explosões em cidades da Arábia Saudita, Catar e Bahrein.
Hotéis
de luxo, centros comerciais, arranha-céus e terminais de embarque de aeroportos
ultramodernos tornaram-se alvos de ataques esporádicos, à medida que surgem
brechas nas defesas aéreas dos Estados árabes do Golfo Pérsico. Evidentemente,
esses locais nunca foram projetados sob a perspectiva de que um dia seriam
atingidos por drones e mísseis balísticos.
E, como
se o que ocorreu no sábado (28) não bastasse, Trump voltou a ameaçar o Irã. “A
grande onda de ataques nem sequer começou”, afirmou em entrevista, após
anunciar que a ofensiva contra Teerã poderia durar quatro semanas. Nas
primeiras 48 horas, já foram denunciadas mais de 550 mortes no Irã em
decorrência dos ataques dos EUA e de Israel, enquanto os mortos pelas
represálias da República Islâmica superam 30 em todo o Oriente Médio.
A
percepção sobre os objetivos de Trump varia consideravelmente, embora uma clara
maioria afirme que sua administração não os explicou com clareza. Ainda assim,
cerca de metade dos entrevistados acredita que as ações das Forças Armadas dos
EUA contribuirão para a segurança do país no longo prazo. Trump enfrenta,
assim, um novo revés após ter iniciado a guerra contra o Irã ao lado de Israel.
O
governo dos Estados Unidos justificou sua ofensiva militar como uma ação
destinada a conter o programa nuclear iraniano, enfraquecer sua capacidade
militar e garantir a segurança de Israel, em meio à escalada de tensões no
Oriente Médio. A operação conjunta com Israel — seu aliado na guerra em Gaza —
ocorreu em meio a negociações nucleares sabotadas e em um contexto de crescente
pressão política e militar sobre o governo iraniano.
Posteriormente,
em entrevista ao jornal The New York Post, Trump afirmou que
decidiu bombardear o Irã junto a Israel porque, segundo ele, a República
Islâmica estaria enriquecendo urânio secretamente, passo necessário para
produzir uma arma nuclear. “Queriam fabricar uma arma nuclear, então os
destruímos completamente”, declarou. Ao explicar por que interrompeu o processo
de negociação do qual os Estados Unidos participavam, acrescentou: “Descobrimos
que estavam trabalhando em uma área totalmente diferente… então simplesmente
chegou o momento. Eu disse: ‘Vamos’”.
Mas
poucos compreenderam suas explicações — menos ainda as do secretário de Estado,
Marco Rubio. Ele afirmou que os Estados Unidos atacaram o Irã “preventivamente”
no sábado (28) para proteger suas forças de possíveis represálias, após saberem
que Israel realizaria um ataque. “Havia uma ameaça iminente. E a ameaça
iminente era que sabíamos que, se o Irã fosse atacado — e acreditávamos que
seria —, eles nos atingiriam imediatamente. E não ficaríamos de braços cruzados
sem responder. Sabíamos que, se não os atingíssemos preventivamente antes que
lançassem esses ataques, sofreríamos mais baixas”, disse, em uma justificativa
que soou, para muitos, como a lógica de um jogo de computador.
Se, na
semana anterior, antes do discurso sobre o Estado da União, as pesquisas já
indicavam que o índice de impopularidade de Trump chegava a 60%, o início dos
ataques no Oriente Médio ampliou a rejeição. Segundo uma nova pesquisa da
Reuters/Ipsos, apenas um em cada quatro estadunidenses apoia os ataques
dos EUA ao Irã. A sondagem foi iniciada no sábado (28), após o começo da
operação conjunta com Israel, batizada de Fúria Épica.
De
acordo com o levantamento, 27% dos entrevistados aprovam os ataques, enquanto
43% os desaprovam e 29% se declaram indecisos. A pesquisa também mostrou que
56% dos estadunidenses consideram que Trump — que nos últimos meses também
ordenou ataques na Venezuela, Síria e Nigéria — está excessivamente disposto a
recorrer à força militar para promover os interesses do país. Entre os
democratas, 87% compartilham dessa avaliação.
O relatório da
Reuters/Ipsos indica
ainda que apenas 55% dos republicanos apoiam os ataques, e que esse número
cairia para 42% caso a ofensiva resulte em baixas americanas. Além disso, 52%
se opõem a que Trump ordene ataques aéreos contra o Irã, contra 39% que são
favoráveis; 9% dizem não saber. Os opositores demonstram posição mais firme:
cerca de quatro em cada dez se declaram fortemente contrários aos ataques,
enquanto pouco mais de dois em cada dez afirmam apoiá-los com convicção.
O
presidente iraniano, Masud Pezeshkian, assegurou que seu país não permanecerá
“em silêncio” após denunciar os ataques de EUA e Israel contra uma escola e um
hospital. “Os ataques contra hospitais atentam contra a própria vida. Os
ataques contra escolas atentam contra o futuro da nação (…) O mundo deve
condenar esses atos”, escreveu Pezeshkian. “O Irã não permanecerá em silêncio e
não cederá diante desses crimes”, acrescentou. O líder iraniano se referiu ao
bombardeio realizado no sábado (28), que provocou 168 mortes em uma escola
infantil feminina em Minab, no sul do país.
A
República Islâmica do Irã enfrenta o que analistas descrevem como uma prova
existencial, depois que Estados Unidos e Israel lançaram uma ampla campanha
militar e mataram seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Oito meses após a
Guerra dos 12 dias entre Irã e Israel, em junho de 2025, forças estadunidenses
e israelenses realizaram uma operação conjunta, com ataques contra alvos
militares e do regime iraniano.
Fonte:
Opera Mundi/The Guardian/Estratagia.la

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