Ex-sócio de Nikolas Ferreira, vereador do PL aparece em lista de contatos de Daniel Vorcaro
O
vereador Pablo ALmeida, do PL, eleito em 2024 como o mais votado de Belo
Horizonte e aliado próximo do deputado federal Nikolas Ferreira, também do PL,
aparece na lista de contatos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, segundo
documentos enviados pela Polícia Federal à CPMI do INSS.
O
material reúne dados extraídos do aparelho de Vorcaro, preso pela Polícia
Federal nesta semana em meio às investigações sobre as fraudes cometidas na
gestão do Banco Master, e inclui números de parlamentares e diversas pessoas
ligadas ao meio político.
O
telefone associado a Almeida foi identificado a partir do nome registrado no
celular do banqueiro: “Pablo Almeida Assessor Nikolas”. O Intercept Brasil
confirmou que trata-se de Pablo Almeida ao verificar que o número aparece
vinculado a uma chave Pix em nome do vereador.
Nos
registros extraídos do celular de Vorcaro, Almeida aparece identificado como
assessor, embora atualmente exerça mandato como vereador em Belo Horizonte.
Antes de ser eleito, em 2024, ele trabalhou por cerca de um ano e meio na
Câmara dos Deputados, período em que atuou como assessor parlamentar no
gabinete de Nikolas.
O
histórico pode indicar que o contato foi registrado no aparelho do banqueiro
antes da eleição municipal de 2024, quando Almeida ainda não ocupava cargo
eletivo e atuava nos bastidores da articulação política de Nikolas.
Almeida
integra o círculo político mais próximo de Nikolas. Além de atuar como aliado
do deputado mineiro, ele foi sócio de Nikolas Ferreira na empresa Destra Cursos
Ltda., uma plataforma de cursos online, entre abril de 2023 e julho de 2024.
Desde
que foi eleito, com 39.960 votos, Almeida tem se destacado por ser uma das
principais vozes da extrema direita na Câmara Municipal de Belo Horizonte. Em
2025, foi acusado por adversários de proferir uma fala considerada transfóbica
contra a vereadora Juhlia Santos, do PSOL, durante a discussão de um projeto
relacionado ao uso da Bíblia em escolas.
A
presença de um aliado de Nikolas entre os contatos surge em meio às
repercussões sobre a relação do deputado federal com Vorcaro.
Na
terça-feira, 4, uma reportagem publicada pela colunista Malu Gaspar no jornal O
Globo revelou que Nikolas utilizou um jatinho de uma empresa de Daniel Vorcaro
durante a campanha de 2022, quando participou de agendas em apoio ao então
presidente Jair Bolsonaro.
Em pelo
menos uma dessas viagens, Almeida esteve presente ao lado de Nikolas. Na
transmissão de um evento que ocorreu na sede da Assembleia de Deus da cidade de
Imperatriz, no Maranhão, em 24 de outubro de 2022, por exemplo, ele apareceu em
cima do palco ao lado do recém-eleito deputado federal.
Nikolas
afirmou, em resposta à reportagem d’O Globo, que não sabia quem era o
proprietário da aeronave na ocasião. “Eu, por exemplo, faço palestras no Brasil
inteiro. Imagina se eu responder por cada crime que uma outra pessoa cometeu só
porque eu usei o avião dela pra poder ir fazer algo”, disse, em vídeo publicado
nas redes sociais.
De
acordo com reportagem publicada no site ICL Notícias, dados extraídos do
celular do banqueiro também indicam que ao menos 18 deputados e ex-deputados
federais aparecem na agenda do aparelho, todos ligados a partidos de direita e
ao campo bolsonarista. Entre eles, o próprio Nikolas Ferreira.
A lista
completa inclui: Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), Altineu Côrtes (PL-RJ), Arthur Lira
(PP-AL), Bilac Pinto (União Brasil-MG), Diego Coronel (PSD-BA), Doutor Luizinho
(PP-RJ), Fábio Mitidieri (PSD-SE), Fausto Pinato (PP-SP), Flávia Arruda
(PL-DF), Hugo Motta (Republicanos-PB), João Carlos Bacelar (PL-BA), Lucas
Gonzalez (Novo-MG), Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG), Márcio Marinho
(Republicanos-BA), Nikolas Ferreira (PL-MG), Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), Rodrigo
Maia (PSD-RJ) e Vinicius Poit (Novo-SP).
Procurado
pela reportagem, Almeida não respondeu até o momento da publicação. O Intercept
enviou perguntas ao vereador questionando se ele conhece ou já manteve contato
com Daniel Vorcaro e se ele participou de viagens ou agendas políticas em que
aeronaves ligadas ao empresário tenham sido utilizadas, como nas mobilizações
de campanha de 2022. O espaço segue aberto para manifestação.
Em nota
enviada ao Metrópoles, Almeida afirmou: “Ao longo da minha trajetória
profissional, já tive vários números. Além disso, não foram raras as vezes em
que pessoas repassaram meu contato a terceiros em razão da minha função
pública. Inclusive, torço para que ele e os demais envolvidos sejam devidamente
investigados, julgados e que lhes sejam aplicados os rigores da lei.”
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"Moraes", "Hugo" e "Ciro": quem Vorcaro cita em
mensagens
O
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o senador Ciro
Nogueira (PP-PI) e o presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta
(Republicanos-PB) foram citados pelo banqueiro Daniel Vorcaro em trocas de
mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF). As conversas indicam que o dono do
Banco Master teria se encontrado com as autoridades nos últimos dois anos.
Ele
também sugere que teve uma "ótima" conversa com o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva e o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo,
em 2024.
As
mensagens se encontravam no celular de Vorcaro e foram interceptadas no âmbito
da Operação Compliance Zero. Elas embasaram a decisão do ministro do STF André
Mendonça de ordenar a nova prisão do dono do Banco Master.
Os
trechos usados por Mendonça em sua decisão indicam, segundo ele, a existência
de uma estrutura informal denominada "A Turma", responsável por ações
de vigilância, intimidação e obtenção de dados de inimigos do banqueiro.
Contudo,
mensagens obtidas pela imprensa mostram que Vorcaro também tinha acesso a
autoridades nos Três Poderes. Parte desses arquivos foi compartilhada com a
Comissão Parlamentar de Inquérito do INSS, no Senado, que avança sobre
investigações do Master devido a supostas fraudes praticadas pelo banco na
oferta de créditos consignados a aposentados.
Encontro
com Alexandre de Moraes
No dia
19 de abril de 2025 Vorcaro afirmou à sua namorada, Martha Graeff, que iria se
encontrar com Alexandre de Moraes – um mês após o Banco Regional de Brasília
(BRB) anunciar a intenção de comprar o Master.
"Como
assim amor. Ele está em Campos???? Ou foi pra te ver?", perguntou Graeff.
Ao que ele respondeu: "Ele tá passando o feriado".
As
mensagens não deixam claro o contexto dos encontros ou se Vorcaro dialogou
diretamente com Moraes. Em outra conversa, do dia 24 de abril, ele afirma que
discursou em um evento para magistrados do Supremo.
Dez
dias depois, o banqueiro fez uma ligação por vídeo com Graeff. Ela pergunta
"Quem era o primeiro cara?". Vorcaro responde: "Alexandre
Moraes".
"Ele
gostou da casa amor!?? Tá muito mais astral", continuou a namorada.
Segundo
a Folha de S. Paulo, o banqueiro preso também mantinha contato direto com
Moraes.
A
colunista Malu Gaspar de O Globo publicou reportagem nesta quinta-feira
afirmando que Vorcaro teria mandado uma mensagem ao ministro no dia em que foi
preso, onde escreveu: "Conseguiu bloquear?". A resposta não foi
recuperada pela PF. Ao jornal, a equipe do STF negou que a comunicação tenha
ocorrido.
O
ministro ainda não se manifestou sobre as reuniões. Ele foi colocado nos
holofotes do caso após ser identificado que o escritório de advocacia de sua
esposa, Viviane Barci, assinara contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master
para defender os interesses da corretora.
O
jornal O Globo, mais tarde, afirmou que Moraes procurou o presidente do Banco
Central, Gabriel Galípolo, para tratar do caso Banco Master. O Estadão também
indicou que o ministro ligou ao presidente do BC diversas vezes para discutir a
venda da corretora ao BRB. Moraes nega que tenha realizado tais conversas.
Ciro
Nogueira chamado de "grande amigo"
Outro
citado de forma mais direta por Vorcaro nas conversas é Ciro Nogueira, chamado
pelo banqueiro em 2024 de "grande amigo da vida".
Em
agosto de 2024, o dono do Master escreve à namorada que Ciro soltou um projeto
de lei que "ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes".
Tratava-se
de uma emenda apresentada por Ciro que estendia a cobertura do Fundo Garantidor
de Créditos (FGC) para investimentos de até R$ 1 milhão. Hoje, o sistema
assegura até R$ 250 mil em caso de crise de liquidez de uma instituição
financeira. Vorcaro tratava o FGC como a base do "modelo de negócios"
do Master, que oferecia investimentos amparados pelo Fundo com retornos
considerados inviáveis de serem alcançados com segurança. A proposta não saiu
do papel.
Em
outras mensagens, Vorcaro dá a entender que foi convidado para o casamento da
filha de Nogueira.
A
Polícia Federal também investiga se o senador estaria recebendo pagamentos de
Vorcaro. Em uma das mensagens do banqueiro, ele ordena a transferência de
valores a uma pessoa de nome "Ciro", desta vez citado sem o
sobrenome.
O
parlamentar afirma que conversa com centenas de pessoas, o que não faz dele
"próximo" aos interlocutores.
"Ciro
Nogueira volta a destacar que está tranquilo quanto às investigações da Polícia
Federal nas denúncias que envolvem o empresário, uma vez que não mantém nem
nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em
apuração", afirmou em nota. Sobre os supostos pagamentos, diz que acusação
"é definitivamente uma mentira fabricada na tentativa de manchar" sua
biografia.
Encontros
com Motta e Lula
A
quebra de sigilo telefônico de Vorcaro também mostrou que ele teria se
encontrado com Hugo Motta, em 26 fevereiro de 2025, diz a Folha de S. Paulo.
"Tô aqui em Brasília trabalhando amor. [...] Tô num jantar na residência
oficial com Hugo e seis empresários", disse à namorada.
Em 20
de março, Vorcaro também cita que estaria recebendo em casa "Hugo" e
Ciro" para conversar com "Alexandre". As menções não acompanham
sobrenome dos citados.
Antes
de o caso Master explodir, Vorcaro se reuniu ainda com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, em dezembro de 2024. A reunião já havia sido revelada pelo O
Globo em março do ano passado. Em mensagem a Graeff, ele diz apenas que o
encontro foi "ótimo".
Segundo
a Folha de S. Paulo, o encontro ocorreu no Palácio do Planalto, onde Vorcaro
chegou acompanhado do ex-ministro da Economia Guido Mantega. Estiveram
presentes os ministros da Casa Civil, Rui Costa, o de Minas e Energia,
Alexandre Silveira, e Galípolo, que assumiria a chefia do Banco Central no mês
seguinte. Na ocasião, Vorcaro teria reclamado para Lula sobre a concentração do
mercado bancário.
Fonte:
Por Paulo Motoryn e Eduardo Goulart, em The Intercept/DW Brasil

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