A
crise do Ocidente e a provocação de Raul Zibechi
Ideólogos
e filósofos decretaram, no final do século passado, o chamado “fim da
História”: o triunfo do Ocidente capitalista, democrático e iluminista perante
os perigos e espectros do Oriente exótico, bárbaro e incivilizado. Se não foram
essas as exatas palavras registradas nos autos e obras de autores como Francis
Fukuyama, sabemos que foi esse o seu significado primevo. Tal narrativa
rasteira e enviesada aos ditames ideológicos dos Estados Unidos à época
tornou-se bem conhecida de todos aqueles que compreendem, minimamente, o
cenário geopolítico das últimas décadas.
Macrorregiões
e os seus Estados — alguns muito novos e desorganizados por décadas de
ingerência estrangeira com pendores neocoloniais — reorganizaram-se no
tabuleiro global do breve século XX da maneira como conseguiram após os anos
paranoicos de Guerra Fria. Cada qual na tentativa de se desenvolver e criar as
condições materiais mínimas para a sobrevivência de suas populações e
territórios.
Todos,
por óbvio, sob o domínio expansionista do modo de produção capitalista, o
modelo “triunfante” deste presente eterno: ao seu encargo, uma acumulação
desenfreada de capitais e o extrativismo destrutivo de nossas riquezas
naturais, além das abissais desigualdades sociais e da violência cotidiana que
os permeiam. Era o fim do “socialismo real” soviético e da utopia de sociedades
livres, sem grilhões e sem opressões. Pois bem. Os grilhões permaneceram como
“elemento natural” de nossas relações sociais, uma pena. Fim da
História: assim decretou o Norte.
No
entanto, entre os anos finais de 1980 e a história vivida, os instantes que
pulsam no tempo presente, um abismo se abriu sob os nossos pés: tal ordem
triunfante se decompõe rapidamente. Diante disso, um olhar retrospectivo e
crítico de ambas as temporalidades — mesmo que próximas cronologicamente —
carece, portanto, de certo enfrentamento. Afinal, como uma pretensa ordem
estável e “última”, infalível, portanto, como o ponto final na trajetória dos
povos humanos nesta terra, esfacelou-se assim tão rapidamente?
Outro
incômodo brota ao pensarmos especificamente o continente americano e a América
Latina nesse interregno, nosso território de análise: as lideranças, movimentos
e agrupamentos políticos e sociais progressistas acreditaram nesse ato
derradeiro? Se assim fosse, no plano da realidade concreta, findada a História,
nada mais se reformaria ou revolucionaria, nada se transformaria ou se
movimentaria; seria aceito e seria, por isso, submetido.
A
caducidade do “fim da História” evidencia-se quando observamos o continente
latino-americano e a sua conjuntura histórica dos últimos anos. Enquanto uma
onda de comportamentos, práticas e uma formatação ininterrupta de
subjetividades neofascistas se espalha pelos trópicos após décadas
progressistas (1996-2016), como um retorno do sombrio adquirindo novas
roupagens, atrelada agora aos barões da tecnologia e da mídia, algumas
(frágeis) barreiras contra a barbárie generalizada e a selvageria política se mantêm,
temporariamente. É o caso do México, da Colômbia e do Brasil, países com
históricos sangrentos, desde a luta pela conquista do Estado por forças
nacional-populares como forma de superar os problemas estruturais de seus povos
— tarefa nunca cumprida — até a brutalidade policial e militar com que seus
Estados nacionais trataram (e ainda tratam, mesmo sob governos à esquerda)
setores consideráveis de suas populações e essas mesmas lutas. E seus alvos são
seculares, coloniais, para dizer o mínimo: populações negras (descendentes de
ex-escravizados), etnias e comunidades originárias, trabalhadores precários e
marginalizados (mulheres e migrantes, principalmente), lideranças populares,
sindicais e, não obstante, professores e defensores dos mais básicos direitos
humanos, tão negligenciados por suas democracias.
Hoje,
nessas latitudes, governos democráticos negociados por frentes e agrupamentos à
esquerda, com vieses humanistas e solidários nada extremistas como os seus
opositores, compreenderam, melhor que nas últimas décadas (1996-2016), que
“estabilidade” e “união” não fazem mais parte do vocabulário eleitoral e
político, apesar de tentativas vãs. Figuras como Lula, por exemplo, insistem no
erro. O outro lado da moeda, no entanto, não parece seguir as mesmas regras
“democráticas” e “civilizadas”, como o caso argentino vem demonstrando, quando
inundaram as ruas nos últimos dias, com força e valentia, centenas de milhares
de trabalhadores contra a Reforma (Anti)Trabalhista de Javier Milei, que
desestrutura e desequilibra ainda mais o mundo do trabalho argentino. A
repressão nas ruas evidencia o estado de coisas nesta América.
Lideranças
como Cláudia, Petro e Lula compreendem o momento, o carcomido espírito do
tempo, mas não há nada no horizonte que aponte para eventuais mudanças
estruturais, radicalismos ou extremismos de seus respectivos mandatários. Mais
improvável ainda que pequenos grupos e partidos à extrema-esquerda logrem algum
êxito real. Portanto, em Nossa América continuamos ligados às
grandes potências de maneira dependente — pacífica, sob cercos militares ou
ameaças econômicas diversas. Como é o caso cubano e venezuelano hoje, em que a
ilha se encontra sob o estreitamento do permanente bloqueio econômico
(dificultando o acesso a remédios básicos nos hospitais, por exemplo) e a
ingerência norte-americana na tomada do petróleo da República Bolivariana,
controlada, desde a invasão estadunidense no início de 2026, por empresas e
negociatas do grande irmão do Norte.
Os
governos mexicano, colombiano e brasileiro permanecem reorganizando forças para
produzir o mínimo de esperança e expectativas materiais aos seus povos em um
tabuleiro global movediço, em rápida e violenta fragmentação. Em outras
palavras: tentam produzir consenso onde não há mais terreno para tal, como se
ainda acreditassem no caduco “fim da História”. Enquanto esses consensos
globais se desintegram, os quais seriam os pilares da democracia
liberal-representativa e seus grandes blocos apontados como modelos e o
“fim-último” sob a liderança vigiada dos EUA, caminhamos na escuridão para um
cenário mais pantanoso: o “retorno da História” não como continuação do
que foram as últimas três décadas, mas como colapso.
“Colapso”
como confusão e fragmentação de um mundo desorientado. Tal colapso é fabricado,
evidentemente, pois não foi apenas o vocabulário político de poucos anos atrás
que fraturou-se, e, por isso mesmo, o parco entendimento e a pobreza ideológica
das maiorias a respeito das coisas e do mundo, mas práticas e negociações,
dentro e fora de seus respectivos países, parecem estranhas a esse novo mundo
em frangalhos. As forças desintegradoras — neofascistas — não apresentam uma
resolução para o que está posto, mas perpetuam a sua continuação,
aprofundando-a. Não produzem o colapso, são o colapso.
Mais do
que a linguagem (o diálogo, as tratativas civilizadas, a diplomacia etc.) como
força política da expressão dos anseios de seus cidadãos, o uso da palavra e a
manutenção de sua força para a fabricação de consensos se desintegram perante
os nossos olhos. Polarizações e assimetrias, portanto, serão cada vez mais
constantes e radicais, já que não compreendemos mais uns aos outros. Mais que o
“fim da História”, estamos diante de sua aceleração. As contradições não são
mais enfrentadas politicamente na busca de resoluções, mas são vistas como
fatos, agora, “coerentes” desse jogo. O poder advém da desunião provocada e da
performance daqueles que se nutrem dela, da confusão gerada e da exaustão de
todos nós por likes, cliques, fotos…
Se a
busca pelo consenso e essa pretensa estabilidade política e econômica gestadas
pelo Ocidente do século passado não mais existem, pois maculadas pelas próprias
potências guardiãs da “moralidade” e da tradição europeia e estadunidense nos
últimos anos, o que nos restaria? Ou melhor: o que podemos esperar de um mundo
em que a ilusão do “fim da História” acometeu a todos e que, neste momento,
mostra o seu anverso distópico e cruel?
Perante
a distopia anunciada e sobre a qual estaremos umbilicalmente conectados como
parte (em termos geopolíticos) deste Ocidente triunfante, agora em pedaços,
relembro Raúl Zibechi em seu Territórios em Rebeldia (2022):
“Pretender evitar o colapso é inútil porque deveríamos convencer a maioria
qualificada da população mundial a tomar outro rumo. Impossível. A degradação
do ser humano é demasiada para que se mudem os modos de vida sem uma
catástrofe. Mais ainda, duvido que uma catástrofe possa nos mudar”. Por isso,
quando pensamos a América Latina, não podemos negligenciar a força de um
passado que insiste em não passar e de um acúmulo de situações e acontecimentos
que se desdobram desde o período colonial — que, sob certos aspectos,
ainda não se encerrou.
Sobre
isso, Zibechi, este intelectual uruguaio enternecido e radical, escreve: “De
fato, há uma guerra contra os povos. Uma guerra colonial para se apropriar dos
bens comuns, pressupondo a aniquilação daquelas parcelas da humanidade que são
obstáculo para o roubo desses bens, seja porque vivem sobre eles, porque
resistem a ser espoliados, seja simplesmente porque sobram, no sentido mais
cruel de serem desnecessários para a acumulação de riquezas”.
Em um
continente de utopias e expectativas decrescentes, violência e brutalidade
cotidianas e desmedidas, percebemos que, para o capitalismo e seus barões, tais
parcelas e setores humanos são facilmente descartáveis quando os mínimos
consensos e civilidades caem por terra — sobrevivem aos barrotes, em morros e
vielas, sob enchentes e tragédias ambientais, troca de tiros e extenuantes
jornadas de trabalho, alienantes no sentido mais frívolo do termo. Sob os
fragmentos da velha ordem pós-Guerra Fria, dependente e violenta sob a ótica
latino-americana, seguem os países de Nossa América em sua
jornada na busca por um futuro distinto daquele prometido pelo neofascismo
global e suas vertentes tropicais, do colapso das democracias institucionais e
da onda rosa pregressa, além dos consensos mais prometidos que entregues por
suas lideranças e frentes (lembremos: as débeis barreiras que ainda nos
protegem da barbárie).
Se não
fazemos parte da maquinaria global que fabrica e, consequentemente, deságua no
colapso vivido, como produtores da desordem generalizada via oligopólios
virtuais e práticas governamentais autoritárias, da confusão e do
desencantamento da realidade, sabemos de que lado estamos. Como Zibechi nos
lembra, assim como apontam diferentes intelectuais latino-americanos de nosso
tempo, carecemos de um retorno aos clássicos do pensamento social crítico deste
continente, às suas teorias, seus argumentos, obras e reflexões que abordam
temáticas caras a este mundo sob uma ótica radical. Precisamos compreendê-lo
uma vez mais, sim. Mas isso não basta.
Se nos
vemos enredados em percepções tão apregoadas ao século passado, nosso autor
aponta para a atualidade de nosso pensamento: “uma infinidade de trabalhos
sobre fábricas recuperadas, agricultura sustentável e familiar, saúde
comunitária, tradicional e alternativa, educação popular e universidades,
incluindo alguns artigos sobre formas de poder não estatal nos territórios
autogeridos pelos movimentos sociais”. Novas formas de abordar, sentir e viver
entre um mundo que não morreu e aquele que ainda não nasceu. Reler o mundo,
reinterpretá-lo para, então, produzirmos algo distinto do colapso que avança.
Como
escreveu lindamente o uruguaio que abraço teoricamente neste texto, se vivemos
o colapso, ótimo, ao menos compreendemos a sua fatalidade. Pois bem, será este
o nosso momento místico: “olhar o horror de frente, trabalhar a dor e o medo,
avançar de mãos dadas, para que as lágrimas não turvem nossa jornada”.
¨
Os EUA e Israel estão travando uma guerra contra um Irã
que eles acham que conhecem. A realidade é bem diferente. Por Ali Vaez
Quando
os EUA e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã em
28 de fevereiro, a campanha foi estruturada como uma guerra aérea clássica:
destruir as defesas, degradar as capacidades de retaliação e decapitar a
liderança. As defesas aéreas iranianas – já bastante prejudicadas na guerra do
verão anterior – foram ainda mais desmanteladas para garantir o espaço aéreo
incontestado. Fábricas de mísseis, infraestrutura de drones e ativos navais
foram atingidos para minar a capacidade de retaliação do Irã. E uma série
constante de ataques de precisão eliminou comandantes de alto escalão, numa
tentativa contínua de desorientar o processo decisório de Teerã.
De uma
perspectiva puramente operacional, as vantagens têm sido evidentes. Uma vez que
o espaço aéreo esteja livre, a guerra torna-se mais barata: munições abundantes
e relativamente baratas podem substituir os sistemas de longo alcance que o
espaço aéreo defendido normalmente exige.
O
elemento da decapitação reflete um conceito militar familiar: infiltrar-se no
ciclo de decisão do inimigo. A ideia é que, se líderes experientes são
constantemente "eliminados", o sistema fica consumido pela sucessão,
pela suspeita e pela falta de coordenação interna. A qualidade das decisões se
deteriora; o tempo de resposta aumenta; a coerência se desfaz. A turbulência no
topo se torna uma arma em si mesma.
Mas o
domínio de táticas não garante clareza estratégica. E o risco mais profundo
desta campanha reside nas premissas que a animam – premissas sobre como o Irã se comporta sob pressão e o que essa pressão
produz.
Durante
décadas, a política dos EUA oscilou entre duas caricaturas do Irã: uma
teocracia messiânica insensível aos custos; ou uma ditadura frágil à beira do
colapso. A realidade da governança iraniana sempre foi menos teatral e mais
duradoura. A ideologia é central para a autopercepção do Irã, mas nunca
funcionou independentemente do instinto de sobrevivência do regime.
Sob o
comando do aiatolá Ali Khamenei , Teerã
demonstrou repetidamente que a postura revolucionária podia coexistir com
escolhas pragmáticas. O acordo nuclear de 2015 foi o exemplo
mais claro. Khamenei podia chamar os EUA de "Grande Satã"
publicamente e, ainda assim, autorizar negociações diretas em privado, quando a
pressão das sanções ameaçava a estabilidade econômica e, por extensão, a
durabilidade política. O regime não estava passando por uma conversão
ideológica. Estava fazendo um cálculo estratégico.
Mesmo
depois de Washington se retirar do acordo e Israel
intensificar sua campanha secreta – de operações cibernéticas a assassinatos e
sabotagens clandestinas – contra alvos iranianos, Teerã manteve canais
parcialmente abertos. Confronto e negociação não eram contradições na abordagem
do Irã. Eram ferramentas paralelas – aplicadas com uma lógica fria, sempre
atrelada à preservação do regime.
Essa
história é importante porque mina uma premissa central que circula atualmente
em alguns círculos políticos: a de que pressão militar suficiente levará o
sistema iraniano a capitular, fragmentar-se ou entrar em colapso de maneiras
previsíveis. Talvez isso aconteça, mas está longe de ser inevitável.
Sobrevivência é a definição mais restrita – e mais confiável – de vitória para
o regime. A guerra de 12 dias do ano passado
infligiu sérios danos às capacidades iranianas, mas Teerã apresentou o
resultado como um sucesso porque resistiu.
Um
famoso afresco em Isfahan, que retrata a batalha de Chaldiran,
do século XVI ,
travada entre os impérios turco-otomano e persa-safávida, oferece o modelo: na
pintura, os persas aparecem triunfantes, tendo derrotado seu adversário turco.
O registro histórico diz o contrário: Chaldiran foi uma vitória decisiva dos
otomanos. Não se trata tanto de uma tentativa de apagar a derrota, mas sim de
ressignificá-la – menos uma história de perda do que uma ode à perseverança, à
resistência heroica contra um inimigo que os superava em número e poder de
fogo. A derrota pode ser transformada em prova de bravura, e a perseverança
pode ser apresentada como triunfo.
Incapaz
de igualar simetricamente o poderio militar dos EUA e de Israel, o Irã adotou
uma estratégia destinada a prolongar o conflito no tempo e no espaço. Seus
drones e mísseis atingiram não apenas Israel , mas também bases americanas e
infraestrutura comercial em toda a região do Golfo. Os ataques são
frequentemente limitados – às vezes, apenas alguns drones em vez de ondas de
ataques – mas sua intenção é cumulativa. Teerã não busca apenas causar danos,
mas também gerar atrito: forçar seus adversários a defenderem múltiplas
frentes, testar a resiliência da política regional e aumentar gradualmente o
custo econômico e psicológico de manter o rumo.
Esse
ritmo moderado reflete outro cálculo. Os planejadores iranianos provavelmente
entendem que suas instalações de produção de mísseis e drones são alvos
prioritários e podem não sobreviver a bombardeios prolongados. Assim, o
imperativo passa a ser evitar um consumo espetacular, porém exaustivo, dos
estoques de armas. Preservar uma capacidade residual; controlar o ritmo do
combate; manter opções de escalada em reserva. Em uma guerra longa, a contenção
pode ser uma forma de preparação para a próxima fase. O conflito, portanto, é
uma disputa entre cronogramas opostos. O Irã aposta na resistência. Os EUA e
Israel apostam em força esmagadora – um aumento aéreo destinado a colapsar as
capacidades do Irã antes que o desgaste, a ansiedade do mercado e as consequências
regionais se instalem.
E se a
campanha de fato conseguir enfraquecer o regime? Pode ser que não produza o
resultado político que alguns parecem esperar. A ideia de que greves
prolongadas desencadearão uma revolta interna ou fragmentarão o Estado reflete
uma compreensão limitada da resiliência do sistema – e da sociedade que se
encontra em situação precária sob ele.
A Guarda Revolucionária Islâmica não é
simplesmente uma instituição militar. É um império econômico, um ator político
e um pilar ideológico. Atacar seu quartel-general e seus órgãos de segurança
pode complicar a repressão; pode até mesmo abrir caminho para futuros
protestos. Mas desmantelar uma instituição tão arraigada na estrutura do Estado
– apenas por meio do poder aéreo – raramente se mostrou eficaz como estratégia
de mudança.
O
cenário interno do Irã também não é tão facilmente divisível quanto
observadores externos às vezes imaginam. As minorias étnicas têm queixas
legítimas, mas a maioria teme cenários que levem à fragmentação nacional. Mesmo
muitos iranianos que se opõem ao regime e desejavam uma intervenção militar
estrangeira para derrubá-lo relutam em ver o Estado entrar em colapso total,
temendo o caos que se seguiria. Há uma diferença entre querer que o sistema
mude e querer que o país se desintegre. Notícias de que militantes curdos nas
fronteiras ocidentais do Irã, apoiados pelos EUA e por Israel, estão se preparando para um ataque
terrestre contra
o governo central alimentam esses temores.
Caso o
Estado comece a falhar, as implicações regionais seriam profundas. A
instabilidade iraniana poderia se alastrar para a já frágil ordem política do
Iraque e acirrar as tensões com a Turquia , que considera a autonomia curda em
qualquer lugar da região uma ameaça existencial. Uma estratégia baseada no
desmantelamento interno corre o risco de exportar a desordem para uma região já
saturada por ela.
Mas,
por mais essencial que seja estudar o afresco em Isfahan para compreender a
psique iraniana, ou observar a resiliência de um sistema que absorveu quase
meio milhão de baixas durante a guerra Irã-Iraque na década de 1980 e trilhões
de dólares em prejuízos econômicos ao longo de muitos anos de sofrimento com as
sanções, é fundamental entender que sua liderança sitiada é propensa a erros de
cálculo. O Irã pode ficar sem munição ou sem acesso ao seu poder de fogo antes
de Israel e dos EUA. Ao contrário da Ucrânia, não possui um aliado externo para
reabastecê-lo continuamente. Sua política de devastação do resto da região pode
em breve levar seus vizinhos a passar da defesa para o ataque, rompendo
relações por muitos anos. Seu regime é amplamente detestado e levou a economia
e o meio ambiente do país à beira do colapso.
Não
está claro se esta guerra irá destruir o Irã. Mas é possível que sim. De
qualquer forma, Teerã, seus vizinhos e até mesmo seus agressores têm a perder.
Fonte:
Por Luís Felipe Machado de Genaro, em Outras Palavras/The Guardian

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