Cristália:
laboratório da polilaminina vendeu cloroquina e fez fortuna sob Bolsonaro
O
laboratório Cristália expandiu os negócios vendendo medicamentos usados no
tratamento da covid, que incluiu a cloroquina, durante o governo Jair Bolsonaro
– que propagandeava o remédio ineficaz contra o coronavírus. A empresa é a
responsável pela produção da polilaminina, substância em fase de testes que se
popularizou pela promessa de ajudar a restaurar os movimentos em pessoas com
lesão na medula.
Apesar
de ser uma fornecedora antiga do Sistema Único de Saúde (SUS), as vendas da
Cristália ao governo federal aumentaram 68% naquele período – passando de R$
849,4 milhões entre 2015 e 2018 para R$ 1,4 bilhão entre 2019 e 2022, segundo
dados do governo. A própria empresa divulgou que seu faturamento total foi de
R$ 3 bilhões em 2020, primeiro ano da pandemia, com a produção de anestésicos e
dos medicamentos para tratamento da covid.
Foi
durante essa bonança, em 2021, que a Cristália se tornou co-proprietária da
polilaminina junto com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde
atua a pesquisadora Tatiana Sampaio, a “mãe” da substância. A empresa afirma
que já investiu R$ 100 milhões para produzir e comercializar o medicamento.
Também solicitou as patentes nacional e internacional, que estavam em vias de
serem perdidas pela UFRJ.
Hoje, o
fundador da Cristália, Ogari Pacheco, afirma que foi contra o uso do “tal kit
para covid” e que nunca defendeu isso. Mas, quando contraiu a doença – e chegou
a ser internado –, fez uso de cloroquina, da qual é fabricante, segundo O
Estado de São Paulo.
A
Cristália foi um dos laboratórios credenciados pelo Ministério da Saúde para
vender cloroquina ao SUS durante a pandemia. Um ofício de abril de 2020
assinado por Antonio Barra Torres, ex-diretor da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), aponta que a empresa dispunha de 377 mil comprimidos de
difosfato de cloroquina em estoque e previsão de liberação de mais 1,3 milhão
de comprimidos em 15 dias.
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Por que isso importa?
• A polilaminina está sendo liberada em
alguns pacientes via decisão judicial no país. Pelo menos 55 pedidos na Justiça
foram aprovados.
• Associações médicas e entidades
científicas têm se manifestado pedindo cautela no uso da substância antes da
finalização dos testes.
Em
nota, a empresa afirma que, durante a pandemia, também foi fornecedora do
chamado “kit-intubação”, conjunto de sedativos, analgésicos e bloqueadores
neuromusculares usados em pacientes graves que precisam de ventilação mecânica
em UTIs. Segundo o laboratório, dos 30 medicamentos desse conjunto, 24 são
produzidos pela companhia. A Cristália afirma que o kit-intubação foi o
principal motivo do impacto no faturamento, mas não detalhou valores.
Na
época, contrariando a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Cristália foi uma
das únicas fabricantes de cloroquina a não explicitar que o remédio não era
recomendado para a covid. A empresa limitou-se a informar que “qualquer
recomendação fora das especificadas na bula deve ser feita sob responsabilidade
do médico, como ocorre com qualquer medicamento”. A outra exceção foi o
Laboratório do Exército, que produziu o medicamento à pedido do governo.
Agora,
a resposta mudou. A empresa disse, em nota, que a cloroquina é utilizada “no
tratamento de ataques agudos de malária, artrite reumatoide e lúpus eritematoso
sistêmico. Nunca fornecemos o medicamento para tratamento de covid-19 ou
qualquer outra doença que não esteja descrita na bula”. Acesse a íntegra da
nota.
A
cloroquina fazia parte do chamado “tratamento precoce” defendido pela
administração Bolsonaro, que só no primeiro ano da pandemia chegou a gastar R$
90 milhões com esses medicamentos, antes mesmo de investir nas vacinas
produzidas pelo Instituto Butantã.
Pacheco
tem histórico ligado ao bolsonarismo. Em 2018, ele foi eleito pelo DEM como 2º
suplente do senador Eduardo Gomes (PL-TO), então líder do governo Bolsonaro no
Senado. O empresário chegou a assumir a cadeira por quatro meses em 2022.
Naquele
pleito, foi um dos candidatos mais ricos do Brasil, com patrimônio declarado de
R$ 407 milhões. Ele e outros executivos da Cristália doaram R$ 2,1 milhões para
a campanha de Gomes, o que representa quase 90% do que ele arrecadou, segundo a
Repórter Brasil. Ao veículo, ele disse que, apesar de ser suplente, teria um
“sub-gabinete” junto à equipe de Gomes e seria responsável pelas questões
ligadas à saúde. Segundo a empresa, naquele período Pacheco se afastou do
laboratório e “se dedicou, no Senado, à formulação do projeto para a criação do
Complexo Industrial da Saúde do país”.
Em
2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, o ex-presidente agraciou o aliado com
uma visita à inauguração de uma planta da Cristália em Itapira, interior de São
Paulo. E não poupou elogios a ele: “o espírito do Pacheco nos faz rejuvenescer,
nos faz mais crente, mais objetivo e mais lutador”, disse Bolsonaro na ocasião.
“É uma
satisfação estar aqui. Há poucas semanas, adentrou meu gabinete o senhor
Pacheco e o senador Eduardo Gomes, do Tocantins, e me fizeram esse convite. A
minha agenda realmente é complicada, mas tínhamos um evento em São Paulo, e eu
aproveitei para voltar um pouquinho para esse meu querido interior de São
Paulo”, continuou.
Apesar
da proximidade com nomes da direita, Pacheco e sua empresa também têm trânsito
com outras legendas. Executivos da companhia já fizeram doações a partidos como
PT, PSDB e DEM. A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) também já esteve em um
evento da Cristália, em 2013, quando chamou Pacheco de “um brasileiro
valoroso”, que “sempre acreditou em nosso país”. No ano passado, o empresário
foi recebido pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A
empresa afirma que a visita de autoridades faz parte de eventos institucionais
comuns e que diferentes presidentes e governadores já estiveram em suas
instalações nas últimas décadas.
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Polilaminina: a nova aposta
Polilaminina
é estudada para tratar lesão medular, mas resultados ainda são iniciais
Pacheco
pode até negar o seu passado “cloroquiner”. Mas agora investe todas as fichas
na polilaminina – que, apesar dos indícios promissores, ainda está em fase
inicial de testes e não se sabe qual será a sua eficácia em humanos. “Agora,
com a polilaminina, teremos a maior descoberta da ciência em décadas. Os
benefícios são de tamanha ordem que, assim que a droga estiver disponível à
população, terei cumprido minha missão na Terra”, afirmou o empresário à IstoÉ
Dinheiro.
A
expectativa com o medicamento é tão alta que a Cristália está comprando uma
nova unidade fabril em Jaguariúna (SP) para dar conta da possível demanda. “O
laboratório Cristália está trabalhando para que a polilaminina esteja
disponível de maneira democrática para todos os pacientes, incluindo os
crônicos, o quanto antes. Os resultados dos testes em andamento guiarão o
caminho para essa disponibilização”, disse a empresa em um comunicado.
No
programa Roda Viva, Tatiana Sampaio disse que a Cristália é responsável pela
produção e comercialização do medicamento, que a empresa não interferiu em seu
trabalho, e que a intenção de Pacheco seria vender a polilaminina ao SUS.
No
início deste ano, o Ministério da Saúde e a Anvisa anunciaram o início do
estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança do uso da substância. Os
testes serão realizados em cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e
72 anos, até 72 horas após sofrerem lesões entre as vértebras T2 e T10 da
medula espinhal. Ainda haverá novas etapas e não há previsão de conclusão.
Sampaio
se tornou uma celebridade após os resultados iniciais de sua pesquisa,
desenvolvida por quase 30 anos, viralizarem nas redes sociais. Elogiada tanto
pela esquerda como pela direita, ela foi recebida pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), que pediu prioridade para a pesquisa pelo Ministério da
Saúde.
A
pesquisadora também recebeu elogios do provável opositor de Lula na disputa
eleitoral de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Flávio deu ênfase ao
formato da proteína – que se parece com uma cruz – e disse que seu governo iria
investir em “ciência de verdade”.
Tanta
euforia fez com que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e
a Academia Brasileira de Ciências (ABC) emitissem um editorial conjunto pedindo
“cautela” sobre a polilaminina. O conteúdo alerta que a substância ainda está
sendo estudada e precisa cumprir os ritos científicos de segurança. Também
recomendam que se evite judicialização ou exposição midiática prematura.
Fonte:
Por Amanda Audi, em Agencia Pública

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