sábado, 7 de março de 2026

Como a imprensa internacional noticiou prisão de Vorcaro e reviravolta no caso Master

A segunda prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e os detalhes que vieram à tona nos últimos dias sobre a rede de contatos do banqueiro com políticos e juízes e seu aparato para intimidar opositores repercutiram também na imprensa internacional.

O jornal britânico Financial Times afirmou que a detenção representa "uma escalada significativa na investigação de suspeita de fraude e lavagem de dinheiro no Banco Master, que faliu no ano passado com prejuízos estimados em mais de R$ 40 bilhões, na maior falência bancária do Brasil em uma geração".

Vorcaro havia sido detido em novembro do ano passado, no aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos, e solto alguns dias depois, quando sua prisão preventiva foi substituída pelo monitoramento por tornozeleira eletrônica.

Na última quarta-feira (4/4), ele foi preso novamente, levado a um centro de detenção provisório em Guarulhos e depois encaminhado à penitenciária de Potim, no interior de São Paulo, no âmbito da terceira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que apura as suspeitas de fraude na instituição financeira.

Na quinta-feira (5/3), o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça autorizou sua transferência para uma penitenciária federal de segurança máxima em Brasília, o que deve acontecer nesta sexta.

"A segunda prisão do CEO do banco adiciona um toque de violência ao escândalo no Brasil", diz o título da reportagem da plataforma de notícias financeiras Bloomberg referindo-se às suspeitas, reveladas pela terceira fase da operação da PF, de que o banqueiro dispunha de uma espécie de "milícia pessoal" para monitorar e ameaçar adversários, ex-funcionários e jornalistas.

"A nova investigação também foi além dos crimes de colarinho branco pelos quais Vorcaro já havia sido acusado anteriormente", diz o texto da Bloomberg.

Nesse sentido, a reportagem menciona o comentário feito por Vorcaro em um grupo de WhatsApp sobre o desejo de "quebrar todos os dentes" do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo — episódio que também foi destacado pela cobertura da Associated Press sobre o caso.

Segundo a investigação da PF, a mensagem — "Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto" — seria direcionada a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, que lideraria a parte operacional do grupo apelidado de "a turma", que atuaria para o banqueiro vigiando e coagindo adversários e desafetos.

Identificado nos documentos da PF pelo apelido de "Sicário", que significa "pistoleiro" em espanhol, Mourão teria tentado se suicidar após ter sido preso na quarta-feira (4/3).

A Bloomberg também detalha as menções de Vorcaro a diversas figuras do alto escalão de Brasília, entre elas o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que o banqueiro chamou de "um dos meus grandes amigos de vida" em uma troca de mensagens com a namorada.

As informações circularam depois do vazamento de uma série de mensagens do celular do empresário extraídas a partir da quebra do sigilo telefônico de Vorcaro e encaminhadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à CPMI do INSS no Congresso.

Na comunicação, o empresário também relatou encontros com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e com o juiz do Supremo Alexandre de Moraes.

"As mensagens recém divulgadas dão uma noção mais clara do grau de familiaridade que ele mantinha com figuras do alto escalão", afirma a Bloomberg.

<><> 'Abalam a confiança em algumas das instituições mais poderosas do Brasil'

A reportagem também chama atenção para outra frente do escândalo do Master descortinada no texto da decisão do ministro André Mendonça que autorizou a prisão de Mourão, Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, na nova fase da Operação Compliance Zero da PF.

"O documento judicial ofereceu um dos primeiros indícios de como Vorcaro supostamente conseguiu exercer influência no principal órgão regulador financeiro do Brasil", afirma a reportagem, referindo-se ao Banco Central.

"Segundo os investigadores, ele pagou ao ex-diretor do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, e a Belline Santana, que chefiava a área de supervisão bancária da autoridade monetária, para assessorá-lo em assuntos regulatórios."

Esse ponto também foi destacado na cobertura da agência de notícias Reuters, que pontuou que a notícia sobre o envolvimento dos dois servidores "causou grande comoção em Brasília, ameaçando empurrar a instituição ainda mais fundo em um escândalo que só cresce".

Souza e Santana também foram alvos da operação da PF. Foram afastados dos respectivos cargos por determinação de Mendonça e passaram a ser monitorados por tornozeleira eletrônica.

"As revelações ampliam o raio de impacto da explosão em torno de Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, cuja queda expôs uma rede de influência e conflitos de interesse que abalam a confiança em algumas das instituições mais poderosas do Brasil", diz o texto.

A reportagem relembra as "intervenções incomuns" do Tribunal de Contas da União (TCU) e do STF questionando a liquidação do banco, que ocorreu em novembro de 2025, "apesar de nenhum dos dois órgãos ter autoridade de supervisão bancária".

"Não conseguiram interromper a investigação, mas aumentaram as dúvidas sobre a influência desproporcional do banqueiro."

A iniciativa do BC de liquidar o banco, ainda segundo a Reuters, "reforçou a visão do órgão regulador como um bastião de servidores públicos pragmáticos, resistentes à política brasileira".

Essa impressão, contudo, "foi abalada na quarta-feira pela Polícia Federal, que alegou que Vorcaro provavelmente subornou" Souza e Santana "em troca de dicas e conselhos".

Procurado pela Reuters, o BC afirmou que não comentaria sobre as implicações do caso para a sua reputação ou sobre decisões regulatórias envolvendo os dois funcionários. Em uma declaração pública, a autarquia afirmou que a investigação da Polícia Federal era fundamental para esclarecer os fatos e que quaisquer violações receberiam as sanções apropriadas de acordo com a lei.

A defesa de Vorcaro questionou as acusações, enquanto a de Zettel disse que está à disposição das autoridades e que não conhece o teor do que foi imputado contra ele. A BBC News Brasil tentou, sem sucesso, contato com a defesa dos servidores do BC.

•        Cantanhêde: Moraes entra no foco de investigação no caso Banco Master após mensagens com banqueiro preso

A investigação envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro ganhou um novo foco dentro do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo análise publicada pela jornalista Eliane Cantanhêde no jornal O Estado de S. Paulo, o ministro Alexandre de Moraes passou a concentrar as atenções após o surgimento de mensagens trocadas com o empresário pouco antes de sua prisão.

De acordo com a colunista, o episódio representa uma mudança no centro das suspeitas dentro do escândalo que envolve o banco e possíveis relações com integrantes do Judiciário. Inicialmente, o caso havia colocado o ministro Dias Toffoli sob pressão, mas novos elementos trazidos à tona pela Polícia Federal ampliaram o debate e passaram a direcionar questionamentos também a Moraes.

No centro das dúvidas está um contrato estimado em cerca de R$ 130 milhões entre o Banco Master e um escritório de advocacia ligado à família de Moraes. O valor elevado e as circunstâncias da relação entre o banqueiro e o entorno do ministro passaram a ser analisados com maior atenção após a apreensão de celulares de Vorcaro durante a investigação conduzida pela Polícia Federal.

Segundo informações divulgadas pela colunista, os aparelhos revelaram trocas de mensagens entre o banqueiro e o ministro. Em uma das conversas citadas, enviada horas antes da primeira prisão de Vorcaro, em novembro, o empresário escreveu ao magistrado: “numa correria para tentar salvar” e perguntou: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.

Para Cantanhêde, o conteúdo da conversa levanta questionamentos sobre o contexto da comunicação e sobre o que exatamente o banqueiro buscava ao procurar o ministro naquele momento. A interpretação sugerida na análise é de que o empresário poderia estar tentando obter informações ou ajuda diante da possibilidade de ser alvo de uma decisão judicial.

A colunista também destaca que o ministro teria respondido por meio de mensagens enviadas no modo de visualização única — recurso em que o conteúdo desaparece após ser aberto. Esse detalhe, segundo ela, acabou aumentando as dúvidas sobre o teor da resposta.

Em paralelo, integrantes do Supremo e pessoas próximas à Corte passaram a manifestar preocupação com o que classificam como possíveis “vazamentos seletivos” de informações da investigação. A avaliação é de que os dados estariam sendo divulgados gradualmente, alimentando novas etapas da crise política e institucional envolvendo o caso.No início das revelações, o ministro Dias Toffoli foi alvo de críticas e questionamentos relacionados a supostos vínculos indiretos com empreendimentos associados ao banqueiro. Diante da repercussão, ele acabou deixando a relatoria do caso após pressão de colegas do STF.

Com a saída de Toffoli da linha de frente do processo, o foco das atenções passou a se concentrar em Moraes, especialmente por causa do contrato milionário e das mensagens agora reveladas. A combinação desses fatores, segundo a análise publicada, ampliou o debate público sobre a natureza da relação entre o banqueiro e integrantes do sistema de Justiça.

O caso segue em investigação e ainda não há conclusão oficial sobre eventual irregularidade envolvendo o ministro. Enquanto isso, as novas informações divulgadas alimentam discussões políticas e jurídicas sobre os limites das relações entre o setor privado e autoridades da cúpula do Judiciário brasileiro.

•        Defesa de Daniel Vorcaro pede ao STF investigação sobre vazamentos

A defesa de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de uma investigação para identificar a origem de vazamentos de informações sigilosas relacionadas à apreensão de telefones celulares no âmbito de uma investigação em curso.

Segundo nota divulgada nesta sexta-feira (6), os advogados pediram que a Corte apure quem teve acesso ao material e se houve quebra do dever de sigilo na custódia dos dados extraídos dos aparelhos.

De acordo com a defesa, o espelhamento das informações contidas nos celulares apreendidos foi entregue aos advogados apenas em 3 de março de 2026. Na ocasião, o HD com os dados foi lacrado imediatamente na presença de autoridade policial, advogados e um tabelião, procedimento que teria sido adotado justamente para garantir a preservação do sigilo das informações.

Apesar disso, os representantes de Vorcaro afirmam que mensagens supostamente retiradas desses aparelhos começaram a circular na imprensa antes mesmo de a própria defesa ter acesso ao conteúdo completo. Segundo a nota, diferentes veículos passaram a divulgar diálogos atribuídos aos celulares apreendidos nos últimos dias.

Entre os materiais divulgados estariam conversas de natureza íntima e pessoal, além de mensagens que mencionariam terceiros que não têm relação com os fatos investigados. A defesa também menciona a divulgação de supostos diálogos envolvendo autoridades públicas e até o ministro do STF Alexandre de Moraes, os quais, segundo os advogados, podem ter sido editados ou retirados de contexto.

Diante do que classificou como uma situação grave, a defesa solicitou ao STF a instauração de um inquérito para identificar a origem dos vazamentos. Também foi requerido que a autoridade policial apresente uma lista com todas as pessoas que tiveram acesso ao conteúdo dos aparelhos apreendidos.

Os advogados enfatizam que o objetivo do pedido não é investigar jornalistas ou pessoas que eventualmente tenham recebido as informações. O foco, segundo a defesa, é apurar se houve violação do dever legal de sigilo por parte de quem estava responsável pela guarda do material.

Na nota, os advogados afirmam esperar que eventuais responsáveis por quebrar o sigilo funcional sejam identificados e responsabilizados, ressaltando que a divulgação de conteúdos privados pode expor pessoas sem ligação com a investigação e prejudicar o esclarecimento dos fatos.

>>>> Leia, na íntegra, a nota da defesa de Vorcaro:

A defesa de Daniel Vorcaro informa que solicitou ao Supremo Tribunal Federal a instauração de investigação para apurar a origem dos sucessivos vazamentos de informações sigilosas provenientes dos telefones celulares apreendidos no curso da investigação.

O espelhamento dos dados dos aparelhos apreendidos foi entregue à defesa apenas no dia 3 de março de 2026 e o HD foi imediatamente lacrado na presença da autoridade policial, dos advogados e de tabelião, para preservar o sigilo das informações.

Apesar disso, diversas mensagens supostamente extraídas desses aparelhos passaram a ser divulgadas por veículos de imprensa nos últimos dias, mesmo sem que a própria defesa tenha tido acesso ao conteúdo do material. Conversas íntimas, pessoais e que expõem terceiros não envolvidos com os fatos, além de supostos diálogos com autoridades e até o ministro do STF, Alexandre de Moraes, talvez editadas e tiradas de contexto, têm sido divulgadas para os mais diversos órgãos de comunicação.

Diante da gravidade da situação, a defesa requereu que seja instaurado inquérito para identificar a origem dos vazamentos e que a autoridade policial apresente a relação de todas as pessoas que tiveram acesso ao conteúdo dos aparelhos apreendidos.

A defesa ressalta que o objetivo do pedido não é investigar jornalistas ou terceiros que eventualmente tenham recebido informações, mas apurar quem, tendo o dever legal de custodiar o material sigiloso, pode ter violado esse dever.

Espera-se que as autoridades que violaram seu dever funcional de resguardar o sigilo sejam identificadas e responsabilizadas por atos que expõe pessoas sem relação com a investigação, bem como atrapalham os trabalhos de esclarecimento dos fatos.

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

 

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