Como
a imprensa internacional noticiou prisão de Vorcaro e reviravolta no caso
Master
A
segunda prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e os detalhes que
vieram à tona nos últimos dias sobre a rede de contatos do banqueiro com
políticos e juízes e seu aparato para intimidar opositores repercutiram também
na imprensa internacional.
O
jornal britânico Financial Times afirmou que a detenção representa "uma
escalada significativa na investigação de suspeita de fraude e lavagem de
dinheiro no Banco Master, que faliu no ano passado com prejuízos estimados em
mais de R$ 40 bilhões, na maior falência bancária do Brasil em uma
geração".
Vorcaro
havia sido detido em novembro do ano passado, no aeroporto internacional de São
Paulo, em Guarulhos, e solto alguns dias depois, quando sua prisão preventiva
foi substituída pelo monitoramento por tornozeleira eletrônica.
Na
última quarta-feira (4/4), ele foi preso novamente, levado a um centro de
detenção provisório em Guarulhos e depois encaminhado à penitenciária de Potim,
no interior de São Paulo, no âmbito da terceira fase da Operação Compliance
Zero, da Polícia Federal, que apura as suspeitas de fraude na instituição
financeira.
Na
quinta-feira (5/3), o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça
autorizou sua transferência para uma penitenciária federal de segurança máxima
em Brasília, o que deve acontecer nesta sexta.
"A
segunda prisão do CEO do banco adiciona um toque de violência ao escândalo no
Brasil", diz o título da reportagem da plataforma de notícias financeiras
Bloomberg referindo-se às suspeitas, reveladas pela terceira fase da operação
da PF, de que o banqueiro dispunha de uma espécie de "milícia
pessoal" para monitorar e ameaçar adversários, ex-funcionários e
jornalistas.
"A
nova investigação também foi além dos crimes de colarinho branco pelos quais
Vorcaro já havia sido acusado anteriormente", diz o texto da Bloomberg.
Nesse
sentido, a reportagem menciona o comentário feito por Vorcaro em um grupo de
WhatsApp sobre o desejo de "quebrar todos os dentes" do jornalista
Lauro Jardim, do jornal O Globo — episódio que também foi destacado pela
cobertura da Associated Press sobre o caso.
Segundo
a investigação da PF, a mensagem — "Esse Lauro quero mandar dar um pau
nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto" — seria direcionada a Luiz
Phillipi Machado de Moraes Mourão, que lideraria a parte operacional do grupo
apelidado de "a turma", que atuaria para o banqueiro vigiando e
coagindo adversários e desafetos.
Identificado
nos documentos da PF pelo apelido de "Sicário", que significa
"pistoleiro" em espanhol, Mourão teria tentado se suicidar após ter
sido preso na quarta-feira (4/3).
A
Bloomberg também detalha as menções de Vorcaro a diversas figuras do alto
escalão de Brasília, entre elas o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que o
banqueiro chamou de "um dos meus grandes amigos de vida" em uma troca
de mensagens com a namorada.
As
informações circularam depois do vazamento de uma série de mensagens do celular
do empresário extraídas a partir da quebra do sigilo telefônico de Vorcaro e
encaminhadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à CPMI do INSS no Congresso.
Na
comunicação, o empresário também relatou encontros com o presidente da Câmara
dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e com o juiz do Supremo Alexandre
de Moraes.
"As
mensagens recém divulgadas dão uma noção mais clara do grau de familiaridade
que ele mantinha com figuras do alto escalão", afirma a Bloomberg.
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'Abalam a confiança em algumas das instituições mais poderosas do Brasil'
A
reportagem também chama atenção para outra frente do escândalo do Master
descortinada no texto da decisão do ministro André Mendonça que autorizou a
prisão de Mourão, Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, na nova fase da
Operação Compliance Zero da PF.
"O
documento judicial ofereceu um dos primeiros indícios de como Vorcaro
supostamente conseguiu exercer influência no principal órgão regulador
financeiro do Brasil", afirma a reportagem, referindo-se ao Banco Central.
"Segundo
os investigadores, ele pagou ao ex-diretor do Banco Central, Paulo Sérgio Neves
de Souza, e a Belline Santana, que chefiava a área de supervisão bancária da
autoridade monetária, para assessorá-lo em assuntos regulatórios."
Esse
ponto também foi destacado na cobertura da agência de notícias Reuters, que
pontuou que a notícia sobre o envolvimento dos dois servidores "causou
grande comoção em Brasília, ameaçando empurrar a instituição ainda mais fundo
em um escândalo que só cresce".
Souza e
Santana também foram alvos da operação da PF. Foram afastados dos respectivos
cargos por determinação de Mendonça e passaram a ser monitorados por
tornozeleira eletrônica.
"As
revelações ampliam o raio de impacto da explosão em torno de Vorcaro, dono do
liquidado Banco Master, cuja queda expôs uma rede de influência e conflitos de
interesse que abalam a confiança em algumas das instituições mais poderosas do
Brasil", diz o texto.
A
reportagem relembra as "intervenções incomuns" do Tribunal de Contas
da União (TCU) e do STF questionando a liquidação do banco, que ocorreu em
novembro de 2025, "apesar de nenhum dos dois órgãos ter autoridade de
supervisão bancária".
"Não
conseguiram interromper a investigação, mas aumentaram as dúvidas sobre a
influência desproporcional do banqueiro."
A
iniciativa do BC de liquidar o banco, ainda segundo a Reuters, "reforçou a
visão do órgão regulador como um bastião de servidores públicos pragmáticos,
resistentes à política brasileira".
Essa
impressão, contudo, "foi abalada na quarta-feira pela Polícia Federal, que
alegou que Vorcaro provavelmente subornou" Souza e Santana "em troca
de dicas e conselhos".
Procurado
pela Reuters, o BC afirmou que não comentaria sobre as implicações do caso para
a sua reputação ou sobre decisões regulatórias envolvendo os dois funcionários.
Em uma declaração pública, a autarquia afirmou que a investigação da Polícia
Federal era fundamental para esclarecer os fatos e que quaisquer violações
receberiam as sanções apropriadas de acordo com a lei.
A
defesa de Vorcaro questionou as acusações, enquanto a de Zettel disse que está
à disposição das autoridades e que não conhece o teor do que foi imputado
contra ele. A BBC News Brasil tentou, sem sucesso, contato com a defesa dos
servidores do BC.
• Cantanhêde: Moraes entra no foco de
investigação no caso Banco Master após mensagens com banqueiro preso
A
investigação envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro ganhou um
novo foco dentro do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo análise publicada
pela jornalista Eliane Cantanhêde no jornal O Estado de S. Paulo, o ministro
Alexandre de Moraes passou a concentrar as atenções após o surgimento de
mensagens trocadas com o empresário pouco antes de sua prisão.
De
acordo com a colunista, o episódio representa uma mudança no centro das
suspeitas dentro do escândalo que envolve o banco e possíveis relações com
integrantes do Judiciário. Inicialmente, o caso havia colocado o ministro Dias
Toffoli sob pressão, mas novos elementos trazidos à tona pela Polícia Federal
ampliaram o debate e passaram a direcionar questionamentos também a Moraes.
No
centro das dúvidas está um contrato estimado em cerca de R$ 130 milhões entre o
Banco Master e um escritório de advocacia ligado à família de Moraes. O valor
elevado e as circunstâncias da relação entre o banqueiro e o entorno do
ministro passaram a ser analisados com maior atenção após a apreensão de
celulares de Vorcaro durante a investigação conduzida pela Polícia Federal.
Segundo
informações divulgadas pela colunista, os aparelhos revelaram trocas de
mensagens entre o banqueiro e o ministro. Em uma das conversas citadas, enviada
horas antes da primeira prisão de Vorcaro, em novembro, o empresário escreveu
ao magistrado: “numa correria para tentar salvar” e perguntou: “Alguma
novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
Para
Cantanhêde, o conteúdo da conversa levanta questionamentos sobre o contexto da
comunicação e sobre o que exatamente o banqueiro buscava ao procurar o ministro
naquele momento. A interpretação sugerida na análise é de que o empresário
poderia estar tentando obter informações ou ajuda diante da possibilidade de
ser alvo de uma decisão judicial.
A
colunista também destaca que o ministro teria respondido por meio de mensagens
enviadas no modo de visualização única — recurso em que o conteúdo desaparece
após ser aberto. Esse detalhe, segundo ela, acabou aumentando as dúvidas sobre
o teor da resposta.
Em
paralelo, integrantes do Supremo e pessoas próximas à Corte passaram a
manifestar preocupação com o que classificam como possíveis “vazamentos
seletivos” de informações da investigação. A avaliação é de que os dados
estariam sendo divulgados gradualmente, alimentando novas etapas da crise
política e institucional envolvendo o caso.No início das revelações, o ministro
Dias Toffoli foi alvo de críticas e questionamentos relacionados a supostos
vínculos indiretos com empreendimentos associados ao banqueiro. Diante da
repercussão, ele acabou deixando a relatoria do caso após pressão de colegas do
STF.
Com a
saída de Toffoli da linha de frente do processo, o foco das atenções passou a
se concentrar em Moraes, especialmente por causa do contrato milionário e das
mensagens agora reveladas. A combinação desses fatores, segundo a análise
publicada, ampliou o debate público sobre a natureza da relação entre o
banqueiro e integrantes do sistema de Justiça.
O caso
segue em investigação e ainda não há conclusão oficial sobre eventual
irregularidade envolvendo o ministro. Enquanto isso, as novas informações
divulgadas alimentam discussões políticas e jurídicas sobre os limites das
relações entre o setor privado e autoridades da cúpula do Judiciário
brasileiro.
• Defesa de Daniel Vorcaro pede ao STF
investigação sobre vazamentos
A
defesa de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, solicitou ao Supremo
Tribunal Federal (STF) a abertura de uma investigação para identificar a origem
de vazamentos de informações sigilosas relacionadas à apreensão de telefones
celulares no âmbito de uma investigação em curso.
Segundo
nota divulgada nesta sexta-feira (6), os advogados pediram que a Corte apure
quem teve acesso ao material e se houve quebra do dever de sigilo na custódia
dos dados extraídos dos aparelhos.
De
acordo com a defesa, o espelhamento das informações contidas nos celulares
apreendidos foi entregue aos advogados apenas em 3 de março de 2026. Na
ocasião, o HD com os dados foi lacrado imediatamente na presença de autoridade
policial, advogados e um tabelião, procedimento que teria sido adotado
justamente para garantir a preservação do sigilo das informações.
Apesar
disso, os representantes de Vorcaro afirmam que mensagens supostamente
retiradas desses aparelhos começaram a circular na imprensa antes mesmo de a
própria defesa ter acesso ao conteúdo completo. Segundo a nota, diferentes
veículos passaram a divulgar diálogos atribuídos aos celulares apreendidos nos
últimos dias.
Entre
os materiais divulgados estariam conversas de natureza íntima e pessoal, além
de mensagens que mencionariam terceiros que não têm relação com os fatos
investigados. A defesa também menciona a divulgação de supostos diálogos
envolvendo autoridades públicas e até o ministro do STF Alexandre de Moraes, os
quais, segundo os advogados, podem ter sido editados ou retirados de contexto.
Diante
do que classificou como uma situação grave, a defesa solicitou ao STF a
instauração de um inquérito para identificar a origem dos vazamentos. Também
foi requerido que a autoridade policial apresente uma lista com todas as
pessoas que tiveram acesso ao conteúdo dos aparelhos apreendidos.
Os
advogados enfatizam que o objetivo do pedido não é investigar jornalistas ou
pessoas que eventualmente tenham recebido as informações. O foco, segundo a
defesa, é apurar se houve violação do dever legal de sigilo por parte de quem
estava responsável pela guarda do material.
Na
nota, os advogados afirmam esperar que eventuais responsáveis por quebrar o
sigilo funcional sejam identificados e responsabilizados, ressaltando que a
divulgação de conteúdos privados pode expor pessoas sem ligação com a
investigação e prejudicar o esclarecimento dos fatos.
>>>>
Leia, na íntegra, a nota da defesa de Vorcaro:
A
defesa de Daniel Vorcaro informa que solicitou ao Supremo Tribunal Federal a
instauração de investigação para apurar a origem dos sucessivos vazamentos de
informações sigilosas provenientes dos telefones celulares apreendidos no curso
da investigação.
O
espelhamento dos dados dos aparelhos apreendidos foi entregue à defesa apenas
no dia 3 de março de 2026 e o HD foi imediatamente lacrado na presença da
autoridade policial, dos advogados e de tabelião, para preservar o sigilo das
informações.
Apesar
disso, diversas mensagens supostamente extraídas desses aparelhos passaram a
ser divulgadas por veículos de imprensa nos últimos dias, mesmo sem que a
própria defesa tenha tido acesso ao conteúdo do material. Conversas íntimas,
pessoais e que expõem terceiros não envolvidos com os fatos, além de supostos
diálogos com autoridades e até o ministro do STF, Alexandre de Moraes, talvez
editadas e tiradas de contexto, têm sido divulgadas para os mais diversos
órgãos de comunicação.
Diante
da gravidade da situação, a defesa requereu que seja instaurado inquérito para
identificar a origem dos vazamentos e que a autoridade policial apresente a
relação de todas as pessoas que tiveram acesso ao conteúdo dos aparelhos
apreendidos.
A
defesa ressalta que o objetivo do pedido não é investigar jornalistas ou
terceiros que eventualmente tenham recebido informações, mas apurar quem, tendo
o dever legal de custodiar o material sigiloso, pode ter violado esse dever.
Espera-se
que as autoridades que violaram seu dever funcional de resguardar o sigilo
sejam identificadas e responsabilizadas por atos que expõe pessoas sem relação
com a investigação, bem como atrapalham os trabalhos de esclarecimento dos
fatos.
Fonte:
BBC News Brasil/Brasil 247

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