“Vinte
contra um” e a gramática oculta da polarização
Vira e
mexe circula nas redes o mesmo comentário: “colocaram vinte pessoas de esquerda
contra uma de direita” ou o inverso. A cena muda de canal, de programa, de
formato, mas a sensação é parecida. Um lado se diz vitorioso, o outro se diz
injustiçado. E vice-versa. Cada campo acredita que o debate foi desequilibrado,
manipulado ou enviesado. O curioso é que, mesmo quando os números se invertem,
a percepção de falta de compreensão mútua permanece: e nos fatos mais básicos.
O mesmo
ocorre em podcasts políticos que se tornaram palco relevante do debate público
recente. Convidados de campos opostos passam horas trocando argumentos, citando
dados, evocando estudos, mas raramente há deslocamento real de posição. Ao
final, cada lado sai mais convicto de que o outro é desinformado ou age de
má-fé.
A
explicação mais comum para esse impasse é a ignorância. Se o outro não concorda
comigo, deve estar mal informado, enganado por fake news ou não tem acesso aos
dados relevantes. A solução pareceria simples: mais fatos, mais números, mais
evidências. Mas e se o problema não for falta de informação?
Talvez
estejamos diante de algo mais profundo do que desinformação ou ignorância. Em
1985, o filósofo Robert Fogelin chamou de “desacordo profundo” aquelas
situações em que as partes não compartilham sequer os critérios básicos do
debate. Não discordam apenas das conclusões; discordam do que conta como
evidência relevante, argumento legítimo, critério apropriado ou valor
prioritário.
Nesses
casos, insistir em mais dados não resolve, porque os próprios dados devem ser
avaliados a partir de regras e critérios distintos, ou seja, a partir de uma
gramática distinta. Ludwig Wittgenstein, em Sobre a Certeza, ajuda a entender
por quê. Ele argumenta que nossas práticas repousam sobre “certezas fulcrais”,
algumas crenças que não funcionam como hipóteses testáveis, ou empíricas, mas
como dobradiças, fulcros, ou eixos que tornam possível o próprio jogo de
argumentar, conhecer, e duvidar. Elas não são verificadas como fatos comuns. Na
verdade, estas certezas fulcrais organizam o que conta como fato. Essas
certezas são aprendidas socialmente. Estruturam critérios, procedimentos e
valores, ou seja, nossa gramática. E não mudam simplesmente porque alguém
apresentou um gráfico melhor. Mudam quando formas de vida se transformam.
Quando
um debatedor liberal insiste em liberdade individual, mérito e responsabilidade
pessoal, ele não está apenas defendendo uma política pública. Está operando com
uma gramática em que o indivíduo é a unidade central da análise social. Se há
desigualdade, a pergunta é: quais escolhas foram feitas? Quais incentivos estão
distorcidos? Já quando alguém da esquerda fala em desigualdade estrutural,
racismo histórico e concentração de renda, parte de outra gramática. O foco não
é a escolha individual isolada, mas as condições históricas que determinam as
oportunidades e acessos. “Mérito” e “esforço” já são vistos como categorias
atravessadas por relações de poder.
O
conflito, então, não é apenas factual. É gramatical. Cada lado opera com
critérios distintos sobre o que é problema, o que é solução e o que conta como
evidência relevante. Isso não significa que fatos não importem ou que tudo seja
relativo. Significa que fatos falam dentro de uma gramática. E quando as
gramáticas divergem profundamente, o debate empaca.
No
Brasil periférico, esse impasse é agravado por desigualdades históricas
profundas. Não estamos diante de uma sociedade homogênea com desacordos
pontuais. Estamos diante de formas de vida que experimentam Estado, mercado,
violência e cidadania de maneiras radicalmente distintas. Tratar a polarização
como mera ignorância sobre fatos é politicamente confortável. Supõe que o
problema está no nível da informação. Mas muitas vezes estamos diante de
embates sobre regras básicas do jogo.
É por
isso que proponho um giro normativo. Em vez de perguntar apenas “quem está
certo?”, “o que é verdadeiro?”, deveríamos perguntar: quais regras estão
organizando estas imagens de mundo? Quais certezas estão sendo tomadas como
óbvias?
Quando
alguém afirma que “o mercado é naturalmente mais eficiente que o Estado”, isso
não é apenas uma hipótese empírica. É a expressão de uma certeza fulcral, de
uma regra de leitura do mundo. Organiza antecipadamente o que será considerado
desperdício, intervenção indevida ou liberdade econômica. Da mesma forma,
quando alguém sustenta que “o Estado deve garantir direitos sociais”, não está
apenas defendendo uma política específica, mas explicitando uma prioridade
normativa que articula sua imagem de mundo.
O erro
recorrente é tratar esses embates como se fossem apenas disputas sobre dados.
Mas muitas vezes estamos vendo colisões entre gramáticas diferentes, entre
formas de vida distintas. Se a disputa é gramatical, ela também é política no
sentido mais profundo. Não basta convencer o outro com informações e mais
dados. É preciso disputar as regras que definem o que conta como legítimo,
racional e desejável em seus jogos de linguagem mais básicos.
Isso é
o que podemos chamar de soberania gramatical (Silva, 2026): a capacidade
coletiva de participar da definição das regras que organizam a vida comum. Não
se trata de relativismo, mas de reconhecer que regras não são neutras. São
sustentadas por instituições, mídias, mercados e estruturas de poder. A
gramática liberal, por exemplo, não se mantém apenas por argumentos bem
formulados. Ela é reforçada por práticas econômicas e pedagógicas, por sistemas
jurídicos e por dispositivos midiáticos. Gramáticas críticas, por sua vez,
dependem materialmente também de movimentos sociais, universidades públicas,
sindicatos e redes comunitárias.
Se
queremos compreender a polarização brasileira, precisamos ir além da explicação
epistêmica da ignorância de informações ou do acesso a dados. O que está em
jogo não é apenas quem tem mais dados, mas quais regras organizam e queremos
que organizem nossa vida coletiva (Praxedes e Silva, 2025; Santana e Silva,
2025).
Disputar
a linguagem da política é disputar a política da linguagem (Silva, 2026). E
isso exige algo mais difícil do que apresentar estatísticas: exige tornar
visíveis os eixos conceituais e certezas fulcrais que estruturam nossos
desacordos. Enquanto não fizermos isso, poderemos continuar colocando vinte
contra um — ou um contra vinte — que o resultado será o mesmo: muito barulho,
pouca transformação.
Fonte:
Por Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário