sábado, 7 de março de 2026

Ataque de Trump-Netanyahu ao Irã repete golpe traiçoeiro de Hitler contra URSS

Os dois “Estados canalhas” mais perigosos do mundo, Estados Unidos e Israel, lançaram um ataque surpresa contra alvos indiscriminados no Irã, tanto civis quanto militares. Em um ato de infame traição e desprezo pelas regras mais elementares da diplomacia, do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, a agressão ocorreu enquanto Washington afirmava que seu governo estava negociando com Teerã.

Essa transição para a violência armada, enquanto ainda vigorava um acordo prévio entre os dois países, tem muitos antecedentes na história do sistema internacional. O mais conhecido talvez seja a traiçoeira punhalada pelas costas desferida por Adolf Hitler contra a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), com a fulminante ruptura do Pacto Molotov-Von Ribbentrop e a súbita invasão da URSS na chamada Operação Barbarossa.

Trump e Netanyahu são dois larápios que dispõem de um enorme arsenal de armas de todo tipo e que só não vão para a cadeia porque, há anos, travam guerras sem cessar.

São poucos os dados que permitem avaliar o alcance da agressão sofrida pelo Irã. Tampouco se sabe muito sobre os danos infligidos pela resposta iraniana a diferentes cidades de Israel e às numerosas bases militares que os Estados Unidos mantêm espalhadas pelo Golfo Pérsico. O aiatolá Ali Hoseiní Khamenei, líder supremo do Irã desde 1989, morreu nos ataques. No sábado (28), um mortífero bombardeio a uma escola primária de meninas na cidade de Minab, situada no sul do país, matou 175 pessoas, entre crianças e funcionários. Esse ataque só pode ter sido realizado a partir de uma convicção profunda por parte da liderança israelense: a de que os iranianos são uma “raça inferior”, assim como os palestinos, e que podem — e devem — ser mortos sem qualquer escrúpulo. E que as crianças, desde muito cedo, seriam, sem exceção, terroristas e assassinas em potencial, com as quais não se deve ter nenhum tipo de consideração.

A justificativa para o ataque combinado de Estados Unidos e Israel seria impedir que o Irã tenha acesso à fabricação de um arsenal de bombas atômicas. Para Washington e Tel Aviv, a segurança regional só pode ser garantida pelo monopólio atômico que o Ocidente proporcionou a Israel. Trata-se de uma premissa absurda, que cria as condições ideais para a interminável explosão de guerras e conflitos de toda natureza, além de atentados terroristas e da generalização da violência.

Até os ataques sofridos em junho de 2025, o Irã permitia inspeções periódicas de suas instalações nucleares por especialistas da Organização Internacional de Energia Atômica. Após os ataques lançados por Israel e Estados Unidos contra o país, essas permissões foram suspensas. Sobre isso, a imprensa falou — e muito —, em geral controlada pelo império e pela direita mundial, hoje identificada com o sionismo. O que essa mesma imprensa não destacou, porém, é que Israel jamais permitiu que esse organismo, ou qualquer missão ad hoc das Nações Unidas ou de outro organismo internacional, realizasse inspeções em suas instalações nucleares.

Em relatório recente, a Federação de Cientistas Estadunidenses estimou que Israel dispõe atualmente de 90 ogivas nucleares, contra zero do Irã e de qualquer outro país da Ásia Ocidental. É evidente que uma situação como essa não apenas é injusta, como também promove um nível permanente e crescente de assimetria militar na região. Israel, protegido pelos Estados Unidos, tem direito à defesa e à segurança; os demais países, não. O resultado: uma guerra interminável.

O objetivo da administração Trump e do regime racista israelense é a mudança de regime no Irã. Querem que o país retroceda e restaure a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi, um sinistro tirano imposto pelos Estados Unidos depois que a CIA derrubou o governo do líder nacionalista e reformista Mohammad Mosaddeq, orquestrando o golpe de Estado de 19 de agosto de 1953 — o primeiro que “a agência” realizaria em sua história; o segundo seria o perpetrado contra Jacobo Arbenz, na Guatemala, em 27 de junho de 1954.

O herdeiro da coroa persa, Reza Ciro Pahlavi, vive em Maryland, perto de Langley (Virgínia), cidade onde se localizam os escritórios da CIA, de modo que tudo está à mão. Do exílio, o príncipe herdeiro inspirou-se no “patriotismo” de María Corina Machado, a inverossímil Prêmio Nobel da Paz que buscou por todos os meios que os Estados Unidos invadissem a Venezuela. Para sua surpresa, quando isso ocorreu em 3 de janeiro do corrente ano, não foi para chamá-la a assumir a presidência do país, mas para relegá-la a um discreto terceiro plano. Roma não paga traidores, diz o ditado — e muito menos alguém tão avarento quanto Trump.

Voltando ao caso iraniano, o príncipe herdeiro aplaudiu o ataque sofrido por seu país e conclamou as massas a se livrarem do “regime dos aiatolás”. Seu apelo parece ter caído em ouvidos moucos, pois os mais velhos lembram muito bem que a monarquia liderada por seu pai deixou para trás um rastro interminável de encarceramentos, exílios, torturas e execuções sumárias, além de colocar as riquezas do país, sobretudo o petróleo, em mãos estadunidenses. A revolução que pôs fim ao regime, em 1979, contou com um impressionante nível de apoio popular justamente em razão das tropelias e da brutalidade de seu pai. Parece pouco provável que o filho possa retornar nos ombros de uma enorme mobilização popular.

A guerra contra o Irã seguirá seu curso. Para os Estados Unidos, acabar com “o regime iraniano” é fundamental porque isso poderia complicar o abastecimento de petróleo à China, objetivo prioritário da política externa estadunidense. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, condenou na rede social X a agressão dos Estados Unidos e de Israel, mas também, e sem qualquer qualificação, a represália lançada pelo Irã. Tanto aqueles quanto este seriam igualmente culpados, segundo Guterres. O agredido mereceria a mesma sanção que o agressor. O direito à legítima defesa desaparece na declaração de tão alto funcionário.

Quando muitos se perguntam sobre as causas da crise das Nações Unidas, a covardia e a submissão aos ditames do império por parte de seu secretário-geral oferecem uma boa pista para compreender a gênese do problema. Por isso, Trump, aspirante a ditador mundial, propôs-se, com seu clube de amigos — o Conselho da Paz —, a estabelecer em Gaza, a Gaza dos palestinos, um gigantesco Mar-a-Lago, onde se reunirá essa pandilha de megamilionários, estafadores e pedófilos com a pretensão de administrar a terra roubada dos palestinos como se fosse própria, substituindo o Conselho de Segurança da ONU na gestão cotidiana dessa operação imobiliária. Trump e seus sequazes terão um rude despertar, porque os palestinos não cessarão em sua tentativa de recuperar sua terra.

¨      O que explica devoção dos EUA à ambição sionista?

O que obtém o povo dos EUA e o país em geral com esta nova agressão militar ao Irã, um país que não havia atentado contra cidadãos ou alvos militares estadunidenses, nem boicotado, minado ou prejudicado sua política econômica na região? Nada — salvo, talvez, o que venha a ganhar o mercador que ocupa a Presidência e o punhado de indivíduos e interesses espúrios que o rodeiam, entre os quais se destacam numerosas corporações e redes dedicadas à fabricação de armamentos. O grande beneficiado, sem dúvida, é o regime de Tel Aviv, em nome do qual se leva a cabo esta campanha bélica sem justificativa e que, além disso, ocorre quando ainda não haviam sido concluídas as rodadas de conversas entre Washington e Teerã sobre o dossiê nuclear e o arsenal balístico iraniano.

O “repelente menino Vicente do Oriente” voltou a alcançar seus objetivos: envolver a maior potência do planeta em uma contenda particular contra um inimigo, o iraniano, que não conseguiu derrotar na chamada Guerra dos 12 dias, em junho de 2025. Na ocasião, os promotores do projeto sionista e seus aliados nos EUA apresentaram a trégua como uma vitória inapelável, mas a realidade era outra. Teerã não apenas resistiu ao embate, como levou os responsáveis pelo regime israelense a solicitar a intermediação dos estadunidenses para alcançar um cessar-fogo.

Os EUA têm investido centenas de milhões de dólares, há semanas, na preparação de um ataque em grande escala que, às terças-feiras, serviria para levar a democracia ao Irã e, às quintas, para impedir que o “regime sanguinário dos aiatolás” continue sendo uma ameaça ao mundo. Aos sábados, o deslocamento de frotas, aviões de última geração e contingentes, em muitas das cerca de 800 bases espalhadas por aproximadamente 70 países, se justificaria para vingar a morte de marines nos ataques de milícias libanesas afins ao Irã nos anos 1980 ou, pior ainda, as agressões a cidadãos e propriedades estadunidenses durante a Revolução de 1979 e a ascensão do aiatolá Khomeini ao poder.

Mas o que o presunçoso e tresloucado presidente que eles têm deveria contar é que tudo isso se faz para concretizar a grande ambição do neossionismo em sua versão do século 21: dominar o Oriente Médio e converter-se na cabeça de ponte de um megaprojeto econômico-financeiro-militar que mantenha unido o eixo Europa–Índia, com Tel Aviv como principal gestor e os EUA como fiador universal. Por isso, o atual governo do Irã — e qualquer um que tenha a ousadia de agir de forma independente, ainda que não seja tão islamista e anti-McDonald’s, Burger King ou Starbucks quanto os atuais dirigentes de Teerã — representa um obstáculo. Também representam obstáculo os palestinos, sobretudo os da Cisjordânia. Em nome desse grande e novo Oriente Médio que desejam construir às custas do bem-estar de centenas de milhões de habitantes da região, é preciso tirá-los do caminho.

A santa indignação de tantos porta-vozes na Europa e nos EUA, em solidariedade ao povo iraniano, converte-se em negacionismo ou, pior ainda, em justificacionismo dos crimes do sionismo na Palestina.

É curioso ler e ouvir tantos porta-vozes na Europa e nos EUA falarem dos “crimes” do “regime radical” dos aiatolás. Sua santa indignação em solidariedade ao povo iraniano, que costuma surgir aos domingos depois do almoço, transforma-se em negacionismo ou, o que é quase pior, em justificação dos crimes do sionismo na Palestina. O assassinato de centenas de milhares de pessoas, a expulsão sistemática e a destruição de aldeias e bairros inteiros, as torturas nas prisões (algumas fontes falam de cerca de 100 detidos torturados, com violações e privação de alimentos até a morte) e o desprezo absoluto pelos direitos fundamentais dos palestinos — que são, afinal, os legítimos habitantes de um território que lhes está sendo roubado à vista do mundo — ou não existem ou são consideradas “coisas necessárias” (para quê, não explicam). Ainda assim, o regime de Tel Aviv representaria a única democracia do Oriente Médio e, além disso, seria conveniente para os negócios.

“Se expulsarmos um bom número de palestinos”, pensam os promotores imobiliários das empreiteiras do Sionismo S.L., “teremos mais espaço para trazer novos colonos, ampliar o condomínio e ganhar peso específico por toda parte”. Para isso, naturalmente, não basta engolir os territórios palestinos que ainda não foram transformados em zonas ajardinadas privadas; é preciso também avançar sobre as áreas adjacentes dos vizinhos. Os enclaves ocupados no Líbano e na Síria são úteis a esse propósito, pois, além de oferecerem vistas excepcionais, contêm recursos hídricos e hidrocarbonetos. Recorde-se que uma das razões que levaram os executores comandados por Netanyahu a arrasar a Faixa de Gaza foi assegurar o acesso às supostas jazidas de gás existentes em sua costa. O mesmo ocorre com a demarcação da fronteira marítima com o Líbano.

<><> Os arquivos Epstein

O que chama a atenção é que toda uma administração estadunidense tenha se lançado ao empenho de atuar como diligente realizadora das ambições máximas do sionismo, sem levar em conta as prioridades nacionais, como antes, supostamente, fazia.

As más línguas dizem que o presidente Trump e parte de sua coorte de áulicos estão de pés e mãos atados pelos “papéis de Epstein”. Desse indivíduo costumam contar muitas coisas na imprensa ocidental, sem entrar em muitos detalhes, salvo raras exceções. No ponto crucial, porém, quase não se toca: teria sido um agente do Mossad, e o império que dirigia — com a famosa ilha de Little Saint James à frente — responderia a uma trama de espionagem e extorsão desenvolvida pelos tentáculos dos serviços de inteligência do regime de Tel Aviv nos EUA. A informação comprometedora que esses setores possam guardar sobre boa parte da decrépita e corrupta classe política estadunidense pode ser uma das razões de todo este desaguisado que estão armando no Oriente Médio. O projeto, com seus réditos comerciais futuros, da grande rota comercial que almejam organizar por toda a região, e as sandices das correntes evangélicas e fundamentalistas cristãs que se converteram em garantidoras das profecias bíblicas do sionismo, são também eixos fundamentais desse renovado afã do império estadunidense de fazer com que o valentão da classe se transforme em delegado e, além disso, dê aulas de matemática às sextas-feiras, no lugar do professor.

Alguns dirão que tampouco sai tão caro manter porta-aviões megalíticos passeando pelo Golfo Pérsico ou lançar mísseis de última geração avaliados em milhões de dólares. No fim das contas, quem vai pagar são as petromonarquias árabes, ansiosas por se livrar do grande perigo iraniano. Cada vez que Trump vai a Riad, Doha ou Abu Dabi, é presenteado com trilhões de dólares em investimentos e até com aviões de luxo extremo. Mas não poderão pagar tudo; tampouco poderão pagar os mortos e feridos nas fileiras estadunidenses que, já no terceiro dia de bombardeios sobre território iraniano, contavam-se às dezenas.

Depois há a contradição do discurso que tanto agrada aos sequazes dessa nova visão ultraliberal que tentam impor ao mundo. O grande perigo seria o “islã”, encarnado pelos imigrantes muçulmanos no Ocidente, em especial na Europa; mas seus principais aliados na região são países que se declaram muçulmanos e sustentam uma visão tradicionalista dos princípios islâmicos. E, além disso, pagam as bases, oferecem dinheiro, cobertura diplomática e midiática e até colaboram ativamente no assédio e desmantelamento de um povo — o palestino — que não fez outra coisa senão estar no lugar errado, e de um regime — o iraniano — que não gosta de enviar as coisas pela Amazon. Curioso o caso da Arábia Saudita, por exemplo, onde não se pode falar de quase nada, onde as mulheres não podiam dirigir até poucos anos atrás e onde torturas e silenciamento de qualquer voz dissidente são rotina. Ao lado do Irã, esse leviatã maligno e incontrolável, converteu-se num espelho democrático e tolerante — digam isso a quem se atreve a publicar nas redes sociais comentários críticos sobre os dirigentes da Casa de Saud. Para toda essa gente que nos dá lições de liberdade, pluralismo e direitos humanos, os verdadeiros valores parecem resumir-se à faculdade soberana de escolher entre Pepsi e Coca-Cola.

O atual embaixador estadunidense em Jerusalém, um fundamentalista cristão apaixonadamente sionista, afirma que o projeto do Grande Israel não lhe parece tão mau…

A palhaçada do atual inquilino da Casa Branca é de tal magnitude que até as bases do movimento de acólitos que o ovacionavam, conhecido como “MAGA”, se revoltaram. “Por que essa política de seguidismo aos interesses sionistas?”, perguntam muitos. “O que o Irã nos fez?”, questionam outros. Por aqui, os descerebrados pseudotrumpistas que acolhem as tolices desse homem sempre encontrarão uma desculpa para justificá-lo — como a “espantada” democrática na Venezuela no pós-chavismo. Mas, nos EUA, alguns pensam mais. A prepotência dos emissários de Trump chegou a tal ponto que se permitem dizer ao governo iraquiano que o candidato mais votado nas últimas eleições, Nouri al-Maliki — primeiro-ministro entre 2006 e 2014, ou seja, sob tutela dos ocupantes estadunidenses — “não deve governar”. Disseram isso também a ele, alegando que é pró-iraniano e, além disso, corrupto. Eis aí as eleições e a decisão soberana; parafraseando Kissinger após a vitória de Salvador Allende no Chile em 1970, os iraquianos não sabem votar.

Os estadunidenses desconheciam, por acaso, que al-Maliki era um pró-iraniano corrupto quando permitiram que fosse o primeiro-ministro mais longevo do período posterior à queda da ditadura de Saddam Hussein, em 2003. Ao mesmo tempo, advertiram os dirigentes da nova Síria para que não se atrevessem a contratar um sistema de comunicações telefônicas oferecido por uma empresa chinesa. Se o fizerem, sanções — como no caso dos iraquianos. O atual presidente sírio, Ahmad al-Sharaa, foi devidamente “orientado” quando, como membro da Al-Qaeda, passou uma temporada numa prisão estadunidense no Iraque. Ou fazem o que lhes dizemos ou soltamos o dóberman sionista. Aos dirigentes libaneses fazem a mesma ameaça: calem-se diante dos bombardeios diários da aviação israelense, mantenham o Hezbollah na rédea curta e não protestem se o dóberman lhes arrancar mais terras. Do contrário, a situação vai piorar. E, enquanto isso, o atual embaixador estadunidense em Jerusalém, fundamentalista cristão e fervoroso sionista, afirma que o projeto do Grande Israel não lhe parece tão mau… Este é o nível a que chegamos; e assim caminham as coisas para todo o mundo.

 

Fonte: Página 12/El Salto

 

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