Ataque
de Trump-Netanyahu ao Irã repete golpe traiçoeiro de Hitler contra URSS
Os dois
“Estados canalhas” mais perigosos do mundo, Estados Unidos e Israel, lançaram
um ataque surpresa contra alvos indiscriminados no Irã, tanto civis quanto militares. Em um
ato de infame traição e desprezo pelas regras mais elementares da diplomacia,
do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, a agressão ocorreu
enquanto Washington afirmava que seu governo estava negociando com Teerã.
Essa
transição para a violência armada, enquanto ainda vigorava um acordo prévio
entre os dois países, tem muitos antecedentes na história do sistema
internacional. O mais conhecido talvez seja a traiçoeira punhalada pelas costas
desferida por Adolf Hitler contra a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS), com a fulminante ruptura do Pacto Molotov-Von Ribbentrop e a súbita
invasão da URSS na chamada Operação Barbarossa.
Trump e
Netanyahu são dois larápios que dispõem de um enorme arsenal de armas de todo
tipo e que só não vão para a cadeia porque, há anos, travam guerras sem cessar.
São
poucos os dados que permitem avaliar o alcance da agressão sofrida pelo Irã.
Tampouco se sabe muito sobre os danos infligidos pela resposta iraniana a
diferentes cidades de Israel e às numerosas bases militares que os Estados
Unidos mantêm espalhadas pelo Golfo Pérsico. O aiatolá Ali Hoseiní Khamenei,
líder supremo do Irã desde 1989, morreu nos ataques. No sábado (28), um
mortífero bombardeio a uma escola primária de meninas na cidade de Minab,
situada no sul do país, matou 175 pessoas, entre crianças e funcionários. Esse
ataque só pode ter sido realizado a partir de uma convicção profunda por parte
da liderança israelense: a de que os iranianos são uma “raça
inferior”, assim como os palestinos, e que podem — e devem — ser mortos
sem qualquer escrúpulo. E que as crianças, desde muito cedo, seriam, sem
exceção, terroristas e assassinas em potencial, com as quais não se deve ter
nenhum tipo de consideração.
A
justificativa para o ataque combinado de Estados Unidos e Israel seria impedir
que o Irã tenha acesso à fabricação de um arsenal de bombas atômicas. Para
Washington e Tel Aviv, a segurança regional só pode ser garantida pelo
monopólio atômico que o Ocidente proporcionou a Israel. Trata-se de uma
premissa absurda, que cria as condições ideais para a interminável explosão de
guerras e conflitos de toda natureza, além de atentados terroristas e da
generalização da violência.
Até os
ataques sofridos em junho de 2025, o Irã permitia inspeções periódicas de suas
instalações nucleares por especialistas da Organização Internacional de Energia
Atômica. Após os ataques lançados por Israel e Estados Unidos contra o país,
essas permissões foram suspensas. Sobre isso, a imprensa falou — e muito —, em
geral controlada pelo império e pela direita mundial, hoje identificada com o
sionismo. O que essa mesma imprensa não destacou, porém, é que Israel jamais
permitiu que esse organismo, ou qualquer missão ad hoc das
Nações Unidas ou de outro organismo internacional, realizasse inspeções em suas
instalações nucleares.
Em
relatório recente, a Federação de Cientistas Estadunidenses estimou que Israel
dispõe atualmente de 90 ogivas nucleares, contra zero do Irã e de qualquer
outro país da Ásia Ocidental. É evidente que uma situação como essa não apenas
é injusta, como também promove um nível permanente e crescente de assimetria
militar na região. Israel, protegido pelos Estados Unidos, tem direito à defesa
e à segurança; os demais países, não. O resultado: uma guerra interminável.
O
objetivo da administração Trump e do regime racista israelense é a mudança de
regime no Irã. Querem que o país retroceda e restaure a monarquia do xá
Mohammad Reza Pahlavi, um sinistro tirano imposto pelos Estados Unidos depois
que a CIA derrubou o governo do líder nacionalista e reformista Mohammad
Mosaddeq, orquestrando o golpe de Estado de 19 de agosto de 1953 — o primeiro
que “a agência” realizaria em sua história; o segundo seria o perpetrado contra
Jacobo Arbenz, na Guatemala, em 27 de junho de 1954.
O
herdeiro da coroa persa, Reza Ciro Pahlavi, vive em Maryland, perto de Langley
(Virgínia), cidade onde se localizam os escritórios da CIA, de modo que tudo
está à mão. Do exílio, o príncipe herdeiro inspirou-se no “patriotismo” de
María Corina Machado, a inverossímil Prêmio Nobel da Paz que buscou por todos
os meios que os Estados Unidos invadissem a Venezuela. Para sua surpresa,
quando isso ocorreu em 3 de janeiro do corrente ano, não foi para chamá-la a
assumir a presidência do país, mas para relegá-la a um discreto terceiro plano.
Roma não paga traidores, diz o ditado — e muito menos alguém tão avarento
quanto Trump.
Voltando
ao caso iraniano, o príncipe herdeiro aplaudiu o ataque sofrido por seu país e
conclamou as massas a se livrarem do “regime dos aiatolás”. Seu apelo parece
ter caído em ouvidos moucos, pois os mais velhos lembram muito bem que a
monarquia liderada por seu pai deixou para trás um rastro interminável de
encarceramentos, exílios, torturas e execuções sumárias, além de colocar as
riquezas do país, sobretudo o petróleo, em mãos estadunidenses. A revolução que
pôs fim ao regime, em 1979, contou com um impressionante nível de apoio popular
justamente em razão das tropelias e da brutalidade de seu pai. Parece pouco
provável que o filho possa retornar nos ombros de uma enorme mobilização
popular.
A
guerra contra o Irã seguirá seu curso. Para os Estados Unidos, acabar com “o
regime iraniano” é fundamental porque isso poderia complicar o abastecimento de
petróleo à China, objetivo prioritário da política externa estadunidense. O
secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António
Guterres, condenou na rede social X a agressão dos
Estados Unidos e de Israel, mas também, e sem qualquer qualificação, a
represália lançada pelo Irã. Tanto aqueles quanto este seriam igualmente
culpados, segundo Guterres. O agredido mereceria a mesma sanção que o agressor.
O direito à legítima defesa desaparece na declaração de tão alto funcionário.
Quando
muitos se perguntam sobre as causas da crise das Nações Unidas, a covardia e a
submissão aos ditames do império por parte de seu secretário-geral oferecem uma
boa pista para compreender a gênese do problema. Por isso, Trump, aspirante a
ditador mundial, propôs-se, com seu clube de amigos — o Conselho da Paz —, a
estabelecer em Gaza, a Gaza dos palestinos, um gigantesco Mar-a-Lago, onde se
reunirá essa pandilha de megamilionários, estafadores e pedófilos com a
pretensão de administrar a terra roubada dos palestinos como se fosse própria,
substituindo o Conselho de Segurança da ONU na gestão cotidiana dessa operação
imobiliária. Trump e seus sequazes terão um rude despertar, porque os
palestinos não cessarão em sua tentativa de recuperar sua terra.
¨
O que explica devoção dos EUA à ambição sionista?
O que
obtém o povo dos EUA e o país em geral com esta nova agressão
militar ao
Irã, um país que não havia atentado contra cidadãos ou alvos militares
estadunidenses, nem boicotado, minado ou prejudicado sua política econômica na
região? Nada — salvo, talvez, o que venha a ganhar o mercador que ocupa a
Presidência e o punhado de indivíduos e interesses espúrios que o rodeiam,
entre os quais se destacam numerosas corporações e redes dedicadas
à fabricação de armamentos. O grande beneficiado, sem dúvida, é o
regime de Tel Aviv, em nome do qual se leva a cabo esta campanha bélica
sem justificativa e que, além disso, ocorre quando ainda não haviam sido
concluídas as rodadas de conversas entre Washington e Teerã sobre o dossiê
nuclear e o arsenal balístico iraniano.
O
“repelente menino Vicente do Oriente” voltou a alcançar seus objetivos:
envolver a maior potência do planeta em uma contenda particular contra um
inimigo, o iraniano, que não conseguiu derrotar na chamada Guerra dos 12 dias, em junho de 2025.
Na ocasião, os promotores do projeto sionista e seus aliados nos EUA
apresentaram a trégua como uma vitória inapelável, mas a realidade era outra.
Teerã não apenas resistiu ao embate, como levou os responsáveis pelo regime
israelense a solicitar a intermediação dos estadunidenses para alcançar um
cessar-fogo.
Os EUA
têm investido centenas de milhões de dólares, há semanas, na preparação de um
ataque em grande escala que, às terças-feiras, serviria para levar a democracia
ao Irã e, às quintas, para impedir que o “regime sanguinário dos aiatolás”
continue sendo uma ameaça ao mundo. Aos sábados, o deslocamento de frotas,
aviões de última geração e contingentes, em muitas das cerca de 800 bases
espalhadas por aproximadamente 70 países, se justificaria para vingar a morte
de marines nos ataques de milícias libanesas afins ao Irã nos anos 1980 ou,
pior ainda, as agressões a cidadãos e propriedades estadunidenses durante a
Revolução de 1979 e a ascensão do aiatolá Khomeini ao poder.
Mas o
que o presunçoso e tresloucado presidente que eles têm deveria contar é que
tudo isso se faz para concretizar a grande ambição do neossionismo em sua
versão do século 21: dominar o Oriente Médio e converter-se na cabeça de ponte
de um megaprojeto econômico-financeiro-militar que mantenha unido o eixo
Europa–Índia, com Tel Aviv como principal gestor e os EUA como fiador
universal. Por isso, o atual governo do Irã — e qualquer um que tenha a ousadia
de agir de forma independente, ainda que não seja tão islamista e
anti-McDonald’s, Burger King ou Starbucks quanto os atuais dirigentes de Teerã
— representa um obstáculo. Também representam obstáculo os palestinos,
sobretudo os da Cisjordânia. Em nome desse grande e novo Oriente Médio que
desejam construir às custas do bem-estar de centenas de milhões de habitantes
da região, é preciso tirá-los do caminho.
A
santa indignação de tantos porta-vozes na Europa e nos EUA, em solidariedade ao
povo iraniano, converte-se em negacionismo ou, pior ainda, em justificacionismo
dos crimes do sionismo na Palestina.
É
curioso ler e ouvir tantos porta-vozes na Europa e nos EUA falarem dos “crimes”
do “regime radical” dos aiatolás. Sua santa indignação em solidariedade ao povo
iraniano, que costuma surgir aos domingos depois do almoço, transforma-se em
negacionismo ou, o que é quase pior, em justificação dos crimes do sionismo na
Palestina. O assassinato de centenas de milhares de pessoas, a expulsão
sistemática e a destruição de aldeias e bairros inteiros, as torturas nas
prisões (algumas fontes falam de cerca de 100 detidos torturados, com violações
e privação de alimentos até a morte) e o desprezo absoluto pelos direitos
fundamentais dos palestinos — que são, afinal, os legítimos habitantes de um
território que lhes está sendo roubado à vista do mundo — ou não existem ou são
consideradas “coisas necessárias” (para quê, não explicam). Ainda assim, o
regime de Tel Aviv representaria a única democracia do Oriente Médio e,
além disso, seria conveniente para os negócios.
“Se
expulsarmos um bom número de palestinos”, pensam os promotores imobiliários das
empreiteiras do Sionismo S.L., “teremos mais espaço para trazer novos colonos,
ampliar o condomínio e ganhar peso específico por toda parte”. Para isso,
naturalmente, não basta engolir os territórios palestinos que ainda não foram
transformados em zonas ajardinadas privadas; é preciso também avançar sobre as
áreas adjacentes dos vizinhos. Os enclaves ocupados no Líbano e na Síria são
úteis a esse propósito, pois, além de oferecerem vistas excepcionais, contêm
recursos hídricos e hidrocarbonetos. Recorde-se que uma das razões que levaram
os executores comandados por Netanyahu a arrasar a Faixa de Gaza foi assegurar
o acesso às supostas jazidas de gás existentes em sua costa. O mesmo ocorre com
a demarcação da fronteira marítima com o Líbano.
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Os arquivos Epstein
O que
chama a atenção é que toda uma administração estadunidense tenha se lançado ao
empenho de atuar como diligente realizadora das ambições máximas do sionismo,
sem levar em conta as prioridades nacionais, como antes, supostamente, fazia.
As más
línguas dizem que o presidente Trump e parte de sua coorte de áulicos estão de
pés e mãos atados pelos “papéis de Epstein”. Desse indivíduo costumam contar
muitas coisas na imprensa ocidental, sem entrar em muitos detalhes, salvo raras
exceções. No ponto crucial, porém, quase não se toca: teria sido um agente do
Mossad, e o império que dirigia — com a famosa ilha de Little Saint James à
frente — responderia a uma trama de espionagem e extorsão desenvolvida pelos
tentáculos dos serviços de inteligência do regime de Tel Aviv nos EUA. A
informação comprometedora que esses setores possam guardar sobre boa parte da
decrépita e corrupta classe política estadunidense pode ser uma das razões de
todo este desaguisado que estão armando no Oriente Médio. O projeto, com seus
réditos comerciais futuros, da grande rota comercial que almejam organizar por
toda a região, e as sandices das correntes evangélicas e fundamentalistas
cristãs que se converteram em garantidoras das profecias bíblicas do sionismo,
são também eixos fundamentais desse renovado afã do império estadunidense de
fazer com que o valentão da classe se transforme em delegado e, além disso, dê
aulas de matemática às sextas-feiras, no lugar do professor.
Alguns
dirão que tampouco sai tão caro manter porta-aviões megalíticos passeando pelo
Golfo Pérsico ou lançar mísseis de última geração avaliados em milhões de
dólares. No fim das contas, quem vai pagar são as petromonarquias árabes,
ansiosas por se livrar do grande perigo iraniano. Cada vez que Trump vai a
Riad, Doha ou Abu Dabi, é presenteado com trilhões de dólares em investimentos
e até com aviões de luxo extremo. Mas não poderão pagar tudo; tampouco poderão
pagar os mortos e feridos nas fileiras estadunidenses que, já no terceiro dia
de bombardeios sobre território iraniano, contavam-se às dezenas.
Depois
há a contradição do discurso que tanto agrada aos sequazes dessa nova visão
ultraliberal que tentam impor ao mundo. O grande perigo seria o “islã”,
encarnado pelos imigrantes muçulmanos no Ocidente, em especial na Europa; mas
seus principais aliados na região são países que se declaram muçulmanos e
sustentam uma visão tradicionalista dos princípios islâmicos. E, além disso,
pagam as bases, oferecem dinheiro, cobertura diplomática e midiática e até
colaboram ativamente no assédio e desmantelamento de um povo — o palestino —
que não fez outra coisa senão estar no lugar errado, e de um regime — o
iraniano — que não gosta de enviar as coisas pela Amazon. Curioso o caso da
Arábia Saudita, por exemplo, onde não se pode falar de quase nada, onde as
mulheres não podiam dirigir até poucos anos atrás e onde torturas e
silenciamento de qualquer voz dissidente são rotina. Ao lado do Irã, esse
leviatã maligno e incontrolável, converteu-se num espelho democrático e
tolerante — digam isso a quem se atreve a publicar nas redes sociais
comentários críticos sobre os dirigentes da Casa de Saud. Para toda essa gente
que nos dá lições de liberdade, pluralismo e direitos humanos, os verdadeiros
valores parecem resumir-se à faculdade soberana de escolher entre Pepsi e Coca-Cola.
O
atual embaixador estadunidense em Jerusalém, um fundamentalista cristão
apaixonadamente sionista, afirma que o projeto do Grande Israel não lhe parece
tão mau…
A
palhaçada do atual inquilino da Casa Branca é de tal magnitude que até as bases
do movimento de acólitos que o ovacionavam, conhecido como “MAGA”, se
revoltaram. “Por que essa política de seguidismo aos interesses sionistas?”,
perguntam muitos. “O que o Irã nos fez?”, questionam outros. Por aqui, os
descerebrados pseudotrumpistas que acolhem as tolices desse homem sempre
encontrarão uma desculpa para justificá-lo — como a “espantada” democrática na
Venezuela no pós-chavismo. Mas, nos EUA, alguns pensam mais. A prepotência dos
emissários de Trump chegou a tal ponto que se permitem dizer ao governo
iraquiano que o candidato mais votado nas últimas eleições, Nouri al-Maliki —
primeiro-ministro entre 2006 e 2014, ou seja, sob tutela dos ocupantes
estadunidenses — “não deve governar”. Disseram isso também a ele, alegando que
é pró-iraniano e, além disso, corrupto. Eis aí as eleições e a decisão
soberana; parafraseando Kissinger após a vitória de Salvador Allende no Chile
em 1970, os iraquianos não sabem votar.
Os
estadunidenses desconheciam, por acaso, que al-Maliki era um pró-iraniano
corrupto quando permitiram que fosse o primeiro-ministro mais longevo do
período posterior à queda da ditadura de Saddam Hussein, em 2003. Ao mesmo
tempo, advertiram os dirigentes da nova Síria para que não se atrevessem a
contratar um sistema de comunicações telefônicas oferecido por uma empresa
chinesa. Se o fizerem, sanções — como no caso dos iraquianos. O atual
presidente sírio, Ahmad al-Sharaa, foi devidamente “orientado” quando, como
membro da Al-Qaeda, passou uma temporada numa prisão estadunidense no Iraque.
Ou fazem o que lhes dizemos ou soltamos o dóberman sionista. Aos dirigentes
libaneses fazem a mesma ameaça: calem-se diante dos bombardeios diários da
aviação israelense, mantenham o Hezbollah na rédea curta e não protestem se o
dóberman lhes arrancar mais terras. Do contrário, a situação vai piorar. E,
enquanto isso, o atual embaixador estadunidense em Jerusalém, fundamentalista
cristão e fervoroso sionista, afirma que o projeto do Grande Israel não lhe
parece tão mau… Este é o nível a que chegamos; e assim caminham as coisas para
todo o mundo.
Fonte:
Página 12/El Salto

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