Quanto
mais a guerra se prolonga, maior é o risco de terrorismo e ações de aliados do
Irã pelo mundo
Quanto
mais a atual crise no Oriente Médio se prolongar,
maiores são as chances do conflito se alastrar para além da região por meio do
terrorismo e do uso pelo Irã de organizações aliadas, aponta
o diplomata e ex-integrante do Departamento de Estado americano da primeira
administração Trump, Clarke Cooper.
Segundo
o especialista afirmou em entrevista à BBC News Brasil, apesar dos golpes
recentes à sua capacidade militar, o Irã ainda pode agir por meio de "seus
representantes", tais como o Hamas, em Gaza, o Hezbollah, no Líbano, ou os
houthis no Iêmen.
"Portanto,
quanto mais isso se prolongar, maior será o risco em relação às capacidades
assimétricas que Teerã poderá utilizar", diz, utilizando um termo técnico
geralmente empregado para se referir a estratégias, tecnologias e métodos não
convencionais usados por uma força
mais fraca para explorar as vulnerabilidades de um adversário
mais forte, evitando o confronto militar direto.
Cooper
foi subsecretário de Estado para assuntos político-militares entre 2019 a 2021,
durante o primeiro governo de Donald Trump. Antes disso, serviu
como representante dos EUA nas Nações Unidas e integrou as Forças Armadas
americanas em missões no Iraque e na África.
Atualmente
atua como consultor privado e pesquisador do centro de estudos Atlantic
Council, com foco em segurança e Oriente Médio.
Para
ele, as consequências do atual conflito entre Irã e Estados Unidos podem ser
sentidas até mesmo na Europa, por meio de atos terroristas.
"Há
ligações com atos terroristas muito específicos que ocorreram no Ocidente desde
1979", diz Cooper, apontando para o Irã no período que segiu a Revolução
Islâmica.
Na
visão do militar aposentado, Teerã vem usando "guerras por
procuração" — como são chamados os conflitos no quais Estados se utilizam
de terceiros como intermediários ou substitutos, de forma a não lutarem
diretamente entre si — para atingir seus objetivos.
"Em
muitos aspectos, pode-se dizer que, a partir do momento em que militantes
iranianos invadiram a embaixada dos EUA em novembro de 1979 e fizeram
americanos reféns, houve uma espécie de continuidade de atos de perturbação e
terrorismo, não apenas localmente, mas também de um ponto de vista
transregional."
A
invasão da embaixada americana em Teerã em novembro de 1979 marcou o ápice do
declínio das relações entre Irã e Estados Unidos. Na ocasião, dezenas de
americanos foram mantidos reféns por mais de um ano. Após esse episódio, as
relações entre os dois países foram rompidas e se iniciou o longo histórico de
sanções americanas.
Ao
longo das últimas décadas, os Estados Unidos acusam o Irã de ser o principal
"patrocinador estatal do terrorismo no mundo". Segundo Washington, o
apoio financeiro ao chamado "eixo da resistência" é parte importante
da estratégia iraniana para se tornar uma potência regional.
A aliança reúne grupos como Hamas, em
Gaza; Hezbollah, no Líbano; houthis, grupo da minorita xiita no Iêmen; e outros
no Iraque e na Síria. A
maioria desses grupos é considerada organização terrorista por países
ocidentais.
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'Se as ameaças forem contidas, não haverá razão para que a guerra continue'
Apesar
de sua preocupação com a ampliação do conflito atual por meio de atores aliados
ao Irã, Cooper afirma acreditar que os EUA serão capazes de tomar decisões
pragmáticas para encerrar a guerra quando seus objetivos forem concluídos.
O
ex-subsecretário de Estado afirma ainda que a estratégia americana obteve
grande sucesso até o momento e diz que o mundo não vive a ameaça de uma nova
guerra mundial ou de um conflito nuclear.
"Não
diria" que estamos vivenciando o começo de uma Terceira Guerra Mundial,
diz.
"Digo
isso com muito cuidado para não parecer leviano ou superficial: tenho um amigo
da família que está planejando férias na Turquia e um colega de trabalho que
está planejando férias na Arábia Saudita. Em ambos os casos, são viagens daqui
a meses, e eu já disse: não cancelem suas passagens", conta o diplomata.
Segundo
ele, o conflito está apenas em seus primeiros dias e as linhas de comunicação
entre Teerã e Washington não foram interrompidas.
"Todas
as partes aparentemente querem chegar a um ponto em que mísseis parem de cair e
drones parem de atacar", aponta.
Questionado
sobre a possibilidade desse se tornar um conflito nuclear, ele também disse
acreditar que essa é uma possibilidade remota no momento.
"Não
neste momento, porque as autoridades envolvidas estão tentando mitigar
justamente isso", disse.
Mas
segundo Cooper, a decisão sobre quando o conflito acabará cabe, em grande
parte, aos EUA.
"Um
ponto importante a se considerar, independentemente de como se interprete a
política interna, é que o presidente Trump analisará isso de um ponto de vista
muito pragmático, não apenas como comandante-em-chefe, mas também como um
presidente que tem uma pasta ou um portfólio de assuntos internos", diz.
"Esta
foi uma operação militar multidomínio (com múltiplas linhas de ação) muito
bem-sucedida. Mas, no fim das contas, é preciso considerar por quanto tempo
isso será sustentável. E os desafios e riscos aumentam com o tempo."
Para o
diplomata, Trump "certamente levará em consideração" os riscos e
desafios que surgirão com o decorrer do conflito, assim como os danos
infringidos no Irã até o momento.
"Degradamos
as capacidades nucleares a um ponto sem retorno? Degradamos coletivamente as
capacidades de mísseis balísticos a um ponto sem retorno? Se esse for o caso,
podemos imaginar que é aí que entra o pragmatismo, com o presidente Trump
dizendo: 'Ok, chegamos a este ponto'", pondera
"E
é por isso que acredito, e não estou sozinho nessa avaliação, que essa não é
uma guerra prolongada, no sentido de que, se esses aspectos técnicos e essas
ameaças forem resolvidos, não haverá razão para que a guerra continue."
Ainda
segundo Cooper, Trump não deseja levar esse conflito para "a terra",
ou seja, enviar tropas para combater diretamente no Irã, ao invés de contar
apenas com o poder aéreo.
"Trump,
não só pela sua experiência como presidente, mas também como cidadão americano,
testemunhou as guerras em que eu e meus colegas lutamos, guerras que exigiram
tropas terrestres persistentes e de longa duração. E isso é algo que eu sei,
com base na minha experiência como secretário de Estado Adjunto, que ele não
deseja repetir", disse à BBC News Brasil.
Críticos
afirmam, porém, que o governo de Donald Trump tem oferecido poucas respostas
sobre quais são seus objetivos a longo prazo com a operação contra o Irã.
O
presidente americano e outras autoridades do seu governo também foram acusadas
de se contradizer em muitas de suas declarações, apresentando metas e prazos
distintos para o fim do conflito.
Em seu
primeiro pronunciamento após o início dos ataques contra o Irã no sábado
(28/2), Donald Trump afirmou que os objetivos principais da operação eram
destruir as capacidades de mísseis do Irã, aniquilar a Marinha iraniana,
impedir que o país desenvolva armas nucleares e garantir que o regime não possa
continuar a armar, financiar ou dirigir "exércitos terroristas" fora
de suas fronteiras.
Antes
dos EUA lançarem sua ofensiva militar, Trump também havia expressado frustração
com o progresso das negociações sobre o programa nuclear iraniano.
Na
segunda-feira (2/3), porém, o secretário de Estado, Marco Rubio, disse que a
decisão de atacar foi tomada após os EUA tomarem conhecimento sobre uma
operação iminente de Israel contra o Irã, gerando acusações de versões
conflitantes.
Membros
da oposição democrata nos Estados Unidos também criticaram a Casa Branca por
não esclarecer qual era o estado do programa nuclear
iraniano antes dos ataques e questionaram as alegações de que havia uma
ameaça iminente.
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'Naquele momento, uma resposta era necessária'
Sobre
as justificativas do governo americano para as operações conjuntas com Israel,
iniciadas no último sábado (28/2), Cooper afirma que não apenas os EUA, mas
vários vizinhos do Irã no Oriente Médio, veem o país persa como uma potencial
ameaça.
Segundo
o diplomata, "a busca e o desejo do Irã" por capacidades nucleares e
tecnologias de mísseis balísticos, bem como sua capacidade de desenvolver e
executar ataques por meio de entidades paramilitares ou terroristas, tem sido
uma preocupação constante em termos de segurança nacional.
"Além
disso, há o uso da disrupção do comércio global, particularmente no setor
marítimo, como forma de vantagem", diz.
Para
Cooper, a posição dura em relação ao Irã e seu programa nuclear tampouco é
exclusividade do governo Trump.
"Isso
remonta ao primeiro mandato do presidente [Joe] Biden, ao primeiro mandato de
Trump, ao primeiro mandato do presidente [Barack] Obama, ao primeiro mandato do
presidente [George W.] Bush. Quer dizer, podemos continuar até o primeiro
mandato do presidente [Jimmy] Carter", afirma.
Durante
a entrevista com a BBC News Brasil, o ex-integrante do Departamento de Estado
americano também comentou críticas direcionadas ao governo
Trump em torno da legalidade das ações recentes contra o Irã.
Segundo
Cooper, antes dos ataques, as negociações com o Irã não estavam avançando e o
governo americano avaliou que a liderança do país não estava disposta a chegar
a um acordo sobre seu programa nuclear e seu programa balístico.
"Avaliou-se
que, naquele momento, uma resposta era necessária. Novamente, só tenho acesso
às informações divulgadas publicamente atualmente, ao contrário do que tinha
antes. Mas, com base no que foi compartilhado, essas avaliações chegaram ao
ponto de que era preciso tomar uma decisão o quanto antes", disse.
O
secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres,
afirmou que os ataques aéreos dos EUA e de Israel violaram o direito
internacional, incluindo a Carta da ONU.
Guterres
também condenou os ataques retaliatórios do Irã por violarem a soberania e a
integridade territorial do Bahrein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Catar, Arábia
Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Nos
EUA, vários integrantes do Partido Democrata também afirmam que a operação
contra o Irã é ilegal, argumentando que apenas o Congresso tem autoridade para
declarar guerra.
No
entanto, como comandante-em-chefe das Forças Armadas, o presidente dos EUA pode
conduzir determinadas operações militares sem uma declaração formal de guerra.
¨
Resistência e dissuasão: a estratégia de alto risco do
Irã para a guerra
A
postura militar do Irã em um conflito crescente
com Israel e os Estados Unidos sugere que o
país não está lutando por vitória em um sentido convencional. Está lutando pela
sobrevivência — e por sobreviver em seus próprios termos.
Os
líderes e comandantes da república islâmica vêm se
preparando para esse momento há anos.
Eles
sabiam que suas ambições regionais poderiam eventualmente provocar um confronto
direto com Israel ou com os EUA, e que uma guerra com um provavelmente atrairia
o outro. Esse padrão ficou evidente na Guerra de 12 Dias em junho de
2025, quando Israel atacou primeiro e os EUA se juntaram dias depois.
Na
atual rodada de combates, os dois lançaram ataques contra o Irã
simultaneamente.
Dada a
superioridade tecnológica, as capacidades de inteligência e o avançado
equipamento militar dos EUA e de Israel, seria ingenuidade achar que os
estrategistas iranianos estivessem planejando uma vitória direta no campo de
batalha.
Em vez
disso, o Irã parece ter construído uma estratégia baseada em dissuasão e
resistência. Na última década, o país investiu fortemente em mísseis
balísticos, drones de longo alcance e em uma rede de grupos armados aliados em
toda a região.
O Irã
também entende as suas próprias limitações: o território continental dos EUA
está fora de alcance, mas as bases americanas espalhadas pela região —
especialmente em países árabes vizinhos — não estão fora de alcance. Já Israel
está bem dentro do alcance de mísseis e drones iranianos, e conflitos recentes
demonstraram que os seus sistemas de defesa aérea podem ser penetrados. Cada
projétil que atravessa esses sistemas carrega não apenas peso militar, mas
também psicológico.
O
cálculo do Irã também se baseia, em parte, na economia da guerra. Os
interceptadores usados por Israel e pelos EUA são muito mais caros do que
muitos dos drones e mísseis empregados pelo Irã. Um conflito prolongado obriga
os EUA e Israel a gastar recursos de alto custo para interceptar ameaças
comparativamente baratas.
A
energia é outra alavanca na economia da guerra.
O Estreito de Ormuz continua sendo
um dos pontos de estrangulamento mais críticos do mundo para o transporte de
petróleo e gás. O Irã não precisa fechar completamente essa estreita via
marítima do Golfo. Mesmo ameaças críveis e interrupções limitadas já elevaram
os preços e, se continuarem, podem aumentar a pressão internacional por uma
desescalada do conflito.
Nesse
sentido, a escalada se torna uma ferramenta voltada não necessariamente para
derrotar militarmente os adversários do Irã, mas para elevar o custo de
continuar a guerra.
Isso
nos leva aos ataques contra países vizinhos.
Ataques
com mísseis e drones contra países como Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait,
Omã e Iraque parecem ter sido concebidos para sinalizar que abrigar forças dos
EUA traz riscos.
O Irã
pode esperar que esses governos pressionem os EUA a limitar ou interromper as
operações, mas essa é uma aposta perigosa. Expandir ainda mais os ataques corre
o risco de endurecer a hostilidade desses países e empurrá-los com mais firmeza
para o campo EUA–Israel.
As
consequências de longo prazo podem durar mais que a própria guerra, remodelando
os alinhamentos regionais de formas que deixariam o Irã mais isolado.
Se a
sobrevivência é o objetivo principal, então ampliar o círculo de inimigos é um
passo de alto risco. Ainda assim, do ponto de vista do Irã, a contenção pode
parecer igualmente arriscada se for interpretada como sinal de fraqueza.
Relatos
de que comandantes locais podem estar selecionando alvos ou lançando mísseis
com relativa autonomia levantam novas questões.
Se
confirmada, essa situação não indicaria necessariamente o colapso das
estruturas de comando. A doutrina militar iraniana, especialmente dentro da
Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, há muito incorpora elementos
descentralizados para garantir continuidade sob ataques intensos.
Redes
de comunicação são vulneráveis à interceptação e ao bloqueio. Comandantes de
alto escalão têm sido alvo de ataques. A superioridade aérea dos EUA e de
Israel limita a supervisão central. Nessas condições, listas de alvos
previamente autorizadas e delegação de autoridade para lançamentos podem ser
medidas deliberadas contra uma "decapitação" da liderança.
Essa
estrutura pode explicar como as forças iranianas continuaram operando após a
morte de figuras importantes da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e mesmo
após a morte do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, nos ataques
iniciais conduzidos por EUA e Israel no sábado (28/2).
Mas a
descentralização também traz riscos. Comandantes locais atuando com informações
incompletas podem atingir alvos não intencionais, incluindo Estados vizinhos
que buscavam manter neutralidade.
A
ausência de um quadro operacional unificado aumenta a probabilidade de erros de
cálculo. Se isso se prolongar, também pode resultar na perda de comando e
controle.
Em
última análise, a abordagem do Irã parece se basear na crença de que o país
pode suportar punições por um tempo maior do que o tempo que seus adversários
estariam dispostos a suportar os danos e custos da guerra.
Se for
esse o caso, trata-se de uma forma de escalada calculada: resistir, retaliar,
evitar o colapso total e esperar que surjam fissuras políticas do outro lado.
Ainda
assim, a resistência tem limites. Os estoques de mísseis são limitados e as
linhas de produção estão constantemente sob ataque. Os lançadores móveis são
atingidos em movimento e substituí-los leva tempo.
A mesma
lógica se aplica aos adversários do Irã.
Israel
não conseguiu confiar completamente em seus sistemas de defesa aérea. Cada
brecha amplia a ansiedade pública. Os EUA precisam pesar a escalada regional, a
volatilidade do mercado de energia e o custo financeiro de operações
prolongadas.
Ambos
os lados parecem supor que o tempo está a seu favor. Os dois não podem estar
certos.
Nesta
guerra, a república islâmica não precisa de triunfo. Ela precisa permanecer de
pé.
Resta
saber se esse objetivo é alcançável, sem alienar permanentemente seus vizinhos.
Fonte:
BBC News

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