sábado, 7 de março de 2026

Quanto mais a guerra se prolonga, maior é o risco de terrorismo e ações de aliados do Irã pelo mundo

Quanto mais a atual crise no Oriente Médio se prolongar, maiores são as chances do conflito se alastrar para além da região por meio do terrorismo e do uso pelo Irã de organizações aliadas, aponta o diplomata e ex-integrante do Departamento de Estado americano da primeira administração Trump, Clarke Cooper.

Segundo o especialista afirmou em entrevista à BBC News Brasil, apesar dos golpes recentes à sua capacidade militar, o Irã ainda pode agir por meio de "seus representantes", tais como o Hamas, em Gaza, o Hezbollah, no Líbano, ou os houthis no Iêmen.

"Portanto, quanto mais isso se prolongar, maior será o risco em relação às capacidades assimétricas que Teerã poderá utilizar", diz, utilizando um termo técnico geralmente empregado para se referir a estratégias, tecnologias e métodos não convencionais usados ​​por uma força mais fraca para explorar as vulnerabilidades de um adversário mais forte, evitando o confronto militar direto.

Cooper foi subsecretário de Estado para assuntos político-militares entre 2019 a 2021, durante o primeiro governo de Donald Trump. Antes disso, serviu como representante dos EUA nas Nações Unidas e integrou as Forças Armadas americanas em missões no Iraque e na África.

Atualmente atua como consultor privado e pesquisador do centro de estudos Atlantic Council, com foco em segurança e Oriente Médio.

Para ele, as consequências do atual conflito entre Irã e Estados Unidos podem ser sentidas até mesmo na Europa, por meio de atos terroristas.

"Há ligações com atos terroristas muito específicos que ocorreram no Ocidente desde 1979", diz Cooper, apontando para o Irã no período que segiu a Revolução Islâmica.

Na visão do militar aposentado, Teerã vem usando "guerras por procuração" — como são chamados os conflitos no quais Estados se utilizam de terceiros como intermediários ou substitutos, de forma a não lutarem diretamente entre si — para atingir seus objetivos.

"Em muitos aspectos, pode-se dizer que, a partir do momento em que militantes iranianos invadiram a embaixada dos EUA em novembro de 1979 e fizeram americanos reféns, houve uma espécie de continuidade de atos de perturbação e terrorismo, não apenas localmente, mas também de um ponto de vista transregional."

A invasão da embaixada americana em Teerã em novembro de 1979 marcou o ápice do declínio das relações entre Irã e Estados Unidos. Na ocasião, dezenas de americanos foram mantidos reféns por mais de um ano. Após esse episódio, as relações entre os dois países foram rompidas e se iniciou o longo histórico de sanções americanas.

Ao longo das últimas décadas, os Estados Unidos acusam o Irã de ser o principal "patrocinador estatal do terrorismo no mundo". Segundo Washington, o apoio financeiro ao chamado "eixo da resistência" é parte importante da estratégia iraniana para se tornar uma potência regional.

A aliança reúne grupos como Hamas, em Gaza; Hezbollah, no Líbano; houthis, grupo da minorita xiita no Iêmen; e outros no Iraque e na Síria. A maioria desses grupos é considerada organização terrorista por países ocidentais.

<><> 'Se as ameaças forem contidas, não haverá razão para que a guerra continue'

Apesar de sua preocupação com a ampliação do conflito atual por meio de atores aliados ao Irã, Cooper afirma acreditar que os EUA serão capazes de tomar decisões pragmáticas para encerrar a guerra quando seus objetivos forem concluídos.

O ex-subsecretário de Estado afirma ainda que a estratégia americana obteve grande sucesso até o momento e diz que o mundo não vive a ameaça de uma nova guerra mundial ou de um conflito nuclear.

"Não diria" que estamos vivenciando o começo de uma Terceira Guerra Mundial, diz.

"Digo isso com muito cuidado para não parecer leviano ou superficial: tenho um amigo da família que está planejando férias na Turquia e um colega de trabalho que está planejando férias na Arábia Saudita. Em ambos os casos, são viagens daqui a meses, e eu já disse: não cancelem suas passagens", conta o diplomata.

Segundo ele, o conflito está apenas em seus primeiros dias e as linhas de comunicação entre Teerã e Washington não foram interrompidas.

"Todas as partes aparentemente querem chegar a um ponto em que mísseis parem de cair e drones parem de atacar", aponta.

Questionado sobre a possibilidade desse se tornar um conflito nuclear, ele também disse acreditar que essa é uma possibilidade remota no momento.

"Não neste momento, porque as autoridades envolvidas estão tentando mitigar justamente isso", disse.

Mas segundo Cooper, a decisão sobre quando o conflito acabará cabe, em grande parte, aos EUA.

"Um ponto importante a se considerar, independentemente de como se interprete a política interna, é que o presidente Trump analisará isso de um ponto de vista muito pragmático, não apenas como comandante-em-chefe, mas também como um presidente que tem uma pasta ou um portfólio de assuntos internos", diz.

"Esta foi uma operação militar multidomínio (com múltiplas linhas de ação) muito bem-sucedida. Mas, no fim das contas, é preciso considerar por quanto tempo isso será sustentável. E os desafios e riscos aumentam com o tempo."

Para o diplomata, Trump "certamente levará em consideração" os riscos e desafios que surgirão com o decorrer do conflito, assim como os danos infringidos no Irã até o momento.

"Degradamos as capacidades nucleares a um ponto sem retorno? Degradamos coletivamente as capacidades de mísseis balísticos a um ponto sem retorno? Se esse for o caso, podemos imaginar que é aí que entra o pragmatismo, com o presidente Trump dizendo: 'Ok, chegamos a este ponto'", pondera

"E é por isso que acredito, e não estou sozinho nessa avaliação, que essa não é uma guerra prolongada, no sentido de que, se esses aspectos técnicos e essas ameaças forem resolvidos, não haverá razão para que a guerra continue."

Ainda segundo Cooper, Trump não deseja levar esse conflito para "a terra", ou seja, enviar tropas para combater diretamente no Irã, ao invés de contar apenas com o poder aéreo.

"Trump, não só pela sua experiência como presidente, mas também como cidadão americano, testemunhou as guerras em que eu e meus colegas lutamos, guerras que exigiram tropas terrestres persistentes e de longa duração. E isso é algo que eu sei, com base na minha experiência como secretário de Estado Adjunto, que ele não deseja repetir", disse à BBC News Brasil.

Críticos afirmam, porém, que o governo de Donald Trump tem oferecido poucas respostas sobre quais são seus objetivos a longo prazo com a operação contra o Irã.

O presidente americano e outras autoridades do seu governo também foram acusadas de se contradizer em muitas de suas declarações, apresentando metas e prazos distintos para o fim do conflito.

Em seu primeiro pronunciamento após o início dos ataques contra o Irã no sábado (28/2), Donald Trump afirmou que os objetivos principais da operação eram destruir as capacidades de mísseis do Irã, aniquilar a Marinha iraniana, impedir que o país desenvolva armas nucleares e garantir que o regime não possa continuar a armar, financiar ou dirigir "exércitos terroristas" fora de suas fronteiras.

Antes dos EUA lançarem sua ofensiva militar, Trump também havia expressado frustração com o progresso das negociações sobre o programa nuclear iraniano.

Na segunda-feira (2/3), porém, o secretário de Estado, Marco Rubio, disse que a decisão de atacar foi tomada após os EUA tomarem conhecimento sobre uma operação iminente de Israel contra o Irã, gerando acusações de versões conflitantes.

Membros da oposição democrata nos Estados Unidos também criticaram a Casa Branca por não esclarecer qual era o estado do programa nuclear iraniano antes dos ataques e questionaram as alegações de que havia uma ameaça iminente.

<><> 'Naquele momento, uma resposta era necessária'

Sobre as justificativas do governo americano para as operações conjuntas com Israel, iniciadas no último sábado (28/2), Cooper afirma que não apenas os EUA, mas vários vizinhos do Irã no Oriente Médio, veem o país persa como uma potencial ameaça.

Segundo o diplomata, "a busca e o desejo do Irã" por capacidades nucleares e tecnologias de mísseis balísticos, bem como sua capacidade de desenvolver e executar ataques por meio de entidades paramilitares ou terroristas, tem sido uma preocupação constante em termos de segurança nacional.

"Além disso, há o uso da disrupção do comércio global, particularmente no setor marítimo, como forma de vantagem", diz.

Para Cooper, a posição dura em relação ao Irã e seu programa nuclear tampouco é exclusividade do governo Trump.

"Isso remonta ao primeiro mandato do presidente [Joe] Biden, ao primeiro mandato de Trump, ao primeiro mandato do presidente [Barack] Obama, ao primeiro mandato do presidente [George W.] Bush. Quer dizer, podemos continuar até o primeiro mandato do presidente [Jimmy] Carter", afirma.

Durante a entrevista com a BBC News Brasil, o ex-integrante do Departamento de Estado americano também comentou críticas direcionadas ao governo Trump em torno da legalidade das ações recentes contra o Irã.

Segundo Cooper, antes dos ataques, as negociações com o Irã não estavam avançando e o governo americano avaliou que a liderança do país não estava disposta a chegar a um acordo sobre seu programa nuclear e seu programa balístico.

"Avaliou-se que, naquele momento, uma resposta era necessária. Novamente, só tenho acesso às informações divulgadas publicamente atualmente, ao contrário do que tinha antes. Mas, com base no que foi compartilhado, essas avaliações chegaram ao ponto de que era preciso tomar uma decisão o quanto antes", disse.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, afirmou que os ataques aéreos dos EUA e de Israel violaram o direito internacional, incluindo a Carta da ONU.

Guterres também condenou os ataques retaliatórios do Irã por violarem a soberania e a integridade territorial do Bahrein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Nos EUA, vários integrantes do Partido Democrata também afirmam que a operação contra o Irã é ilegal, argumentando que apenas o Congresso tem autoridade para declarar guerra.

No entanto, como comandante-em-chefe das Forças Armadas, o presidente dos EUA pode conduzir determinadas operações militares sem uma declaração formal de guerra.

¨      Resistência e dissuasão: a estratégia de alto risco do Irã para a guerra

A postura militar do Irã em um conflito crescente com Israel e os Estados Unidos sugere que o país não está lutando por vitória em um sentido convencional. Está lutando pela sobrevivência — e por sobreviver em seus próprios termos.

Os líderes e comandantes da república islâmica vêm se preparando para esse momento há anos.

Eles sabiam que suas ambições regionais poderiam eventualmente provocar um confronto direto com Israel ou com os EUA, e que uma guerra com um provavelmente atrairia o outro. Esse padrão ficou evidente na Guerra de 12 Dias em junho de 2025, quando Israel atacou primeiro e os EUA se juntaram dias depois.

Na atual rodada de combates, os dois lançaram ataques contra o Irã simultaneamente.

Dada a superioridade tecnológica, as capacidades de inteligência e o avançado equipamento militar dos EUA e de Israel, seria ingenuidade achar que os estrategistas iranianos estivessem planejando uma vitória direta no campo de batalha.

Em vez disso, o Irã parece ter construído uma estratégia baseada em dissuasão e resistência. Na última década, o país investiu fortemente em mísseis balísticos, drones de longo alcance e em uma rede de grupos armados aliados em toda a região.

O Irã também entende as suas próprias limitações: o território continental dos EUA está fora de alcance, mas as bases americanas espalhadas pela região — especialmente em países árabes vizinhos — não estão fora de alcance. Já Israel está bem dentro do alcance de mísseis e drones iranianos, e conflitos recentes demonstraram que os seus sistemas de defesa aérea podem ser penetrados. Cada projétil que atravessa esses sistemas carrega não apenas peso militar, mas também psicológico.

O cálculo do Irã também se baseia, em parte, na economia da guerra. Os interceptadores usados por Israel e pelos EUA são muito mais caros do que muitos dos drones e mísseis empregados pelo Irã. Um conflito prolongado obriga os EUA e Israel a gastar recursos de alto custo para interceptar ameaças comparativamente baratas.

A energia é outra alavanca na economia da guerra.

Estreito de Ormuz continua sendo um dos pontos de estrangulamento mais críticos do mundo para o transporte de petróleo e gás. O Irã não precisa fechar completamente essa estreita via marítima do Golfo. Mesmo ameaças críveis e interrupções limitadas já elevaram os preços e, se continuarem, podem aumentar a pressão internacional por uma desescalada do conflito.

Nesse sentido, a escalada se torna uma ferramenta voltada não necessariamente para derrotar militarmente os adversários do Irã, mas para elevar o custo de continuar a guerra.

Isso nos leva aos ataques contra países vizinhos.

Ataques com mísseis e drones contra países como Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã e Iraque parecem ter sido concebidos para sinalizar que abrigar forças dos EUA traz riscos.

O Irã pode esperar que esses governos pressionem os EUA a limitar ou interromper as operações, mas essa é uma aposta perigosa. Expandir ainda mais os ataques corre o risco de endurecer a hostilidade desses países e empurrá-los com mais firmeza para o campo EUA–Israel.

As consequências de longo prazo podem durar mais que a própria guerra, remodelando os alinhamentos regionais de formas que deixariam o Irã mais isolado.

Se a sobrevivência é o objetivo principal, então ampliar o círculo de inimigos é um passo de alto risco. Ainda assim, do ponto de vista do Irã, a contenção pode parecer igualmente arriscada se for interpretada como sinal de fraqueza.

Relatos de que comandantes locais podem estar selecionando alvos ou lançando mísseis com relativa autonomia levantam novas questões.

Se confirmada, essa situação não indicaria necessariamente o colapso das estruturas de comando. A doutrina militar iraniana, especialmente dentro da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, há muito incorpora elementos descentralizados para garantir continuidade sob ataques intensos.

Redes de comunicação são vulneráveis à interceptação e ao bloqueio. Comandantes de alto escalão têm sido alvo de ataques. A superioridade aérea dos EUA e de Israel limita a supervisão central. Nessas condições, listas de alvos previamente autorizadas e delegação de autoridade para lançamentos podem ser medidas deliberadas contra uma "decapitação" da liderança.

Essa estrutura pode explicar como as forças iranianas continuaram operando após a morte de figuras importantes da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e mesmo após a morte do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, nos ataques iniciais conduzidos por EUA e Israel no sábado (28/2).

Mas a descentralização também traz riscos. Comandantes locais atuando com informações incompletas podem atingir alvos não intencionais, incluindo Estados vizinhos que buscavam manter neutralidade.

A ausência de um quadro operacional unificado aumenta a probabilidade de erros de cálculo. Se isso se prolongar, também pode resultar na perda de comando e controle.

Em última análise, a abordagem do Irã parece se basear na crença de que o país pode suportar punições por um tempo maior do que o tempo que seus adversários estariam dispostos a suportar os danos e custos da guerra.

Se for esse o caso, trata-se de uma forma de escalada calculada: resistir, retaliar, evitar o colapso total e esperar que surjam fissuras políticas do outro lado.

Ainda assim, a resistência tem limites. Os estoques de mísseis são limitados e as linhas de produção estão constantemente sob ataque. Os lançadores móveis são atingidos em movimento e substituí-los leva tempo.

A mesma lógica se aplica aos adversários do Irã.

Israel não conseguiu confiar completamente em seus sistemas de defesa aérea. Cada brecha amplia a ansiedade pública. Os EUA precisam pesar a escalada regional, a volatilidade do mercado de energia e o custo financeiro de operações prolongadas.

Ambos os lados parecem supor que o tempo está a seu favor. Os dois não podem estar certos.

Nesta guerra, a república islâmica não precisa de triunfo. Ela precisa permanecer de pé.

Resta saber se esse objetivo é alcançável, sem alienar permanentemente seus vizinhos.

 

Fonte: BBC News

 

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