sábado, 7 de março de 2026

A importância de uma super federação de esquerda no Brasil

No final de 2025, o PT anunciou que fez um convite para o PSOL compor uma federação partidária já para as eleições de 2026. Esse debate foi esquentando na medida em que se aproximava o prazo para a formação de instrumentos deste tipo, que acontece seis meses antes da eleição, no começo de abril de 2026.  

Federações partidárias são um instrumento legal em que diferentes partidos se juntam para fins de cálculos da cláusula de barreira, tendo como obrigação atuar juntos nas eleições e nos parlamentos por 4 anos.  Como qualquer decisão política, a composição de uma federação deste tipo tem ônus e bônus para os envolvidos, com riscos e vantagens que são colocados na balança.  

Nesse texto, organizo em três eixos os argumentos favoráveis à formação de uma super federação da esquerda brasileira. São eles: a unidade contra a extrema-direita para avançar na democracia brasileira; o papel que a super federação pode ter na renovação da esquerda no Brasil e o potencial eleitoral que essa unidade dos partidos tem para aumentar a força da esquerda no Congresso Nacional.  

<><> 1 – Unidade contra o fascismo para avançar na democracia  

A força e persistência do bolsonarismo no Brasil e no mundo e o risco real de vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026, é o principal elemento importante que coloca a urgência de um aprofundamento da unidade.  

A coligação eleitoral realizada em 2022 foi importante para vencer as eleições, mas se mostrou insuficiente para construir uma ação mais coordenada das esquerdas partidárias no Brasil. Foram vários os momentos de crise da conjuntura em que o campo progressista se viu paralisado e dividido. 

Por exemplo, na crise do PIX, as esquerdas ficaram sem resposta e a extrema-direita atuou sozinha até a deputada Erika Hilton soltar um vídeo, com mais de 15 dias de defensiva. Outro exemplo foi a PEC da Blindagem, em que parte dos parlamentares de esquerda apoiaram, contrariando o sentimento da base.  

Uma federação com regras democráticas tem o potencial de superar esse problema, ampliando nossa capacidade de reagir aos ataques da extrema-direita e da direita tradicional. Com isso vamos ao segundo eixo dos argumentos favoráveis.  

<><> 2 – Mobilização democrática das bases com manutenção da autonomia dos partidos  

A criação das federações partidárias foi um avanço democrático apoiado pela esquerda, porque protege partidos ideológicos como o PC do B e o PSOL. Mas uma federação pode ser um instrumento de renovação democrática para além dessa dimensão de proteger partidos ideológicos.  

Uma super federação da esquerda pode ter regras que estimulam a mobilização democrática e, ao mesmo tempo, preservam a autonomia dos partidos, uma vez que há um receio que o maior partido (o PT) “engula” os menores.  

Pegando o exemplo da Frente Ampla Uruguaia, temos um estatuto com algumas regras e procedimentos que podem ser aplicados em uma super federação  

  • Mecanismos de consulta – a FA prevê primárias para decidir candidatos e plebiscitos para tomar decisões em temas importantes caso seja convocado por 25% dos filiados. Primárias abertas não somente aos filiados, mas a todos os eleitores de esquerda para decidir candidatos a prefeito, governador e presidente são um método já testados em muitos países (Argentina, Colômbia, Chile, Uruguai) com muito sucesso, porque mobiliza as bases e fortalece as lideranças. Hoje, as decisões são restritas às cúpulas partidárias e a super federação pode mudar isso e contribuir para reoxigenar os partidos.  
  • Liberdade de ação – Qualquer setor da FA pode ser liberado de seguir uma decisão a maioria em casos especiais. A super federação pode prever casos desse tipo.  
  • Proteção da minoria – No Estatuto da Frente Ampla, se um quinto dos componentes qualificam um assunto como fundamental, só se poderá adotar uma decisão pelo voto aprovativo de três quintos dos componentes do corpo. Na super federação, por exemplo, o PSOL com certeza será pelo menos 1/5, pelo número de deputados e filiados e pode colocar barreiras deste tipo para se proteger.  

Em suma, uma super federação com primárias abertas e proteção das minorias fortaleceria os laços dos partidos com as bases, permitindo mais unidade e mobilização para aumentar a força da esquerda na sociedade e no Congresso, que é o terceiro eixo.  

<><> 3 – Aumento da bancada da esquerda como um todo  

As federações partidárias forçam os partidos a montar uma chapa única de candidatos a deputado federal. Isso leva os partidos a “juntar” seus votos e a concentrar os candidatos em nomes mais fortes, nomes que serão muito bem votados, sem a necessidade de pulverizar em vários candidatos com poucos votos. Isso tem o potencial de aumentar as bancadas e é por essa razão que setores da direita vem apostando na federação.  

Por exemplo, na direita tradicional, o União Brasil (UB) e o Progressistas se juntaram em uma super federação de direita, intitulada UP. Nenhum desses partidos corre risco de não alcançar a cláusula de barreira em 2026 ou 2030. Por que então eles optam por esse caminho da federação? 

Seu objetivo principal com essa unidade é aumentar suas bancadas de deputados federais e com isso disputar com o PL, partido de Jair Bolsonaro e que concentra o acúmulo da extrema-direita.  

Em um cenário em que o Congresso Nacional chantageia o presidente Lula todos os dias e não aprova as medidas que o governo envia para melhorar a vida do povo, é de suma importância aumentar a bancada da esquerda e a super federação é a melhor estratégia para conseguir isso.  

Cada eleição é uma eleição e não temos como prevê o que sai das urnas, mas pegando os números das eleições de 2022, podemos fazer algumas projeções de como ficaria a bancada de esquerda em caso de unidade entre PT, PC do B, PV, PSOL e Rede, que foram duas federações distintas.  

São dois principais cenários que emergem da análise do quadro eleitoral de 2022. Nos estados em que a esquerda fez menos deputados, a unidade em uma super federação provavelmente levaria ao aumento da bancada da esquerda como um todo. É o caso de Santa Catarina, Paraná, Espírito Santos, Pernambuco, Ceará, Pará e Distrito Federal. 

Já nos estados em que a esquerda fez bancadas grandes, a super federação “protege” essas bancadas, aumentando as chances de manutenção do número de eleitos mesmo que a super federação da direita aumente sua bancada.  

Nesse cenário, UB e PP ao se juntarem aumentariam suas bancadas, mas “roubariam” deputados de outros partidos da direita e não da esquerda. 

Abaixo segue um detalhamento em cada Estado.  

<><> Cenário de aumento das bancadas: SC, PR, ES, PE, CE, PA, DF  

>>> Santa Catarina  

O PT fez dois deputados federais e o PSOL nenhum. O MDB fez 3, tendo 100 mil votos a menos que o PT. Porque o PT perdeu uma vaga na sobra.  

Uma federação provavelmente pegaria essa terceira vaga na sobra, uma vez que os dois juntos fariam ainda mais votos que o MDB.  

>>> Paraná  

O PT elegeu 6 deputados federais com 971 mil votos. Juntando com o PSOL, faria 1.012 milhões de votos. O PSD fez 7 deputados federais com 1 milhão e 51 mil votos. Juntos, PT e PSOL igualariam o PSD e provavelmente fariam 7 deputados federais.  

>>> Espírito Santo  

O PT fez dois deputados federais com 220 mil votos. Junto com o PSOL, faria 260 mil e disputaria uma terceira vaga na sobra.  

>>> Pernambuco  

Em Pernambuco, o PSB fez 5 deputados com 730.000.  

O PT fez 3 deputados federais e o PSOL/Rede fez 1. Juntos, a super federação faria 800 mil, ou seja, mais votos que o PSB. Isso significa que com certeza haveria uma ampliação para 5 deputados federais e poderia inclusive ampliar mais um beliscando a sobra.  

Pernambuco, aliás, antecipou o cenário da super federação: a primeira suplência do PSOL, em 2022, foi a Robyoncé, com 80 mil votos. Na grande maioria dos estados, o primeiro nome que não entrou tem uma votação pequena, fruto da dispersão de candidaturas. Com a concentração de candidaturas, a votação de todo mundo cresce.  

>>> Ceará  

No Ceará, a UB teve 720 mil e fez 4 deputados federais.  

Já o PT fez 3 deputados federais e o PSOL nenhum. Só que a soma dos votos desses partidos é de 745 mil, mais que a UB. Ou seja, com certeza a super federação faria 4 parlamentares.  

>>> Pará  

No Pará, O PL fez 3 deputados federais com 540 mil votos.  

Já o PT fez dois deputados federais e o PSOL nenhum. Juntos, esses partidos totalizaram os mesmos votos. Ou seja, com certeza a super federação faria 3 parlamentares.  

>>> Distrito Federal  

 No DF, o Republicanos fez 3 deputados federais com 300 mil votos.  

Já o PT fez dois deputados federais e o PSOL nenhum. Juntos, totalizaram 340 mil votos, mais que o Rep. Ou seja, com certeza a super federação faria 3 parlamentares.  

<><> Cenário proteção das bancadas diante da super federação da direita: RS, MG, RJ, SP, BA   

>>> Rio Grande do Sul  

No RS, PT e PSOL tiveram juntos 8 deputados. O PSOL fez um por Quociente Partidário (QP), que é quando o candidato faz sozinho os votos para se eleger. O PT fez 5 por QP e 2 na sobra. A última na sobra foi a Denise Pessoa, com 45 mil votos.  

Juntos, a super federação teria 1 milhão e 500 mil votos, aumentando a probabilidade de manutenção da última vaga conquistada pelo PT.  

>>> Minas Gerais 

Em Minas, UB e PP fizeram 6 separados. Juntos, somariam 1 milhão e 300 mil e avançariam para 7 deputados.   

Separados, a esquerda poderia perder um deputado na sobra. Juntos, somando 2 milhões de votos, provavelmente a esquerda garantiria esse último nome mesmo com o crescimento da federação UB e PP.  

>>> São Paulo  

Em São Paulo, a UB e PP provavelmente saíram de 10 para 11 deputados, uma vez que juntos tiveram 3 milhões de votos, mesmo número do PT que fez 11 parlamentares.  

Juntos, a super federação da esquerda faria mais de 5 milhões de votos em SP, garantindo a mesma bancada, sem perder nenhum para o crescimento da direita.  

>>> Rio de Janeiro 

No Rio de Janeiro, a super federação da direita somaria 1.500.000 votos, o que levaria ao aumento de 9 para 10 deputados federais.  

A super federação da esquerda somaria 1.700.000 votos, mesmo número do PL, o que garantiria a manutenção dos eleitos mesmo com o crescimento de UB e PP.  

>>> Bahia  

Na Bahia, O PT fez 10 deputados com 1.755.000 votos, sendo dois na sobra.  

A federação UB e PP faria 1.850.000 votos, o que poderia levar esses partidos a “roubar” do PT a última vaga na sobra.   

A super federação de esquerda faria 1.810.000, aumentando a chance de manutenção da vaga na sobra, levando a super federação da direita a “roubar” a vaga de outro partido. 

Em suma, a formação de uma super federação de esquerda é uma oportunidade histórica para avançar na unidade, na mobilização democrática e na renovação do campo progressista. E o ano de 2026, com sua importância e o risco de retrocesso na eleição presidencial, é o tempo político para um avanço desse tipo.  

 

Fonte: Por Josué Medeiros, no Le Monde

 

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