A importância de uma super federação
de esquerda no Brasil
No
final de 2025, o PT anunciou que fez um convite para o PSOL compor uma
federação partidária já para as eleições de 2026. Esse debate foi
esquentando na medida em que se aproximava o prazo para a formação de
instrumentos deste tipo, que acontece seis meses antes da eleição, no
começo de abril de 2026.
Federações
partidárias são um instrumento legal em que diferentes partidos se juntam para
fins de cálculos da cláusula de barreira, tendo como obrigação atuar juntos nas
eleições e nos parlamentos por 4 anos. Como qualquer decisão
política, a composição de uma federação deste tipo tem ônus e bônus para os
envolvidos, com riscos e vantagens que são colocados na balança.
Nesse
texto, organizo em três eixos os argumentos favoráveis à formação de uma
super federação da esquerda brasileira. São eles: a unidade contra a
extrema-direita para avançar na democracia brasileira; o papel que a super
federação pode ter na renovação da esquerda no Brasil e o potencial
eleitoral que essa unidade dos partidos tem para aumentar a força da esquerda
no Congresso Nacional.
<><>
1 – Unidade contra o fascismo para avançar na democracia
A força
e persistência do bolsonarismo no Brasil e no mundo e o risco real de vitória
de Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026, é o principal elemento
importante que coloca a urgência de um aprofundamento da unidade.
A
coligação eleitoral realizada em 2022 foi importante para vencer as
eleições, mas se mostrou insuficiente para construir uma ação mais coordenada
das esquerdas partidárias no Brasil. Foram vários os momentos de crise da
conjuntura em que o campo progressista se viu paralisado e dividido.
Por
exemplo, na crise do PIX, as esquerdas ficaram sem resposta e a extrema-direita
atuou sozinha até a deputada Erika Hilton soltar um vídeo, com mais de 15
dias de defensiva. Outro exemplo foi a PEC da Blindagem, em que parte dos
parlamentares de esquerda apoiaram, contrariando o sentimento da
base.
Uma
federação com regras democráticas tem o potencial de superar esse
problema, ampliando nossa capacidade de reagir aos ataques da
extrema-direita e da direita tradicional. Com isso vamos ao segundo eixo dos
argumentos favoráveis.
<><>
2 – Mobilização democrática das bases com manutenção da autonomia dos
partidos
A
criação das federações partidárias foi um avanço democrático apoiado pela
esquerda, porque protege partidos ideológicos como o PC do B e o PSOL. Mas
uma federação pode ser um instrumento de renovação democrática para além dessa
dimensão de proteger partidos ideológicos.
Uma
super federação da esquerda pode ter regras que estimulam a mobilização
democrática e, ao mesmo tempo, preservam a autonomia dos partidos, uma vez que
há um receio que o maior partido (o PT) “engula” os menores.
Pegando
o exemplo da Frente Ampla Uruguaia, temos um estatuto com algumas regras e
procedimentos que podem ser aplicados em uma super federação
- Mecanismos de
consulta – a
FA prevê primárias para decidir candidatos e plebiscitos para tomar
decisões em temas importantes caso seja convocado por 25% dos filiados.
Primárias abertas não somente aos filiados, mas a todos os
eleitores de esquerda para decidir candidatos a prefeito, governador e
presidente são um método já testados em muitos países (Argentina,
Colômbia, Chile, Uruguai) com muito sucesso, porque mobiliza as bases e
fortalece as lideranças. Hoje, as decisões são restritas às cúpulas
partidárias e a super federação pode mudar isso e contribuir para
reoxigenar os partidos.
- Liberdade de
ação – Qualquer
setor da FA pode ser liberado de seguir uma decisão a maioria em casos
especiais. A super federação pode prever casos desse tipo.
- Proteção da
minoria – No
Estatuto da Frente Ampla, se um quinto dos componentes qualificam um
assunto como fundamental, só se poderá adotar uma decisão pelo voto
aprovativo de três quintos dos componentes do corpo. Na super federação,
por exemplo, o PSOL com certeza será pelo menos 1/5, pelo número de
deputados e filiados e pode colocar barreiras deste tipo para se
proteger.
Em
suma, uma super federação com primárias abertas e proteção das minorias
fortaleceria os laços dos partidos com as bases, permitindo mais unidade e
mobilização para aumentar a força da esquerda na sociedade e no Congresso, que
é o terceiro eixo.
<><>
3 – Aumento da bancada da esquerda como um todo
As
federações partidárias forçam os partidos a montar uma chapa única de
candidatos a deputado federal. Isso leva os partidos a “juntar” seus votos e a
concentrar os candidatos em nomes mais fortes, nomes que serão muito
bem votados, sem a necessidade de pulverizar em vários candidatos com
poucos votos. Isso tem o potencial de aumentar as bancadas e é por essa razão
que setores da direita vem apostando na federação.
Por
exemplo, na direita tradicional, o União Brasil (UB) e o
Progressistas se juntaram em uma super federação de direita, intitulada
UP. Nenhum desses partidos corre risco de não alcançar a cláusula de barreira
em 2026 ou 2030. Por que então eles optam por esse caminho da federação?
Seu
objetivo principal com essa unidade é aumentar suas bancadas de
deputados federais e com isso disputar com o PL, partido de Jair Bolsonaro
e que concentra o acúmulo da extrema-direita.
Em um
cenário em que o Congresso Nacional chantageia o presidente Lula todos os
dias e não aprova as medidas que o governo envia para melhorar a
vida do povo, é de suma importância aumentar a bancada da esquerda e a super
federação é a melhor estratégia para conseguir isso.
Cada
eleição é uma eleição e não temos como prevê o que sai das urnas, mas pegando
os números das eleições de 2022, podemos fazer algumas projeções de
como ficaria a bancada de esquerda em caso de unidade entre PT, PC do B, PV,
PSOL e Rede, que foram duas federações distintas.
São
dois principais cenários que emergem da análise do quadro eleitoral de
2022. Nos estados em que a esquerda fez menos deputados, a unidade
em uma super federação provavelmente levaria ao aumento da
bancada da esquerda como um todo. É o caso de Santa Catarina, Paraná,
Espírito Santos, Pernambuco, Ceará, Pará e Distrito Federal.
Já nos
estados em que a esquerda fez bancadas grandes, a super federação
“protege” essas bancadas, aumentando as chances de manutenção do número de
eleitos mesmo que a super federação da direita aumente sua bancada.
Nesse
cenário, UB e PP ao se juntarem aumentariam suas bancadas, mas
“roubariam” deputados de outros partidos da direita e não da
esquerda.
Abaixo
segue um detalhamento em cada Estado.
<><>
Cenário de aumento das bancadas: SC, PR, ES, PE, CE, PA, DF
>>>
Santa Catarina
O PT
fez dois deputados federais e o PSOL nenhum. O MDB fez 3, tendo 100 mil votos a
menos que o PT. Porque o PT perdeu uma vaga na sobra.
Uma
federação provavelmente pegaria essa terceira vaga na sobra, uma vez que os
dois juntos fariam ainda mais votos que o MDB.
>>>
Paraná
O PT
elegeu 6 deputados federais com 971 mil votos. Juntando com o PSOL, faria
1.012 milhões de votos. O PSD fez 7 deputados federais com 1 milhão e
51 mil votos. Juntos, PT e PSOL igualariam o PSD e provavelmente
fariam 7 deputados federais.
>>>
Espírito Santo
O PT
fez dois deputados federais com 220 mil votos. Junto com o PSOL, faria 260 mil
e disputaria uma terceira vaga na sobra.
>>>
Pernambuco
Em
Pernambuco, o PSB fez 5 deputados com 730.000.
O PT
fez 3 deputados federais e o PSOL/Rede fez 1. Juntos, a super federação faria
800 mil, ou seja, mais votos que o PSB. Isso significa que com certeza haveria
uma ampliação para 5 deputados federais e poderia inclusive ampliar mais
um beliscando a sobra.
Pernambuco,
aliás, antecipou o cenário da super federação: a primeira suplência
do PSOL, em 2022, foi a Robyoncé, com 80 mil votos. Na
grande maioria dos estados, o primeiro nome que não entrou tem uma votação
pequena, fruto da dispersão de candidaturas. Com a concentração de
candidaturas, a votação de todo mundo cresce.
>>>
Ceará
No
Ceará, a UB teve 720 mil e fez 4 deputados federais.
Já o PT
fez 3 deputados federais e o PSOL nenhum. Só que a soma dos votos desses
partidos é de 745 mil, mais que a UB. Ou seja, com certeza a super federação
faria 4 parlamentares.
>>>
Pará
No
Pará, O PL fez 3 deputados federais com 540 mil votos.
Já o PT
fez dois deputados federais e o PSOL nenhum. Juntos, esses partidos totalizaram
os mesmos votos. Ou seja, com certeza a super federação faria 3
parlamentares.
>>>
Distrito Federal
No
DF, o Republicanos fez 3 deputados federais com 300 mil votos.
Já o PT
fez dois deputados federais e o PSOL nenhum. Juntos, totalizaram 340 mil votos,
mais que o Rep. Ou seja, com certeza a super federação faria 3
parlamentares.
<><>
Cenário proteção das bancadas diante da super federação da direita: RS, MG, RJ,
SP, BA
>>>
Rio Grande do Sul
No RS, PT
e PSOL tiveram juntos 8 deputados. O PSOL fez um por Quociente Partidário
(QP), que é quando o candidato faz sozinho os votos para se eleger. O PT fez 5
por QP e 2 na sobra. A última na sobra foi a Denise Pessoa, com 45 mil votos.
Juntos,
a super federação teria 1 milhão e 500 mil votos, aumentando a probabilidade de
manutenção da última vaga conquistada pelo PT.
>>>
Minas Gerais
Em
Minas, UB e PP fizeram 6 separados. Juntos, somariam 1 milhão e 300 mil e
avançariam para 7 deputados.
Separados,
a esquerda poderia perder um deputado na sobra. Juntos, somando 2 milhões de
votos, provavelmente a esquerda garantiria esse último nome mesmo com o
crescimento da federação UB e PP.
>>>
São Paulo
Em São
Paulo, a UB e PP provavelmente saíram de 10 para 11 deputados, uma
vez que juntos tiveram 3 milhões de votos, mesmo número do PT que fez
11 parlamentares.
Juntos,
a super federação da esquerda faria mais de 5 milhões de votos em SP,
garantindo a mesma bancada, sem perder nenhum para o crescimento da
direita.
>>>
Rio de Janeiro
No Rio
de Janeiro, a super federação da direita somaria 1.500.000 votos, o que
levaria ao aumento de 9 para 10 deputados federais.
A super
federação da esquerda somaria 1.700.000 votos, mesmo número do PL, o que
garantiria a manutenção dos eleitos mesmo com o crescimento de UB e
PP.
>>>
Bahia
Na
Bahia, O PT fez 10 deputados com 1.755.000 votos, sendo dois na
sobra.
A
federação UB e PP faria 1.850.000 votos, o que poderia levar esses
partidos a “roubar” do PT a última vaga na sobra.
A super
federação de esquerda faria 1.810.000, aumentando a chance de
manutenção da vaga na sobra, levando a super federação da direita a “roubar” a
vaga de outro partido.
Em
suma, a formação de uma super federação de esquerda é uma oportunidade
histórica para avançar na unidade, na mobilização democrática e na renovação do
campo progressista. E o ano de 2026, com sua importância e o risco de
retrocesso na eleição presidencial, é o tempo político para um avanço desse
tipo.
Fonte:
Por Josué Medeiros, no Le Monde

Nenhum comentário:
Postar um comentário