'Jovens
têm dificuldade de pegar o telefone e marcar uma consulta', diz pesquisadora
americana
Alguns
anos atrás, a psicolinguista americana Maryellen MacDonald começou a notar um
fenômeno em suas salas de aula na Universidade de Wisconsin-Madison, onde é
professora emérita de psicologia e ciências da linguagem.
"Percebi
que, logo antes do início da aula, quando [anteriormente] os alunos costumavam
conversar uns com os outros, agora todos estavam de cabeça baixa, olhando para
o telefone", diz MacDonald à BBC News Brasil.
"As
salas de aula estavam realmente silenciosas, exceto por talvez uma ou duas
pessoas. E isso me pareceu uma grande mudança", lembra MacDonald, que é
autora do livro More Than Words: How Talking Sharpens the Mind and Shapes Our
World (Mais do que palavras: Como a fala aprimora a mente e molda o nosso
mundo, em tradução livre).
Essa
constatação despertou em MacDonald o interesse no que muitos consideram uma
mudança profunda nos jovens da chamada geração Z — que costuma ser definida
como aqueles nascidos entre 1997 e 2012 — em relação às gerações anteriores: a
erosão nas habilidades de comunicação.
Segundo
MacDonald, atividades antes consideradas banais, como pegar o telefone para
marcar uma consulta ou contestar uma conta, hoje são encaradas com dificuldade
pelos adolescentes.
"É
claro que nem todos os jovens passam por isso", ressalta MacDonald.
"E
mesmo muitas pessoas que gostam de conversar pessoalmente não querem mais
atender ao telefone, porque hoje em dia [uma ligação geralmente] é para vender
produtos ou tentativa de golpe."
"Mas
essa relutância real em pegar o telefone e ligar para o consultório do seu
dentista, ou ter uma conversa cara a cara com um amigo, parece estar associada
à geração Z", salienta.
MacDonald
destaca que há entre os jovens uma relutância de modo geral em se envolver em
interações presenciais.
E a
deterioração na capacidade de comunicação é observada não apenas nas
habilidades de fala, mas também de escrita.
"E
vem acompanhada da erosão dos hábitos de leitura", afirma.
"Ler
e descobrir como a linguagem funciona é parte da habilidade de escrita. Uma
consequência natural de ler menos é não ser tão bom em transmitir ideias em
textos mais longos."
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Dificuldade de falar com clientes e colegas
Em
gerações anteriores, a adolescência costumava ser um período de conexão social
intensa, com novos amigos e namoros, marcos na transição para a vida adulta em
uma idade em que o cérebro está em desenvolvimento. Mas pesquisas indicam uma
redução nessas interações.
Segundo
relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE),
em 2022 apenas 36% dos jovens nos países membros relatavam interação presencial
diária com amigos, queda acentuada em relação aos 53% registrados em 2006 e a
maior redução entre todas as faixas etárias.
MacDonald
alerta que a deterioração na capacidade de se comunicar traz consequências
emocionais e sociais.
Ela
cita estudos em que os mais jovens dizem que se sentem solitários em comparação
com gerações anteriores.
"Também
relatam que têm menos amigos e interagem menos com esses amigos. Namoram menos
e saem menos", afirma.
"Dizem
que desejam ter essas interações sociais, mas que falar com as pessoas lhes
causa ansiedade e, por isso, acabam optando por mensagens de texto."
Uma
deterioração nas habilidades de comunicação pode ter impactos não apenas na
capacidade de criar vínculos e relacionamentos pessoais, mas também no ambiente
de trabalho.
"Se
não conseguem falar com os clientes ou com os colegas, ou têm medo de perguntar
o que devem fazer, ou não conseguem fazer uma apresentação, tudo isso
representa um problema no emprego", observa MacDonald.
"Começamos
a ver em pesquisas que empresas e gestores estão ficando preocupados com o fato
de esta geração de trabalhadores não ser capaz de fazer o que precisa ser
feito, de falar com as pessoas e de desempenhar suas funções."
Em
pesquisa do instituto Harris Poll publicada pela revista Fortune, 65% dos
trabalhadores da geração Z disseram que não sabem sobre o que conversar com
seus colegas, percentual bem acima dos cerca de 25% registrados entre os mais
velhos.
A
revista cita empresas que passaram a oferecer treinamento extra para ajudar
novos contratados a ganhar confiança em tarefas antes consideradas básicas,
como fazer uma apresentação, manifestar-se em reuniões ou até mesmo saber que
linguagem usar em um email.
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Exercício importante para o cérebro
MacDonald
se dedica há anos a pesquisar como as pessoas compreendem, produzem e usam a
linguagem.
Em seu
livro, ela argumenta que muitos dos benefícios cognitivos de falar decorrem do
fato de ser um trabalho árduo.
Esses
benefícios podem ser sentidos na atenção, na memória, na capacidade de regular
emoções e na saúde cognitiva à medida que envelhecemos.
"Se
as pessoas não estão conversando umas com as outras, isso tem consequências não
apenas em termos de solidão, mas também para suas habilidades cognitivas",
ressalta.
MacDonald
observa que falar é um exercício importante para o cérebro, com benefícios que
vão além do curto prazo e se estendem ao longo da vida.
Falar
sobre seus objetivos aumenta o foco mental e a probabilidade de concretizá-los,
falar sobre um tópico que precisa aprender torna o aprendizado mais rápido e
duradouro, e falar sobre suas emoções ajuda a esclarecer o que está pensando e
lidar com situações estressantes.
Apesar
de os jovens estarem acostumados a ouvir outras pessoas falarem em vídeos e nas
redes sociais, a psicolinguista diz que o tipo de estímulo não é o mesmo, já
que compreender o que alguém está dizendo não exige o mesmo esforço mental que
falar.
"Falar
é mais difícil do que compreender. E, por isso, exercitar suas habilidades de
fala traz benefícios que a mera compreensão não oferece", afirma.
Com
anos de experiência no estudo do impacto da linguagem em crianças, jovens,
idosos e pacientes com o mal de Alzheimer, MacDonald lembra ainda que falar
ajuda a proteger contra a demência.
"Inúmeros
estudos mostram que aqueles que têm muitas pessoas com quem conversar e que se
engajam em conversas possuem melhores habilidades cognitivas e resistem à
demência", diz.
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Filhos ansiosos e pais superprotetores
MacDonald
diz acreditar que os próprios adolescentes estejam cientes do problema que
enfrentam.
"Em
pesquisas, eles relatam estar preocupados com o declínio de suas habilidades
sociais."
Muitos
jovens hoje em dia não encontram situações que antes eram comuns e facilitavam
o desenvolvimento dessas habilidades.
MacDonald
lembra que o isolamento durante a pandemia de covid-19 reduziu as oportunidades
de socialização "em um momento em que deveriam estar aprendendo a
interagir e a conviver uns com os outros". O trabalho remoto também teve
impacto.
Ela
cita ainda a oferta abundante de entretenimento no telefone celular.
"[O
celular] é muito envolvente, ao passo que conversar com alguém exige mais
esforço, o que pode gerar ansiedade", observa MacDonald.
Outro
fator apontado pela pesquisadora é a superproteção por parte de muitos pais e
mães, que buscam eliminar os desafios enfrentados pelos filhos e, assim, acabam
reduzindo sua capacidade de lidar com problemas.
"Há
mais ansiedade entre os jovens. E os pais, em alguns casos, tomam a frente para
realizar tarefas pelos filhos, como fazer uma chamada telefônica, porque os
filhos ficam ansiosos ao fazê-las", diz MacDonald.
"É
compreensível, você quer proteger seu filho. Mas, ao mesmo tempo, falar é uma
dificuldade desejável", destaca.
"Dar
[aos filhos] a oportunidade de fazer uma tarefa ligeiramente difícil, como
ligar para o consultório médico e marcar uma consulta, algo que está
provavelmente dentro da capacidade até dos adolescentes ansiosos, é bom para
eles."
Segundo
MacDonald, habilidades linguísticas exigem prática, da mesma maneira que
aprender um esporte ou a tocar um instrumento musical.
"Os
pais devem saber que seus filhos precisam dessa prática, não devem fazer as
coisas por eles."
MacDonald
diz que que há medidas que pais, professores e os próprios jovens podem tomar
para enfrentar o problema e ressalta que mesmo quem não teve oportunidades de
desenvolver suas habilidades de fala ainda pode aprender.
Ela
cita as aulas de "introdução à vida adulta", oferecidas por algumas
universidades americanas, que ensinam "de lidar com dinheiro até fazer
ligações telefônicas". Para os mais jovens, aulas de oratória, teatro e
improviso podem ajudar.
Mas a
pesquisadora salienta que, além de desenvolver essas habilidades, também é
preciso oferecer oportunidades para que os jovens possam conversar.
Para
MacDonald, a decisão de retirar os celulares das salas de aula deve facilitar
não apenas o aprendizado, mas também a interação entre os alunos.
"É
uma combinação de oportunidades para praticar e, possivelmente, um pouco de
aconselhamento para ajudá-los a progredir e superar o fato de que tiveram bem
menos prática do que outras pessoas em seus primeiros anos de
adolescência", afirma.
Fonte:
BBC News Brasil

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