sábado, 7 de março de 2026

Investigação sobre Vorcaro sugere tráfico de influência envolvendo os três Poderes, diz cientista político

O que começou como um caso de fraude bancária de proporções bilionárias ganhou contornos de organização criminosa com as revelações da Operação Compliance Zero. A descoberta de uma milícia privada, ameaças, agressões e a morte de Luiz Felipe Machado de Moraes Mourão – o “Sicário” (termo que designa um assassino de aluguel) – sob custódia da Polícia Federal em Minas Gerais, escancaram a teia que envolve políticos, servidores do alto escalão do Banco Central e figuras do Judiciário.

“Não há dúvida de que há dificuldades adicionais para o esclarecimento do que de fato estava acontecendo. Essa incerteza tem muito a ver com uma característica desse jogo político: a própria definição de quem era aliado ou adversário mudava muito ao sabor das circunstâncias”, aponta Rafael Cortez, cientista político, ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.

Cortez explica a complexidade do caso, que envolve muito recurso financeiro, estreitamento de contatos oriundos dos mais diversos espaços da elite política e de comunicação do Brasil. “Mas a maneira como isso ia se construindo era muito volúvel. Não vai ser fácil fazer esse quebra-cabeça para entender o que de fato aconteceu do ponto de vista jurídico”, acrescenta.

O escândalo que, em um primeiro momento, estava no bojo de uma questão financeira, aos poucos aumentou em complexidade. Cortez explica que “passamos a pensar em tráfico de influências envolvendo os três Poderes da República. A descoberta de ontem nos aproxima da formação de uma organização criminosa”.

“São vários pedaços de um caso que deixou de ser simplesmente um caso. Passou a ser uma estrutura do Estado, uma maneira como os interesses chegam à estrutura do Estado, como são perturbados. Cometimento de crime com participação de agentes públicos é uma situação muito delicada. Todos os adjetivos parecem ainda não dar conta do que potencialmente estava acontecendo”, destaca.

Cortez analisa os efeitos imediatos na política. “Aquele movimento de tentar abafar ou deixar de lado por conta de questões eleitorais vai ficando muito complicado de ser feito. Esse movimento começava a gerar divisões e constrangimentos dentro de cada um dos Poderes.”

Sobre a possibilidade de Daniel Vorcaro firmar um acordo de delação premiada, o analista político pondera. “Há uma dimensão jurídica: o entendimento das condições para o exercício da delação. Assumindo que legalmente há essa possibilidade, a questão é de estratégia da defesa.”

Ele explica a lógica por trás de uma eventual delação. “O cometimento de crimes, um volume expressivo, em algum momento a pessoa acusada resolve contar o que sabe como estratégia de defesa, porque imagina que vai ganhar um destino não tão prejudicial. O tamanho da magnitude sugere que essa pode ser uma possibilidade.”

Cortez aponta que não faltam ramificações. “São citações em diversos órgãos do Estado, em organizações privadas, políticos. Não faltam ramificações do esquema.”

“Uma coisa é o impacto político relevante – isso está tendo, todo mundo só fala sobre isso, está mexendo com as ações do Estado, com os mecanismos de controle. Outra coisa é a extração de dividendos eleitorais desse processo. Isso é mais intrigante, mais difícil de antecipar justamente por conta do tamanho que isso está acontecendo”, conclui.

•        Qual Ciro seria? Por Oliveiros Marques

No tsunami de notícias sobre o escândalo do Banco Master surge agora, a partir das revelações a conta-gotas das mensagens encontradas nos celulares de Daniel Vorcaro, uma pergunta aparentemente simples, mas carregada de implicações políticas: afinal, qual Ciro seria?

Algumas dessas mensagens mostram conversas do banqueiro com o senador Ciro Nogueira e, mais intrigante ainda, uma ordem dada por Vorcaro ao seu operador financeiro, cunhado e pastor da Igreja Lagoinha, Fabiano Zettel, para realizar um pagamento a alguém identificado apenas como “Ciro”. O detalhe aparentemente banal abriu uma nova frente de apuração. Afinal, o nome aparece sem sobrenome. Não se sabe se isso se deve à intimidade entre os interlocutores e o destinatário mencionado no diálogo. Caberá às investigações esclarecer.

A dúvida, portanto, não é trivial. O Ciro que aparece nessas mensagens como destinatário do pagamento seria o senador, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e atual presidente do PP? Seria outro Ciro qualquer? Ou, quem sabe, Ciro, o Presbítero - já que vivemos tempos em que até referências bíblicas parecem atravessar o debate público? Sim, é uma ironia.

O próprio senador negou qualquer recebimento de valores e afirmou que a suposição de que o pagamento se referiria a ele é “uma mentira fabricada”. A declaração do nobre parlamentar não poderia ser diferente, _por supuesto_. Ainda assim, a investigação segue seu curso. E segue porque as mensagens revelam proximidade entre Vorcaro e o senador, a quem o banqueiro chegou a chamar de “grande amigo de vida” em outras conversas recuperadas pelos investigadores.

Mas talvez o ponto mais relevante não seja, afinal, a identidade exata do tal “Ciro”. O que realmente chama atenção é o ambiente político em que o Banco Master prosperou. E é aí que deveria estar concentrado o foco central da investigação. Não apenas para punir os responsáveis, colocando os fatos no seu devido tempo histórico - aquele em que os atos criminosos foram praticados -, mas também para aperfeiçoar mecanismos de governança capazes de impedir que atalhos semelhantes sejam utilizados novamente.

As conexões do banco com figuras e estruturas do poder durante o governo de Jair Bolsonaro são, no mínimo, eloquentes. O escândalo, considerado por autoridades como uma das maiores fraudes bancárias já investigadas no país, envolve suspeitas de carteiras de crédito fictícias, prejuízos bilionários e um esquema sofisticado que teria quatro núcleos de atuação: financeiro, corrupção institucional, lavagem de dinheiro e intimidação.

Trata-se de uma teia que se espraia. Além das conversas com políticos influentes, o caso também revelou menções a integrantes do Banco Central nomeados durante o governo Bolsonaro, evidenciando que o raio de influência do grupo era amplo e transversal.

Nesse contexto, cresce em Brasília uma suspeita incômoda: não faltariam razões para que parte da classe política - especialmente no Centrão e na extrema-direita - prefira não aprofundar demais as investigações. Porque, quanto mais camadas desse escândalo vêm à tona, mais nomes aparecem nas conversas, nos registros e nos encontros relatados pelos investigadores.

E quando muitos nomes começam a surgir, a velha tentação da política brasileira reaparece: o grande acordão. Um pacto silencioso entre interessados para que tudo avance apenas até certo ponto - o suficiente para dar satisfação à opinião pública, mas não o bastante para comprometer estruturas de poder sustentadas por esses mesmos atores.

Talvez por isso a pergunta “qual Ciro seria?” seja apenas a ponta visível de um iceberg muito maior. O nome pode até ser esclarecido com o tempo. O que permanece em aberto é algo mais profundo: até onde o sistema político brasileiro está realmente disposto a investigar a si próprio.

Se a busca pela verdade encontrará acolhimento nas instituições ou se acabará diluída nas conveniências da política, ainda é cedo para saber.

Mas uma coisa parece cada vez mais evidente: tem muito mais caroço nesse angu do que se imaginava no começo dessa história.

•        Tentam esconder Campos Neto no porão do caso Master. Por Moisés Mendes

O Banco Central funcionou sem presidente durante o governo de Bolsonaro. Eram oito diretores, dois deles trabalhando para a máfia de Daniel Vorcaro, sem controle de ninguém. E o presidente, onde estava? Hoje, os jornalões não sabem mais.

O presidente do Banco Central de Bolsonaro não existe em dois longos textos do Estadão e do Globo, publicados nos sites dos jornais nessa quinta-feira. Não existe nos telejornais da Globo e na maioria das reportagens da grande imprensa.

Os dois textos citados acima somam 9,2 mil caracteres, com tamanho suficiente para encher duas páginas de jornal impresso, com pouco espaço para fotos.

Pois lá estão no Estadão e no Globo os nomes de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão bancária, que recebiam mesadas de Vorcaro.

Estão contadas em detalhes as participações de ambos no esquema. O Estadão informa na manchete produzida por informações de Álvaro Gribel: “Caso Master: como atuavam os servidores do Banco Central que recebiam ‘mesada’ de Daniel Vorcaro”.

O título do Globo, para a reportagem de Thaís Barcellos, diz o seguinte: “Investigações apontam que servidor do BC já recebia vantagens indevidas de Vorcaro como diretor”.

São textos de qualidade, que não deixam muitas questões elementares sem resposta. Mas ao final fica a pergunta: quem mandava nos dois diretores da máfia de Vorcaro infiltrados no BC?

Ninguém mandava, porque não há, em dois textos com 9,2 mil caracteres somados, o nome de Roberto Campos Neto, presidente do BC de fevereiro de 2019 a dezembro de 2024.

Campos Neto foi presidente do banco durante todo o governo Bolsonaro e, por estabilidade assegurada em 2021, pela conquista da autonomia pelo BC, durante mais dois anos do governo Lula.

Lula não conseguiu, porque a lei não permite, livrar-se antes de Campos Neto e dos seus juros à la Master. E o BC só se livrou dos dois diretores da máfia depois que Gabriel Galípolo assumiu a presidência do banco em janeiro de 2025.

O nome de Campos Neto não aparece nos jornalões porque é preciso blindá-lo pelos bons serviços prestados ao rentismo e porque poderia ser chamado de novo a colaborar com a direita.

Ninguém fala de Campos Neto porque ele poderia ser, na negociação com Flávio, o novo posto Ipiranga do bolsonarismo e da velha direita.

Campos Neto tornaria possível uma convivência menos traumática das grandes corporações de mídia com o filho ungido. Um Campos Neto no Ministério da Fazenda afrouxaria tensões.

Não, ninguém diz que a Globo e os jornalões podem virar bolsonaristas. Apenas que a Globo e as outras organizações podem continuar sendo oportunistas. Para que se viabilize um governo anti-Lula.

Mas, mesmo que tenha sido blindado, o economista bolsonarista não tem mais conserto e perspectiva de poder em Brasília, depois das revelações do caso Master.

Não há mais o que fazer, depois que as investigações do próprio BC e da Polícia Federal descobriram, com provas, a extensão da quadrilha dentro do Banco Central de Roberto Campos Neto e de Bolsonaro.

Os dois diretores trabalhavam para Vorcaro, que trabalhava para Valdemar Costa Neto e Ciro Nogueira, que trabalhavam para o mafioso, porque era preciso atender as demandas do centrão, de Bolsonaro, de Tarcísio de Freitas e da base parlamentar da turma de Nikolas Ferreira.

Quase tudo dessas conexões aparece nos jornalões, menos o nome de Campos Neto. Por isso a grande imprensa combinou que as chamadas de capa teriam formulações semelhantes e ficariam assim: governo tenta incriminar Banco Central de Bolsonaro no caso Master.

Segundo os jornais, é o governo que tenta apontar o dedo para o BC de Bolsonaro e de Campos Neto. Não são as provas e os indícios vazados e que fazem com que os jornalões comam na mão dos investigadores e de André Mendonça.

Os diretores seriam figuras avulsas e sem controle, agindo como tarefeiros do mafioso sem qualquer controle. E Campos Neto fazia o quê? Campos Neto calibrava os juros sob aplausos dos que o exibiam como gênio e agora o escondem como um ex-chefe distraído nos porões do caso Master.

•        É preciso reconhecer a ação de Galípolo no caso Master. Por Aquiles Lins

Em meio a um dos maiores escândalos financeiros recentes do país, é preciso reconhecer a atuação firme do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, no processo que levou à liquidação do Banco Master. Em um ambiente de forte pressão política, disputas institucionais e interesses contrariados, a autoridade monetária tomou decisões que, embora duras, foram fundamentais para proteger a estabilidade do sistema financeiro brasileiro.

Pouco se fala, mas não se tratou de uma decisão simples. Ao assumir o comando do Banco Central, Galípolo herdou uma situação complexa na supervisão bancária — uma verdadeira “herança maldita” deixada pela gestão de Roberto Campos Neto. As fragilidades acumuladas ao longo dos anos vieram à tona no caso Master, expondo um conjunto de irregularidades financeiras que não poderiam ser ignoradas por qualquer autoridade responsável.

A medida mais contundente foi a decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master. Após identificar graves inconsistências contábeis, riscos de solvência e ameaças à estabilidade do sistema financeiro, o Banco Central afastou os administradores da instituição e nomeou um liquidante para conduzir o processo. Trata-se de um instrumento extremo, utilizado apenas quando não há mais alternativas viáveis para preservar a instituição sem colocar em risco o sistema como um todo.

Antes de chegar a esse desfecho, porém, houve tentativas de encontrar soluções menos traumáticas. Uma delas foi a análise da proposta de venda do banco ao Banco de Brasília. O Banco Central avaliou tecnicamente a operação, mas acabou vetando a transação ao identificar inconsistências relevantes na composição dos ativos declarados pelo Master. Permitir a aquisição naquele contexto significaria transferir riscos consideráveis para outra instituição e potencialmente ampliar o problema. Problema este que já existia e que incrivelmente Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC, deixou correr solto.

Paralelamente, a autoridade monetária instaurou processos administrativos sancionadores contra o banco por descumprimento de normas prudenciais. Entre os problemas apontados estavam insuficiência de depósitos compulsórios, fragilidade de caixa e dificuldades para cumprir obrigações financeiras — sinais clássicos de deterioração bancária que exigem resposta rápida do regulador.

A atuação não se limitou à supervisão administrativa. O Banco Central também cooperou com investigações conduzidas por órgãos como o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, compartilhando informações relevantes para apurações sobre possíveis crimes financeiros relacionados ao banco e a seus administradores.

As medidas tomadas sob a liderança de Gabriel Galípolo ainda foram ampliadas a outras instituições vinculadas ao conglomerado financeiro. Após a liquidação do Banco Master, o Banco Central estendeu intervenções e processos de liquidação a empresas e entidades ligadas ao grupo, utilizadas nas operações investigadas. Essa decisão demonstrou que a autoridade monetária estava disposta a enfrentar o problema em toda a sua extensão, e não apenas tratar seus efeitos mais visíveis.

Em meio às críticas e pressões políticas para evitar a liquidação, Galípolo também assumiu a defesa pública das decisões da autarquia. Durante evento da Associação Brasileira de Bancos, o presidente do Banco Central ressaltou que todo o processo foi conduzido com base em critérios técnicos e na autonomia institucional da autoridade monetária. “Agradeço a Deus por passar por isso sob o presidente Lula. Eu quero sublinhar a garantia da autonomia do BC e da Polícia Federal”, afirmou.

O próprio Galípolo destacou que a liquidação não foi uma decisão precipitada. Segundo ele, cerca de seis meses antes do decreto, o Banco Central já havia emitido um “cartão amarelo” ao banco, cobrando explicações sobre patrimônio e governança após identificar problemas de liquidez. Houve, portanto, tentativas de correção e diálogo antes da adoção da medida extrema.

Nesse contexto, é inevitável questionar o grau de conhecimento e eventual participação — ativa ou por omissão — da gestão anterior do Banco Central no escândalo do Master. A supervisão bancária é uma atividade contínua, e problemas dessa magnitude raramente surgem de um dia para o outro.

O que já está claro, no entanto, é que a atual direção do Banco Central atuou de forma decisiva para desbaratar o esquema que deu origem ao maior escândalo financeiro dos últimos tempos. Em um país acostumado a críticas — muitas delas justificadas — à condução da política monetária e ao patamar elevado dos juros, também é necessário reconhecer quando a autoridade monetária cumpre seu papel institucional.

Pode-se discordar de decisões econômicas de Galípolo. Pode-se debater a taxa de juros ou as estratégias de política monetária. Mas, no caso do Banco Master, sua atuação merece um registro claro: diante de pressões políticas, interesses poderosos e riscos sistêmicos, o Banco Central escolheu o caminho mais difícil — o da legalidade, da transparência e da defesa da estabilidade do sistema financeiro brasileiro.

 

Fonte: Brasil de Fato/Brasil 247

 

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