sábado, 7 de março de 2026

Como estoques baixos de armamentos podem afetar a guerra no Irã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma que o seu país possui "um estoque praticamente ilimitado" de armas essenciais. Por outro lado, o Ministério da Defesa do Irã diz ter "capacidade de resistir ao inimigo" por mais tempo do que os EUA haviam planejado.

Os estoques e fornecimentos de armamentos, por si só, não determinarão o resultado do conflito – a Ucrânia há muito tempo enfrenta a Rússia com menor número de tropas e menos armamentos –, mas certamente são um fator significativo.

O ritmo das operações tem sido intenso desde o início. Ambos os lados já estão consumindo armas mais rapidamente do que conseguem produzi-las.

O Instituto de Estudos de Segurança Nacional, sediado em Tel Aviv (Israel), estima que os EUA e Israel já realizaram mais de 2.000 ataques, cada um envolvendo múltiplas munições. E afirma que o Irã já lançou 571 mísseis e 1.391 drones. Muitos deles teriam sido interceptados. Para ambos os lados, esse nível de combate tende a se tornar mais difícil de sustentar quanto mais a guerra se prolongar.

<><> Irã

Autoridades ocidentais afirmam já ter observado uma queda no número de mísseis disparados pelo Irã — de centenas no primeiro dia da guerra para algumas dezenas agora.

Antes do conflito, estimava-se que o Irã possuía um estoque de mais de 2.000 mísseis balísticos de curto alcance. Nenhuma força militar divulga números exatos sobre quantas armas possui à disposição, pois essas informações são confidenciais para evitar que os adversários tenham acesso a elas.

O chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, o general Dan Caine, afirmou na quarta-feira (4/3) que os lançamentos de mísseis balísticos iranianos caíram 86% em relação ao primeiro dia dos combates, no sábado (28/2). O Comando Central dos EUA (Centcom) diz que houve uma redução de 23% apenas nas últimas 24 horas.

Acredita-se que o Irã tenha produzido em massa dezenas de milhares de drones de ataque unidirecional Shahed antes da guerra. O país exportou a tecnologia para a Rússia, que vem usando a sua própria versão do Shahed com efeitos devastadores na Ucrânia. Até mesmo os EUA copiaram o desenho do equipamento.

Mas Caine afirmou que os lançamentos de drones iranianos caíram 73% desde o primeiro dia do conflito. O Irã parece enfrentar dificuldades para manter um ritmo elevado de operações.

Ainda é possível que essa queda acentuada seja uma tentativa de preservar estoques, mas manter a produção tende a se tornar cada vez mais difícil.

A aviação dos EUA e de Israel agora tem supremacia aérea sobre o Irã. A maior parte das defesas antiaéreas iranianas foi destruída. O país já não possui uma força aérea considerada crível. O Comando Central dos EUA (Centcom, na sigla em inglês) afirma que a próxima fase da guerra está concentrada em localizar lançadores de mísseis e drones do Irã, seus estoques de armas e também destruir as fábricas que os produzem.

Isso pode facilitar a redução da capacidade militar iraniana por EUA e Israel. Ainda assim, será difícil destruir todos os seus estoques de armamentos.

O Irã é um país três vezes maior do que a França. Armas ainda podem ser escondidas e permanecer fora do alcance da observação aérea.

A história recente também mostra os limites das guerras travadas a partir do ar. As Forças Armadas de Israel ainda não destruíram o Hamas na Faixa de Gaza após mais de três anos de bombardeios intensivos. Os rebeldes houthis, no Iêmen, também resistiram a uma ofensiva de bombardeios dos EUA que durou um ano, e parte de seus armamentos sobreviveu.

<><> Estados Unidos

Os EUA continuam sendo a força militar mais poderosa do mundo. Seus estoques convencionais de armamentos são mais amplos do que os de qualquer outro país.

Ainda assim, as Forças Armadas dos EUA dependem em grande parte de armas de precisão de alto custo, produzidas em quantidades limitadas. Segundo relatos, Donald Trump convocou uma reunião com empresas do setor de defesa para o fim desta semana com o objetivo de pressioná-las a acelerar a produção. O gesto indica que até mesmo os recursos militares americanos podem sofrer pressão.

Parte dessa pressão pode ter diminuído agora que os EUA têm relativa liberdade para realizar ataques a curta distância.

O general Dan Caine afirmou que os EUA já passaram a utilizar menos armas de longo alcance – mais caras e sofisticadas – como os mísseis de cruzeiro Tomahawk. A Força Aérea americana agora emprega armas menos caras, de curta distância, como as bombas JDAM, que podem ser lançadas diretamente sobre o alvo.

Mark Cancian, coronel reformado da infantaria de marinha dos EUA e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, em Washington (CSIS, na sigla em inglês), afirma que, após o ataque inicial realizado à distância, os EUA "podem agora usar mísseis e bombas menos caros".

Segundo ele, os EUA poderiam manter esse nível de combate por "quase tempo indefinido". Quanto mais a guerra se prolonga, porém, menor tende a ser a lista de alvos, o que leva a uma desaceleração gradual no ritmo das operações.

<><> Defesas aéreas

Cancian, do CSIS, afirma que os EUA possuem dezenas de milhares de bombas JDAM (sigla em inglês para Munição Conjunta de Ataque Direto), mas que sistemas caros de defesa aérea estão disponíveis em menor quantidade. Nas fases iniciais do conflito, esses sistemas foram essenciais para conter a ameaça de ataques de retaliação do Irã.

Os mísseis Patriot têm sido altamente demandados, não apenas pelos EUA, mas também por seus aliados árabes e pela Ucrânia. Cada míssil interceptor custa mais de US$ 4 milhões (cerca de R$ 20 milhões). Estima-se que os EUA produzam atualmente cerca de 700 unidades por ano.

Se o Irã ainda conseguir lançar mísseis balísticos, isso tende a consumir rapidamente esses estoques limitados.

Cancian, do CSIS, estima ainda que os EUA possam ter estoques de cerca de 1.600 mísseis Patriot, que nos últimos dias já teriam sido reduzidos. Embora afirme que os EUA podem sustentar por "muito tempo" operações ar-terra, ele avalia que o confronto na área de defesa aérea é "mais incerto".

"Se o presidente Donald Trump estiver disposto a reduzir o número de mísseis Patriot disponíveis, então acredito que podemos resistir mais tempo que os iranianos, mas isso terá um custo em termos de risco em um eventual conflito no Pacífico", ressalta Cancian.

O fato de Trump ter marcado uma reunião com empresas de defesa dos EUA para o fim desta semana é um sinal de que existe alguma preocupação com os estoques de armamentos. Ainda assim, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, pontua que "o Irã não pode resistir mais tempo que nós". Nesse ponto, ele provavelmente está correto.

¨      Como os líderes do Irã planejam sobreviver diante da superioridade militar americana

Os Estados Unidos e Israel afirmam que seus ataques aéreos conjuntos já causaram danos significativos às instalações militares do Irã.

"Suas defesas aéreas, sua força aérea, marinha e liderança se foram", postou o presidente americano, Donald Trump, na sua plataforma Truth Social na terça-feira (3/3). "Eles querem conversar. Eu disse: 'Tarde demais!'"

O Irã reagiu lançando ataques contra Israel e os países do Oriente Médio que abrigam bases militares dos Estados Unidos, afirmando estar agindo em autodefesa.

Mas, com Israel e os Estados Unidos considerados militarmente superiores, quais opções teria o Irã nesta guerra? E qual estratégia o país está buscando seguir?

<><> Drenagem de recursos

O especialista em segurança do Oriente Médio, H. A. Hellyer, do centro de estudos britânico Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês), afirma que o atual objetivo militar do Irã não é vencer os Estados Unidos ou Israel "em uma guerra convencional", mas sim transformar o conflito em um evento "prolongado, regionalmente disperso e economicamente caro".

"O Irã não pode vencer convencionalmente", explica ele, "mas sua estratégia é garantir que a vitória dos demais permaneça cara e incerta."

A professora Nicole Grajewski, do Centro de Estudos Internacionais (Ceri, na sigla em francês) da Universidade Sciences Po, na França, é da mesma opinião.

Ela descreve a estratégia do Irã como "uma guerra de atrito", projetada para desgastar o oponente, drenando seus recursos e infligindo perdas sustentadas, até enfraquecer sua capacidade de luta.

Existe também uma dimensão psicológica.

"Durante a Guerra dos 12 Dias [contra Israel, no ano passado], o Irã se dirigiu muito mais a áreas civis", explica Grajewski.

"A precisão não foi grande preocupação. Isso instila temor psicológico e trauma entre a população."

Acredita-se que os mísseis e drones formem a principal estrutura do arsenal defensivo iraniano.

O inventário de mísseis balísticos do Irã teria sido seriamente afetado durante a Guerra dos 12 Dias, mas "os números exatos permanecem incertos, devido ao armazenamento subterrâneo e aos esforços contínuos de reposição", segundo Grajewski.

Israel calcula que o Irã tivesse cerca de 2,5 mil mísseis em fevereiro de 2026, de curto (até 1 mil km) e médio alcance (1 mil a 3 mil km).

Autoridades iranianas afirmam terem usado sistemas como os mísseis Sejjil, descrito como tendo alcance de cerca de 2 mil km, e Fattah, caracterizado por Teerã como hipersônico, ou seja, muito mais rápido que a velocidade do som.

<><> 'Cidades de mísseis'

As autoridades e a imprensa iraniana fazem frequentes referências a instalações de mísseis subterrâneas, conhecidas como "cidades de mísseis". Mas os detalhes da sua escala e inventário permanecem sem verificação.

O principal comandante americano, o general Dan Caine, afirma que os lançamentos de mísseis balísticos pelo Irã caíram em 86% desde o primeiro dia de combate, o sábado (28/2). E o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) informa uma queda de mais 23% na terça (3/3).

Ainda assim, Hellyer afirma que o Irã detém capacidade de ataque significativa para atingir "infraestrutura israelense, bases regionais americanas e aliados do Golfo, além de ameaçar os fluxos globais de energia através do Estreito de Ormuz".

"Mesmo uma paralisação limitada do Estreito pode trazer graves consequências para a economia global", destaca ele.

Cerca de 20% do petróleo do mundo passa através do Estreito. Agora, ele está efetivamente fechado pelo Irã, que prometeu atacar qualquer navio que tente transitar por ali.

O Irã pode enfrentar escassez de mísseis avançados e propelentes sólidos, mas Grajewski afirma que sua capacidade de lançar drones ainda é significativa.

Acredita-se que o país tenha produzido dezenas de milhares de drones de ataque Shahed kamikazes antes da guerra. Seu projeto foi exportado para a Rússia e até os Estados Unidos reproduziram alguns aspectos da sua tecnologia.

Eles também atendem a um objetivo estratégico além dos danos diretos. Eles "desgastam os sistemas de defesa aérea ao longo do tempo", forçando os adversários a gastar mísseis interceptadores de alto custo.

"Parte disso pretende exaurir as capacidades de interceptação", explica Grajewski.

"O Irã vem fazendo isso com UAVs [veículos aéreos não tripulados, na sigla em inglês] e drones. É algo que os russos também têm feito na Ucrânia."

Mas os Estados Unidos afirmam que os lançamentos de drones pelo Irã caíram em 73% desde o primeiro dia do conflito.

O Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS, na sigla em inglês), sediado em Tel Aviv (Israel), declarou que os Estados Unidos e Israel já realizaram mais de 2 mil ataques com múltiplas munições, enquanto o Irã lançou 571 mísseis e 1.391 drones, muitos dos quais foram interceptados.

Manter este nível de combate se tornará cada vez mais difícil para os dois lados, à medida que a guerra continua, defendem os especialistas.

<><> Conflito prolongado

O Irã também mantém uma das maiores forças armadas do Oriente Médio.

São cerca de 610 mil militares na ativa, segundo estimativa do relatório Balanço Militar de 2025, publicado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês). Eles incluem:

  • 350 mil no exército regular; e
  • 190 mil no Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), que supervisiona os programas de mísseis e drones, além de muitas operações regionais.

O Irã também conta com uma rede de aliados regionais. Eles incluem os rebeldes houthis, no Iêmen, grupos armados do Iraque, o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, nos territórios ocupados.

Mas seu autodenominado Eixo da Resistência sofreu fortes baixas durante os combates que se espalharam pela região, após o ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023.

Apesar das restrições atuais, o Irã tem experiência em suportar conflitos prolongados, segundo Grajewski. Sua resiliência data da Guerra Irã-Iraque (1980-1988), quando as cidades iranianas foram repetidamente atacadas, apesar da inferioridade convencional.

Mas a continuidade da estratégia iraniana pode depender da sua coesão interna.

"Realmente depende de como a elite política e de segurança permanece unida e se existem cismas", explica Grajewski. "Isso pode causar maior desarticulação, em termos de estratégia militar."

"Parece que os operadores de mísseis estão sob muita tensão e exaustão, o que causa imprecisões ou disparos acidentais contra alvos errados. Muitas operações são mais desorganizadas e existe um nível de exaustão."

E isso, combinado com os contínuos ataques às forças e estoques de mísseis do Irã, "poderá gerar uma escalada inadvertida".

<><> 'Escaladas maiores'

Nicole Grajewski destaca a Turquia, que declarou que as defesas aéreas da Otan destruíram um míssil balístico iraniano que se dirigia para o espaço aéreo turco na quarta-feira (4/3).

Vizinha do Irã, a Turquia buscou mediar as negociações entre o Irã e os Estados Unidos antes do início da guerra aérea no final de semana (28/2-1/3). O país alertou para que "todas as partes evitem tomar ações que gerem escaladas maiores".

Mas o objetivo principal do Irã é tornar as condições "tão intoleráveis" para os países vizinhos, que "possam potencialmente pressionar os Estados Unidos ou, pelo menos, tentar levar os EUA para um acordo mais negociado ou para o fim das hostilidades", explica Grajewski.

"Até aqui, não acho que isso terá sucesso, mas parece ser a aposta que o Irã tem no momento", destaca ela.

Mas esta aposta pode simplesmente sair pela culatra.

H. A. Hellyer afirma que os países do Golfo "podem decidir que, embora se oponham em princípio à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, sua própria segurança, agora, está em risco, devido às represálias iranianas contra eles. E que, por isso, faz mais sentido apoiar a campanha americana, para pôr fim à ameaça imediata do Irã."

"Não acho que os países do Golfo já tenham chegado a este ponto, mas o tempo, neste particular, está acabando", conclui ele.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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