Como
estoques baixos de armamentos podem afetar a guerra no Irã
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
afirma que o seu país possui "um estoque praticamente ilimitado" de
armas essenciais. Por outro lado, o Ministério da Defesa do Irã diz ter "capacidade de
resistir ao inimigo" por mais tempo do que os EUA haviam planejado.
Os
estoques e fornecimentos de armamentos, por si só, não determinarão o resultado
do conflito – a Ucrânia há muito tempo enfrenta a Rússia com menor número de
tropas e menos armamentos –, mas certamente são um fator significativo.
O ritmo
das operações tem sido intenso desde o início. Ambos os lados já estão
consumindo armas mais rapidamente do que conseguem produzi-las.
O
Instituto de Estudos de Segurança Nacional, sediado em Tel Aviv (Israel),
estima que os EUA e Israel já realizaram mais de 2.000 ataques, cada um
envolvendo múltiplas munições. E afirma que o Irã já lançou 571 mísseis e 1.391
drones. Muitos deles teriam sido interceptados. Para ambos os lados, esse nível
de combate tende a se tornar mais difícil de sustentar quanto mais a guerra se
prolongar.
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Irã
Autoridades
ocidentais afirmam já ter observado uma queda no número de mísseis disparados
pelo Irã — de centenas no primeiro dia da guerra para algumas dezenas agora.
Antes
do conflito, estimava-se que o Irã possuía um estoque de mais de 2.000 mísseis
balísticos de curto alcance. Nenhuma força militar divulga números exatos sobre
quantas armas possui à disposição, pois essas informações são confidenciais
para evitar que os adversários tenham acesso a elas.
O chefe
do Estado-Maior Conjunto dos EUA, o general Dan Caine, afirmou na quarta-feira
(4/3) que os lançamentos de mísseis balísticos iranianos caíram 86% em relação
ao primeiro dia dos combates, no sábado (28/2). O Comando Central dos EUA
(Centcom) diz que houve uma redução de 23% apenas nas últimas 24 horas.
Acredita-se
que o Irã tenha produzido em massa dezenas de milhares de drones de ataque
unidirecional Shahed antes da guerra. O país exportou a tecnologia para a
Rússia, que vem usando a sua própria versão do Shahed com efeitos devastadores
na Ucrânia. Até mesmo os EUA copiaram o desenho do equipamento.
Mas
Caine afirmou que os lançamentos de drones iranianos caíram 73% desde o
primeiro dia do conflito. O Irã parece enfrentar dificuldades para manter um
ritmo elevado de operações.
Ainda é
possível que essa queda acentuada seja uma tentativa de preservar estoques, mas
manter a produção tende a se tornar cada vez mais difícil.
A
aviação dos EUA e de Israel agora tem supremacia aérea sobre o Irã. A maior
parte das defesas antiaéreas iranianas foi destruída. O país já não possui uma
força aérea considerada crível. O Comando Central dos EUA (Centcom, na sigla em
inglês) afirma que a próxima fase da guerra está concentrada em localizar
lançadores de mísseis e drones do Irã, seus estoques de armas e também destruir
as fábricas que os produzem.
Isso
pode facilitar a redução da capacidade militar iraniana por EUA e Israel. Ainda
assim, será difícil destruir todos os seus estoques de armamentos.
O Irã é
um país três vezes maior do que a França. Armas ainda podem ser escondidas e
permanecer fora do alcance da observação aérea.
A
história recente também mostra os limites das guerras travadas a partir do ar.
As Forças Armadas de Israel ainda não destruíram o Hamas na Faixa de Gaza após
mais de três anos de bombardeios intensivos. Os rebeldes houthis, no Iêmen,
também resistiram a uma ofensiva de bombardeios dos EUA que durou um ano, e
parte de seus armamentos sobreviveu.
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Estados Unidos
Os EUA
continuam sendo a força militar mais poderosa do mundo. Seus estoques
convencionais de armamentos são mais amplos do que os de qualquer outro país.
Ainda
assim, as Forças Armadas dos EUA dependem em grande parte de armas de precisão
de alto custo, produzidas em quantidades limitadas. Segundo relatos, Donald
Trump convocou uma reunião com empresas do setor de defesa para o fim desta
semana com o objetivo de pressioná-las a acelerar a produção. O gesto indica
que até mesmo os recursos militares americanos podem sofrer pressão.
Parte
dessa pressão pode ter diminuído agora que os EUA têm relativa liberdade para
realizar ataques a curta distância.
O
general Dan Caine afirmou que os EUA já passaram a utilizar menos armas de
longo alcance – mais caras e sofisticadas – como os mísseis de cruzeiro
Tomahawk. A Força Aérea americana agora emprega armas menos caras, de curta
distância, como as bombas JDAM, que podem ser lançadas diretamente sobre o
alvo.
Mark
Cancian, coronel reformado da infantaria de marinha dos EUA e pesquisador do
Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, em Washington (CSIS, na sigla em
inglês), afirma que, após o ataque inicial realizado à distância, os EUA
"podem agora usar mísseis e bombas menos caros".
Segundo
ele, os EUA poderiam manter esse nível de combate por "quase tempo
indefinido". Quanto mais a guerra se prolonga, porém, menor tende a ser a
lista de alvos, o que leva a uma desaceleração gradual no ritmo das operações.
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Defesas aéreas
Cancian,
do CSIS, afirma que os EUA possuem dezenas de milhares de bombas JDAM (sigla em
inglês para Munição Conjunta de Ataque Direto), mas que sistemas caros de
defesa aérea estão disponíveis em menor quantidade. Nas fases iniciais do
conflito, esses sistemas foram essenciais para conter a ameaça de ataques de
retaliação do Irã.
Os
mísseis Patriot têm sido altamente demandados, não apenas pelos EUA, mas também
por seus aliados árabes e pela Ucrânia. Cada míssil interceptor custa mais de
US$ 4 milhões (cerca de R$ 20 milhões). Estima-se que os EUA produzam
atualmente cerca de 700 unidades por ano.
Se o
Irã ainda conseguir lançar mísseis balísticos, isso tende a consumir
rapidamente esses estoques limitados.
Cancian,
do CSIS, estima ainda que os EUA possam ter estoques de cerca de 1.600 mísseis
Patriot, que nos últimos dias já teriam sido reduzidos. Embora afirme que os
EUA podem sustentar por "muito tempo" operações ar-terra, ele avalia
que o confronto na área de defesa aérea é "mais incerto".
"Se
o presidente Donald Trump estiver disposto a reduzir o número de mísseis
Patriot disponíveis, então acredito que podemos resistir mais tempo que os
iranianos, mas isso terá um custo em termos de risco em um eventual conflito no
Pacífico", ressalta Cancian.
O fato
de Trump ter marcado uma reunião com empresas de defesa dos EUA para o fim
desta semana é um sinal de que existe alguma preocupação com os estoques de
armamentos. Ainda assim, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete
Hegseth, pontua que "o Irã não pode resistir mais tempo que nós".
Nesse ponto, ele provavelmente está correto.
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Como os líderes do Irã planejam sobreviver diante da
superioridade militar americana
Os
Estados Unidos e Israel afirmam que seus ataques aéreos conjuntos já
causaram danos significativos às instalações
militares do Irã.
"Suas
defesas aéreas, sua força aérea, marinha e liderança se foram", postou o
presidente americano, Donald Trump, na sua plataforma
Truth Social na terça-feira (3/3). "Eles querem conversar. Eu disse:
'Tarde demais!'"
O Irã
reagiu lançando ataques contra Israel e os países do Oriente Médio que abrigam
bases militares dos Estados Unidos, afirmando estar agindo em autodefesa.
Mas,
com Israel e os Estados Unidos considerados militarmente superiores, quais
opções teria o Irã nesta guerra? E qual estratégia o país está buscando seguir?
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Drenagem de recursos
O
especialista em segurança do Oriente Médio, H. A. Hellyer, do centro de estudos
britânico Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança
(Rusi, na sigla em inglês), afirma que o atual objetivo militar do Irã não é
vencer os Estados Unidos ou Israel "em uma guerra convencional", mas
sim transformar o conflito em um evento "prolongado, regionalmente
disperso e economicamente caro".
"O
Irã não pode vencer convencionalmente", explica ele, "mas sua
estratégia é garantir que a vitória dos demais permaneça cara e incerta."
A
professora Nicole Grajewski, do Centro de Estudos Internacionais (Ceri, na
sigla em francês) da Universidade Sciences Po, na França, é da mesma opinião.
Ela
descreve a estratégia do Irã como "uma guerra de atrito", projetada
para desgastar o oponente, drenando seus recursos e infligindo perdas
sustentadas, até enfraquecer sua capacidade de luta.
Existe
também uma dimensão psicológica.
"Durante
a Guerra dos 12 Dias [contra Israel,
no ano passado], o Irã se dirigiu muito mais a áreas civis", explica
Grajewski.
"A
precisão não foi grande preocupação. Isso instila temor psicológico e trauma
entre a população."
Acredita-se
que os mísseis e drones formem a principal estrutura do arsenal defensivo
iraniano.
O
inventário de mísseis balísticos do Irã teria sido seriamente afetado durante a
Guerra dos 12 Dias, mas "os números exatos permanecem incertos, devido ao
armazenamento subterrâneo e aos esforços contínuos de reposição", segundo
Grajewski.
Israel
calcula que o Irã tivesse cerca de 2,5 mil mísseis em fevereiro de 2026, de
curto (até 1 mil km) e médio alcance (1 mil a 3 mil km).
Autoridades
iranianas afirmam terem usado sistemas como os mísseis Sejjil, descrito como
tendo alcance de cerca de 2 mil km, e Fattah, caracterizado por Teerã como
hipersônico, ou seja, muito mais rápido que a velocidade do som.
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'Cidades de mísseis'
As
autoridades e a imprensa iraniana fazem frequentes referências a instalações de
mísseis subterrâneas, conhecidas como "cidades de mísseis". Mas os
detalhes da sua escala e inventário permanecem sem verificação.
O
principal comandante americano, o general Dan Caine, afirma que os lançamentos
de mísseis balísticos pelo Irã caíram em 86% desde o primeiro dia de combate, o
sábado (28/2). E o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) informa uma
queda de mais 23% na terça (3/3).
Ainda
assim, Hellyer afirma que o Irã detém capacidade de ataque significativa para
atingir "infraestrutura israelense, bases regionais americanas e aliados
do Golfo, além de ameaçar os fluxos globais de energia através do Estreito de
Ormuz".
"Mesmo
uma paralisação limitada do Estreito pode trazer graves consequências para a economia
global", destaca ele.
Cerca
de 20% do petróleo do mundo passa através do Estreito. Agora, ele está
efetivamente fechado pelo Irã, que prometeu atacar qualquer navio que tente
transitar por ali.
O Irã
pode enfrentar escassez de mísseis avançados e propelentes sólidos, mas
Grajewski afirma que sua capacidade de lançar drones ainda é significativa.
Acredita-se
que o país tenha produzido dezenas de milhares de drones de ataque Shahed
kamikazes antes da guerra. Seu projeto foi exportado para a Rússia e até os
Estados Unidos reproduziram alguns aspectos da sua tecnologia.
Eles
também atendem a um objetivo estratégico além dos danos diretos. Eles
"desgastam os sistemas de defesa aérea ao longo do tempo", forçando
os adversários a gastar mísseis interceptadores de alto custo.
"Parte
disso pretende exaurir as capacidades de interceptação", explica
Grajewski.
"O
Irã vem fazendo isso com UAVs [veículos aéreos não tripulados, na sigla em
inglês] e drones. É algo que os russos também têm feito na Ucrânia."
Mas os
Estados Unidos afirmam que os lançamentos de drones pelo Irã caíram em 73%
desde o primeiro dia do conflito.
O
Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS, na sigla em inglês), sediado
em Tel Aviv (Israel), declarou que os Estados Unidos e Israel já realizaram
mais de 2 mil ataques com múltiplas munições, enquanto o Irã lançou 571 mísseis
e 1.391 drones, muitos dos quais foram interceptados.
Manter
este nível de combate se tornará cada vez mais difícil para os dois lados, à
medida que a guerra continua, defendem os especialistas.
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Conflito prolongado
O Irã
também mantém uma das maiores forças armadas do Oriente Médio.
São
cerca de 610 mil militares na ativa, segundo estimativa do relatório Balanço
Militar de 2025, publicado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos
(IISS, na sigla em inglês). Eles incluem:
- 350 mil no
exército regular; e
- 190 mil no Corpo
da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), que supervisiona os programas de
mísseis e drones, além de muitas operações regionais.
O Irã
também conta com uma rede de aliados regionais. Eles incluem os rebeldes
houthis, no Iêmen, grupos armados do Iraque, o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas,
nos territórios ocupados.
Mas seu
autodenominado Eixo da Resistência sofreu fortes
baixas durante os combates que se espalharam pela região, após o ataque do
Hamas a Israel em outubro de 2023.
Apesar
das restrições atuais, o Irã tem experiência em suportar conflitos prolongados,
segundo Grajewski. Sua resiliência data da Guerra Irã-Iraque (1980-1988),
quando as cidades iranianas foram repetidamente atacadas, apesar da
inferioridade convencional.
Mas a
continuidade da estratégia iraniana pode depender da sua coesão interna.
"Realmente
depende de como a elite política e de segurança permanece unida e se existem
cismas", explica Grajewski. "Isso pode causar maior desarticulação,
em termos de estratégia militar."
"Parece
que os operadores de mísseis estão sob muita tensão e exaustão, o que causa
imprecisões ou disparos acidentais contra alvos errados. Muitas operações são
mais desorganizadas e existe um nível de exaustão."
E isso,
combinado com os contínuos ataques às forças e estoques de mísseis do Irã,
"poderá gerar uma escalada inadvertida".
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'Escaladas maiores'
Nicole
Grajewski destaca a Turquia, que declarou que as defesas aéreas da Otan
destruíram um míssil balístico iraniano que se dirigia para o espaço aéreo
turco na quarta-feira (4/3).
Vizinha
do Irã, a Turquia buscou mediar as negociações entre o Irã e os Estados Unidos
antes do início da guerra aérea no final de semana (28/2-1/3). O país alertou
para que "todas as partes evitem tomar ações que gerem escaladas
maiores".
Mas o
objetivo principal do Irã é tornar as condições "tão intoleráveis"
para os países vizinhos, que "possam potencialmente pressionar os Estados
Unidos ou, pelo menos, tentar levar os EUA para um acordo mais negociado ou
para o fim das hostilidades", explica Grajewski.
"Até
aqui, não acho que isso terá sucesso, mas parece ser a aposta que o Irã tem no
momento", destaca ela.
Mas
esta aposta pode simplesmente sair pela culatra.
H. A.
Hellyer afirma que os países do Golfo "podem decidir que, embora se
oponham em princípio à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, sua
própria segurança, agora, está em risco, devido às represálias iranianas contra
eles. E que, por isso, faz mais sentido apoiar a campanha americana, para pôr
fim à ameaça imediata do Irã."
"Não
acho que os países do Golfo já tenham chegado a este ponto, mas o tempo, neste
particular, está acabando", conclui ele.
Fonte:
BBC News Mundo

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