sábado, 7 de março de 2026

Numância sim, escravidão nunca: a inspiração milenar que guia Cuba frente à asfixia

A asfixia petrolífera contra Cuba decretada pela administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afeta a vida cotidiana de toda a ilha. Não há um só canto da pátria de José Martí em que suas consequências não se façam sentir. A política de máxima pressão atinge toda a população. Afeta tudo: alimentação, saúde, geração de energia elétrica, atividades produtivas e transporte.

Mesmo diante dos danos infligidos e de toda a dor provocada, há uma grande resistência no povo cubano. Para quem desconhece sua história, essa resiliência pode parecer desconcertante. Não é. Trata-se de uma nação inteira que vive e respira no ritmo e em sintonia com Numância, no ano 133 a.C.

Os exemplos são numerosos. Hoje, as guaguas (ônibus), principal sistema de transporte coletivo em Havana, não circularam por falta de combustível. Os usuários, então, passaram a caminhar mais do que o habitual, a deslocar-se em motocicletas ou a recorrer aos chamados enjambres, veículos elétricos que transportam passageiros por diferentes rotas. Com infinita paciência, aguardam nos pontos até chegar sua vez de embarcar.

A falta de gasolina na cidade também é evidente nos postos de abastecimento. Os carros formam longas filas para abastecer. Ainda assim, não há desespero nem mau humor entre os motoristas. Enquanto esperam, conversam amigavelmente até chegar sua vez. Sem combustível, as viagens para outras cidades — ou mesmo para regiões próximas — tornam-se difíceis. Mas a vida continua.

<><> Uma nova contingência

A contingência energética levou à suspensão de atividades que dependem de transporte. A situação lembra as medidas implementadas durante a pandemia de covid-19. Nos locais de trabalho, discute-se se o funcionamento exige a presença física dos trabalhadores ou se as atividades podem ser realizadas à distância. Nos centros de educação superior, debatem-se com os estudantes outras possibilidades de ensino. A Universidade de Havana, por exemplo, ampliou a modalidade semipresencial a todos os cursos e propõe avaliar quais atividades realmente exigem presença física. Em conjunto, a população permanece atenta à nova etapa que se inicia.

O desabastecimento de combustível também afeta a geração de energia elétrica. Embora durante todo o ano passado o governo cubano tenha trabalhado na recuperação do sistema de transmissão elétrica, a falta de petróleo impede a produção necessária. O governo priorizou atividades econômicas como a irrigação e o funcionamento de entidades produtivas. Isso, porém, afeta a vida doméstica. Como consequência, os apagões passaram a fazer parte do cotidiano dos habitantes de Havana. Ainda assim, encontraram formas de se adaptar às dificuldades. Não é raro ver pessoas saindo às ruas com pequenas lanternas portáteis.

Às vezes, em lares que contam com fogões elétricos, há eletricidade disponível por apenas três horas diárias. Por isso, é preciso esperar o momento em que haja energia para cozinhar toda a comida do dia. Em outros casos, cozinha-se com carvão ou lenha.

<><> Obsessão contra a rebeldia

Esse estrangulamento, apesar de sua gravidade, não é novo. Trata-se da fase mais recente da persistente obsessão estadunidense em pôr fim à irreverente rebeldia da ilha. Desde o início da Revolução, em 1959, Cuba atravessou momentos extremamente difíceis e conseguiu seguir adiante com grandes sacrifícios e esforços. A agressão militar promovida por Trump contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro não constituem um fato excepcional na história hemisférica do último meio século.

Em outubro de 1983, Washington desembarcou tropas na ilha de Granada e derrubou Hudson Austin. Quatro anos antes, Maurice Bishop havia conseguido estabelecer um governo progressista, aliado a Cuba e à União Soviética. Para o império, foi inadmissível que o país se atrevesse a iniciar a construção de um aeroporto.

Em 20 de dezembro de 1989, os Estados Unidos intervieram militarmente no Panamá. A invasão terminou no final de janeiro do ano seguinte. O general Manuel Noriega, antigo colaborador da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), acusado de narcotráfico, foi deposto, detido e encarcerado até sua morte.

Naquele período, desmoronaram o campo socialista e a União Soviética. Subitamente, a ilha perdeu um apoio fundamental. A precariedade e o isolamento cresceram a níveis inimagináveis. Muitas vozes previram o fim da experiência socialista no Caribe. Havana respondeu instaurando um período econômico especial em tempos de paz, marcado por enormes sacrifícios — e conseguiu seguir adiante.

Naqueles anos, em 18 de março de 1990, durante um encontro de intelectuais brasileiros em São Paulo, Fidel Castro recordou que o venezuelano Carlos Andrés Pérez e o espanhol Felipe González, no contexto de uma iniciativa destinada a convencê-lo a modificar sua estratégia, lhe disseram: “Sabemos que vocês vão resistir, não temos a menor dúvida. Os ianques sabem que isso lhes custaria 250 mil mortos, mas significaria grandes perdas para Cuba. A filosofia não pode ser a resistência; a estratégia não pode ser a de Sagunto e Numância”.

<><> Memória aos heróis

Numância foi uma cidade celta que, no ano 133 antes de Cristo, após resistir durante 15 meses ao cerco romano e sofrer fome extrema e peste, escolheu o suicídio coletivo de sua população e o incêndio de suas edificações em vez de se render.

Fidel Castro não hesitou: “Preferimos Sagunto e Numância a sermos escravos”, respondeu aos políticos. “Nossa estratégia — explicou aos intelectuais brasileiros — é a da resistência e da luta; não pode ser outra. Se você cede a ponta de um dedo, pedem o dedo, a mão, o braço, tudo.”

Amalia Díaz, uma jovem estudante de Filosofia de 20 anos, especialista no pensamento de Fernando Martínez Heredia, é digna herdeira dessa tradição de resistência da qual falava o comandante Castro. Ela explica com clareza como, no espírito dos tempos atuais, apesar de todas as adversidades e profundamente marcada pelo sacrifício em combate de 32 cubanos que defenderam até o último sopro de vida o presidente Nicolás Maduro em Caracas, a Revolução Cubana mantém vínculos com o digno exemplo de Numância.

Conta Amalia:

“A morte dos 32 cubanos na Venezuela, defendendo a vida e a integridade do presidente Nicolás Maduro, foi muito impactante. Senti uma dor imensa. Eles resistiram. A forma como nossos heróis se defenderam demonstra uma humanidade muito grande. Mostra claramente que somos um povo capaz de resistir.

Quando chegaram os corpos de nossos 32 companheiros, uma multidão saiu sob a chuva para prestar-lhes homenagem. Alguns não tinham nenhuma referência sobre quem eram aquelas pessoas. Mesmo assim, esperamos o dia inteiro para poder passar diante de caixinhas tão pequenas, cobertas por uma bandeira, e chorar.

Quando soube da notícia, corri para a praça. Senti uma grande incerteza, um desespero enorme. E dor. Ouvi a resposta do governo cubano. Encontrei os companheiros. E também percebi que existem pessoas como eles, nossos heróis, que podem estar pelo mundo e também aqui em Cuba. Pessoas que lutam contra um regime social de exploração absurdo. Pessoas que são companheiras. Somos nós que, dia após dia, fazemos coisas contra essa exploração. Somos muitos. Não estamos sozinhos. E temos um caminho a seguir.

O império não gosta de saber que existem pessoas que lutam contra ele. A partir do sacrifício de nossos 32 heróis, há hoje uma consciência nacional cubana mais forte. Aqui está a consciência anti-imperialista. Trump não vai conseguir roubar nosso futuro. Obviamente, é isso que tenta fazer. Mas não vai conseguir. Eu estou resistindo. E há mais gente comigo, que me acompanha. Abaixo o imperialismo!”

O escritor Omar González, figura central da cultura cubana e baluarte da Rede em Defesa da Humanidade, concorda com a metáfora que associa a atual resistência cubana à heroica luta de Numância. No entanto, estabelece uma diferença em relação à antiga população celtibera. Afirma:

“Não vamos nos suicidar. Nós vamos vencer”.

¨      Apagões programados, resistência criativa: a vida sob cerco energético em Cuba

O que as pessoas comuns veem é a luz. Para elas, é crucial se há ou não eletricidade. É essencial saber se as ruas e suas casas estão iluminadas ou se permanecem às escuras. A eletricidade é a força motriz que move um país. A falta de energia paralisa uma nação.

Essa realidade óbvia torna-se mais do que evidente na Cuba de hoje. E seu povo sabe disso. Por isso, consulta o funcionamento do sistema elétrico nacional como se consulta a previsão do tempo. Quer saber quanto durarão os apagões e a que horas ocorrerão.

Todos os dias, o jornal Granma inclui em seu conteúdo uma seção que informa as previsões sobre a disponibilidade de energia, detalhando impactos e horários, como se fosse um boletim meteorológico.

Os apagões, que provocam múltiplos transtornos à vida cotidiana, anunciam-se como a antessala do caos. Em 3 de fevereiro, a embaixada dos Estados Unidos emitiu um alerta advertindo sobre uma situação crítica de instabilidade elétrica e desabastecimento de combustível que afeta severamente o cotidiano da ilha. O comunicado aponta impactos em serviços como abastecimento de água, iluminação, refrigeração e comunicações, além de alertar seus cidadãos sobre um possível aumento dos protestos contra Washington.

<><> Estrangulamento

Esse estrangulamento obrigou o governo de Cuba a comunicar às companhias aéreas a falta de combustível para abastecer os aviões.

Roberto Fernández, profundo conhecedor e participante das lutas dos trabalhadores do setor elétrico na América Latina, recorda que o célebre revolucionário russo Vladimir I. Lenin resumiu a fórmula do socialismo na consigna: sovietes e eletricidade. E acrescenta: “Está claro que Donald Trump quer retirar da Revolução Cubana uma das duas bases desse modelo.”

A interrupção do serviço elétrico na ilha busca ser apresentada como resultado da desorganização e da ineficiência governamentais, e não como consequência da aposta dos Estados Unidos em estrangular energeticamente Havana.

Segundo o engenheiro elétrico Rubén Campos Olmo, diretor-geral da usina termelétrica da cidade de Matanzas, de 66 anos — já em idade de aposentadoria há algum tempo —, existe um déficit de geração de energia que impede atender à demanda nos momentos mais críticos. Há desconexões programadas para evitar falhas no sistema, cortes elétricos planejados e, além disso, problemas de descoordenação no despacho energético.

E não para por aí: também foi estabelecido um planejamento para atender necessidades estratégicas. Nas palavras do presidente Miguel Díaz-Canel:

Tínhamos a economia parada, as indústrias paradas, as atividades agrícolas paradas, a irrigação interrompida. Estavam paradas as principais fábricas, os principais centros exportadores e os principais centros de produção de bens para a população. E, fazendo uma análise realista das condições do país, dissemos: é preciso destinar parte da energia à economia, sabendo que isso ocorreria às custas de afetar a população. Mas a população também depende do que produzimos na economia; se a economia não produz, a situação se agrava ainda mais, e o impacto dos problemas energéticos torna-se maior na vida das cubanas e dos cubanos.Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba

Como parte dessa priorização, o Ministério da Saúde Pública passou a garantir atendimento prioritário às urgências médicas, aos programas materno-infantis, ao tratamento do câncer e a serviços vitais, como a hemodiálise.

Sem dúvida, o embargo desempenha um papel muito importante nesta crise. Rubén explica:

Na revolução energética que realizamos em 2005, conduzida pelo companheiro Fidel Castro, foram instalados quase 2 mil megawatts de geração distribuída. Chama-se assim porque está espalhada por todo o país. Essa geração consome diesel e óleo combustível. Hoje temos mais de mil megawatts dessa capacidade disponíveis, mas, por um conjunto de razões, tanto econômicas quanto relacionadas ao bloqueio, é praticamente impossível obter esses combustíveis, que são basicamente importados.Rubén Campos Olmo, engenheiro elétrico

O engenheiro Campos conhece bem o sistema elétrico mexicano. Visitou as usinas da Comissão Federal de Eletricidade (CFE), em Tula e Manzanillo, e possui uma visão muito abrangente da indústria energética de seu país. Segundo ele, sete centrais termelétricas produzem pouco mais de 40% da eletricidade. As usinas de ciclo combinado geram entre 15% e 17%, e a produção proveniente de fontes renováveis, como a energia fotovoltaica, vem crescendo significativamente.

<><> Um pequeno gigante regional

Elmer García é diretor de manutenção da Termelétrica de Matanzas. Para conversar com o La Jornada, vestiu-se orgulhosamente com o uniforme da CFE, presente que recebeu quando esteve no México. Todos os dias, junto à sua equipe, realiza o verdadeiro feito de manter em funcionamento uma enorme usina de 38 anos, que gera entre 280 e 295 megawatts — cerca de 15% a 16% da produção elétrica cubana.

A usina tem um nome heroico: Antonio Guiteras, o revolucionário cubano profundamente anti-imperialista e defensor do socialismo anticapitalista, que morreu com as armas na mão em maio de 1935. Trata-se de uma termelétrica veterana, construída em março de 1988, que literalmente funciona a todo vapor, apesar de a vida útil de uma central desse tipo variar entre 30 e 35 anos.

Com a paciência de um profissional que domina profundamente a história e os desafios do setor, o engenheiro Campos explica, na sala de reuniões da termelétrica, que a Guiteras foi projetada para operar com petróleo leve proveniente do campo socialista, mas que, após o colapso soviético, esse combustível teve de ser substituído pelo petróleo cubano, muito mais pesado e viscoso. Desde 2002 até hoje, foram queimadas cerca de 10,5 milhões de toneladas.

O dirigente vê nos trabalhadores da usina uma peça-chave para o sucesso da empresa:

O capital mais precioso que temos — adverte — são nossos trabalhadores. Somos um coletivo criativo, integrado por técnicos de nível superior, médio e operários, que constantemente apresentam soluções para os problemas que enfrentamos. Ao longo dos anos de operação da usina, perdemos equipamentos importantes que afetam nossa eficiência. Mas, com o apoio da Associação Nacional de Inovadores e Racionalizadores, estamos resolvendo muitos desses problemas. Fabricamos milhares de peças de reposição. As produções realizadas em Cuba representam mais de 30% de substituição efetiva de importações. Os trabalhadores encontram soluções para aquilo que não podemos importar por causa do bloqueio. Isso faz parte do que nosso presidente chamou de resistência criativa.Rubén Campos Olmo, engenheiro elétrico

Yandy Rojas é o secretário-geral da organização sindical. Segundo ele, os trabalhadores que inovam e apresentam soluções para os problemas recebem reconhecimentos morais e incentivos econômicos. Embora — ressalte — o fundamental sejam os estímulos morais. E acrescenta: “Não se pode esquecer que nós, trabalhadores, estamos aqui para resistir à ofensiva dos poderosos.”

Conta ainda o engenheiro Campos que os trabalhadores participam da gestão da empresa. O planejamento é debatido a partir da organização sindical, e não é necessário ocupar um cargo administrativo para participar das decisões. Cada seção sindical realiza uma assembleia mensal, iniciada com o relatório apresentado pela administração. 100% dos trabalhadores são sindicalizados. Mesmo o operário mais simples pode oferecer uma opinião que contribua para a solução de problemas. Trata-se de uma gestão participativa.

Trump — afirma — foi longe demais. Está claro que, em sua agenda, está provocar danos ao sistema energético. Desrespeitou o direito internacional, impede o acesso a financiamentos e dificulta enormemente a chegada de combustível, criando numerosos problemas.

“Mas estamos acostumados a momentos difíceis. Superamos o Período Especial. Agora também vamos superar esta situação, como já fizemos em outras ocasiões.”- Rubén Campos Olmo, engenheiro elétrico

 

Fonte: La Jornada 

 

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