A
natureza no vermelho
A
proposta deste artigo (quase ensaio) é examinar, criticamente, o
relatório State of Finance for Nature 2026, destacando suas
evidências empíricas sobre os fluxos financeiros globais relacionados à
natureza e refletindo sobre suas implicações para o Brasil. A perspectiva
adotada é crítica, sobretudo diante da tendência de transformar os cuidados
ambientais em ativos de mercado, o que pode reduzir a complexidade
socioambiental a métricas financeiras.
A
justificativa para esta análise está na necessidade de contribuir para o debate
sobre mudanças climáticas, oferecendo uma leitura que vá além da tecnocracia e
que dialogue com realidades regionais. Se o relatório mostra que a natureza no
mundo está no vermelho, no Brasil o déficit de natureza é ainda mais grave,
especialmente em biomas como a caatinga, onde pressões climáticas e econômicas
se somam, tornando urgente a construção de políticas públicas que articulem
conservação, bioeconomia e desenvolvimento sustentável.
O
relatório State of
Finance for Nature 2026, publicado pelo Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), apresenta um diagnóstico claro: a natureza
encontra-se em déficit estrutural. A economia mundial acumula uma dívida
ambiental que ameaça a sustentabilidade dos sistemas produtivos. Em 2023, os
fluxos financeiros negativos somaram 7,3 trilhões de dólares, enquanto os
investimentos em soluções baseadas na natureza ficaram em torno de 200 bilhões.
Essa
diferença mostra que os mecanismos de financiamento continuam a privilegiar
atividades nocivas, como combustíveis fósseis e agricultura intensiva, em
detrimento de práticas que poderiam restaurar ecossistemas e reduzir riscos
climáticos.
O relatório resulta
de uma metodologia que combina rastreamento de fluxos financeiros públicos e
privados, modelagens econômicas e simulações estatísticas, com foco em
identificar tanto capitais positivos quanto negativos para a natureza. A
coordenação é do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), em
parceria com instituições como Global Canopy, Frankfurt School e Helmholtz
Centre, além de apoio de ministérios da Alemanha e Luxemburgo.
As
equipes de pesquisa foram compostas por especialistas de centros de finanças,
universidades e organismos multilaterais, sem participação direta de
instituições brasileiras na autoria, embora o país apareça nas bases de dados
comparativos.
Os
países contribuem por meio de informações oficiais de gastos públicos,
relatórios de desenvolvimento e estatísticas setoriais, que alimentam as
análises. O relatório, iniciado em 2021 com foco em ecossistemas terrestres e
ampliado ao longo dos anos para incluir ambientes marinhos e fluxos negativos,
cumpre papel político ao pressionar governos e empresas a internalizar riscos
ambientais em suas estratégias econômicas.
Sua
inovação em 2026 está na sistematização da “Nature Transition X-Curve”,
que articula evidências empíricas com um modelo de transição, reforçando a
função de guia para políticas públicas e decisões empresariais.
O
primeiro capítulo estabelece o cenário global e questiona se o mundo está no
caminho para cumprir as metas de biodiversidade e clima. A resposta é negativa.
O relatório mostra que os fluxos financeiros negativos superam em mais de
trinta vezes os investimentos positivos. A União Europeia aparece como região
que avança em regulamentações, como a Diretiva de Relatórios de
Sustentabilidade Corporativa (CSRD), exigindo que empresas divulguem riscos
ambientais.
Já na
América Latina, países como a Colômbia desenvolvem frameworks de
mudança transformadora. O Brasil surge apenas em estatísticas gerais, sem
protagonismo, com gastos públicos em agricultura e florestas ainda
insuficientes frente ao desmatamento.
O
segundo capítulo detalha os fluxos financeiros negativos. Em 2023, subsídios
ambientalmente nocivos representaram cerca de 1,7 trilhão de dólares, divididos
entre incentivos à produção de combustíveis fósseis e à agricultura intensiva.
Os investimentos privados em setores de alto impacto ambiental somaram mais de
5,6 trilhões. Entre 2019 e 2023, houve pouca redução significativa,
evidenciando a persistência de políticas que sustentam modelos insustentáveis.
Países
da OCDE continuam a destinar bilhões em subsídios a combustíveis fósseis,
enquanto na América Latina subsídios agrícolas e energéticos permanecem comuns.
O
relatório mostra que o Brasil aparece em estudos comparativos sobre subsídios à
produção de petróleo e gás, além de incentivos à expansão da agropecuária. Na
Ásia, países como China e Índia concentram grandes fluxos privados em setores
de alto impacto ambiental.
Esses
dados reforçam que a transição exige não apenas novos investimentos, mas também
a eliminação gradual de práticas nocivas. A permanência de subsídios revela que
os governos ainda não internalizaram os custos ambientais em suas políticas
fiscais, mantendo a lógica de crescimento baseada em exploração intensiva de
recursos naturais.
O
terceiro capítulo analisa os fluxos financeiros destinados às soluções
naturais. Em 2023, os investimentos globais foram de aproximadamente 200
bilhões de dólares, muito menores que os fluxos negativos. O relatório
distingue entre gastos públicos domésticos, financiamento internacional
via Official Development Finance (ODF), e iniciativas privadas
como títulos verdes, fundos de biodiversidade e cadeias de commodities certificadas.
Na Europa, títulos verdes e fundos de biodiversidade têm crescido, especialmente
em países como Alemanha e França. Na América Latina, destacam-se os debt-for-nature
swaps, aplicados em Belize e Equador.
O
Brasil, como já sinalizado acima, aparece nas estatísticas de gastos públicos
em agricultura e florestas, mas com desafios persistentes relacionados ao
desmatamento na Amazônia. Gráficos mostram que os investimentos públicos em
soluções sustentáveis cresceram em alguns setores, mas ainda insuficientes para
fechar o “finance gap”.
O
relatório estima que seriam necessários cerca de 500 bilhões de dólares anuais
até 2050 para alcançar as metas internacionais. Essa diferença entre o que é
investido e o que seria necessário evidencia um descompasso estrutural que
compromete a transição para uma economia positiva para a natureza.
O
quarto capítulo apresenta estimativas de necessidades de investimento. Os
cálculos apontam para centenas de bilhões de dólares anuais até 2050, revelando
um hiato significativo entre o que é investido e o que seria necessário.
Gráficos comparativos mostram que os fluxos atuais estão muito aquém das metas
estabelecidas.
Regionalmente,
países em desenvolvimento, especialmente na América Latina e África, enfrentam
maiores dificuldades para mobilizar recursos. O Brasil é citado como exemplo de
país com grande potencial de investimento em soluções sustentáveis, sobretudo
em florestas e agricultura sustentável.
Na
Ásia, países como Indonésia e Filipinas aparecem como casos críticos, devido à
pressão sobre ecossistemas costeiros e florestais. O relatório mostra que, sem
políticas robustas, esses países não conseguirão atrair capital privado
suficiente para fechar o déficit de financiamento. A análise evidencia que o
problema não é apenas a falta de recursos, mas a ausência de mecanismos
institucionais que deem segurança aos investidores. O Brasil, por exemplo,
carece de políticas consistentes que integrem soluções sustentáveis às
estratégias nacionais de desenvolvimento.
O
quinto capítulo introduz a “Nature Transition X-Curve” como ferramenta
para orientar políticas públicas e estratégias empresariais. A curva sugere uma
trajetória de redução de fluxos negativos e aumento de investimentos positivos.
Gráficos ilustram como essa transição pode ser aplicada em diferentes contextos
regionais. Um exemplo citado é o da Colômbia, que desenvolveu um framework de
mudança transformadora para políticas públicas.
Na
Ásia, dados da ASEAN mostram que os fluxos negativos ainda predominam, mas que
há oportunidades de expansão de soluções sustentáveis em setores como
agricultura e energia renovável.
O
Brasil, mais uma vez, aparece nas estatísticas de fluxos públicos e privados,
sugerindo que sua participação é crucial para o sucesso da transição global.
Contudo, o relatório não apresenta estudos de caso específicos para o país, o
que revela uma lacuna de protagonismo.
A
ausência de políticas estruturadas e de instrumentos financeiros inovadores
limita a capacidade de mobilizar recursos. A “X-Curve” é apresentada
como referência para governos e empresas, mas sua aplicação depende da vontade
política de enfrentar interesses consolidados nos setores de energia e
agropecuária.
Os
anexos detalham metodologias de atribuição de fluxos financeiros, categorização
de gastos públicos e simulações estatísticas. Tabelas mostram exemplos de
projetos, matrizes de atribuição e fatores de escala aplicados em diferentes
países, incluindo Estados Unidos, China e União Europeia. O Brasil aparece em
comparações regionais sobre gastos públicos e subsídios. Essa ausência reforça
a necessidade de maior transparência e detalhamento sobre como os recursos são
aplicados em setores estratégicos, como agricultura e energia.
As
tabelas do anexo mostram, ainda, que os subsídios ambientalmente nocivos
permanecem elevados em diversos países. Em 2023, os subsídios a combustíveis
fósseis somaram mais de 700 bilhões de dólares globalmente. Os subsídios
agrícolas intensivos ultrapassaram 500 bilhões. Esses números revelam que,
apesar do discurso de transição ecológica, os governos continuam a sustentar
práticas insustentáveis. O relatório sugere que a eliminação gradual desses
subsídios é condição necessária para reduzir os fluxos negativos e ampliar os
investimentos positivos.
O
relatório conclui com o chamado ao “Big Nature Turnaround”, uma virada
estrutural em direção a uma sociedade positiva para a natureza. Essa narrativa
busca engajar governos e empresas, destacando que a transição não é apenas
ambiental, mas também econômica e social. Contudo, a ênfase em instrumentos
financeiros e em oportunidades de mercado revela uma perspectiva mercadológica
que transforma os cuidados com a natureza em ativos negociáveis.
Essa
abordagem corre o risco de reduzir a complexidade socioambiental a métricas
financeiras, invisibilizando dimensões culturais e sociais.
A
crítica central é que o relatório, ao mesmo tempo em que denuncia o déficit de
natureza, reforça a lógica de mercado como solução. Títulos verdes, fundos de
biodiversidade e créditos de carbono são apresentados como instrumentos
centrais, mas não enfrentam a raiz do problema: a permanência de subsídios
nocivos e a dependência estrutural de setores extrativistas. A transição para
uma economia positiva para a natureza exige mais do que mecanismos financeiros;
requer mudanças profundas nas políticas fiscais, agrícolas e energéticas.
O
déficit de natureza, evidenciado pelos números do relatório, exige que o Brasil
assuma protagonismo. Na região do Semiárido, por exemplo, políticas de
convivência com a seca, manejo sustentável da caatinga e investimentos em
energias renováveis podem alinhar desenvolvimento regional às metas globais.
A
transição ecológica não pode ser reduzida a instrumentos de mercado; precisa
ser estruturada como política pública que reconheça a natureza como ativo
fundamental, mas também como patrimônio social e cultural. O desafio é
transformar evidências empíricas em ação concreta, superando a lógica
mercadológica que ainda domina o debate.
O
relatório State of Finance for Nature 2026, como demonstrado acima,
evidencia que os fluxos financeiros negativos ainda superam em larga escala os
investimentos em soluções baseadas na natureza. Para o Brasil, essa constatação
deve ser traduzida em políticas públicas que enfrentem a permanência de
subsídios nocivos e ampliem mecanismos de financiamento voltados à restauração
e ao uso sustentável dos ecossistemas.
Na
região do Semiárido, onde a caatinga é o bioma predominante, a agenda precisa
incorporar a bioeconomia como eixo estratégico, valorizando produtos da
sociobiodiversidade e cadeias produtivas adaptadas às condições locais. A
economia descarbonizada, com foco em energias renováveis, pode ser articulada
com programas de convivência com a seca, criando sinergias entre mitigação
climática e desenvolvimento regional.
As
sinalizações indiretas do relatório apontam para a necessidade de mobilizar
capital privado em larga escala, mas também revelam os limites de uma abordagem
centrada apenas em instrumentos de mercado. Na região do Semiárido, a
integração de grandes projetos estruturantes, como o Projeto de Integração do
São Francisco (PISF) e a Ferrovia Transnordestina, deve ser repensada sob a
ótica da sustentabilidade.
Esses
empreendimentos precisam incorporar critérios de soluções sustentáveis,
reduzindo impactos ambientais e ampliando benefícios sociais. A agenda de
hidrogênio verde, que começa a ganhar espaço no Brasil, pode ser vinculada ao
Semiárido como vetor de desenvolvimento, desde que acompanhada de políticas de
inclusão produtiva e de proteção da caatinga.
As
lições do relatório reforçam que o déficit de natureza não será superado apenas
com novos fluxos financeiros, mas com mudanças estruturais nas políticas
públicas. Para a região do Semiárido, isso significa priorizar investimentos em
manejo sustentável da caatinga, em tecnologias sociais de acesso à água e em
cadeias produtivas que combinem conservação e geração de renda.
A
criação de um Novo Investimento em Biodiversidade voltado para o Semiárido
poderia alinhar recursos nacionais e internacionais, garantindo que
bioeconomia, energias renováveis e infraestrutura estejam integradas em uma
estratégia de transição justa. A utopia que emerge é a possibilidade de
transformar vulnerabilidade em potência, desde que a natureza seja tratada como
ativo estratégico e não apenas como mercadoria.
Fonte:
Por Cidoval Morais de Sousa, em a Terra é Redonda

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