Brasileiros
são latinos ou não — e por que isso é tão polêmico?
"Português
é falado em só um país da América Latina. Olha esses brasileiros tentando ser
parte do time KKKKKKK."
A
postagem feita por uma pessoa que diz ser americana filha de mãe mexicana na
rede social X trouxe de volta uma polêmica frequente nas redes sociais: os
brasileiros são latinos ou não?
Em uma
semana marcada pela celebração da latinidade, com o show do porto-riquenho Bad
Bunny no intervalo do Super Bowl no domingo (8/2), poucos dias após ganhar três
Grammys, entre eles o de Álbum do Ano, o post recebeu quase 6 mil republicações
comentadas, em sua maioria de brasileiros e de hermanos latino-americanos,
defendendo o lugar dos brasileiros nesse clube.
Apesar
da reação ao comentário da americana, a ideia de que brasileiros são latinos
está longe de ser um consenso — mesmo entre os próprios brasileiros.
"O
Brasil é um país único, ninguém se parece com a gente", disse um usuário,
ao comentar reportagem sobre o tema no canal de YouTube da BBC News Brasil.
Outro
afirmou: "Ser latino nos coloca em um pacote. Ser brasileiro nos torna
únicos! E pra mim isso basta".
Uma
pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) confirma essa
falta de identidade latina da maioria dos brasileiros.
Segundo
o levantamento, de 2023, quando questionados sobre sua identidade, apenas 4%
dos brasileiros se definem como latino-americanos, ante 83% que se dizem
brasileiros e 10% que se definem como "cidadãos do mundo".
Edições
anteriores da pesquisa, de 2014 e 2018, mostraram resultados similares.
"Essa
é uma questão estrutural, que não se altera", diz Feliciano de Sá
Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de
São Paulo (IRI-USP) e um dos responsáveis pelo estudo.
"É
um pouco a ideia de que nós somos autossuficientes na nossa brasilidade. Não é
que nós rejeitemos a noção de América Latina, simplesmente não a temos de forma
profunda, como têm nossos vizinhos."
Mas o
que explica essa diferença na identidade latina de brasileiros e dos nossos
vizinhos falantes de espanhol?
Qual o
papel da França e dos Estados Unidos nisso?
E por
que o termo "latino" é cercado de polêmica?
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A origem do nome América Latina
Existem
diferentes versões sobre quem foi o pioneiro a usar o termo América Latina.
"Alguns
autores atribuem-no ao chileno Francisco Bilbao, que o mencionou pela primeira
vez numa conferência em Paris em 1856", destaca Alejandra Claros Borda,
secretária-geral do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe
(CAF), em artigo sobre o tema.
Outros
estudos indicam que, no mesmo ano, o colombiano José María Torres Caicedo
utilizou o termo em seu poema As Duas Américas. Nele, Torres Caicedo defende a
independência e a unidade dos países latino-americanos contra a intervenção dos
Estados Unidos.
Mas o
conceito de América Latina tornou-se popular de fato em 1861, quando o
imperador francês Napoleão 3º tentou criar uma esfera de influência francesa no
continente americano, baseada numa suposta afinidade cultural entre os povos de
origem latina, observa Claros Borda.
"A
ideologia panlatina, que já existia na França desde os anos 1830, ganhando
força no governo de Napoleão 3º [o chamado Segundo Império Francês, de 1852 a
1870], objetivava subjugar as nações hispano-americanas ao poderio francês e,
ao mesmo tempo, visava diminuir a área de atuação da política imperialista dos
EUA", destacam os pesquisadores Rafael Leporace Farret e Simone Rodrigues
Pinto, em artigo sobre o tema.
"Seu
ponto central era a aproximação cultural entre a França e as nascentes
repúblicas de língua espanhola, a partir de uma união 'latina'
intercontinental, mas que obviamente teria a França como liderança."
Sob o
comando de Napoleão 3º, os franceses invadiram o México em 1862. Mas a ideia de
um "panlatinismo" liderado pela França foi rejeitada pelos países
latino-americanos, que se opuseram à intervenção francesa e apoiaram a
resistência mexicana liderada por Benito Juárez — primeiro indígena a ser
presidente do México (por cinco períodos, entre 1858 e 1872).
Apesar
dessa origem turbulenta, o termo América Latina foi resgatado no século 20 e
ganhou força com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Comissão
Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) — uma das cinco comissões
regionais da ONU, criada em 1948 para fomentar o desenvolvimento econômico e
social na região.
"A
noção de latino-americanidade só entra mais forte no Brasil nos anos 1960, com
a esquerda intelectual que, por conta das ditaduras, vai fazer uma cooperação
intelectual e no movimento de emancipação contra o imperialismo
americano", observa Guimarães.
É nessa
época que surgem alguns dos grandes hits da MPB celebrando a latinidade, como
Soy loco por ti, América, gravada por Caetano Veloso em 1968; Sangue Latino,
dos Secos e Molhados (1973); Apenas um Rapaz Latino-Americano, de Belchior
(1976) e Canción Por La Unidad de Latino América, de Milton Nascimento e Chico
Buarque (1979).
"Com
toda a discussão em torno das escolas de economia da Cepal, essa narrativa
latino-americana chega para nós com mais ênfase. Mas ela vem de cima para
baixo, das elites para o povo, e nunca entra no âmago da nossa
identidade", avalia Guimarães.
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Ser latino nos EUA
Enquanto
nos países da América Latina e Caribe o termo latino-americano foi
ressignificado a partir dos anos 1960, com uma ideia de união regional contra o
imperialismo americano em meio às ditaduras, nos EUA, o termo
"latino" tem outra história.
Por lá,
latino é uma categoria étnico-racial, usada pelo Censo para classificar
"indivíduos de origem ou cultura mexicana, porto-riquenha, salvadorenha,
cubana, dominicana, guatemalteca e de outros países da América Central, América
do Sul ou de origem/cultura espanhola", segundo a definição atualmente em
vigor.
Com
esta definição, que limita a classificação latino (ou hispânico) a pessoas de
países "de cultura ou origem espanhola", brasileiros não são
considerados latinos pelas estatísticas oficiais americanas.
Isso
tem origem em uma lei, aprovada em 1976 pelo Congresso americano, que
determinou a coleta de dados no país sobre "americanos de origem ou
descendência espanhola".
Para
implementar essa lei, em 1977, o Escritório de Administração e Orçamento dos
EUA publicou os padrões para a coleta de dados étnicos e raciais no país,
depois revisados em 1997 e 2024.
Na
classificação de 1977, a categoria se chamava "hispânico". Vinte anos
depois, em 1997, foi alterada para "hispânico ou latino" — mudança
que visava aumentar a taxa de resposta, ao incluir o termo "latino",
mais usado no Oeste do país, enquanto "hispânico" era mais usado no
Leste, embora a abrangência do termo continuasse limitada às pessoas de países
"de cultura ou origem espanhola".
Já a
revisão de 2024 manteve o nome da categoria como "hispânico ou
latino" e a abrangência inalterada, o que segue excluindo brasileiros da
definição.
O que
mudou — e deve passar a vigorar a partir do Censo americano de 2030 — é que
antes "hispânico ou latino" era considerado uma etnia nas
estatísticas oficiais americanas, o que significava que os hispânicos ou
latinos podiam ser de qualquer raça (como brancos ou negros).
Nessa
classificação, etnia dizia respeito à identidade cultural e linguística,
enquanto raça dizia respeito a características físicas, herdadas entre
gerações. Assim, era possível ser latino branco ou latino negro, por exemplo.
Já a
partir de 2030, o Censo americano vai combinar questões de raça e etnicidade —
novamente com a intenção de melhorar as taxas de resposta —, uma mudança que
tem sido criticada por promover um apagamento da população americana
afro-latina, segundo ativistas que fazem parte da campanha "Latino não é
raça".
Assim,
os brasileiros nos EUA seguem em uma espécie de "limbo estatístico",
porque não são considerados hispânicos ou latinos, mas também não são vistos
como brancos ou negros, no sentido que esses termos têm naquele país.
No
Censo americano, os brasileiros são classificados dentro do grupo "Some
Other Race (SOR)" ou "alguma outra raça".
Em
2021, antes das grandes deportações promovidas pelo governo de Donald Trump, os
brasileiros nos Estados Unidos (569 mil, segundo dado oficial, mas um
contingente que é provavelmente maior se levados em conta aqueles em situação
migratória irregular) representavam menos de 1% da população hispânica (61,1
milhões).
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Por que o termo 'latino' é polêmico
Mas as
polêmicas em torno do termo "latino" vêm de muito antes.
Seus
críticos destacam que nem todas as pessoas que vivem na América Latina se
identificam desta forma — pessoas indígenas, por exemplo, frequentemente se
identificam primeiramente como parte de seu povo e não com seu país ou região.
Além
disso, afirmam que não se trata de fato de uma identidade cultural ou regional,
mas de uma ideologia similar à da mestiçagem, que, como esta, apagaria a
história e identidade dos diferentes grupos que compõem a região, como povos
originários e afrodescendentes.
Mesmo
entre os hispânicos nos EUA, uma pesquisa do instituto Pew Research Center
mostrou que 52% preferem se descrever por seu país de origem, contra 30% que
preferem o termo latino, e 17% se descrevem primeiramente como americanos.
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Por que brasileiros não se veem como latinos
Já no
Brasil, a fraca identificação com a latinidade tem origem na diferença entre o
processo emancipatório brasileiro e da América hispânica, avalia Feliciano
Guimarães.
"Essa
é uma invenção francesa e americana, que é adotada pelos mexicanos no século
19, o que tem a ver com a independência dos países hispânicos", diz o
professor do IRI-USP.
"Mas,
como nossa independência foi diferente da dos hispânicos — nós nos tornamos
independentes em uma relação simbiótica com Portugal, após sermos capital de
Portugal [de 1808 a 1821, durante as invasões napoleônicas] —, fomos na origem
um país independente diferente."
João
Carlos Corrêa, diretor cultural do Memorial da América Latina em São Paulo,
avalia que essa diferença fez os brasileiros se verem mais próximos da Europa
do que de seus vizinhos hispânicos.
"Declaramos
a independência, mas permaneceu esse vínculo com Portugal, então, para o
brasileiro, foi muito mais cômodo dizer que 'nós somos um país-continente,
independente e com raízes europeias'", diz Corrêa.
"Já
no caso dos países de colonização espanhola, o rompimento se deu por meio de
muita luta e sangue, o que evoca uma questão de soberania maior: 'Nós
conquistamos, nós conseguimos, nós não dependemos e somos um outro povo, o povo
latino-americano'."
É
somente a partir da República que o Brasil começa a falar em solidariedade
americana, lembra Guimarães.
Então
começam as Conferências Pan-Americanas, e o país passa a ter uma relação de
amizade com seus vizinhos, após séculos de rivalidade com os hispânicos,
marcados por guerras que deram ao Brasil sua extensão territorial atual.
Especialista
em América do Sul, Guimarães destaca, no entanto, que a relação do Brasil com
seus vizinhos é historicamente ambígua.
"Na
mesma medida em que não somos 100% firmes nessa noção de latino-americanidade,
também não mantemos com eles [os países vizinhos] relações políticas e
econômicas que são 100% firmes. Elas são sempre estratégicas", diz o
professor.
Segundo
ele, um exemplo disso foi quando, no final dos anos 1990, o Itamaraty abandonou
o uso sistemático da ideia de América Latina e adotou no lugar América do Sul,
partindo da noção de que a América Latina era muito ampla e o Brasil não tinha
influência na América Central, México e Caribe.
"A
América Latina é um chapéu que o Brasil usa conforme a conveniência. Que a
gente troca por América do Sul quando convém. Ou troca por uma expansão
europeia nas Américas, quando faz um relacionamento Brasil-Europa, ou por Sul
Global quando falamos com a China", exemplifica Guimarães.
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Mas afinal, brasileiros são ou não latinos?
Dito
tudo isso, qual é a resposta para a dúvida que sempre volta nas redes sociais?
"Eu
respondo assim: os brasileiros não se sentem profundamente latino-americanos,
mas fazem parte da comunidade latino-americana", diz o autor do estudo que
mostra que apenas 4% dos brasileiros se definem como latinos.
"A
minha interpretação é que, se você fizer uma segunda pergunta para todo mundo
que respondeu ao questionário, seja o brasileiro de baixa escolaridade ou o de
alta escolaridade, 'você é um latino-americano?', eles vão responder que sim,
mas isso não significa que essa identidade é central", diz Guimarães.
"No
fundo, somos principalmente uma coisa: brasileiros. Para nós, é muito mais
decisivo que a Fernanda Torres e o Wagner Moura sejam indicados ao Oscar e
ganhem, do que qualquer reconhecimento do Bad Bunny, quando ele fala 'Brasil'
ao lado de Argentina, Chile, etc."
João
Carlos Corrêa, do Memorial da América Latina, avalia que o Brasil perde ao não
se reconhecer plenamente como latino.
"A
gente exporta cultura, consome cultura latino-americana, mas se coloca de fora
desse mercado", diz Corrêa.
Em um
artigo sobre o tema, ele foi ainda mais enfático: "Reconhecer-se latino
transcende geografia ou folclore. É abraçar um projeto político inacabado de
libertação coletiva."
Fonte:
BBC News Brasil

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