Mochilas
cor-de-rosa cobertas de sangue: quando a infância vira alvo
No
décimo dia do Ramadã, o mês mais sagrado do calendário islâmico, as redes
sociais foram inundadas por imagens que jamais deveriam se tornar banais:
pequenas mochilas cor-de-rosa cobertas de sangue, cadernos espalhados pelo
chão, salas de aula transformadas em ruínas. Vi um pai, diante da câmera,
segurando o braço decepado de sua filha e chorando como quem tenta acordar de
um pesadelo interminável.
O
ataque à escola em Minab não é apenas mais um capítulo da escalada militar que
envolve Israel, Estados Unidos e Irã. É um marco moral. Porque há princípios
que deveriam permanecer inegociáveis, mesmo em tempos de guerra: não se atacam
crianças. Não se bombardeiam escolas. Hospitais não são alvos. Combatentes
feridos têm direito a tratamento médico. Jornalistas devem poder circular com
segurança para cumprir seu trabalho.
Quando
essas regras deixam de ser respeitadas, não estamos apenas diante de um
conflito armado. Estamos diante da erosão deliberada da própria ideia de
humanidade.
Desde
Faixa de Gaza, a instrumentalização da infância tornou-se ainda mais visível e
brutal. Dados de organismos internacionais indicam que milhares de crianças
foram mortas ou feridas em sucessivas ofensivas militares nos últimos anos.
Escolas administradas pela UNRWA foram atingidas. Hospitais pediátricos ficaram
sem energia, incubadoras deixaram de funcionar, bebês prematuros morreram por
falta de combustível e insumos básicos.
Além
das mortes diretas, a infância em Gaza passou a ser moldada pelo cerco
prolongado: desnutrição, interrupção escolar massiva, deslocamentos forçados,
trauma contínuo. Relatórios da UNICEF e da Organização Mundial da Saúde apontam
para uma geração inteira exposta a níveis extremos de traumas. Crianças que
aprendem a identificar o som de drones antes mesmo de aprenderem a ler. Que
desenham tanques em vez de árvores.
A
infância, nesse contexto, deixa de ser apenas vítima, torna-se também
instrumento narrativo. Imagens de crianças mortas circulam como prova, como
denúncia, como propaganda. Seus corpos passam a sustentar discursos
geopolíticos antagônicos. Enquanto isso, suas subjetividades reais – seus
medos, seus desejos, suas histórias – desaparecem sob a avalanche de
interpretações estratégicas.
Enquanto
o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu – alvo de mandado do Tribunal
Penal Internacional – é recebido na Alemanha, que se recusa a cumprir a ordem
de prisão, o mundo assiste a uma encenação desconcertante de normalidade.
Vídeos mostram cidadãos fazendo ioga em bunkers, enquanto, do outro lado, pais
recolhem os restos de seus filhos. A assimetria não é apenas militar; é
simbólica. Uns têm abrigos e respaldo diplomático. Outros têm escombros e luto.
Há quem
tente justificar tudo em nome da “segurança”, da “autodefesa”, da “luta contra
o terrorismo”. Mas nenhuma narrativa estratégica resiste à imagem de uma
mochila infantil ensanguentada. Nenhuma justificativa geopolítica apaga o fato
essencial de que meninas entre sete e doze anos foram mortas dentro de uma
escola.
Crianças
sempre estiveram entre as principais vítimas dos projetos imperiais. Nas
invasões coloniais, nas guerras por recursos, nas intervenções travestidas de
defesa da democracia, são elas que pagam o preço das ambições de poder. O
imperialismo contemporâneo pode ter sofisticado sua linguagem, mas o resultado
concreto permanece: corpos pequenos sob os escombros.
Destruir
uma escola não é apenas derrubar um prédio. É interromper futuros. É ferir a
possibilidade de reconstrução de um país. É produzir traumas que atravessam
gerações. Como psicóloga que escuta histórias de migração e guerra, sei que a
violência contra crianças não termina com a explosão. Ela se instala na
memória, nos sonhos interrompidos, nos silêncios das famílias. Torna-se herança
psíquica.
Dizer
que “a guerra é assim mesmo” é aceitar que a infância seja tratada como dano
colateral. É admitir que o direito internacional humanitário vale apenas quando
convém às potências. É permitir que a chamada “ordem baseada em regras”
funcione como retórica vazia, acionada seletivamente.
Não se
trata de escolher um lado nacional. Trata-se de escolher um lado ético. O lado
que afirma que crianças não são moeda de troca. Que escolas não são alvos
legítimos. Que nenhuma disputa estratégica justifica a mutilação de uma menina.
Se
aceitarmos que isso se torne normal, o que restará da nossa capacidade de
indignação? O que dirá a história sobre nós – que vimos mochilas cor-de-rosa
cobertas de sangue e seguimos rolando a tela?
O preço
dessa guerra, como de tantas outras, continuará sendo pago pelos mais
vulneráveis. Sempre foi assim. A pergunta que permanece é se continuaremos
permitindo que seja.
Fonte:
Por Rima awada Zahra, para Le Monde

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