Entre
a sionização do capital e a palestinização do mundo
Existem
semelhanças importantes entre as histórias de Israel e dos Estados Unidos.
Ambos os países nasceram da migração, mas também do genocídio e do roubo de
terras, do extermínio e da desapropriação de povos indígenas — palestinos em
Israel e nativos americanos nos Estados Unidos (Salaita, 2016). Em ambas as
nações, colonizadores estrangeiros, em sua maioria europeus, substituíram a
população local e se apropriaram de seus territórios. Tanto os Estados Unidos
quanto Israel são países roubados. No caso dos Estados Unidos, a pilhagem
territorial incluiu duas guerras contra o México. Ao anexar territórios
mexicanos, os Estados Unidos também perpetraram um roubo contra os povos
originários, contra o elemento indígena constitutivo a mistura racial e
cultural do México, mas sobretudo contra os habitantes nativos do Texas,
Califórnia, Arizona, Utah, Novo México e das porções mexicanas do Colorado,
Wyoming, Kansas e Oklahoma.
Sabemos
o que aconteceu com os ameríndios quando se tornaram parte dos Estados Unidos.
Eles foram perseguidos e exterminados, caçados como animais e, por fim,
confinados em reservas (Thornton, 1990; Madley, 2016). Os mestiços tiveram
melhor sorte, pois a maioria sobreviveu e obteve a cidadania estadunidense, mas
muitos perderam suas terras por meio de artimanhas legalistas. O fato é que os
mexicanos do século XIX foram desapossados, assim como os palestinos dos
séculos XX e XXI. Ambos os grupos se tornaram ilegais em suas próprias terras.
Quando finalmente conseguem retornar a essas terras, é apenas para serem
desprezados, marginalizados e explorados pelas mesmas pessoas que os
expulsaram, sendo forçados a fazer trabalhos indesejados, a limpar seus banheiros,
cultivar seus alimentos e trabalhar em suas fábricas. Os estadunidenses e os
israelenses construíram altos muros para se protegerem e protegerem seus
espólios daqueles a quem outrora pertenceram. Em última análise, são as vítimas
que assustam seus algozes. Esses algozes, talvez movidos pela má consciência,
fantasiam sobre sofrer o que perpetraram, projetando-se em suas vítimas,
tomando palestinos como terroristas e mexicanos como narcoterroristas.
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Sionização
A forma
como Trump utiliza o rótulo de narcoterrorismo revela a influência do uso que
os sionistas israelenses fazem da acusação de terrorismo. O mecanismo
subjacente — o de se retratarem como vítimas e de retratarem as vítimas como
perpetradoras — revela uma contribuição significativa do sionismo para o
trumpismo. Ao assimilar essa contribuição, o trumpismo está se sionizando. Aqui
temos uma primeira forma de sionização: a assimilação de contribuições
ideológicas ou estratégicas do sionismo. As contribuições sionistas não são
necessariamente originais. Qualificar inimigos como terroristas é algo que o
governo dos EUA faz há muito tempo. Já vimos que os Estados Unidos também
precederam Israel no expansionismo, no colonialismo de assentamento e no
deslocamento e extermínio de populações indígenas.
É o
Ocidente que estende sua influência israelense ao Oriente Médio. O sionismo é
uma expressão da modernidade europeia-americana, mas também possui uma certa
especificidade histórica. Essa especificidade é transmitida aos sionizados por
meio das contribuições às quais nos referimos. As contribuições do sionismo
para o trumpismo e outros movimentos de extrema-direita atuais incluem formas
características de autovitimização, da representação das vítimas como
terroristas, da fusão do antissionismo com o antissemitismo, a
instrumentalização política da religiosidade, a vinculação tática de perversões
do judaísmo e do cristianismo, a islamofobia, a glorificação de muros e o
encobrimento sistemático do colonialismo e do neocolonialismo. Há também
aspectos atitudinais como o cinismo, a falta de vergonha e a arrogância. É
assimilando tudo isso que a extrema-direita global está se sionizando. A
sionização também implica na adoção de uma lei única, a lei do mais forte, com
o consequente desrespeito à ONU, à Corte Internacional de Justiça (Tribunal de
Haia) e a todos os outros órgãos, organizações, convenções, tratados,
resoluções e legislações internacionais. Ao seguir o exemplo de Israel, um
Estado cada vez mais ilegal, Trump está mergulhando os Estados Unidos em uma
situação de crescente anomia. Essa ilegalidade é indissociável da sionização.
À
medida que os EUA se sionizam, sua política se torna tão errática e criminosa
quanto a de Israel. Assim como nada parece impedir o governo israelense de
assassinar autoridades libanesas, de bombardear seus vizinhos e punir nações
que reconhecem o Estado da Palestina, igualmente agora, os Estados Unidos podem
despreocupadamente afundar barcos de pesca no Caribe, sequestrar o presidente
da Venezuela e ameaçar países que vendem petróleo para Cuba. É verdade que o
governo estadunidense nunca foi particularmente respeitoso com o direito
internacional e com a soberania de outras nações, mas isso se intensificou sob
o mandato de Trump, atingindo extremos sem precedentes e abandonando qualquer
aparência de correção política. Muitos dos excessos do trumpismo podem ser
interpretados como sinais de sionização. Não é exatamente que Trump tenha se
sionizado, mas sim que a sionização é um dos processos que o originaram. O que
é sionizado é mais o que está por trás de Trump, o que se personifica nele, ou
seja, uma superestrutura ideológica e política, mas sobretudo, uma
infraestrutura socioeconômica — a do capitalismo.
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A sionização do capital
Estas
empresas colaboram com o sionismo e participam em sua ofensiva contra o povo
palestino, mas nem sempre de modo aberto e geralmente, apenas pelo lucro,
porque dinheiro é dinheiro, mesmo que isso signifique roubar e massacrar
palestinos.
Há um
processo de sionização do capital, primeiramente quando o capital apoia,
financia e lucra com o projeto sionista de estabelecer, manter e fortalecer a
entidade estatal israelence. Há muitos indícios desse processo, entre eles as
informações que temos sobre empresas que se beneficiam da ocupação e do
genocídio na Palestina, como a Siemens, Dell, Zara, Disney, Starbucks,
McDonald’s, Burger King, Domino’s e Pizza Hut, entre muitas outras. Essas
empresas colaboram com o sionismo e participam de sua ofensiva contra o povo
palestino, mas nem sempre de modo aberto, e geralmente apenas visando o lucro,
porque dinheiro é dinheiro, seja este ganho roubando, seja massacrando os
palestinos. Enriquecer-se através da pilhagem e do extermínio de palestinos já
é uma forma de sionismo, mas uma forma impessoal, inconsciente e irrefletida,
inerente ao funcionamento do capital que busca aumentar seus lucros a qualquer
custo. Para que a sionização do capital adquira uma certa personalidade,
consciência e reflexão autoconsciente, são necessárias pessoas nas quais vemos
uma paixão dupla coincidir tanto pelo sionismo quanto pelo capitalismo. Isso é
muito comum hoje em dia.
Consideremos,
por exemplo, os capitalistas proeminentes que são abertamente sionistas e
famosos por suas doações ou investimentos em Israel: Larry Ellison da Oracle;
Howard Schultz da Starbucks; Bernie Marcus da Home Depot; Jeffrey Swartz da
Timberland; e Ronald Lauder da Estée Lauder. Consideremos também líderes
políticos de extrema-direita cujo sionismo está inextricavelmente ligado ao seu
fervor pelo capitalismo: Donald Trump; o argentino Javier Milei; o brasileiro
Jair Bolsonaro; o holandês Geert Wilders; a italiana Giorgia Meloni; o húngaro
Viktor Orbán; o espanhol Santiago Abascal; o chileno José Antonio Kast; e o
equatoriano Daniel Noboa. Todos esses líderes políticos de extrema-direita,
juntamente com seus milhões de seguidores, defendem Israel porque defendem o
capital, como se capital e Israel levassem um ao outro, como se fossem duas
faces da mesma moeda. É verdade que o capital está no cerne do programa
sionista, mas esse programa não está no cerne do capitalismo. O capitalismo não
é necessariamente sionista. Para ser sionista, ele precisa ser sionizado. A
sionização do capital faz com que ele funcione como funciona na Palestina:
reproduzindo-se, aumentando, acumulando e expandindo-se por meio do
deslocamento, desapropriação e massacre de pessoas empobrecidas, racializadas,
criminalizadas e desumanizadas.
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Necropolítica e sionização
A
sionização do capital torna-se um programa político para a extrema-direita.
Figuras da extrema-direita personificam o capital sionizado quando agem como
Benjamin Netanyahu na Palestina. Um exemplo notório é o brasileiro Cláudio
Castro, governador bolsonarista do Rio de Janeiro, que com sua polícia matou
120 pessoas pobres em questão de horas em outubro de 2025. As fileiras de
cadáveres estendidos nas ruas do Rio, sobre o asfalto ensanguentado, lembravam
as fileiras de mortos em Gaza: os mesmos jovens, a mesma pobreza, a mesma pele
escura. O que testemunhamos no Rio é o mesmo que observamos nos regimes de
Noboa no Equador, Bukele em El Salvador e Trump nos Estados Unidos e no Caribe.
Nesses regimes e em outros semelhantes, se pode liquidar com impunidade aqueles
que têm seu direito a um julgamento negado. Ao tratarem suas vítimas dessa
maneira, esses regimes agem como o que realmente são: implementações
institucionais, governamentais e policiais do capital sionista.
Ao se
sionizar, o capital se comporta como em Gaza e na Cisjordânia. Acredita que
tudo lhe é permitido. Viola normas, leis, limites morais, direitos humanos e o
devido processo legal. Rouba e assassina de forma rápida, indiscriminada,
impiedosa e sem escrúpulos. Assim, além do desprezo por qualquer lei, o capital
sionizado se caracteriza também pelo desrespeito à vida humana, sendo capaz de
eliminar pessoas em massa, abertamente e rapidamente, sem julgamentos,
procedimentos ou remorsos. Chegamos aqui a uma tendência capitalista essencial,
exacerbada no capital sionizado. Trata-se da tendência mortal já identificada
por Marx (1867): aquela pela qual o capital, como um vampiro, devora todos os
seres vivos para convertê-los em dinheiro morto. Essa pulsão de morte torna a
única política viável aquilo que Achille Mbembe (2020) descreve como
necropolítica, uma política na qual se decide quem pode e quem não pode viver,
quem deve e quem não deve morrer.
Na
Israel de Netanyahu, por exemplo, quem possui permissão para viver são os
israelenses, enquanto os palestinos, os “terroristas”, são considerados
merecedores da morte, mesmo que sejam idosos, mulheres e crianças. Na América
Latina, os que devem morrer são os narcotraficantes, que Trump e seus
seguidores regionais rotularam de “narcoterroristas”. Essas designações são
autorização suficiente para assassinar aqueles assim designados.
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Justificação da vitimização e ideologização religiosa
Para se
livrar de alguém, basta apresentá-lo como um terrorista do qual se é vítima. Já
vimos que esse vitimismo é outro aspecto distintivo da sionização: assim como
se os israelenses fossem vítimas de terroristas palestinos, de modo igual
seriam os americanos vítimas de narcoterroristas latino-americanos. Por sua
vez, Noboa denuncia que seu governo é vítima de “atos de terrorismo disfarçados
de protesto” (EFE, 2025, parágrafo 5), enquanto Bukele, rotulando membros de
gangues como terroristas dos quais a sociedade é vítima, construiu para eles a
maior prisão da América Latina, o “Centro de Confinamento de Terroristas”
(CECOT), com capacidade para 40.000 detentos, cada um com um espaço de meio
metro quadrado, em vez dos três metros quadrados mínimos recomendados pela Cruz
Vermelha (Ventas e García, 2023). Especialistas descreveram o CECOT como um
“poço de concreto e aço” usado para “eliminar pessoas sem aplicar formalmente a
pena de morte” (Ventas e García, 2023, parágrafo 8). A situação pode ser ainda
pior nas prisões de Noboa no Equador e de Netanyahu em Israel, onde não só há
centenas de casos de assassinato, como também o uso diário de tortura. Tudo
isso seria justificado, já que, segundo a narrativa oficial do capital
sionizado, trata-se sempre de terroristas dos quais a sociedade é vítima. Além
das justificação vitimista, o capital sionizado recorre à ideologização
religiosa. Bukele instrumentaliza o cristianismo da mesma forma que Netanyahu
faz uso do judaísmo. Não importa qual religião seja, pois Deus serve aqui
apenas para transcender, desculpar e purificar os piores excessos contra suas
criaturas. Esses excessos geralmente respondem a uma função repressiva a
serviço da reprodução do sistema capitalista e da perpetuação de seu
instrumento estatal, mas a sionização do capital permite a sublimação dessa
função mundana e sua representação como uma espécie de missão celestial e
extramundana.
Sob o
céu da ideologia, o capital sionizado permanece o mesmo capital de sempre. Sua
motivação primordial segue sendo a acumulação capitalista, como se pode
comprovar ao se considerar a subordinação dos líderes da extrema-direita
mencionados anteriormente ao capital das corporações transnacionais e das
oligarquias locais. Tudo isso já conhecemos, mas como a sionização o
particulariza enquanto uma continuação da fase imperialista, colonial e
neocolonial avançada do capitalismo, uma fase na qual se ocorre novamente e de
modo incessante, a violência da acumulação primitiva, da acumulação por meio da
pilhagem e da desapropriação, como os estadunidenses agiram contra os nativos
americanos no século XIX, mas agora direcionadas contra os palestinos em Gaza e
na Cisjordânia, contra os povos indígenas no Equador, contra a sociedade como
um todo na Argentina e em El Salvador, e contra o mundo inteiro nas políticas
internacionais de Trump.
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Pós-verdade, cinismo e neofascismo
OsTodos
sabemos do que se trata o capitalismo sionista, mas isso não importa quando
estamos sob o domínio de uma pós-verdade tipicamente sionista. Essa pós-verdade
não se expressa apenas na falsificação da história e na normalização de
mentiras como as de Trump e Netanyahu: por exemplo, o primeiro nos assegurando
que não atacará o Irã e o segundo que respeitará o cessar-fogo em Gaza. Há
outra expressão da pós-verdade, aquela que mais nos interessa agora, aquela que
nos faz desdenhar a verdade como se não fosse a própria verdade, como quando os
sionistas minimizam as torturas e os assassinatos em massa de palestinos
enquanto aceitam alegremente seus interesses econômicos, imobiliários e
turísticos em Gaza e na Cisjordânia. O desdém pela verdade reconhecida como
verdade é um dos aspectos mais preocupantes da sionização do capital: um
aspecto diretamente associado ao que Peter Sloterdijk (1989) e Slavoj Žižek
(1989) já descreveram como cinismo. Esse cinismo sempre foi uma característica
do capital: um traço já observado por Marx e Engels (1848) em seu Manifesto, ao
se referirem à audácia do capital que rasga os véus das ilusões e do
sentimentalismo. O capital já é cínico em si mesmo, mas torna-se ainda mais
cínico no neoliberalismo e, posteriormente, ainda mais no neofascismo atual
(Pavón-Cuéllar, 2020).
A atual
fascistização acentua o cinismo do capital. Essa acentuação é inseparável de
sua atual sionização. O sionismo, além de ser cinicamente capitalista, é
nacionalista, racista e supremacista, assim como o fascismo. Tanto o fascismo
quanto o sionismo compartilham sua orientação colonialista, neocolonialista e
imperialista, correspondendo ao imperialismo como um estágio avançado no
desenvolvimento do capitalismo (Lenin, 1917). Compartilhando tantas
características com o fascismo, é compreensível que o sionismo tenha se
convertido em um componente indispensável do arsenal ideológico da
extrema-direita contemporânea. O protótipo atual da extrema-direita se
distingue de seus predecessores por ser inequivocamente sionista. Aqui, vemos
as estreitas conexões entre o sionismo e a órbita do neofascismo, do
neonazismo, da supremacia branca e dos novos conservadorismos.
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Ultra-diretização, autoritarismo e branquitude
A
ultra-direitirazação do capital é acompanhada por uma sionização que implica
não apenas no apoio a Israel, mas também orientações como as já mencionadas: em
direção à ilegalidade, ao desprezo pela vida humana, ao genocídio, à
necropolítica, ao vitimismo, à instrumentalização das religiões, à pós-verdade,
ao cinismo, ao racismo e ao supremacismo, ao nacionalismo e ao colonialismo
imperialista. Essas dez orientações são compatíveis com o neofascismo, assim
como as demais tendências que a sionização imprime nas personificações e
implementações institucionais do capital. Outras duas tendências envolvidas na
sionização, ambas também compatíveis com a fascistização, concernem diretamente
à subjetivação do capital sionizado. Uma delas é a personalidade autoritária
estudada por Erich Fromm (1941) e por Theodor Adorno e outros (1950): uma
personalidade servil e submissa em relação aos que estão acima, mas desdenhosa,
tirânica e violenta em relação aos que estão abaixo. Considere, por exemplo,
Milei oprimindo seu povo e rastejando diante do trono de Trump, ou o próprio
Trump curvando-se aos bilionários, mas menosprezando toda o resto da humanidade
e incluindo até mesmo todos os outros chefes de Estado, com poucas exceções,
como Vladimir Putin e Xi Jinping.
Outro
aspecto característico da subjetivação do capital sionizado é o que Bolívar
Echeverría (2014) nomeou de branquitude, entendendo-a como a cor simbólica da
subjetividade moderna mais funcional para o capitalismo. Essa subjetividade
simbolicamente branca, independente da brancura física, é adquirida ao se
deixar ser colonizado, capitalizado e assim, embranquecido, mesmo que se
permaneça fenotipicamente semita como Bukele ou mestiço como Noboa e Claudio
Castro. Uma vez que se ostenta a brancura, pode-se ser tão racista quanto se
desejar, dirigindo sua violência contra indígenas e negros, contra palestinos
ou contra os pobres, que, por serem pobres, por não terem sido embranquecidos
pelo capital, são vistos como indigenizados, enegrecidos, assim como os cadáveres
que jazem em Gaza ou no Rio de Janeiro.
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A palestinização do mundo
Mbembe
(2020) denuncia um processo, o devir-negro do mundo, pelo qual a situação dos
escravos negros do passado se generalizaria no presente. Os seres humanos estão
sendo amplamente transformados em escravos, pessoas negras do capital, seres
descartáveis ou exploráveis dentro do sistema capitalista. Esse enegrecimento
da nossa humanidade é também uma forma de desumanização, como a dos migrantes
ou traficantes de drogas para Trump, dos supostos criminosos para Bukele ou dos
palestinos para Netanyahu. Paralelamente ao devir-negro do mundo, estamos
assistindo um devir-palestino do mundo. O avanço dessa palestinização pode ser
constatada não apenas nos eventos previamente mencionados, como a matança de
Cláudio Castro no Brasil ou a prisão de Bukele em El Salvador, mas também em
outras situações, como no endurecimento do bloqueio contra Cuba ou a guerra
civil no Sudão. Enquanto Cuba está sitiada, empobrecida, faminta e exausta,
assim como a Palestina está há décadas, o Sudão está coberto de escombros e
cadáveres, assim como Gaza. Assim como os palestinos foram aniquilados para que
suas terras fossem tomadas, os sudaneses estão morrendo para que suas minas de
ouro possam ser exploradas a baixo custo pelos Emirados Árabes Unidos, com a
estreita colaboração de Israel (Mahjoub, 2025). Outros beneficiários do
genocídio sudanês foram a indústria armamentista, bem como duas empresas
mercenárias, o Grupo Wagner e o Global Security Service Group. Essa lógica
econômica perfeitamente capitalista resultou em mais de 150.000 mortes e meio
milhão de crianças morrendo de desnutrição, além de vários milhões de
refugiados.
Os
sudaneses estão sendo massacrados para saquearem seu ouro. Os habitantes de
Gaza continuam sendo sacrificados para que seu território seja desapossado e
explorado para fins turísticos e imobiliários. Seja em Gaza ou no Sudão, é a
mesma coisa, a mesma lógica, o mesmo capital sionista ou sionizado às custas da
mesma humanidade palestina ou palestinizada. Os habitantes de Gaza e os
sudaneses padecem da mesma violência que serve ao mesmo propósito de pilhagem.
Essa pilhagem é uma forma de acumulação primitiva. O beneficiário é o capital
sionizado com suas já referidas orientações ao genocídio, à necropolítica, ao
colonialismo imperialista, etc. A sionização do capital está se evidenciando na
palestinização do Sudão, e só podemos temer que outros países, como Cuba ou
México, sigam o mesmo caminho. Há quem compartilhe agora de um medo semelhante
ao que os palestinos sempre sentiram. Esse medo faz parte da palestinização do
mundo, que também provoca sentimentos difusos de vergonha e culpa. Como não nos
sentirmos culpados e envergonhados quando somos injustamente culpados e
humilhados por líderes mundiais como Trump, quando somos suspeitos de
narcoterrorismo simplesmente por sermos mexicanos, quando somos perseguidos
como criminosos apenas por termos emigrado para o mesmo território que nos foi
roubado?
O que
já estamos vivenciando é um primeiro vislumbre do sofrimento dos palestinos.
Eles também são criminalizados, perseguidos e violentados por se apegarem à
terra da qual foram desapossados. As Forças de Defesa de Israel (IDF) têm sido
para eles o que o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) é para nós. Quando
sofrermos a mesma desumanização, animalização e coisificação que os palestinos,
talvez isso signifique que nossa palestinização tenha se consumado e que
estejamos prontos para sermos exterminados como os palestinos ou os sudaneses.
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Conclusão
Oproblema
não se resume aos palestinos, os sudaneses ou os mexicanos. A humanidade não é
o problema. Se existe um problema aqui, é o capital que explora o mundo, que o
devasta, que o palestiniza.
A
palestinização do mundo parece imparável. Talvez não seja nada mais do que um
meio eficaz para o capitalismo superar suas atuais contradições estruturais.
Depois de consumir o que absorveu, o capital se lançaria precipitadamente sobre
o que resta.
Seria
necessário apropriar-se daquela parte da natureza e da cultura que ainda não
foi explorada e devastada. Nenhum povo ou ambiente teria o direito de existir
sem gerar lucros. Aqueles que resistissem ao capital sionizado seriam
condenados à palestinização. Gaza poderia ser o horizonte para os indomáveis.
Fonte:
Por David Pavón-Cuéllar - Tradução Rodrigo Gonsalves, para Jacobin Brasil

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