Emendas
parlamentares para a saúde enfim sob controle?
Um dos
principais focos de corrupção dos últimos anos, as emendas parlamentares
atingiram patamares altíssimos no orçamento federal. E a Saúde é a mais
afetada, uma vez que metade destas verbas são impositivas para o setor: neste
ano, as emendas totalizam R$ 27,4 bilhões, sendo R$ 25 bi destinados à Atenção
Primária. No total, a Lei Orçamentária Anual de 2026 prevê R$ 61 bilhões em
emendas parlamentares.
No
primeiro debate da série Diálogos sobre o SUS – Emendas Parlamentares no SUS:
Execução e exigências em 2026, organizada pelo Instituto Walter Leser da
Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, que focou nas emendas
parlamentares, Cidinha Pimenta, Mariana Alves Melo e Francisco Funcia
analisaram as mudanças recentes na regulação. Consideram que as últimas medidas
tomadas pelo Poder Executivo e o Ministério da Saúde, somada às decisões do
ministro do STF Flavio Dino – de exigir transparência no uso de tais recursos e
proibir que sejam sacados em dinheiro vivo – criaram proteções relativas ao
setor da sanha de parlamentares que, via de regra, operam à margem dos
princípios do SUS.
Mariana,
economista da Associação Brasileira de Estudos de Saúde (ABrES), começou sua
intervenção explicando o trajeto que vai do “libera geral” até o presente
momento, quando o Estado tenta criar controles sobre verbas bilionárias.
“Houve
uma flexibilização das normas de transferência de recursos de emendas. A partir
de 2019, há três emendas constitucionais homologadas cujo efeito é ampliar as
possibilidades de automatização das transferências de recursos – as ‘emendas
pix’. Depois, começa o aumento vertiginoso das emendas do relator. Ao lado do
já conhecido subfinanciamento do SUS, colocam em risco objetivo a
sustentabilidade da rede de saúde”, contextualizou Mariana.
Francisco
Funcia, economista e presidente da ABrES, corrobora seu ponto de vista: “A nova
normatização foi muito importante porque começa a efetivar a interface das
emendas parlamentares com o planejamento do SUS. Emendas parlamentares podem e
devem ser garantidas, mas com respeito à Constituição e à legislação do
<><> Burocracia necessária
Em
resumo, são ao menos três medidas dos poderes executivo e judiciário que
parecem por um freio à farra de parlamentares com dinheiro do SUS: a Portaria
8283/2025, a Resolução 798 de 11/12/25 (publicada no último dia 4), além da
decisão de Flavio Dino no STF de impor normas de publicização das emendas e
seus projetos no Portal da Transparência.
Por
fim, no dia 26 de fevereiro a Comissão Intergestores Tripartite (CIT) definiu
em reunião que as emendas deverão passar pelo seu crivo e ser aprovadas pelo
Conselho Nacional de Saúde (CNS), órgão de participação social que participa da
formulação de políticas públicas.
Para os
economistas, é necessário colocar um teto nas emendas, cuja liberalidade
configura o que classificam “austeridade fiscal seletiva”. Além disso, o
próprio paradigma da participação e controle social vinha sendo corroído pelo
apetite de deputados e senadores.
O
“municipalismo forte”, ideia cinicamente defendida pelo ex-presidente da Câmara
Arthur Lira ao justificar o aumento exponencial das emendas, mostrou-se uma
estratégia para garantir a reeleição de parlamentares em seus territórios. Tal
lógica acentuou o desfinanciamento crônico do SUS, imposto por medidas de
austeridade fiscal a partir de 2016, com um subfinanciamento por dentro.
“Os
recursos se tornam imprevisíveis e variáveis. Política pública se garante com
previsibilidade de receitas. Parâmetros ficam descolados do planejamento e da
lógica da equidade. Espaços de participação social diminuem e espaços
tripartites parecem se tornar cartoriais, sem debates e solidariedade entre
gestores”, expôs Mariana Melo.
Dessa
forma, o avanço conquistado em 2023, como a retomada de padrões mínimos de
financiamento do SUS, acabava parcialmente neutralizado.
“Com a
EC-86/2015, passamos a ter destinação mínima de emendas ao SUS, que
complementavam o piso federal. Naquele momento, o total era de 1,2% das
Receitas Correntes Líquidas, metade para a saúde. Um ano após o golpe
parlamentar de 2016, os valores dobraram”, complementou Mariana.
Desde
então, como explica Funcia, as emendas se multiplicaram por 12 no orçamento, o
que chegou ao limite do insustentável em termos de planejamento e gestão.
“Houve
um crescimento muito exagerado das emendas parlamentares a partir de 2013. Foi
o ano imediatamente anterior à definição desse caráter impositivo para a
execução orçamentária das emendas parlamentares. Ali, representava 1% do
orçamento do Ministério da Saúde. Hoje está em 12%”, contou Funcia.
<><>
O subfinanciamento diminui, mas persiste
Apesar
da pequena vitória do SUS, as regras de austeridade renovadas pelo Novo
Arcabouço Fiscal proposto pelo governo Lula, que substituiu o Teto de Gastos de
Temer, mantêm o subfinanciamento crônico do sistema. O orçamento de R$ 271
bilhões da Saúde em 2026 deixam o país muito longe dos 6% do PIB em
investimentos públicos no setor, uma das mais caras bandeiras dos movimentos em
defesa do SUS.
Sob o
tacão de um modelo econômico engessado pelo rentismo financeiro, a disputa por
tais recursos do SUS se tornou mais decisiva para a garantia de serviços
mínimos de saúde.
“Passamos
pela EC-86 e a partir de 2023 recuperamos os volumes de investimentos. Mas o
desfinanciamento é crônico, o orçamento não é suficiente para garantir a
totalidade das necessidades em saúde e do sentido universal do SUS”, alertou
Mariana Melo.
Num
contexto em que as demandas por saúde se ampliam e a população envelhece, o
aumento do investimento público na área é mais urgente do que muitos podem
perceber. Mas, para Cidinha Pimenta, coordenadora do Instituto Walter Leser,
esta é uma luta política estrutural, que dependerá da correlação de forças
políticas e pressão social. O que se coloca no momento, para ela, é mais
modesto: mecanismos essenciais de controle de dinheiro público – e com
contrapartidas claras.
“As
políticas dependem da capacidade instalada de cada município. Não adianta pedir
coisas que não se pode oferecer. As emendas têm de dizer respeito às
capacidades reais de serviços do local”, explicou, em clara referência a casos
de serviços fantasmas contratados em nome de municípios pequenos que não tinham
tal demanda.
<><>
Começa a corrida por recursos
Publicada
no dia 2 de março, a Portaria 10.297 regulamenta as exigências e cronogramas
para execução de emendas individuais, cuja transferência é mediada pelo Fundo
Nacional de Saúde.
“Emendas
individuais serão abertas nesta semana. Municípios que atingiram teto
orçamentário podem ter complementos. Dentro do InvestSUS, teremos
possibilidades de reunir informações para destinação das emendas. Gestores e
técnicos podem passar a incluir informações sobre a execução, a meu ver a
grande novidade da reunião da CIT”, explicou Mariana Melo.
Como
ressaltado, os órgãos interfederativos recuperaram terreno perdido e voltam a
exercer poder de regulação sobre as verbas de saúde.
“Agora
precisa de aval da CIT para homologar todas as destinações. A obrigatoriedade é
para todas as emendas, mas algumas precisam de deliberações, a partir de planos
regionais e necessidades específicas. Não é possível aglutinar emendas para uma
mesma proposta. Exige-se plano de trabalho e adequação orçamentária. Os
municípios não podem alterar finalidade declarada da emenda”, complementou a
economista ligada ao Instituto Walter Leser.
De
acordo com Francisco Funcia, as medidas aqui expostas abrem a possibilidade de
recuperar a validade da Lei Complementar 141, promulgada em 2012, que
regulamenta o orçamento do SUS, define percentuais mínimos de aplicação (15% da
receita própria para municípios e União, 12% para estados) e recupera o chamado
caráter ascendente do sistema.
“Do
jeito que estava, era uma deterioração do subfinanciamento do SUS, porque o
recurso está lá, mas seu uso era descontrolado. Era uma forma de agravar o
subfinanciamento. Agora, recupera-se um padrão de ‘qualidade do gasto’, para
usar jargão de mercado”, sintetizou Funcia.
Fonte:
Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

Nenhum comentário:
Postar um comentário