Propinoduto:
As ameaças ao saneamento básico no Brasil
Na
terça-feira (03/03), o Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao
Saneamento (ONDAS) protocolou no Superior Tribunal de Justiça (STJ) petição
solicitando acesso integral aos acordos de colaboração premiada e de leniência
firmados por executivos da Aegea, maior empresa privada de saneamento do país,
relativos a práticas sistemáticas de corrupção. A petição, distribuída ao
ministro Raul Araújo Filho, fundamenta-se no direito constitucional de acesso à
informação, no interesse público coletivo e na necessidade de controle social
sobre serviços essenciais. Trata-se de uma iniciativa que coloca a sociedade
civil organizada no centro da disputa pela transparência e pela integridade das
políticas públicas de saneamento.
O
pedido ocorre após a reportagem dos repórteres Graciliano Rocha e Eduardo
Militão, publicada pelo UOL em 12 de fevereiro último, revelar que executivos
da Aegea, entre os quais se destacam Hamilton Amadeo (ex-CEO) e Santiago Crespo
(então diretor de relações com o mercado), admitiram em acordos com o
Ministério Público Federal o pagamento pela Aegea de R$ 63 milhões em propinas
a agentes públicos entre 2010 e 2018 para obter e manter concessões de água e
esgoto em seis estados e vinte municípios. Neste processo, a Aegea concordou em
pagar uma multa milionária no valor de R$ 439 milhões à União em quinze
parcelas anuais corrigidas pelo IPCA a partir de 2021.
O
acordo celebrado em 2021 foi homologado pelo ministro Raul Araújo, do STJ
(Superior Tribunal de Justiça), em fevereiro de 2025, mas permanece sob sigilo,
impedindo que a sociedade conheça a extensão das irregularidades e dificultando
a responsabilização dos envolvidos. A manutenção desse sigilo, mais de um ano
após a homologação, é juridicamente injustificável e politicamente perigosa.
Segundo
a delação, prefeitos, governadores, parlamentares e conselheiros de tribunais
de contas foram corrompidos para favorecer a expansão da empresa. Apesar da
gravidade dos fatos, nenhuma denúncia foi apresentada pelo Ministério Público,
o que coloca em risco a responsabilização dos envolvidos e abre caminho para a
prescrição dos crimes. O silêncio institucional, somado ao sigilo imposto aos
acordos, cria um ambiente de opacidade que favorece a impunidade e enfraquece a
confiança pública nas instituições.
Há
registros de atos de corrupção em São Paulo, Santa Catarina, Rondônia, Rio de
Janeiro, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, e que envolvem os ex-governadores
Raimundo Colombo (SC) e Confúcio Moura (RO), que alegam inocência. Conselheiros
dos tribunais de contas de Santa Catarina e Mato Grosso do Sul também aparecem
nas denúncias de recebimento de propinas para relaxar fiscalizações. Segundo
outra matéria dos mesmos repórteres no UOL, um dos delatados é o atual
presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, deputado Julio Garcia
(PSD). Nelsinho Trad (PSD-MS), atualmente senador por Mato Grosso do Sul, que
foi prefeito de Campo Grande, é outro delatado, assim como o deputado federal
Juarez Costa (MDB-MT), ex-prefeito de Sinop.
Em
2021, em Ribeirão Preto (SP), no âmbito da Operação Sevandija promovida pelo
Ministério Público estadual, a Aegea aceitou acordo para pagar aos cofres
públicos R$ 70,6 milhões, em razão de propina paga a agentes públicos
envolvendo esquemas de fraude de licitação e superfaturamento em contratos
assinados com o Departamento municipal de água e esgoto.
Na sua
petição ao STJ, o ONDAS argumenta que o saneamento básico é direito humano e
direito social fundamental, e sua prestação não pode estar submetida a esquemas
ilícitos. A entidade destaca que a publicidade dos acordos é obrigatória após a
homologação, de acordo com a legislação brasileira, e que o sigilo atual não
protege investigações — ao contrário, impede o controle social e favorece a
prescrição dos crimes. Em face dos precedentes, é mais do que razoável
investigar se concessões recentes, vencidas pela Aegea após 2018, foram
contaminadas pelas mesmas práticas ilícitas. O sigilo prolongado viola o
princípio constitucional da publicidade e contraria decisões recentes do STF
que afirmam que transparência é regra e sigilo é exceção estrita.
Chama
atenção o crescimento vertiginoso da Aegea no período recente, pós-lei
14.026/2020 que no governo Bolsonaro alterou o marco legal do saneamento para
favorecer as concessões e privatizações, se apoiando no argumento falacioso de
que só o capital privado poderia promover a universalização do acesso. A
empresa passou de 6 municípios atendidos em 2010 para 892 municípios em 2026,
alcançando 39 milhões de pessoas em 15 estados. Recentemente, expandiu sua
atuação para os serviços públicos de manejo de resíduos sólidos na região do
Cariri (CE) e na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, onde adquiriu o
controle completo da Ciclus Ambiental por R$ 1,9 bilhão.
O salto
extraordinário da Aegea coincidiu com acordos de leniência sigilosos; aportes
bilionários de Itaúsa e do Fundo Soberano de Singapura (GIC); financiamento
bilionário pelo BNDES, aquisições agressivas, como a compra da Corsan (RS), e
vitórias sucessivas em licitações marcadas por inconsistências técnicas e
jurídicas. Ao mesmo tempo, a empresa pratica remunerações escandalosas para
seus dirigentes: cada um dos seus diretores estatutários recebeu, em média, R$
4,48 milhões por mês em 2025, valor pago com tarifas cobradas de usuários,
inclusive dos estados pobres como Pará e Piauí.
Episódios
ocorridos na aquisição pela Aegea da empresa gaúcha de saneamento, a CORSAN,
mostram que a empresa privada continua adotando, para crescer, métodos pouco
ortodoxos para dizer o mínimo. Em um caso exemplar de porta giratória, o
advogado Fabiano Dallazen, o então procurador-geral do Ministério Público
Estadual (MP/RS), assumiu a posição de Diretor de Relações Institucionais da
Aegea Saneamento e Participações S.A. em dezembro de 2022, imediatamente após o
leilão de venda da empresa estadual. Atualmente, vários municípios gaúchos
estão tentando romper contratos com a Corsan, privatizada pela péssima
qualidade dos serviços prestados no período recente.
Não
cabe analisar isoladamente um crescimento acelerado que permitiu ao grupo Aegea
uma receita operacional líquida nos três primeiros trimestres de 2025 de R$
14,4 bilhões. Essa expansão ocorre em um contexto de financeirização do
saneamento, no qual fundos internacionais e grandes grupos econômicos
transformam serviços essenciais em ativos de alta rentabilidade, no caso do
Brasil com o apoio ativo do BNDES, o banco federal com função de promover o
desenvolvimento econômico e social (!). A Aegea tornou-se o principal agente
desse processo, operando como um conglomerado que combina agressividade
comercial, influência política e capacidade de mobilizar capital financeiro em
escala inédita no setor. A pergunta que se impõe é: esse crescimento foi fruto
de eficiência ou de práticas ilícitas que distorceram a concorrência e
capturaram o Estado?
O caso
mais emblemático da captura institucional é o do ex CEO da Aegea, Hamilton
Amadeo, delator que reconheceu ser quem autorizava o pagamento de propinas.
Mesmo assim, ele foi nomeado em 2024 pelo governo Zema para a presidência do
Conselho de Administração da Copasa, estatal mineira de saneamento básico
prestes a ser privatizada. Sua renúncia da direção da Copasa ocorreu apenas
após a reportagem do UOL. Mas antes da Copasa e depois de sair da Aegea, Amadeo
assumiu em 2023 a presidência do Grupo Marquise, que também atua em serviços e
obras públicas, especialmente na prestação de serviços públicos de manejo de
resíduos sólidos.
A
presença de malfeitores famigerados na direção de prestadores de serviços
públicos, a demora de cinco anos para homologação da delação e a ausência de
denúncias do Ministério Público revelam um ambiente de fragilidade
institucional e de influência privada sobre decisões públicas. A fronteira
entre público e privado torna se nebulosa, e o risco de captura regulatória se
torna evidente.
A Aegea
não tem a exclusividade da corrupção. O surgimento da BRK, outra grande empresa
privada do saneamento brasileiro e sucessora da Odebrecht Ambiental, está
marcado pelo suborno, segundo delação do próprio ex-presidente da Odebrecht
Ambiental, pelo suborno de André Luiz de Souza, então representante da CUT no
Conselho Curador do FGTS, para que o fundo que gere a poupança compulsória dos
trabalhadores brasileiros, se tornasse sócio da então Odebrecht Ambiental,
atual BRK Ambiental. O Fundo de Investimento do FGTS (FI-FGTS) detém até hoje
30% de participação no capital social da BRK Ambiental, enquanto o restante
(70%) é controlado pela Brookfield Asset Management, gestora de investimentos
canadense.
Esse
cenário se agrava em um momento em que a privatização do saneamento tem
produzido efeitos graves e impactos diretos sobre a população. Crises do
abastecimento em cidades turísticas, como Caraguatatuba em São Paulo, deixaram
hotéis sem água, obrigando a Sabesp privatizada a enviar contêineres
insuficientes. No Rio Grande do Sul, a Corsan passou a cobrar água de
apartamentos vazios. Em São Paulo, o lançamento de esgoto no Rio Tietê levou à
abertura de inquérito policial. Em Pernambuco, municípios têm sido pressionados
a aderir a blocos regionalizados privatizados sob ameaça de perder
investimentos estaduais. Esses episódios mostram que a privatização não trouxe
eficiência, mas sim precarização, aumento de tarifas e perda de controle
social.
Para o
capital, a bola da vez é a privatização da COPASA-MG, que atende 11,9 milhões
de habitantes com água potável e 8,8 milhões com esgotamento sanitário e cuja
receita operacional líquida em 2025 atingiu R$ 7,36 bilhões. Dirigentes da
Aegea já declararam que a privatização da Copasa é o principal negócio do ano.
Será que o Hamilton Amadeo foi colocado na presidência do conselho da estatal
por Zema sem saber do interesse da Aegea?
Por
tudo isso, o ONDAS reafirma que o saneamento é direito humano, não ativo
financeiro. Transformá-lo em plataforma de valorização financeira — como
demonstra o caso Aegea — compromete a universalização, aumenta desigualdades e
enfraquece a capacidade do Estado de proteger a população. A entidade defende a
abertura imediata do sigilo dos acordos, a responsabilização de agentes
públicos e privados, a revisão das concessões obtidas por meios ilícitos, o
fortalecimento das empresas públicas e das agências reguladoras e o debate
urgente no Congresso, incluindo a possibilidade de uma CPI do caso Aegea.
O
escândalo da Aegea não é um caso isolado: é um sintoma de um modelo que
transforma água e esgoto — bens essenciais à vida — em mercadorias submetidas à
lógica do lucro. A defesa do saneamento público é, hoje, uma defesa da
democracia, da transparência e dos direitos fundamentais. O país precisa
escolher entre aperfeiçoar um sistema público, universal e transparente, ou
persistir em um modelo capturado por conglomerados financeiros que operam à
margem da ética e da legalidade. A decisão é urgente — e definirá o futuro do
saneamento no Brasil.
Ensina
o Professor Pedro Arrojo-Agudo, Relator Especial para os direitos humanos à
água potável e ao esgotamento sanitário, em Relatório apresentado à Assembleia
Geral da ONU em julho de 2025 sobre a governança democrática da água sob uma
abordagem baseada em direitos humanos:
“Os
bilhões de indivíduos empobrecidos e marginalizados sem acesso à água potável
não representam uma oportunidade de negócio, mas um desafio democrático global
cujo enfrentamento eficaz exige dos países a promoção de estratégias adequadas
baseadas em direitos humanos.“
Fonte:
Por Edson Aparecido da Silva e Marcos Helano Montenegro, em Outras Palavras

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