Estudo:
70% dos brasileiros acham que homens estão sendo exigidos demais para apoiar a
igualdade com mulheres
Os
homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade com as mulheres.
Essa é a opinião de 70% dos brasileiros que responderam a uma pesquisa que
investigou a opinião sobre questões de gênero em 29 países.
O
índice de concordância com essa visão no Brasil ficou bem acima da média
global, de 46%, e foi o mais alto dentre todos os países do levantamento, ao
lado da Índia, também com 70%, seguidos por Malásia (68%) e Indonésia (64%).
Mas o
Brasil aparece em primeiro no ranking deste ponto porque, entre os brasileiros,
o percentual dos que discordam foi de 21%, menor do que entre os 27%
registrados entre os indianos.
Quando
os resultados são separados entre homens e mulheres, há praticamente um empate,
com um nível de concordância ligeiramente maior entre as mulheres, de 71%,
enquanto 69% dos homens disseram o mesmo.
Ao
mesmo tempo, a maioria dos participantes brasileiros da pesquisa (52%) avaliam
que a igualdade de direitos entre homens e mulheres "já avançou o
suficiente" no país, um aumento de dez pontos percentuais em relação a um
levantamento anterior realizado em 2019.
A
pesquisa mostra ainda que 43% dos brasileiros acreditam que a promoção da
igualdade das mulheres foi tão longe a ponto de homens serem hoje
discriminados. Essa opinião é mais comum entre homens (50%), mas uma parcela
relevante das mulheres (36%) compartilha dela.
Entre
os brasileiros, aponta o levantamento, 38% se identificam como feministas — 30%
entre os homens e 47% entre as mulheres.
Para
Catarina de Almeida Santos, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Diversidade
Sexual e de Gênero da Universidade de Brasília (UnB), esses dados ilustram uma
reação conservadora ao maior debate sobre igualdade de gênero e dos direitos
mulheres no Brasil.
"Quanto
mais as mulheres abrem a boca, mais tem uma reação mais violenta", diz
Santos.
"O
debate crescer não significa que a gente avançou objetivamente. Você debate
mais, mas não significa que na prática a gente fez isso."
Beatriz
Besen, pesquisadora associada do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade
de São Paulo, chama atenção para o fato de que o Brasil aparece no levantamento
ao lado de Índia, Malásia e Indonésia — países onde as transformações nas
relações de gênero foram rápidas e concentradas no tempo, diferentemente de
países europeus onde essas mudanças ocorreram de forma mais gradual ao longo do
século 20.
"Isso
faz com que novos valores convivam com estruturas normativas mais
antigas", diz Besen.
"Discursos
que afirmam uma assimetria ou injustiça dirigida aos homens tendem a encontrar
maior ressonância social."
Para a
pesquisadora Letícia Oliveira, que estuda o conservadorismo no Brasil, o empate
entre homens e mulheres no Brasil reflete a penetração de um discurso
antifeminista que não chegou só pelos homens.
"A
gente teve, ao mesmo tempo, o discurso misógino voltado para homens e o
discurso antifeminista voltado para as mulheres", diz Oliveira.
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O conservadorismo da geração Z
O
levantamento do King's College também mostrou que, globalmente, os homens da
geração Z (nascidos entre 1996 e 2012) têm visões sobre papéis de gênero mais
conservadoras do que a geração dos baby boomers (1945 a 1965).
Segundo
o levantamento, feito com 23 mil pessoas, 31% dos homens da geração Z concordam
que "a esposa deve obedecer ao marido" — contra 13% dos boomers.
Um
terço acha que o homem deve ter a palavra final nas decisões do casal, ante 17%
dos boomers.
Cerca
de um em cada quatro acredita que "uma mulher não deveria parecer
independente demais ou autossuficiente" — o dobro do percentual entre os
mais velhos.
E 59%
sentem que os homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade de
gênero, contra 45% dos boomers.
Ao
mesmo tempo, 41% dos homens da geração Z dizem achar mulheres com carreiras de
sucesso mais atraentes — percentual bem maior do que entre os boomers, que
ficam em 27%. Querem, ao mesmo tempo, uma companheira realizada e submissa.
Para
Catarina Santos, da UnB, a contradição se desfaz quando se entende o que está
por trás da atração.
"Ela
é atraente, porque ela tem um cargo, inclusive para me servir melhor. Ela vai
cozinhar, vai lavar minha roupa e ainda vai prover para mim", diz Santos.
"Isso
não significa que ela é livre. Ela pode trabalhar, contanto que a última
palavra sobre o que ela vai fazer passe pela decisão dos homens."
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A machosfera e o algoritmo
Para
entender por que essa virada acontece justamente na geração que cresceu com
smartphone na mão, é preciso olhar para o ambiente onde esses jovens se
socializam, dizem as especialistas ouvidas pela reportagem.
Letícia
Oliveira acompanha casos de radicalização de adolescentes e trabalha com
professores para identificar sinais de alerta.
Ela
descreve um caminho que se repete: o menino chega à adolescência sem
perspectiva clara de futuro, de trabalho, de família, de estabilidade, não
encontra espaço para falar sobre isso com adultos, vai buscar pertencimento
online e cai em grupos onde o discurso misógino já está instalado.
"A
adolescência é a fase onde você está se descobrindo, já não vai mais pela
cabeça dos seus pais", diz Oliveira.
"Você
entra na internet para conversar com seus pares. E aí a gente vai para os
fóruns, para os grupos de Discord, para os grupos gamers — e nesses espaços
eles começam a ter acesso a grupos da machosfera que tratam mulheres como seres
inferiores."
Santos
aponta que as plataformas têm papel ativo nisso. "A rede é uma ferramenta
utilizada para manter os privilégios. A quem o algoritmo vai servir? Se a gente
pega a internet, que em tese era uma ferramenta muito mais democrática, a gente
está descobrindo que não é verdade."
Besen
aponta que, nos últimos anos, esse discurso deixou as margens.
"Consolidou-se um ecossistema relativamente amplo de produção
antifeminista dentro das direitas radicais", diz ela.
"Isso
inclui redes online, produção editorial e influenciadores ligados a movimentos
masculinistas que interpretam as transformações de gênero pela chave da
injustiça."
Oliveira
reforça a dimensão econômica do fenômeno. "As plataformas perceberam que
conteúdo de ódio gera engajamento. Isso começa a dar dinheiro", diz.
"A
gente tem, de 2010 para cá, movimentos que estavam nas franjas da sociedade
virando mainstream."
No
Instagram, influenciadoras consolidaram audiências com conteúdo que questiona o
feminismo ou promove papéis tradicionais de gênero. A maioria não se nomeia
antifeminista. Seu discurso é calcado em conselhos sobre espiritualidade,
estética e relacionamento.
No
cenário político, o antifeminismo é defendido por lideranças como a deputada
federal Ana Campagnolo (PL-SC) e a senadora Damares Alves (PL-DF), que formam
suas bases políticas em movimentos anti-aborto e cristãos conservadores.
Santos
observa que as mulheres que se destacam nesse ecossistema seguem um padrão:
"As mulheres que a política permite, que a igreja permite que se
destaquem, são aquelas que vão pregar o que eles estão defendendo."
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'Fantasia de uma vida mais simples'
A
ex-primeira-ministra australiana Julia Gillard, que hoje preside o Global
Institute for Women's Leadership no King's College London, chama atenção para a
popularidade do movimento em prol de que mulheres assumam papeis tradicionais
em seus relacionamentos. Aquelas que defendem esse modelo de vida se intitulam
tradwifes (esposas tradicionais, em inglês).
Para
Gillard, o apelo dessa proposta não é necessariamente um desejo real de voltar
ao passado ou resgatar um modo de vida tradicional, mas o cansaço de navegar um
mundo que ainda não resolveu a equação do trabalho e da família para as
mulheres.
Em
entrevista à BBC, ela disse que pesquisas com jovens que consomem esse tipo de
conteúdo mostram que elas não querem, de fato, ser tradwives, é uma fantasia
sobre tirar dos próprios ombros todas as dificuldades de conciliar trabalho e
vida familiar.
A
pesquisa do King's College sugere que essa tensão é real e atravessa gêneros.
Entre os homens Gen Z, 21% acreditam que homens que cuidam dos filhos são menos
masculinos contra 8% dos boomers. A pressão pelo papel de provedor não
desapareceu; ela convive, de forma contraditória, com um mundo onde as mulheres
trabalham, estudam e, em muitos lares brasileiros, sustentam a família
sozinhas.
Gillard
também aponta o que chama de "jogo de soma zero": a percepção de que
mais direitos para as mulheres significam automaticamente menos para os homens.
"Nós permitimos que essa impressão se instalasse. E ela é falsa."
Beatriz
Besen aponta que a sensação de sobrecarga aparece como elemento transversal nas
percepções sobre papéis de gênero.
"Para
muitas mulheres, ela se expressa na dupla jornada e na persistência das
responsabilidades de cuidado. Para parte dos homens, aparece a percepção de que
continuam sendo cobrados por papéis tradicionais de provisão em um contexto
econômico mais instável", diz a pesquisadora.
"A
questão que permanece é como tornar visíveis as raízes estruturais dessa
sensação de pressão, evitando que a solução se traduza no apoio à manutenção
dos papéis de gênero tradicionais."
Fonte:
BBC News Brasil

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