Violência
de gênero e a nova fronteira técnico-científica na Amazônia
Pelo
sexto ano consecutivo, a Rede de Observatórios de Segurança, do Centro de
Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), nos oferece este boletim dedicado à
análise de eventos violentos que são, paciente e sistematicamente, extraídos de
notícias veiculadas pela mídia de diferentes estados brasileiros. Nesta
publicação, tão importante quanto o que dizem os números é o modo como as
narrativas numéricas são construídas; as mãos e os olhos de quem perscruta as
notícias difundidas em veículos de comunicação digitais; os olhos e ouvidos de
quem os recebe, interpreta e assimila.
O
título Elas vivem anuncia, por si só, o percurso interpretativo proposto.
Evocar a vida, em vez da morte, em um documento estatístico que compõe um
perturbador inventário das violações que atravessam as vidas de meninas e
mulheres brasileiras, cumpre o papel paradoxal e necessário de romper as
“máscaras silenciadoras” – como sugere a epígrafe de Conceição Evaristo citada
no boletim de 2025, e de amplificar vozes de denúncia e resistência que
transbordam os números, devolvendo-lhes nomes e singularidades.
O
cenário nacional delineia uma escalada persistente e profundamente inquietante:
em apenas cinco anos, o volume de eventos monitorados pela Rede mais que
duplicou, alcançando o patamar de 4.548 registros em 2025, um acréscimo de 9,0%
em relação ao ano precedente. Ainda que o Sudeste tenha apresentado uma
discreta retração e o Maranhão um acentuado declínio (67,1%), o quadro geral
sugere menos uma redução efetiva da violência do que uma redistribuição
territorial, na qual a intensificação dos eventos registrados na Amazônia
neutraliza e, em certa medida, anula quaisquer avanços pontuais observados em
outras partes do país.
A
região Norte afirma-se, assim, como um dos espaços mais agudos dessa crise de
segurança dirigida às mulheres. Amazonas e Pará despontam como epicentros desse
crescimento, com aumentos de 69,4% e 76,0%, respectivamente. No Amazonas, a
gravidade do quadro evidencia-se tanto pelo elevado número de tentativas de
feminicídio (383 registros) quanto pela incidência expressiva de violência
sexual (353 registros), configurando um cenário de risco extremo e continuado.
No Pará, por sua vez, a violência é marcada por um índice importante de
feminicídios consumados (73 registros) e tentados (299 registros).
Entre
os achados mais perturbadores do relatório, destaca-se a expansão da violência
sexual, que cresceu 57,8% em âmbito nacional, passando de 602 para 950 eventos
em apenas um ano. Trata-se de uma violência que incide de forma desproporcional
sobre meninas e adolescentes: 57,2% das vítimas têm entre 0 e 17 anos. Na
região Norte, essa vulnerabilidade assume contornos ainda mais dramáticos. No
Amazonas, 31,4% das vítimas são crianças de até 11 anos; no Pará, 39,8% são
adolescentes entre 12 e 17 anos.
Dados
correlatos já haviam sido publicados em 2023, quando pesquisadores da Fundação
de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS) divulgaram a ocorrência de 1.292
partos de meninas entre 10 e 14 anos no intervalo de 2021 a 2023, descortinando
um alto índice de subnotificação de casos de estupros de vulneráveis.
Os
números, consolidados por diferentes métodos de pesquisa, evidenciam a
persistência de violações sexuais enraizadas em desigualdades estruturais,
apontando a urgência de medidas de proteção à infância e à adolescência. O
lacônico enredo de Manas (2024), de Marianna Brennand, exibe, em linguagem
cinematográfica, esse mesmo cenário: a interrupção da infância em contextos
amazônicos sob a omissão do Estado.
Entretanto,
engana-se quem pensa que este é um fenômeno naturalizado pela cultura
amazônica. Essa construção, eivada de uma lógica preconceituosa e colonial,
serve apenas para eximir o Estado de suas responsabilidades. Ao observarmos os
dados de todos os estados monitorados nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste,
percebe-se que a faixa dos 12 aos 17 anos representa a maior parte das vítimas
em quase todas as unidades federativas analisadas, totalizando 34,1% dos
registros nacionais. Somado a isso, o fato de que 23,10% das vítimas de
violência sexual em todo o país são crianças até 11 anos reitera que a
vulnerabilidade é uma constante nacional.
No que
se refere aos feminicídios consumados, foram registradas 549 mortes de mulheres
motivadas por violência de gênero em 2025, o equivalente a 1,5 assassinato por
dia. Longe de serem eventos excepcionais, tais crimes desconstroem a imagem de
um perigo exterior personificado no agressor desconhecido. Pelo contrário, a
ameaça é eminentemente próxima e relacional, reiterando a centralidade do
espaço doméstico como o principal território de abuso.
A
esmagadora maioria das violências é perpetrada por cônjuges, ex-parceiros e
familiares, cujas motivações mais recorrentes –, como término de
relacionamento, ciúmes e conflitos interpessoais – revelam a persistência de
padrões possessivos sobre os corpos e as vidas femininas. Assim, a esfera da
família e dos afetos, socialmente idealizada como espaço de cuidado, constitui,
paradoxalmente, o locus privilegiado da letalidade feminina.
À
violência doméstica e direta soma-se outra, burocrática e política: o
apagamento sistemático de informações étnico-raciais. O relatório evidencia uma
omissão estrutural quanto aos dados de pertencimento étnico-racial em todos os
estados. Tal negligência, comumente prevalente nos registros oficiais, é
reiterada pelas notícias da mídia, que raramente veiculam o perfil racial das
vítimas nos eventos monitorados.
Longe
de constituir um simples lapso administrativo fortuito, essa ausência opera
como um mecanismo de invisibilização. Ao omitir se as vítimas são indígenas,
negras ou pardas, bloqueia-se a apreensão das intersecções entre gênero, raça e
classe que estruturam a violência no país. Consequentemente, inviabiliza-se a
análise da seletividade da violência e mascara-se o impacto do racismo
estrutural nos indicadores de segurança. O que resta é uma pretensa
neutralidade estatística que, na prática, reproduz desigualdades históricas e
agrava a exposição das mulheres mais vulnerabilizadas.
Gera
profundo espanto, ainda, outra invisibilidade pautada no inexpressivo número de
transfeminicídios identificados nos veículos monitorados pela Rede. Somados, os
registros absolutos indicam apenas 14 ocorrências, volume que só não é inferior
aos casos de supressão de documentos. Em contraposição, os dados do relatório
Trans Murder Monitoring 2025 exibem um cenário absolutamente distinto para as
pessoas trans e travestis no Brasil: no intervalo entre outubro de 2024 e
setembro de 2025, foram reportados 281 assassinatos, o que mantém o país na
liderança mundial desse ranking desde 2008.
No
recorte dos estados abrangidos pelo monitoramento da Rede de Observatórios, o
Dossiê 2026 da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) revela
outra geografia. O Ceará lidera o índice com 8 assassinatos, seguido por Bahia
e Pernambuco, ambos com 7 casos. Na faixa intermediária, Maranhão e Pará
apresentam 5 registros cada, enquanto São Paulo contabiliza 4. Com indicadores
menores, o Rio de Janeiro somou 3 mortes e o Amazonas figura com uma ocorrência
identificada, ao passo que o Piauí não apresentou registros no período.
Ainda
que os três relatórios produzam informações a partir de diferentes fontes, esse
cenário reitera o abismo existente entre a letalidade concreta e a sua precária
visibilidade nos canais de informação. A obliteração presente tanto nos dados
estatais quanto nos veículos de imprensa demonstra mais um mecanismo de
apagamento pautado na identidade de gênero, revelador da menos-valia conferida
às vidas de pessoas trans e travestis. Essa conjuntura expõe uma ferramenta de
seletividade de corpos matáveis que opera para excluir tais identidades até
mesmo das estatísticas de violência.
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A Amazônia como nova frente de expansão técnico-científica
Face à
leve redução nos números absolutos de eventos observados na região Sudeste, uma
leitura superficial e apressada poderia sugerir um deslocamento geográfico da
violência, com expansão acelerada na região Norte. Contudo, o crescimento na
região não deve ser interpretado simplesmente como um “deslocamento geográfico”
da violência contra mulheres, mas como resultado da expansão territorial da
própria capacidade de monitoramento da Rede de Observatórios da Segurança.
Nos
últimos anos, o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), responsável
pela coordenação da Rede, ampliou sua atuação ao incorporar núcleos de pesquisa
dos estados do Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas. Essa capilarização territorial
da produção de dados permite captar fenômenos historicamente sub-representados
nas análises nacionais, tradicionalmente concentradas no eixo sudestino.
Nesse
contexto, os expressivos aumentos registrados no Amazonas e no Pará refletem,
simultaneamente, a gravidade da violência e a ampliação da capacidade de
identificação, acompanhamento e sistematização dos eventos registrados nesses
territórios. Trata-se, portanto, de uma expansão do campo empírico e
institucional de pesquisa, e não apenas de uma súbita “migração” do crime pelo
território nacional.
Entretanto,
o aumento observado não pode ser interpretado exclusivamente como expansão
objetiva da violência. Ele também reflete mudanças nas condições de
visibilidade social, noticiabilidade e monitoramento desses crimes. O método
empregado pela Rede, baseado no acompanhamento sistemático de eventos
divulgados pela imprensa, capta tanto a incidência da violência quanto a
intensificação do interesse dos veículos de comunicação em reportá-la, ou não,
como no caso das informações étnico-raciais ou de transfeminicídios. Nesse
sentido, os dados revelam, simultaneamente, a dinâmica dos fatos violentos e a
dinâmica de sua visibilização pública.
Esse
aspecto metodológico é central para compreender a natureza do relatório.
Diferentemente de estudos baseados exclusivamente em registros administrativos
(inquéritos policiais, boletins de ocorrência ou sistemas oficiais de segurança
pública), o monitoramento da Rede apoia-se em fontes abertas e indiretas. Essa
estratégia permite contornar limitações conhecidas das estatísticas estatais,
como a subnotificação, as inconsistências classificatórias e a defasagem
temporal. Ao mesmo tempo, amplia a capacidade de acompanhamento quase em tempo
real dos eventos. Por outro lado, os dados também passam a depender dos filtros
editoriais, da cobertura desigual entre regiões e da própria estrutura e
hierarquia do campo midiático.
Do
ponto de vista do chamado “estatativismo”, ou seja, da produção de estatísticas
levantadas por atores da sociedade civil com finalidade política, crítica e de
incidência pública, esse modelo metodológico apresenta vantagens relevantes.
Ele é comparativamente mais acessível em termos de recursos, menos dependente
da cooperação institucional com órgãos estatais e capaz de fornecer indicadores
consistentes sobre fenômenos frequentemente invisibilizados. Experiências
semelhantes são utilizadas por organizações de direitos humanos no Brasil e na
América Latina, sobretudo em temas como transfeminicídio, violência policial e
violações de direitos.
Nesse
sentido, os números de eventos contabilizados são prenhes de provocações que,
teimosamente, muitas de nós, pesquisadoras feministas amazônidas, continuamos a
reiterar, apesar – e justamente por causa – do lugar estrutural de inaudição a
que somos reiteradamente relegadas. Trata-se da mesma inaudição que atribui à
vastidão do território amazônico e à pseudocumplicidade naturalizada do rio-mar
uma pretensa mudez diante da predação dos corpos-territórios femininos.
O
relatório de 2026 revela muito mais do que os dados alegadamente inexistentes
sobre as dinâmicas violentas no Norte do país. Ironicamente, a própria
construção da ideia de ausência de dados reinscreve a Amazônia na duradoura
gramática colonial da “falta”: falta de Estado, vazio demográfico, carência de
civilização. Por aqui (ou por lá, a depender do ponto de vista de quem lê)
faltariam pessoas para ocupar e proteger a floresta; sempre teria faltado um
Estado capaz de nos livrar da barbárie.
Essa
suposta escassez de números, informações e evidências tem legitimado uma nova
frente de expansão, agora técnico-científica e informacional, sustentada pela
governança de narrativas numéricas. Essas narrativas, por sua vez, reativam uma
forma histórica de presença estatal, invariavelmente traduzida no aumento de
contingentes armados e hipermasculinizados e apresentada como a única solução
possível.
A
imprecisão da premissa do vazio estatístico reside no fato de não atribuí-la à
sistemática e negligente forma de presença estatal-colonial na região,
intencionalmente descomprometida com a produção e sistematização regular de
informações oficiais. Em 2013, a única edição do Anuário Estatístico da
Segurança Pública do Estado do Amazonas ratificava a escassez de dados estatais
sobre a vitimização feminina e a precária produção, sistematização e divulgação
de informações públicas sobre o tema, principalmente no interior do
estado.
Mais de
uma década depois, este cenário permanece inalterado, exceto por esforços
locais, isolados e descontínuos, frequentemente ignorados, até agora, quando as
atenções de governos, institutos de pesquisa e organizações privadas, nacionais
e internacionais, se voltam à Amazônia com inusual interesse.
Esse
apagão informativo decorre de falhas estruturais críticas, como a falta de
servidores qualificados, o desvio de funções na segurança pública e a ausência
de infraestrutura básica, que mantêm a vitimização feminina à margem das
políticas públicas mesmo diante do crescente interesse global pela região.
Assim, o crescimento dos registros sinaliza não apenas uma possível
intensificação da violência de gênero, mas também o fortalecimento da
capacidade de vigilância social sobre o problema e a ampliação das arenas
públicas nas quais esses crimes são denunciados e discutidos.
Fonte:
Por Flávia Melo, para Le Monde

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